quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Ordem de despejo

 

 

 

O meu plano não era de todo que a primeira publicação de 2026 aqui no blogue fosse esta. Mas fui apanhada de surpresa pelo anúncio da descontinuação do Sapo Blogs 

 

Estava literalmente a meio da edição do meu próximo texto – uma retrospetiva musical de 2025 – aproveitando uns minutos livres da minha hora de almoço de segunda-feira, dia 12 de janeiro. Fui ao Sapo Blogs à procura de um link de uma publicação anterior que queria incluir nesse texto. Dei com o anúncio. Caiu-me tudo aos pés.


sábado, 15 de novembro de 2025

Linkin Park – From Zero (Deluxe Edition) (2025) #2


Segunda parte da minha análise a From Zero. Podem ler a primeira parte aqui

Avancemos, então, para as músicas não-single e não-Casualty. Em continuidade com esta última, começo pelas mais agitadas. Só faltam duas na verdade: Cut the Bridge e IGYEIH.


Linkin Park – From Zero (Deluxe Edition) (2025) #1

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Hoje vamos finalmente falar sobre From Zero, o álbum de regresso dos Linkin Park após uma pausa de sete anos, devida à morte do vocalista Chester Bennington, em 2017. Faz hoje um ano do lançamento da edição-padrão do álbum, mas neste texto falaremos também sobre Up From the Bottom, Unshatter e Let You Fade. Ou seja, tecnicamente, esta é uma análise à edição Deluxe de From Zero, editada oficialmente a 17 de maio deste ano. Virá dividida em duas partes, a segunda parte será publicada logo à tarde. 


 


Conforme já expliquei anteriormente, já gosto mais do título From Zero. Se quisermos ser cem por cento factuais, claro que os Linkin Park não começaram do zero: tinham sete álbuns e cerca de vinte e cinco anos de história a sustentá-los. Penso que, neste contexto, tirando a alusão à primeira versão dos Linkin Park, Xero, “Zero” representa os sete anos de pausa. A banda e os fãs têm usado a expressão “From Zero to [país ou cidade onde há concerto dos Linkin Park]”. Nós, por exemplo, temos dito “From Zero to Portugal”, a propósito do concerto deles no Rock in Rio do próximo ano. Há uma t-shirt e tudo! 


 


Porque a sensação é mesmo essa: recuperámos a nossa banda do nada. Antes deste regresso, não me atrevia a sonhar com, por exemplo, um regresso deles cá.


 


Por outro lado, se me permitem que volte a falar outra vez sobre os Hybrid Theory, o tributo português aos Linkin Park, a expressão From Zero também se aplicaria a eles. Um dos nomes que terão usado, quando o plano ainda era criarem música original, era Zeroh. E nem sequer era uma referência a Xero, não tinha nada a ver com os Linkin Park. Segundo o Ivo, o vocalista, aludia ao facto de terem zero ideias para o nome da banda.


 


Não vou comentar. 


 


Regressando a From Zero, o álbum, este é mais ou menos o que seria de esperar. Um típico álbum dos Linkin Park. Pode-se argumentar que a banda jogou pelo seguro em vez de explorar territórios novos – como fora a norma desde Minutes to Midnight, inclusive, para a frente. Como já escrevi antes, acho compreensível. No que toca a este álbum, estarem ativos depois de tanto tempo em latência, depois de reconstruírem a banda, já é território novo. 


 


Além de que duas pessoas novas na banda, em particular uma nova voz, já constituem novidade suficiente. Suficiente até para a comunidade de fãs entrar em guerra civil – algo que também já era a norma. 


 


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Alguns fãs têm tratado as faixas de From Zero como se cada uma delas representasse um álbum anterior ou mesmo uma música anterior. Não concordo. Tirando dois casos específicos e muito óbvios de músicas que soam auto-plagiadas – e, fiquem descansados, falaremos sobre isso – mesmo sem grande experimentalismo, a larga maioria de From Zero tem carácter próprio que chegue. Aliás, sempre notei algumas influências de Post Traumatic, o álbum a solo de Mike Shinoda, compositor, produtor, multi-instrumentista e essencialmente cérebro dos Linkin Park. O próprio Mike confirmou-o em entrevista, no verão passado. 


 


As faixas de From Zero têm muitos “samples” – um de Fuse, um tema do tempo dos Xero, juntamente com o som de uma cassete sendo virada, no final de Overflow; um sample de Step Up no início de IGYEIH – muita conversa de estúdio entre faixas. Faz lembrar o The Hunting Party por um lado, mas já reparei que, por exemplo, Heroes dos Dead Sara (a primeira banda de Emily Armstrong, a sucessora de Chester como vocalista dos Linkin Park) também incluiu conversa de estúdio no fim. Talvez seja uma maneira de comunicar que é suposto ouvir-se o álbum do princípio ao fim, pela ordem correta. Eu, no entanto, já ouvi o álbum em aleatório e as transições funcionam à mesma. 


 


As exceções são o “get your screaming pants on” entre Over Each Other e Casualty e, claro, o final de Good Things Go e o início de Intro: From Zero. Eles fizeram algo que os Coldplay costumavam fazer (será que ainda fazem?) com os álbuns deles: transições entre as últimas faixas e as primeiras, criando um loop. Segundo Mike, a ideia era que o álbum formasse um círculo, um zero.


 


O que nos leva, então, a Intro: From Zero. Não é a primeira vez que os Linkin Park abrem álbuns com faixas que não são canções a sério, mas eu diria que esta é a menos necessária, a que menos acrescenta. Consiste no coro por detrás do refrão de The Emptiness Machine (com vozes de Emily e Mike) e uma voz essencialmente tentando descortinar o significado de “from zero” – eventualmente percebendo a referência a Xero.


 


Durante algum tempo pensou-se que seria a voz de Emily. Mike disse que não, terá sido um miúdo, provavelmente pré-adolescente. Já pensei que seria o filho mais velho de Mike – penso que o nome dele é Odis – mas suponho que ele já será demasiado velho para soar assim.


 


Tem a sua graça mas, como disse acima, na minha opinião, não acrescenta o suficiente ao álbum para justificar a sua existência. Mais valia terem feito o loop com o início de The Emptiness Machine. Ou então, se precisavam mesmo de uma introdução, que esta fosse um instrumental que fizesse a ponte entre essa e Good Things Go. 


 


O que nos leva a The Emptiness Machine. Tecnicamente, já escrevi sobre ela no ano passado, pouco depois de a música ter saído, mas as minhas opiniões… não digo que tenham mudado radicalmente, mas foram evoluindo com o tempo. 


 



 


The Emptiness Machine foi uma das primeiras faixas de From Zero a serem criadas. Mike tê-la-á composto algures em 2022. Na altura, ele andava a compôr músicas a solo – terá composto In My Head depois desta – mas sempre soube que The Emptiness Machine era música de Linkin Park, logo, guardou-a. Consta que a primeira versão de The Emptiness Machine tinha apenas a voz de Mike e que o feedback de quem a ouviu era apenas médio-bom. Entretanto, Emily juntou-se à festa, rearranjaram a música de modo a que ela entrasse após o primeiro refrão. Aí, a avaliação da música passou de “boa” a “estratosférica”.


 


E tinham razão. 


 


Eu adoro The Emptiness Machine. Agora vejo que fui um pouco crítica demais no texto do ano passado. Talvez tenha internalizado um pouco das reações negativas à música e ao regresso da banda em geral. Talvez fosse o instinto, muito prevalente na comunidade de fãs desta banda, de inicialmente não reagir bem a um novo ciclo de álbum. 


 


Não sei. Nem eu nem muitos outros fãs dos Linkin Park mostrámos a nossa melhor faceta em setembro de 2024. O que vale é que muitos de nós conseguimos evoluir além disso. Há quem (ainda) não o tenha feito. 


 


Regressando a The Emptiness Machine, a minha parte preferida é mesmo a entrada de Emily. Vou dizê-lo já: um dos melhores aspetos de From Zero é o contraste entre as vozes de Mike e Em. Se fosse Chester a cantar, estas músicas não resultariam, o carácter não seria o mesmo – a voz dele cumpria um papel diferente. É por isso que depressa deixei de tentar imaginá-lo cantando as músicas novas. 


 


O momento, então, em que Emily começa a cantar em The Emptiness Machine é marcante, só por si mesmo. Conhecendo o contexto histórico, torna-se ainda mais especial. Olhando para o resto do álbum, não existe mais nenhuma música com esta estrutura. Faz sentido que tenha sido escolhida como primeiro avanço – nenhuma outra funcionaria tão bem para assinalar o regresso. 


