O meu plano não era de todo que a primeira publicação de 2026 aqui no blogue fosse esta. Mas fui apanhada de surpresa pelo anúncio da descontinuação do Sapo Blogs.
Estava literalmente a meio da edição do meu próximo texto – uma retrospetiva musical de 2025 – aproveitando uns minutos livres da minha hora de almoço de segunda-feira, dia 12 de janeiro. Fui ao Sapo Blogs à procura de um link de uma publicação anterior que queria incluir nesse texto. Dei com o anúncio. Caiu-me tudo aos pés.
Consta, então, que vamos deixar de poder publicar e editar no Sapo Blogs a partir de 30 de junho. A partir de 30 de novembro, blogues do Sapo que não tenham sido exportados para outras plataformas desaparecerão por completo da Internet.
Ninguém na blogosfera do Sapo ficou contente com esta notícia. Eu fiquei furiosa. Só para recordar, sou autora de dois blogues. Este, em que escrevo, não foi o meu primeiro. Esse, sobre a Seleção, foi criado em 2008, tinha eu dezoito anos. Agora estou a dias de completar trinta e seis: tenho este blogue há metade da minha vida.
Aqui o Álbum é mais recente, mas apenas por uma diferença de quatro anos. Fará catorze anos no próximo verão – e neste escrevo com muito mais frequência.
Na fase da depressão do processo de luto desencadeado por esta notícia, quando estava com dificuldades em arranjar uma plataforma alternativa, não pude deixar de imaginar a minha vida sem os meus blogues. Um quadro deprimente. Neste momento, este blogue é o meu principal veículo de escrita. Há anos e anos que planeio a minha vida, de forma quase inconsciente, de modo a arranjar tempo e energia para escrever e tratar do blogue. Que faria seu se perdesse esse eixo?
É certo que a frequência com que publico não era a mesma de há dez anos. A minha disponibilidade não é a mesma. O blogue da Seleção, então, tem estado quase parado no último ano e meio – uma decisão deliberada que não tem a ver apenas com falta de tempo. Mas eu sabia que ambos os blogues continuavam no mesmo sítio, à espera que voltasse a arranjar tempo para eles. Até agora.
Não é a primeira vez que o digo, mas quero deixá-lo bem claro: eu faço isto sobretudo (para não dizer exclusivamente) para mim mesma. Não é com o objetivo de ter atenção ou porque ache que a minha escrita é alta literatura. Publico o que escrevo para o caso de alguém desse lado estar interessado. Claro que fico contente quando isso acontece: quando tenho cliques, quando me fazem elogios, quando o próprio Sapo Blogs destacava as minhas publicações, quando o vocalista de uma banda de tributo partilha um dos meus textos mais sentidos, levando-me a uma obsessão por essa mesma banda, por sua vez levando-me a encontrar uma família entre os fãs dessa banda. Mas não deixo de escrever quando isso não acontece. Faço-o pelo gozo, faço-o pela minha sanidade.
Sobretudo ultimamente – já ando para referi-lo há algumas semanas. Por estes dias confesso que passo demasiado tempo ao telemóvel: nas redes sociais, no YouTube Shorts (porque me acho superior ao Tik Tok) e por vezes sinto que isso me estupidifica. Sinto que a minha escrita é um antídoto para esse fenómeno.
Recordar um dia feliz, descrevê-lo por palavras minhas, sentar-me a analisar uma música, a instrumentação, a letra, descobrir um elemento ou uma camada em que ainda não tinha reparado. Descortinar temas recorrentes num álbum, traçar paralelismos, por vezes entre coisas que, para o cidadão comum, não têm nada a ver. Aproveitando o pretexto de uma música, ou um álbum, ou um filme, ou uma série, para escrever sobre temas mais… filosóficos, à falta de melhor palavra. Sobre a vida, sobre a condição humana. Por exemplo, crescimento, mudança, perda, a propósito de Kizuna; felicidade e tristeza na expressão artística a propósito da música de Bryan Adams; liberdade, rompimento com figuras de autoridade a propósito de Virgin, de Lorde (conforme veremos um dia destes).
E julgo que não estou sozinha. O instinto para a auto-expressão, para a imaginação, para a criatividade, para contar histórias, para apreciar beleza e procurar recriá-la, é algo profundamente humano. Independentemente do “talento” ou de um qualquer propósito comercial.
Algo que os criadores da inteligência artificial generativa não compreendem, diga-se.