 


Em relação à letra, não tenho nada a acrescentar. Aliás, aproveito para avisar que, em várias músicas de From Zero, não falarei sobre as letras. Temos muitos clichés de Linkin Park aqui – temas combativos, revolta contra pessoas e/ou situações tóxicas – e, embora não desgoste da maior parte dos casos, não tenho muito a dizer.


 



 


Claro que temos notáveis exceções à regra. Não passarão em branco.


 


Regressando a The Emptiness Machine, gosto imenso dela. Tanto pela música em si como pelo papel que desempenhou. As vozes de Mike e Emily soam fabulosas – recomendo a versão à capela. Uma das melhores dos Linkin Park – não digo ao nível de Numb ou de In the End mas, vá lá, Burn it Down ou What I’ve Done.


 


Vou também falar de novo sobre Heavy is the Crown. Consta que esta nasceu de uma ideia com vários anos. Mike terá desenvolvido um tema para a banda sonora de Arcane – uma série animada que decorre no universo dos jogos League of Legends (é possível que esta última parte seja do conhecimento geral, mas eu só descobri há cerca de um ano). Mike esteve na estreia da primeira temporada em finais de 2021 – onde decorreu o momento delicioso mostrado neste vídeo – terá conhecido o compositor da banda sonora de Arcane, Alex Seaver. Pouco depois, convidou-o a sua casa onde lhe terá mostrado a demo de uma ideia para a banda sonora da segunda temporada – ideia essa que daria origem a esta versão


 


Cheguei a pensar que o plano seria Mike gravá-la a solo – ou arranjar alguém para interpretá-la. Só que entretanto encontrei este artigo que dá a entender (é algo ambíguo) que, já em finais de 2021, princípios de 2022, Mike tinha planos para recuperar os Linkin Park, ainda que ainda não tivesse recrutado Emily. 


 


De qualquer forma, a segunda temporada de Arcane estreou no ano passado, três anos depois. Deu tempo a Mike e os outros para reconstruírem a banda  – e Emily acabou por cantar na versão usada na banda sonora. 


 


Entretanto, os Linkin Park decidiram criar uma versão mais roqueira para From Zero. Essa versão reteve o carácter épico e cinemático – que se mantém o meu aspeto preferido da música. É o que lhe dá personalidade, o que a distingue de Faint, com que partilha muitos aspetos, conforme referimos antes. Pelo meio, a banda e Seaver lembraram-se de fazer dela o hino oficial da edição de 2024 Campeonato Mundial de League of Legends. Os Linkin Park tocaram-na ao vivo na final do campeonato, em Londres, a 2 de novembro do ano passado – na véspera do concerto deles em Paris.


 



 


Nesse dia, como podem ver no vídeo acima, Olivee May, a repórter que não reconhecera Mike em 2021, pôde reencontrá-lo (a cara dele mata-me) e redimir-se. Assim se fecharam dois ciclos no mesmo dia. 


 


Dito isto, apesar de ainda gostar de Heavy is the Crown, devo confessar,  esta foi ficando para trás nos meus interesses à medida que fomos conhecendo mais músicas de From Zero. Mais: em setembro do ano passado, juraria a pés juntos que gostava mais de Heavy is the Crown do que de The Emptiness Machine. Agora já não é verdade.


 


O single que se seguiu, por sua vez, é uma das minhas músicas preferidas neste álbum. Over Each Other, lançada em finais de outubro do ano passado, poucas semanas antes do álbum. Tem uma personalidade diferente das suas antecessoras: uma balada, ainda que sem deixar de ser rock. Lembra temas como Valentine’s Day ou Final Masquerade. Uma das minhas partes preferidas em termos de instrumental é a sequência que se segue ao segundo refrão: mesmo a puxar aos headbangs


 


Até agora, da era de Emily, esta é a música com menos Mike nos vocais – só um backvocal aqui e além. É o mais próximo que temos de uma música de Linkin Park cantada a solo por Emily. Não acho muito justo. Nos álbuns anteriores, Chester tinha sempre direito a pelo menos a duas ou três músicas a solo nos vocais em cada álbum (em Minutes to Midnight e em One More Light chegou a ter sete). Porque é que Emily só tem uma até agora? Pode passar a ideia de que a banda (ainda) não confia nela para carregar uma música sem a “ajuda” de Mike.


 


Por outro lado, o co-vocalista tem vindo a ganhar traquejo com a sua voz nos últimos anos – como cantor mesmo, não apenas como rapper. Já vinha a fazê-lo ainda Chester era vivo. Pode-se argumentar que ele viria sempre a ganhar cada vez mais protagonismo nos vocais. 


 


E de qualquer forma, como já dei a entender, tenho gostado de ouvir Emily e Mike cantando juntos.


 


Regressando a Over Each Other, Jon Green é um dos compositores, depois de já ter contribuído para One More Light, o álbum. Não diria que Over Each Other se encaixaria nesse disco, pelo menos não em termos de sonoridade. Por outro lado, para mim, a letra soa a uma continuação de Friendly Fire (lançada no mesmo ano, mas numa era completamente diferente): conflitos desnecessários entre entes queridos. No caso de Over Each Other, tais conflitos baseiam-se em problemas de comunicação. Penso que é suposto considerarmos que a letra fala sobre uma relação romântica mas, na minha opinião, é daquelas que se podem aplicar também a amizades ou relações familiares. 


 



 


No respetivo episódio da LPTV, ouvimos parte de uma versão de Over Each Other cantada por Mike, grava algures em finais de 2022 – e até nem soa má. O vídeo salta para mais de um ano depois, já com Emily, mostrando Mike orientando-a enquanto esta criava a sua interpretação. E Em, tal como em The Emptiness Machine, elevou a música a todo um outro nível, sobretudo em termos de emoções. 


 


A minha parte preferida é o último refrão: o verso “so say what’s underneath, I want to see your side” – o desespero e súplica tangíveis.


 


O videoclipe foi realizado pelo DJ da banda, Joe Hahn, e filmado em Seul, na Coreia do Sul. Ele e Emily ficaram para trás depois do concerto dos Linkin Park por lá, no ano passado. Joe ter-se-á inspirado em novelas coreanas (essa é a tradução correta para k-drama?) e nota-se um bocadinho. 


 


Resumidamente, temos Emily e a sua namorada, têm uma discussão, a discussão prolonga-se até ao volante e têm um acidente. Melodramático e cliché – dos maiores clichés que existem – mas, a meu ver, funciona. Era o que a música pedia. E, de qualquer forma, sempre saca uma boa reviravolta, quando descobrimos que a Emily a cantar no local do acidente é um fantasma.


 


Over Each Other foi estreada ao vivo em Paris, precisamente no concerto a que fui. Emily toca guitarra nela – se a memória não me falha, foi a primeira vez enquanto vocalista dos Linkin Park. Foi agradável, mas na altura tinha alguma esperança de que estrearam uma inédita no meu concerto – tal como tinha acontecido no Rock in Rio de 2014, com Wastelands. Quem teve essa sorte foi Dallas, alguns dias mais tarde.


 


Nesta altura, vários de nós já sabiam que Casualty seria uma música pesada. Mike e Emily tinham-no referido neste podcast e, no final de Over Each Other, ouve-se Mike dizendo “OK, get your screaming pants on”. Já se conhecia o alinhamento do álbum, sabíamos que Casualty vinha depois de Over Each Other, noves fora… 


 



 


Uma confissão: não gosto deste posicionamento. Sei que não é uma prática assim tão estranha transitar de uma música mais calma e sentida para uma música mais agitada e vice-versa. Nem sequer é a única vez que acontece em From Zero. Normalmente não me importo. Neste caso em específico, no entanto – talvez por Over Each Other mexer comigo como poucas mexem – é um contraste demasiado grande, na minha opinião.


 


Casualty terá nascido de uma ideia do guitarrista Brad Delson. Este juntou-se à festa com algum atraso. Quando já se sentia integrado no novo formato dos Linkin Park, sugeriu comporem algum bem pesado, algo que levasse Emily ao extremo (...agora que escrevo isto, pergunto-me se isto era a maneira de Brad de testar a miúda nova, de lhe fazer a praxe). Em correspondeu ao desafio, foi com tudo ao compôr o refrão, impressionando Mike. 


 


Este por sua vez também se superou. Cantou em quase screamo, algo que, tanto quanto sei, nunca tinha feito. Muito fixe. E, uma vez mais, gosto do contraste entre a voz dele e a de Emily.


 


A letra, não sendo nada de extraordinário, tem os seus momentos. Só há poucos dias, quando ouvi a versão à capela da música, é que reparei no "Let's get out alive!" de Emily, no início da música. Estranhamente inspirador. Além disso, gosto de imaginar que o refrão é cantado por uma personificação do segredo do regresso dos Linkin Park – na Primavera do ano passado, quando andavam a escapar as primeiras pistas. “‘Cause something’s coming, it’s only a matter of time. Let me oooout! Set me free! I know all the secrets you keep!”.


 


E, inveja à parte, a estreia de Casualty ao vivo foi icónica. Mike invocando as “screaming pants” de Emily, a cara desta última, Em dizendo-se “muito tímida” antes de desatar aos gritos e aos headbangs. O que, por sinal, espelha bem a minha personalidade, as minhas duas facetas.


 



 


A última música que conhecemos antes do lançamento oficial de From Zero foi Two Faced – ainda que, no meu caso, não tenha sido bem assim. Se me permitirem o aparte, queria falar sobre a listening party oficial de From Zero – cujas recordações, para mim, estão associadas ao álbum em geral e a Two Faced. Na verdade, queria já ter falado sobre este evento neste texto, mas tive de cortar essa parte por motivos de extensão. 


 


A listening party teve lugar dois dias antes do lançamento oficial do álbum, na sede da Warner Music Portugal. Inicialmente era um evento só para membros do LP Underground, mas acabaram por alargar a qualquer um que pedisse. Fui, naturalmente, com alguns amigos da família HT.


 


Foi uma noite muito gira. Na altura, nunca tinha ido a nenhuma listening party até à altura ou a outro evento do género. Foi a primeira vez que ouvi From Zero do princípio ao fim – tocaram-no duas vezes. Durante a primeira audição, ficámos só ali de pé, frente a uma grande tela onde fora projetada uma fotografia da banda – em que Mike e Emily pareciam estar a olhar diretamente para mim. Quando o álbum tocou segunda vez, dispersámo-nos pelo resto da sala, à volta das mesas onde estavam servidos canapés.


 


Já posso dizer que os Linkin Park me ofereceram jantar. 


 


No fundo, foi mais uma noite para celebrar a banda e o seu regresso. Mais um exemplo de coisas que, poucos meses antes, julgava remotas. 


 


Estou zangada em relação a uma coisa, no entanto. A Warner Portugal fez um reel do evento, mas retiraram-no das redes sociais. Eles entrevistaram-me durante o evento e passaram parte das minhas palavras na narração. Devia ter sacado o vídeo quando tive hipótese.


 


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Regressando a Two Faced, durante a listening party, antes desta faixa, uma das pessoas com quem fui segredou-me que esta era muito Hybrid Theory (ele já tinha arranjado maneira de ouvir From Zero… não me perguntem como). Depois de ouvir pela primeira vez, a minha reação foi, de facto:


 


– Isto é quase um remix de One Step Closer!


 


Não fui a única. Nos dias que se seguiram apareceram logo montagens misturando as duas músicas. Uma das minhas preferidas é esta – parece que Chester e Emily estão aos gritos um com o outro. 


 


I can’t hear myself think…


Shut up when I’m talking to you!


Stop yelling at meeee!


Shut up!


I can’t hear myself think!


Shut up!


 


Houve quem também apontasse semelhanças com Figure.09. Esta, já de si, é muito parecida com One Step Closer. As duas possuem um ancestral comum: a demo Plaster. Na preparação deste texto, apercebi-me que, na verdade, Two Faced parece-se ainda mais com Figure.09 que com One Step Closer. Ambas têm rap de Mike, os refrões têm melodias semelhantes, os gritos na terceira parte terminam ambos com “meeee”: “Get away from meeee! ”, “Stop yelling at meeee!“. 


 


Uma vez mais, há misturas no YouTube, como a abaixo, em que incorporaram os vocais de Two Faced no instrumental de Figure.09. Encaixam quase na perfeição. 


 



 


Ora, Mike recusa comparações entre Two Faced e músicas anteriores.


 


– Só quem não conhece bem a discografia dos Linkin Park – terá dito. 


 


Assumindo que não nos está a tomar por parvos, há que recordar que este é o homem que garante a pés juntos que Meteora é um disco completamente diferente de Hybrid Theory. Eu adoro o Mike, mas nem tudo o que este senhor diz se escreve.


 


Também não acho que a intenção dele e do resto da banda com Two Faced fosse criar uma nova versão de One Step Closer. Mike afirmou ter-se inspirado nas suas influências durante os tempos de Xero, pré-Chester. Já vimos antes que, desta feita, os Linkin Park tiveram menos pudor em reutilizar elementos de trabalhos anteriores. Finalmente, como vemos no respetivo episódio da LPTV, a parte do “Stop yelling at me!” foi ideia de Emily, uma expressão que ela usa. Calhou ser algo que pertence ao mesmo território de “shut up when I’m talking to you!”. 


 


Ainda assim, lamentavelmente, não consigo desassociar Two Faced de One Step Closer e de Figure.09. Não que não goste da música, atenção. Mal por mal, são elementos clássicos de Linkin Park e eu gosto de Linkin Park. Mas, infelizmente, Two Faced não consegue ter carácter próprio. 


 


Queria assinalar um aspeto curioso. Como sabem, o refrão começa com “two faced, caught in the middle”. Esta última expressão é relativamente comum na língua inglesa – é inclusivamente o título de uma música dos Paramore. E aparentemente, segundo este Tik Tok, a expressão é cantada sempre com esta melodia – com muito poucas variações. Eles só dão quatro exemplos – incluindo Two Faced e Caught in the Middle dos Paramore. Poderão existir várias outras músicas usando a mesma expressão que não a cantem da mesma forma.


 


Mesmo assim, quatro músicas de bandas diferentes usando essencialmente a mesma melodia? É uma coincidência muito grande.


 



 


Ainda dentro do tema, logo nos primeiros dias após o lançamento da música, fãs começaram a brincar dizendo que o início do refrão soava a “toothpaste, bought in the Lidl” ou outras variantes. Não digo que não ache piada ao meme, mas sempre me pareceu um tudo nada forçado. Mais do que, por exemplo, “try the ketchup, motherfucker”.


 


Dito isto, os Linkin Park entraram na piada. A partir de certa altura – quando começou a digressão europeia deste ano, ou talvez antes – os fãs começaram a especular se Emily andava a cantar a letra erradamente de propósito. Tivemos a confirmação quando, no concerto de Dusseldorf, a mulher foi-me vestir uma daquelas fatiotas do Lidl para cantar Two Faced, como podem ver no vídeo acima.


 


Daquelas coisas que não estavam no meu cartão de bingo para os Linkin Park há um ano ou dois. “Já não bebes mais”, diria eu se mo contassem. Ao mesmo tempo, isto foi umas duas outras semanas depois de Emily ter rapado o cabelo a um fã a meio de um concerto. Soube a uma terça-feira normal no universo de Linkin Park. 


 


Consta que, no concerto seguinte, ainda na Alemanha, andaram a distribuir fatos do Lidl entre os fãs na fila. Se fosse comigo, no entanto, bem diria aos Linkin Park para tirarem o cavalinho da chuva. Seria capaz de morrer por eles, mas não de vestir uma fatiota daquelas. Há limites.


 


Falta só falar sobre o videoclipe para Two Faced – o motivo pelo qual a música estará para sempre ligada à listening party. Saiu nessa mesma noite, poucas horas depois. Eu e os meus amigos vimo-lo pela primeira vez no telemóvel de um de nós, à porta de um bar na 24 de julho. Lembro-me de nos rirmos da cena final. 


 


Aparentemente, um videoclipe para Two Faced não fazia parte dos planos, terá sido insistência da gravadora. Ninguém tinha nenhuma ideia. Mike em particular não andaria com grande vontade – e de facto, se pensarmos nisso, o vídeo foi filmado poucos dias antes do concerto de regresso. Eles deviam andar numa pilha de nervos nessa altura, não precisavam mais desta. 


 


Joe lembrou-se de aproveitar o palco do concerto de regresso, vestir toda a gente de fato e gravata e pura e simplesmente tocarem a música. E a banda acabou por se divertir à grande. Com o playback, não precisava de se preocupar em cantar e/ou tocar como deve ser, tiveram permissão para se descontrolar, para abanarem o capacete, para andarem ao moche. Como eu e os meus amigos nos concertos. E isso refletiu-se no resultado final, no vídeo. Dá gosto ver.


 



 


Voltando à questão dos nervos pré-regresso, se eu estivesse no lugar dos Linkin Park, uma tarde de headbangs seria exatamente aquilo de que precisaria para lidar.


 


O episódio da LPTV que mostra os bastidores das filmagens é também delicioso. Emily chegando de skate, claro. Mike portando-se como se tivesse a idade dos próprios filhos nas brincadeiras entre takes. Emily acidentalmente empurrando o baixista Dave Farrell contra a bateria (esqueceu-se que tem de ter cuidado com os velhotes); com o joelho magoado; deitada de costas no chão, com Mike abanando-lhe a mão como se fosse um leque.