Já que falo disso, posso estar a ser paranóica, mas sinto-me perseguida. Não conheço os motivos por detrás desta decisão do Sapo. Não culpo diretamente a plataforma do Sapo Blogs nem a equipa por detrás – não tenho razão nenhuma de queixa deles. Bem pelo contrário, estou muito grata pelo apoio que me deram desde a primeira hora.
Mas não posso deixar de assinalar que as pessoas que tomaram esta decisão estão a destruir uma plataforma portuguesa, de conteúdo criado por pessoas de carne e osso (“blogs com gente dentro”), a maioria delas como mero passatempo, sem propósito comercial, e – embora poucos escrevam textos tão longos como os meus – com potencial para albergar conteúdo de consumo não assim tão rápido.
(fonte)
Ao contrário de outros, não diabolizo as redes sociais por si mesmas. São uma ferramenta como qualquer outra, têm a sua função. A meu ver, cada forma de conteúdo tem o seu espaço, a sua utilidade: os tique toques desta vida e os podcasts, séries e ensaios em vídeo no YouTube; os blogues e artigos e os tweets e as publicações no Instagram.
Sinceramente, preocupam-me mais, revolta-me mais, a inteligência artificial. Que esta prolifere sem controlo, enquanto tentar tirar-me os meus blogues. Acreditem, os Elon Musks desta vida querem-vos dependentes da IA: incapazes de distinguir o real do criado artificialmente; incapazes de lerem um texto de quinhentas palavras sem que o IA o resuma para vocês; incapazes de redigirem um email sem ajuda; incapazes de pensar sem a orientação da IA. Uma população estupidificada, incapaz de pensar por si mesma, é bem mais fácil de manipular.
Eu recuso-me. Não deixo os meus blogues morrerem. São meus. Mesmo que o resto da Humanidade não se interesse, são das poucas coisas que tenho que são minhas e só minhas. Podem tirar-mos das minhas mãos frias e putrefactas. E encorajo os restantes blogueiros, sobretudo no Sapo, a fazerem o mesmo, a lutarem pelo que é seu.
Daí o meu regresso ao Blogger, a minha plataforma original. Não por vontade própria, não pela vontade de me juntar a uma comunidade gira, como quando me mudei para o Sapo, mas porque recebi uma ordem de despejo. E o Sapo Blogs nem sequer terá a delicadeza de manter as publicações anteriores em arquivo.
Ainda tentei o WordPress, mas não consegui fazer a transferência. Foi um alívio tê-lo conseguido aqui com o Blogger. Por um lado, é algo ingrato: é como ter de regressar à casa dos pais por dificuldades financeiras. Por outro, é uma plataforma que já conheço, onde já estava alojada uma parte do meu trabalho.

Não ponho de parte a hipótese de voltar a tentar o WordPress um dia destes. Outro ponto a favor do Blogger é que parece ser mais fácil transferir blogues de lá para o WordPress. Mas pelo menos para já, em que estou numa fase um bocadinho turbulenta (por causa deste despejo, mas não só) e com dois textos pendentes, mantenho-me no Blogspot. E mesmo que torne a mudar de casa, não apago os blogues dali – em jeito de salvaguarda.
Agora preciso é de arranjar tempo e paciência para reeditar cada publicação – as imagens e os vídeos estão todos desformatados.
No meio disto tudo, dou graças pela minha mania de rascunhar tudo em papel. Mesmo que um dia a Internet arda, ao menos os meus cadernos com os primeiros rascunhos dos meus textos (não a melhor versão dos mesmos, mas pronto) continuarão preservados nas minhas estantes e na minha arrecadação. Agora percebo os arquivistas e historiadores que não confiam no digital.
E lembram-se de nos dizerem para termos cuidado com o que publicamos na Internet, pois nunca mais desaparece? Tão queridos…
Este será, então, o meu último texto na plataforma do Sapo. O próximo texto já será exclusivo da versão Blogger do Álbum. Como já está na fase da edição, espero não demorar-me muito.
Só me resta agradecer ao Sapo Blogs e à sua comunidade pelos últimos onze anos. Vou ter saudades. Mesmo assim, farei por seguir os vossos blogues nas respectivas moradas novas – uma das melhores coisas do Blogger é a sua ferramenta de Leituras. Acompanhem-me também na nova/velha morada.
E Feliz Ano Novo, suponho eu – com esta história, não começou grande coisa. Ainda vamos a tempo de pedir a devolução?