 


Não digam a ninguém, mas já tive vontade de fazer o mesmo depois de alguns concertos dos HT. Sobretudo depois do de Gondomar.


 


Acho que não é a primeira vez que refiro cá no blogue que nem sempre ligo aos videoclipes dos Linkin Park. Over Each Other e Two Faced são duas exceções. Estão entre os meus preferidos.


 


E para já ficamos por aqui. Não saiam desse lado, que a segunda parte vem já a seguir. Obrigada pela vossa visita. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Digimon Adventure 02: O Início

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Digimon Adventure 02: O Início estreou nos cinemas japoneses em outubro de 2023. Pouco mais de seis meses depois, no dia 16 de maio de 2024, chegou aos cinemas portugueses na sua versão original legendada. Fez parte de um ciclo de anime da Nos, que incluiu outros filmes do género: por exemplo, Spy x Family Código: Branco – um anime de que gosto muito, como penso já ter referido algures aqui no blogue.


 


O Início é protagonizado (bem… mais ou menos) pelo elenco de heróis de Digimon 02. Decorre pouco menos de dois anos após os eventos de Digimon Adventure Kizuna: A última evolução. Na minha opinião, Kizuna é uma das melhores coisas que Digimon alguma vez fez (só mesmo em termos de impacto emocional). Os temas que aborda – crescimento, perda, escolhas, lidar com o passado, encarar o futuro – são universais, daquelas lições que temos de aprender vezes e vezes sem conta. Vi o filme em três alturas diferentes da minha vida: em finais de 2020, quando me cansei de esperar pela estreia; em 2022, quando estreou a dobragem portuguesa nos cinemas; no encontro português do Odaiba Memorial Day (ajudou-me a lidar com algo sobre o qual escrevi aqui). 


 


Dito isto, os eventos no final de Kizuna – nomeadamente o desaparecimento dos companheiros Digimon – contrariam as promessas deixadas pelo epílogo de 02. A ideia que tem passado é de que este epílogo mantém-se válido. Até porque tanto Kizuna como O Início fazem questão de corraborá-lo noutros aspetos, nomeadamente no que toca à carreira dos Escolhidos. 


 


Não sei quantos de nós estavam à espera de ver O Início “corrigindo” o final de Kizuna – ou seja, arranjando maneira de devolver os companheiros Digimon ao elenco de Adventure. Mas se, como eu, se sentaram na sala de cinema com essa expectativa, apanharam um balde de água fria. 


 


Admito que essa desilusão afetou a minha opinião inicial sobre o filme. Ao vê-los pela segunda vez para este texto, mais de um ano mais tarde, já com as expetativas ajustadas, gostei mais. Mesmo assim, mesmo não sendo um mau filme, O Início é… estranho. 


 


Passo a explicar. 


 



 


Os primeiros minutos do filme – que, por sinal, foram divulgados no verão de 2022, quase dois anos antes da estreia em Portugal – parecem fazer a ponte entre Kizuna e O Início, mas acabam por ter pouco a ver com o resto do filme. Não sei se isso foi deliberado. Começamos, uma vez mais, ao som de Bolero, enquanto somos confrontados com um estranho fenómeno com impacto a nível global. Desta feita, temos a certeza de que envolve Digimon: trata-se de um DigiOvo gigante que aparece em cima da Torre de Tóquio e a mensagem “Que todos tenham amigos, que todos tenham um Digimon” aparece em tudo o que é ecrã por todo o planeta.


 


Segue-se a abertura ao som de Target, com cenas do dia-a-dia dos Escolhidos de 02, bem como uma ou outra pista sobre uma personagem nova – uma vez mais, semelhante a Kizuna. O tom é semelhante ao filme anterior, sim, mas eis duas diferenças. A primeira: o grupo de 02 consegue integrar os companheiros Digimon nas suas vidas – melhor que os seus homólogos de Adventure, nomeadamente Taichi, Yamato e Sora. A segunda: o grupo de 02 consegue passar tempo uns com os outros. Vemo-los reunidos no restaurante onde Daisuke trabalha, no início do filme.


 


Adoro o elenco de Adventure, já o deixei bem claro neste blogue, mas tenho de admitir: eles parecem menos unidos que o elenco de 02. Pelo menos não parecem esforçar-se tanto para passarem tempo juntos.


 


Claro que a questão terá as suas nuances. Pelo menos aquando dos eventos d’O Início, Taichi e Koushiro ocupam cargos importantes no governo. É natural terem menos disponibilidade que estudantes universitários com empregos em part-time (que, mesmo assim, já são vidas bastante ocupadas). Mas, aqui entre nós, parte-me um bocado o coração saber que Taichi nem sequer tem tempo para falar com a irmã ao telefone.


 


Quando o grupo está, então, reunido no restaurante de Daisuke, falando sobre o misterioso DigiOvo, a televisão mostra um homem trepando a Torre de Tóquio. O grupo corre para o local e, quando o homem – Lui, um jovem de quase vinte anos, com um olho claramente não humano tapado por uma pala, um dispositivo digital ao estilo de Adventure rachado – escorrega e cai, o Stingmon apanha-o. Quando este o leva para junto dos Escolhidos, Lui não lhes agradece por lhe terem salvo a vida. Mostra-se bastante emo e antipático antes de revelar, por fim, que foi a primeira Criança Escolhida e que matou o seu companheiro Digimon. Antes de tecer duras críticas às parcerias entre humanos e Digimon em geral. 


 


Os miúdos de 02, abençoados sejam, não vão à bola com as tretas de Lui, obrigam-no a falar. Ele pensa que o DigiOvo poderá ser o seu antigo companheiro, Ukkomon – Daisuke e Ken oferecem-se para levar Lui até ele. A partir daqui, o filme centra-se largamente no passado trágico de Lui – revelado através de uma viagem no tempo, quando ele, Daisuke e Ken chegam ao Digiovo, e através de flashbacks.


 


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Digimon sempre se caracterizou por personagens humanas vindas de ambientes familiares complicados, mas Lui bate todos os recordes. Agora que a audiência do universo de Adventure é quase universalmente adulta, os guionistas podem dar-se ao luxo de serem mais sombrios. 


 


No dia do seu quarto aniversário, 29 de fevereiro de 1996, Lui vive com um pai em coma, precisando de oxigénio para sobreviver. O que me faz alguma confusão. É seguro manter uma pessoa com este grau de incapacidade em casa? Não devia estar num hospital ou numa clínica? Até porque claramente é demasiado para a esposa, a cuidadora principal, se não for a única, e que ainda tem o filho de quatro anos a seu cargo. O aspeto negligenciado da casa onde a família vive prova que lhe falta tempo, dinheiro, quase tudo. 


 


Disto isto, não tenho compaixão praticamente nenhuma pela mãe de Lui, pela maneira como trata o filho. Quando este se descuida e urina no sofá, como castigo ela coloca-o fora de casa, na neve, de roupa interior – deixando várias nódoas negras à mostra, mesmo para não deixar margem para dúvidas – enquanto lida com os estragos.


 


A tal viagem no tempo em que Daisuke, Ken e o Lui mais velho embarcaram foi precisamente para este dia. Perante esta cena, Daisuke quer entrar na casa e dizer umas verdades à mãe de Lui, mas os outros chamam-no à razão. Toda a gente sabe que Daisuke é impulsivo, mas eu aqui não o teria impedido de intervir. Talvez até me juntasse a ele e que se lixasse a cronologia. Porque, se há coisa que não tolero, é maus tratos a seres indefesos: crianças, idosos, animais. Estamos a falar de um miúdo de quatro anos!


 


Nisto, aparece um DigiOvo que choca, dando à luz Ukkomon – um Digimon com a capacidade de realizar desejos. Uma das primeiras coisas que Lui deseja é, naturalmente, alguém que o trate bem. Deseja amigos, diz mesmo que, quando crescer, fará amigos um pouco por todo o mundo. Ukkomon compromete-se a proteger Lui, a ser seu amigo, a arranjar-lhe mais amigos, fazer-lhe as vontades todas. O seu primeiro presente é um dispositivo digital.


 


A vida de Lui vai de um extremo ao outro quase da noite para o dia. A mãe começa a tratá-lo melhor, o pai recupera milagrosamente do coma. Quando Lui vai para a escola, Ukkomon protege-o dos bullies e ajuda-o a fazer amigos.


 


No presente, Lui diz que ele foi a primeira Criança Escolhida e que é graças ao desejo dele que existem Crianças Escolhidas sequer, com Digimon criados de propósito para as protegerem. Isto obviamente vai contra o cânone do universo de Adventure… mas acho que existe margem para interpretação. 


 


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Apesar de ter desejado amigos, Lui nunca terá chegado a conhecer outra Criança Escolhida. Faz sentido que não tenha a informação toda. Faz sentido que não sabia que existira um primeiro grupo de Crianças Escolhidas, que incluiu Maki Himekawa e Daigo Nishijima. É possível que a Homeostase tenha desistido da ideia de Crianças Escolhidas depois de o primeiro grupo ter falhado na sua missão. Poderá ter mudado de ideias depois do incidente de Hikarigaoka e aproveitou-se do desejo de Lui. Aliás, como o jovem não chegou a conhecer outras Crianças Escolhidas até aos eventos deste filme, cheira-me que o desejo poderá ter sido apenas uma desculpa para a Homeostase executar o seu plano. 


 


No filme, Lui diz que Ukkomon estava ligado a um grande ser, que Hikari associa logo à Homeostase. Acho que é mesmo para não termos dúvidas.


 


Os miúdos de 02 ficam ofendidos com a ideia de que os laços que formaram com os seus Digimon foram criados por terceiros, nomeadamente um miúdo de quatro anos e o seu Digimon. Por um lado, compreende-se, por outro… é uma surpresa assim tão grande? É assim tão diferente daquilo daquilo que tinha sido estabelecido antes: que a Homeostase e/ou o Mundo Digital estavam por detrás dos vínculos entre humano e Digimon? Está no próprio termo, Crianças Escolhidas – não foram elas a escolher. Oikawa queria desesperadamente ser Escolhido, sendo essa a sua história de origem vilanesca. 


 


Na mesma linha, já tinha sido deixado bem claro no universo de Adventure que os companheiros Digimon são criados para serem compatíveis com os humanos com quem são emparelhados (Meicoomon é a única exceção de que me recordo neste momento). São programadas para terem o instinto de protegerem os parceiros. Eles sabiam disso: Taichi tentou manipular esse instinto para obrigar Greymon a digievoluir. Mais: esse mesmo instinto tanto salvou como condenou Hikari. Primeiro, impediu Tailmon de a matar. Mais tarde, confirmou perante Vamdemon que Hikari era a oitava Criança – quando DemiDevimon magoou a menina e Tailmon reagiu. 


 


É daqueles aspetos que, enquanto crianças, não nos faz confusão mas que, depois de crescermos e de pensarmos um bocadinho, questionamos a ética. Antes deste filme, Adventure nunca tinha abordado os vínculos entre humanos e Digimon sob esta perspectiva, tirando vagas alusões em Tri. Nem mesmo com Ken e Wormon, tanto quanto me recordo – um exemplo óbvio de como estes vínculos podem levar a abusos. 


 


É possível que, dentro do universo, esta seja a primeira vez que os miúdos de 02 estejam a ser confrontados com a componente artificial da relação com os seus Digimon. Naturalmente, o primeiro instinto deles é colocarem-se na defensiva – e não acho que estejam errados. Sim, os Digimon foram personalizados para os respectivos companheiros humanos e sim, foram programados para os protegerem. Mas isso é apenas um fator na união – não deixa de haver conflito, não deixa de ser necessário esforço para a manter, como qualquer outra relação. De novo, Hikari e Tailmon durante o arco do Vamdemon, na Adventure original, são um bom exemplo disso. Bem como Tri, em geral.


 


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Conforme veremos já a seguir, Ukkomon é uma versão extrema do típico companheiro Digimon: extrema devoção ao seu parceiro humano, nenhuma noção do certo ou do errado, nenhuma consideração por si mesmo. Ukkomon faz as vontades todas a Lui, sem pedir nada em troca. Lui, como qualquer criança, não estranha nada disso, não questiona. Não lhe ocorre que Ukkomon poderá ter sentimentos próprios, vontade própria.


 


Só em 2003 – Lui terá cerca de onze anos – é que o jovem vê o reverso da medalha. Lui acompanha os eventos do filme Diaboromon Contra Ataca pela televisão – ou, quanto muito, vê uma reportagem sobre os mesmos. Ukkomon comenta que os Digimon estão a lutar no lugar dos companheiros humanos, dariam a vida por eles, tudo graças ao desejo de Lui.


 


O jovem fica horrorizado. 


 


Nesse momento, os pais de Lui perdem os sentidos. Aparentemente não respiram, mas Lui logo os reanima, os tentáculos como cordas de marionetas. É aí que percebemos que os pais de Lui estão mortos, provavelmente há vários anos, provavelmente desde o quarto aniversário do jovem. Ukkomon tem-nos usado como fantoches para manter o seu companheiro humano feliz.


 


Naturalmente, Lui passa-se. Tenta estrangular Ukkomon – o Digimon nem sequer oferece resistência. Se matá-lo fizer Lui sentir-se melhor, tudo bem. O jovem, então, muda de ideias. Tenta destruir o seu dispositivo digital com um taco, um estilhaço salta e – se bem me recordo, no cinema, nesta cena tapei os olhos – atinge-o no olho. Ukkomon prontamente arranca o seu próprio olho e… bem, “encaixa-o” no rosto de Lui. 


 


A cena explica que O Início tenha sido classificado como um filme para maiores de 12 anos. Mesmo quando Lui grita com Ukkomon, fazendo com que este desapareça, não é algo limpo, com partículas digitais: a carne dele literalmente desfaz-se à frente de Lui, fluidos corporais pingando no chão e salpicando para o rosto do jovem. Já tínhamos tido elementos de terror em Digimon graças a Ghost Game, mas isto é outro nível. 


 


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No fim da cena, Lui fica sem Ukkomon, só com os cadáveres dos pais como companhia. Depois disto, Lui passou o resto da infância e adolescência vivendo com familiares (onde andavam esses familiares nos primeiros anos de vida de Lui, quando a mãe dele tinha tantas dificuldades?). No presente, Lui vive sozinho e, ao que parece, não tem ninguém. 


 


Hikari sente compaixão por Ukkomon, percebe que as intenções do Digimon eram puras. Percebo a lógica, mas… que diabo, morreram duas pessoas! (E tenho perguntas em relação aos amigos que Ukkomon lhe arranjou.) É certo que não tenho grande pena da mãe de Lui e que, mal por mal, Ukkomon salvou-o de uma vida de maus tratos e negligência. Não significa que tenha sido correto. 


 


E, de qualquer forma, ponho mais culpas na Homeostase, por ter juntado uma criança humana e um Digimon que não estavam preparados para lidarem um com o outro. 


 


Em todo o caso, não admira que Lui tenha uma visão tão cínica dos vínculos entre humanos e Digimon. Se só conhecesse a relação entre ele e Ukkomon, também eu pensaria assim. Os miúdos de 02 e a própria audiência têm um conhecimento bem mais amplo, sabem que, vá lá, nove em cada dez parcerias são bem mais saudáveis. 


 


Entretanto, soa a meia-noite do dia 29 de fevereiro de 2012, o vigésimo aniversário de Lui. O gigantesco DigiOvo choca, nasce BigUkkomon, surgem inúmeros DigiOvos com o objetivo de realizar o desejo do pequeno Lui: dar um companheiro Digimon a todos os seres humanos. 


 


Curiosamente, os miúdos de 02 reagem mal à possibilidade. À primeira vista parece hipócrita: eles têm mais direito a companheiros Digimon que o resto da Humanidade? Por outro lado, consta que o número de Escolhidos tem duplicado todos os anos. Aquando dos eventos deste filme, vai em sessenta mil. É um crescimento rápido, mas dá para gerir. Dará tempo aos recém-Escolhidos e às pessoas em redor de se adaptarem aos companheiros Digimon. E não esquecer que, partindo do princípio que as regras de Kizuna continuam válidas, as parcerias têm prazo de validade. 


 


Em contrapartida, tomando em conta as intenções de Ukkomon, estamos a falar de milhares de milhões de Digimon nascendo ao mesmo tempo no Mundo dos Humanos. Claro que não ia correr bem. 


 


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Durante o debate do elenco sobre o que fazer, Takeru lembra que, se fora de facto Ukkomon a criar as parcerias entre humanos e Digimon, derrotarem-no poderia comprometê-las. Ninguém se surpreende que tenha sido Takeru a referir a possibilidade – ele que nunca recuperou por completo da perda do Angemon em Adventure. Não me admiraria se o jovem tivesse passado o último par de anos em angústia, depois de ter visto o irmão perdendo Gabumon, temendo que um dia chegasse a sua vez. E Takeru nem sequer está a pensar apenas em si mesmo neste momento – invoca também os outros sessenta mil Escolhidos. Não é justo meia dúzia de pessoas decidirem por dezenas de milhares. 


 


Hikari argumenta que não podem colocar os seus próprios desejos acima do bem-estar do resto do mundo. As pessoas têm traçado paralelismos entre este debate e o que os respectivos onii-chans tiveram em Kizuna – quando decidiram arriscar o curto tempo de vida dos seus Digimon para salvarem os amigos da Terra do Nunca. Também aqui a família Yagami defende colocarem o coletivo acima do individual – ainda que Hikari o faça com mais idealismo e menos desespero. A jovem acredita que o seu vínculo com Tailmon é suficientemente forte, mais forte que uma suposta programação por forças externas. Será capaz de sobreviver a um confronto com o BigUkkomon.


 


Também ajuda o facto de existir uma terceira opção de que Taichi e Yamato não dispunham. Ken deduz que talvez Ukkomon não queria lutar – a viagem no tempo poderá ter sido uma tentativa de comunicar com Lui. Assim, acabam por tentar a via diplomática, deixar o último falar com Ukkomon – com a vantagem adicional de preservarem as parcerias entre humanos e Digimon. Claro que, se necessário, partirão para a luta.


 


Depois desta, O Início tem a oportunidade de exibir o seu orçamento – animação lindíssima nas cenas de combate entre os Digimon e os tentáculos do BigUkkomon e nas sequências de digievolução. À semelhança do que Kizuna fez com as últimas, não se puseram a inventar, limitaram-se a recriar as sequências da 02 original com uma animação moderna.


 


No entanto, é aqui que eu mais lamento a inexistência de uma dobragem em português de Portugal. Mais do que com qualquer outra temporada de Digimon, inclusive a Adventure original, estou afeiçoada à versão portuguesa das digievoluções. Não consigo ouvir Beat It! sem ouvir “X-Veemon… Stingmon… Digievolução ADN para… Paildramon!”. As legendas em português nem sequer usaram os termos corretos. 


 


Além disso, não sei se alguma vez cheguei a referi-lo aqui no blogue mas, mesmo com as suas imperfeições, regra geral, prefiro as vozes portuguesas para Digimon como o Paildramon. Nas versões nipónicas, as vozes são, na minha opinião, demasiado jovens, demasiado adolescentes. Em português, deram-lhe vozes de homens adultos – a meu ver, mais poderosas e adequadas. 


 


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Se tivesse o software certo, faria uma montagem com o áudio da dobragem portuguesa de 02 e as sequências modernizadas d’O Início. 


 


Os Escolhidos conseguem levar Lui até ao BigUkkomon. Este torna a comunicar via regresso ao passado – ao mesmo dia. Desta feita, o Lui adulto aborda a sua própria mãe (sem se identificar). Essencialmente, pede-lhe que seja mais atenta e compreensiva para com o filho, pois este ama-a. Nesta versão dos acontecimentos – que eu assumo que seja idealizada por Lui e/ou Ukkomon – este curto diálogo é suficiente para a mãe começar a tratá-lo melhor. 


 


Na realidade – mesmo dentro do universo – a situação não se resolveria assim tão facilmente. Não reduziria os fardos que a mãe de Lui tem de carregar sozinha, não lhe daria magicamente uma maneira mais saudável de lidar com o cansaço e a frustração. 


 


Mas compreende-se. Lui pode ser adulto mas ainda é muito novo. Pode ainda não entender a complexidade da situação – é natural que tenha ainda esta fantasia. Deem-lhe uns anos. 


 


A cena avança uma hora ou duas, com o Lui de quatro anos já em casa com a mãe – desta feita numa cena bem mais harmoniosa. Ukkomon aparece perante o Lui adulto, disposto a conversar abertamente. Ukkomon admite que pensava que coisas que faziam Lui feliz em criança eram sinónimo de coisas corretas. Por sua vez, Lui admite que a relação entre ambos sempre foi unilateral, que no fundo não sabe nada sobre o seu companheiro Digimon. Ukkomon sempre dando, Lui sempre recebendo. 


 


Não que se possa censurar o jovem por tal: ele tinha quatro anos, era uma criança pequena, maltratada, carente de quase tudo. Mesmo em circunstâncias menos extremas, quantos anos é que demora uma criança a aprender que os pais e outras pessoas da sua vida são seres com desejos e necessidades próprias? Sobretudo se esses seres lhes dão tudo sem nunca pedir nada em troca, sem nunca dizer “não”.


 


Ambos acabam por decidir começar do zero e fazerem um esforço por comunicarem melhor desta vez. Lui faz questão de dizer que, apesar de fazer anos, não quer presentes, não deseja nada. Para que isso seja possível, no entanto, Lui precisa de regressar a 2012 e derrotar o Big Ukkomon – claro que precisa, o filme tem de ter um clímax. Ao menos a animação é bonita, como referi acima.


 


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O BigUkkomon é, assim, derrotado e desintegra-se, tal como os inúmeros DigiOvos. Por seu lado, Lui recebe um DigiOvo de onde, podemos assumir, nascerá Ukkomon. Ao mesmo tempo, os dispositivos digitais de todos os Escolhidos por todo o Mundo desfazem-se em partículas luminosas – mas os Digimon não desaparecem. 


 


Aliás, não sabemos as consequências do fenómeno: se os Digimon serão capazes de digievoluir, se deixam de estar programados para proteger os seus companheiros humanos, mesmo contra vontade. Se isto permitirá ao elenco de Adventure recuperar os seus Digimon ou se, depois desta, eles estão perdidos para sempre.


 


Sejamos sinceros: se eles continuarem a fazer filmes para este universo, é possível que se esqueçam convenientemente deste desenvolvimento. Dito isto, no que toca a este filme e só a este filme, creio que o objetivo era provar que os vínculos entre humanos e Digimon não dependiam, nem nunca dependeram, dos dispositivos digitais, de forças externas. Não a longo prazo, pelo menos. 


 


O Início termina com o elenco envolvido numa batalha de bolas de neve. Sinceramente, é um bom final, é um final descontraído, bem-vindo no final de um filme que teve momentos pesados. Há uma cena pós-créditos que mostra os instantes finais antes de Ukkomon renascer. 


 


E é isto O Início. Quando vi o filme pela primeira vez, estava demasiado irritada por este não ter “corrigido” o final de Kizuna para lhe dar mérito. Agora que já se passou mais de um ano e tive oportunidade de revê-lo, no seu todo ou em partes, de analisá-lo, não detesto O Início. Até gosto. 


 


Uma das minhas críticas iniciais era de que o filme não se encaixa muito bem em Adventure. Hoje concordo apenas em parte. Sim, por vezes parece que estamos a ver um episódio de Ghost Game – e nem sequer me refiro apenas aos elementos de terror. O episódio 50, por exemplo, também se foca numa relação pouco saudável entre um humano e um Digimon – fica bem claro que cada uma das duas espécies pensam de maneira diferente. 


 


Por outro lado, O Início explora um dos aspetos centrais do universo de Adventure: a natureza das parcerias entre os Escolhidos e os seus Digimon. Como referi acima, sempre houve um certo grau de imposição, nunca foi algo em que os participantes embarcaram de vontade cem por cento livre. Faz sentido que os guionistas tenham querido explorar um dos lados mais sombrios desse tipo de vínculos – e, ao mesmo tempo, provar que não é só a Homeostase que mantém os Digimon ao lado dos Escolhidos. E Lui é uma personagem bem construída. 


 


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Dito isto, temos de falar sobre o que correu menos bem. Para começar, a história é demasiado simplista para um filme de Digimon. Eles esticaram o que podiam esticar, embelezaram o que podiam embelezar – viagens no tempo, cenas de combate vistosas. Mas, se olharmos para o esqueleto da coisa, o enredo é apenas: DigiOvo aparece, Lui aparece, longa backstory de Lui, nasce BugUkkomon, Lui vai falar com ele, fazem as pazes, derrotam-no, fim. Mudando um pozinho ou outro, podia, lá está, ser um episódio de Ghost Game. Daí achar o filme esquisito. 


 


No entanto, a maior crítica a O Início é outra: os miúdos de 02, supostos protagonistas do filme, não fazem quase nada, mal contribuem para o enredo. 


 


Não é a primeira vez que as sequelas de Adventure e 02 trazem personagens de fora. Meiko teve muito tempo de antena em Tri, o que irritou muitos fãs, mas ao menos o velho elenco foi sendo desenvolvido em paralelo com ela, ainda que em graus diferentes. Não deixa de ser a história dos oito de Adventure. Em Kizuna, Menoa foi a antagonista – a história não é dela, é de Taichi e de Yamato. 


 


N’O Início, em contrapartida, os miúdos de 02 são secundários naquele que devia ser o filme deles. A história é de Lui. Durante uma boa parte do filme, os miúdos de 02 são quase avatares da audiência: estão lá para ouvir sobre o passado de Lui, deixam opiniões, dão conselhos. No último terço do filme, fazem de guarda-costas/motoristas para que Lui chegue a Ukkomon. No lugar deles podia estar o elenco de Adventure ou de Tamers (ainda que fosse mais difícil juntá-los no mesmo lugar) e o enredo seria praticamente o mesmo.


 


Ainda assim, mesmo que o elenco de 02 não influencie o enredo, definitivamente influenciam… à falta de melhor palavra, o sabor do filme. Mesmo que não tenha havido desenvolvimento, pudemos ver os miúdos de 02 sendo eles mesmos. Daisuke e Miyako implicando um com o outro, a calma e sensatez de Ken contrastando com a exuberância de Daisuke. Takeru e Hikari sendo unha com carne, como sempre. Iori é que aparece pouco – mas também ele sempre foi um dos mais discretos. 


 


E, à boa maneira das várias sequelas de Adventure e 02, há alimento para shipping: Miyako e Ken, um casal confirmado no epílogo de 02, mostrando alguma proximidade. Ao mesmo tempo, a certa altura, Miyako mete-se com Daisuke e Ken, acusando-os de estarem a “namoriscar”. 


 


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Consta que os próprios guionistas argumentaram que o grupo de 02 é demasiado harmonioso, demasiado bem com a vida, livre de conflito. Não será possível escrever histórias interessantes protagonizadas só por eles. Admito que possa ser verdade até certo ponto… mas cheira-me a desculpa esfarrapada. 


 


Eles não percebem que o povo está aqui para ver o elenco com quem cresceu? O de Adventure será mais popular mas, depois de Tri os ter negligenciado, todos concordam que 02 merece mais amor. Ainda há pouco tempo, graças às funcionalidades de memórias das redes sociais, recordei-me de encontros anteriores do Odaiba Memorial Day. Nós quase literalmente fizemos uma festa no de 2019 só porque tinham anunciado nesse dia que os miúdos de 02 iam entrar em Kizuna!


 


Não sou contra arranjarem personagens humanas novas. Mas o mínimo que os guionistas deviam fazer com os velhos Escolhidos é deixá-los ser parte ativa das suas próprias histórias. 


 


Por fim, ainda que isso não seja cem por cento culpa d'O Início, as pontas de Kizuna continuam por atar. Continuamos sem saber como é que os Escolhidos mais velhos recuperarão os Digimon. Ou como é que todos os seres humanos ganharão um companheiro Digimon. Pergunto-me se os guionistas, ou a Toei, ou quem quer que esteja a tomar estas decisões, se preocupa sequer em manter o cânone intacto. 


 


O que me leva a Digimon Adventure Beyond. Eu sei que isto não tem diretamente a ver com O Início, mas também é o universo de Adventure, merece uma palavrinha. Estreado em março deste ano, é essencialmente um AMV ao som de uma versão muito gira de Brave Heart. Mostra os Escolhidos em adultos, com os seus companheiros Digimon. 


 


Na altura em que o vídeo saiu, muito boa gente nas internetes virou-se do avesso para tentar perceber se e como Beyond se encaixa no cânone oficial. Segundo o que pesquisei na preparação deste texto, parece que a teoria aceite é de que estas são cenas soltas de diferentes alturas da cronologia entre Tri e, vá lá, algum tempo depois d'O Início. 


 



 


Para ser sincera, não me preocupo muito. Vale pelas vibes. 


 


E, de qualquer forma, o vídeo está muito giro. Animação excelente e, claro, é sempre um prazer ver este elenco. As minhas partes preferidas são as com uma Sora de novo maria-rapaz. Aliás, nunca o estilo dela foi tão parecido com o meu: veja-se o boné, as calças de ganga, a camisola atada à cintura. 


 


Por outro lado, chega a ser cruel. O vídeo podia ser o trailer de um novo filme, mesmo de uma nova temporada. Tanto potencial nas cenas que mostraram… 


 


Uma parte de mim deseja que eles parem de ordenhar sempre da mesma vaca – que deixem Adventure tal como está e que explorem outras coisas. Outra parte de mim, no entanto, nunca se fartará e quer muito – mesmo muito – ver os Escolhidos mais velhos recuperando os seus Digimon. E no fim de contas já não falta muito tempo para 2027, o ano em que decorre o epílogo de 02. É possível que o assinalem de alguma forma. 


 


A curto prazo, vão estrear uma temporada nova, inédita: Digimon Beatbreak. Não sei se vou acompanhá-la. O reboot de Adventure e Ghost Game tiveram os seus momentos, a segunda tinha um conceito interessante, conforme expliquei noutra ocasião. No entanto, ambas se tornaram um frete ao fim de algum tempo – de tal forma que não deverei escrever sobre elas aqui no blogue. Receio que o mesmo aconteça a Beatbreak. 


 


Dito isto, eles deram mais detalhes sobre a temporada no início do mês, a propósito do Odaiba Memorial Day. Houve um pormenor que me chamou a atenção: as idades do elenco principal. Temos um rapaz e uma rapariga de dezasseis anos, um rapaz de dez e… um jovem de vinte e dois anos. Tanto quanto sei, tal amplitude de idades não é habitual. Isso dá-me alguma curiosidade. 


 


Acho que vou esperar que saiam os primeiros episódios e ver o que as pessoas dizem sobre eles. Depois decido com base nisso. 


 



 


Entretanto, talvez veja Savers pela primeira vez no próximo ano, com o intuito de, mais tarde, escrever sobre essa temporada. Iria coincidir com o seu vigésimo aniversário. 


 


Talvez. Não vou prometer nada, que anda tudo muito imprevisível. 


 


Em todo o caso, soube bem escrever este texto. É sempre um gosto escrever sobre Digimon, sobretudo durante o verão. Ainda por cima, fez agora uma década desde o meu primeiro texto sobre a franquia. Não tenciono ficar por aqui. 


 


Falando de um futuro mais imediato, os próximos textos do blogue serão sobre música. Conforme já referi no texto anterior, o primeiro será sobre From Zero, dos Linkin Park; o seguinte será sobre Virgin, de Lorde. Depois disso, escreverei sobre música a solo de Hayley Williams. No início deste mês, a vocalista dos Paramore lançou dezassete singles soltos, de surpresa. Entretanto, já confirmou que vai lançá-los sob o formato de um álbum intitulado Ego Death at a Bachelorette Party (ou pura e simplesmente Ego, como nós, os fãs, temos vindo a chamar). 


 


Esse será, então, a terceira análise. E, à boa maneira do universo Paramore, vai ser… interessante. 


 


Como sempre, obrigada pela vossa visita. Até à próxima!

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Concertos #3 – Segundas oportunidades

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Chegámos à última parte do meu balanço de concertos. Hoje vamos falar sobre a banda que, de forma direta e indireta, virou a minha vida do avesso, sobretudo nos últimos dois anos e pouco – e, ao que tudo indica, irá continuar. Não existe nada de normal nesta banda nem na minha relação com ela. O concerto a que fui no ano passado foi apenas um exemplo: dois meses antes não o achava, sequer, possível.


 


Um regresso dos Linkin Park não estava no bingo de ninguém para 2024. Muito menos com um álbum novo. Muito menos com uma mulher como vocalista. Tecnicamente já escrevi sobre isso aqui, mas os meses que se passaram desde essa altura, o equivalente a uma gestação, trouxeram outra prespetiva. 


 


Quando me recordo do período antes de 5 de setembro de 2024, esse parece-me outra vida. É certo que tinham havido sinais nos meses anteriores. Ainda há pouco tempo foram-me aparecendo, nas funcionalidades de memória das redes sociais, publicações sobre os primeiros rumores de uma cantora nos Linkin Park. Tenho-me fartado de rir com as minhas reações. A questão é que, por uma questão de sanidade mental, não acreditava em nada, a menos que viesse diretamente da banda. E, a partir de certa altura, isso deu em negação.


 


E mesmo com as pistas que iam saindo, falando por mim, deste lado da grade, o regresso dos Linkin Park foi quase do dia para a noite. E eles vieram com tudo. Num dia, eram uma banda parada, sem vocalista, que podia nunca mais voltar ao ativo. No dia seguinte, tínhamos uma banda completa, com música novinha em folha, um álbum pronto a ser lançado, concertos marcados, como se nunca tivessem estado em pausa. Do zero ao oitenta – agora compreendo o título From Zero. Foi como vermos uma série depois de saltarmos várias temporadas – no elenco estão velhos conhecidos e outras personagens, para nós desconhecidas, mas já bem integradas na história. 


 


É de admirar que tantos de nós tenham precisado de um momento para entrar no ritmo?


 


E agora, passado todo este tempo, é-me muito claro que esta foi a melhor maneira possível de voltarem. Emily Armstrong é a pessoa certa no lugar certo. Tem as cordas vocais, para começar, mas eu diria que essa é a parte mais fácil – só garante o papel de vocalista convidado. Tem a idade e o nível de experiência certos para se encaixar bem na banda. Mais importante de tudo, diria eu, Emily tem a personalidade certa.  Ela é um deles, feita da mesma matéria-prima: engraçada, totó, sem se levar demasiado a sério. Porta-se como a irmã mais nova traquinas, sobretudo do fundador, multi-intrumentista e produtor Mike Shinoda e do baixista Dave Farrell. Se não me engano, Emily já admitiu roubar roupa ao Mike – por estes dias, eles vestem-se de forma tão parecida que às vezes, em vídeos de concertos de baixa qualidade, é difícil distingui-los. E há vários momentos em vídeo dela a brincar com os colegas, em palco e fora dele.


 



 


E depois, conforme a vou conhecendo melhor, mais rendida lhe fico. Mulheres como Emily – roqueiras, louras, de dedo do meio levantado – são outra das minhas fraquezas. Quando ela me apareceu a andar de skate nos bastidores do vídeo de Two Facedquase ouvi o universo a rir-se de mim. Emily não é só feita da mesma matéria-prima dos Linkin Park: ela é feita da mesma matéria-prima que Avril Lavigne e Hayley Williams. Elas que me criaram! Eu nunca tive hipóteses, minha gente, sou apenas humana. 


 


De qualquer forma, a ideia com que fico é que qualquer pessoa com a mente minimamente aberta acabará por aceitar Emily, mais cedo ou mais tarde. Tal como disse uma amiga minha, “primeiro estranha-se, depois entranha-se, depois adora-se”. O problema de setembro passado foi o barulho desproporcional online. Mas, à medida que o tempo foi passando, que Emily foi ganhando à-vontade, que das músicas novas foram sendo lançadas e obtendo bons resultados nas tabelas, que os bilhetes foram sendo vendidos, ficou claro que a maior parte dos fãs está contente com o regresso da banda.


 


Para mim, a discussão Emily versus Chester está arrumada há muito. Não me interessa quem é o “melhor”. Chester morreu. Os Linkin Park não quiseram – e bem – uma pessoa como o Ivo dos HT, capaz de recriar a voz dele. Preferiram Emily e, conforme acabo de explicar, escolheram bem. Eu gosto dos dois. Aliás, por estes dias, desejava que ambos estivessem na banda – o que, obviamente, não é possível. Chester irá sempre fazer falta, mas os Linkin Park não se podem centrar para sempre na perda dele. Têm o direito de ser felizes e claramente estão felizes com Emily. Ponto final. 


 


Uma palavra para Colin, que costuma ser esquecido nas conversas sobre a nova vida dos Linkin Park. Eu gosto dele. Já não me lembro muito bem dos tempos de 2017 para trás, mas a ideia que tenho é de que o seu antecessor, Rob Bourdon, era dos mais discretos da banda. Nesse aspeto, Colin é mais extrovertido e, tal como Emily, já tem uma certa dinâmica com a comunidade de fãs. Pelo que vou vendo, já ganhou a fala de Tom Holland da banda, pela tendência para revelar mais do que deve. E já anda a aprender com os fãs


 


Estou ansiosa por conhecê-lo ainda melhor. A ele e a Emily. São nossos.


 


Hei de escrever sobre o álbum From Zero. Este texto, no entanto, focar-se-á sobretudo no concerto que os Linkin Park deram em Paris, em novembro do ano passado – a que assisti. À hora desta publicação, a banda já conta inúmeros concertos sob este formato, mas este foi um dos primeiros da nova era. Verdadeiramente um reencontro com os fãs, uma re-apresentação.


 


Houve tempo para passear um pouco por Paris, antes e depois do concerto, quer a solo quer com os amigos da família HT com quem fui. Já tinha lá estado dois anos antes, mas soube bem à mesma. Paris é uma cidade bonita (ainda que com partes menos bonitas). Embora saiba que é um cliché, adoro a Torre Eiffel, sobretudo de noite. Era capaz de ficar horas a olhar para ela. 


 



 


De vez em quando, cruzávamo-nos com gente usando merch dos Linkin Park – oficial ou não – e naturalmente recriávamos o meme do Homem-Aranha. Andava com o meu boné dos Hybrid Theory, fazendo publicidade aos moces – acenei à distância a uns fãs brasileiros que terão reconhecido o nome. No dia a seguir, nas filas da viagem de regresso, estive à conversa com outros fãs portugueses que também tinham ido ao concerto. Trocámos impressões sobre o regresso da banda e também, claro, sobre os Hybrid Theory e o seu segundo Pavilhão Atlântico, daí a uns meses (mais sobre isso adiante). 


 


Em suma, falando por mim, sentiu-se aquele espírito Linkin Park, aquela alegria de termos a nossa banda de volta. 


 


O La Défense Arena é parecido com o Pavilhão Atlântico por dentro, mas maior e menos bonito. Foi a maior audiência da nova era até àquele momento. Infelizmente, foi o primeiro a não ter palco circular. Comprámos bilhetes para as bancadas de trás e acabámos por ficar um pouco longe do palco. Mas também, com lugares marcados, ficámos mais à vontade em termos de filas. Até porque, segundo consta, houveram problemas nas entradas para a plateia.


 


Os Linkin Park abriram com o mesmo tema com que já haviam aberto o direto de inauguração da nova era – menos de dois meses antes! Consta que o nome oficial da faixa é Inception Intro A. Só quando estava a pesquisar para estes textos é que percebi: este é o equivalente dos Linkin Park à introdução da Eras Tour. Todo um repertório enfiado numa música de dois minutos e meio. Inception, no entanto, não invoca nomes de álbuns, invoca elementos musicais de vários êxitos dos Linkin Park: os sintetizadores de The Catalyst, alguns versos de Castle of Glass, o piano de Waiting For the End, as notas de abertura de In the End e de Numb, a percussão de Somewhere I Belong. E isto é apenas aquilo que consigo identificar. Um remix de metade do alinhamento de Papercuts.


 


Gosto ainda mais de Inception do que da introdução da Eras. Musicalmente é melhor, mais complexa. Mas sobretudo, estando eu muito mais afeiçoada à música dos Linkin Park, Inception mexe ainda mais com as minhas emoções. Até porque, da primeira vez que a ouvi, tais emoções estavam em completo desalinho.


 



 


Ao contrário do que aconteceu no direto, no entanto, a Inception seguiu-se Somewhere I Belong. Uma das preferidas de Colin, segundo Mike, quando ele e os outros veteranos da banda não a colocavam entre as melhores dos Linkin Park. É outro aspeto engraçado do alinhamento novo – dois fãs promovidos a membros oficiais. Trazendo perspectivas novas. Houve até um momento engraçado numa entrevista do ano passado: os anfitriões estavam a comentar que sempre adoraram Linkin Park, Emily disse “Eu também”, Mike riu-se e recordou-lhe, no mesmo tom, que ela agora faz parte da banda. 


 


Eu não vejo mal nenhum. É saudável ser-se fã do próprio trabalho ou do trabalho que representa, a que se dá vida. Do legado que lhe foi colocado nos ombros.


 


Nesta altura, Emily já estava mais à vontade em palco, já se notava a diferença em relação a dois meses antes. Um aspeto curioso em que difere de Chester é que ela parece gostar de tocar guitarra em palco. No concerto de Paris, tocou em Over Each Other – lançada como single poucas semanas antes e estreada ao vivo nessa noite. Tinha esperanças de que eles tocassem uma inédita – provavelmente queriam ir acrescentando apenas uma música de cada vez.


 


Orgulho-me de dizer que o público recebeu bem Emily – o melhor episódio de sempre de Emily em Paris, como li algures. Gritei o nome dela em coro com milhares – tal como tinha feito dez anos antes com Chester. Sobretudo no momento delicioso que podem ver aqui


 


Tenho de confessar uma coisa, no entanto: existem músicas antigas dos Linkin Park de que continuo a não gostar quando adaptadas à voz dela. What I’ve Done é um dos exemplos – sobretudo em contraste com a versão que os Hybrid Theory tocavam no ano passado. Um solo prolongado do Miguel, com o Ivo e o Dani aos headbangs nas costas dele. 


 


Lost in the Echo é outra de que não gostei sob este formato. Mas para ser sincera, mesmo em concertos dos HT, ando algo farta da música. 


 


Mas isto são exceções. E mesmo que não fossem… eu conseguiria viver com isso. Só teria de ouvi-las nas raríssimas ocasiões em que fosse a concertos dos Linkin Park.


 



 


No que toca à maior parte das interpretações de Emily, estou entre o “tolero” e o “gosto ativamente”. Tenho várias entre as minhas preferidas: New Divide, Burn it Down, Waiting For the End. No concerto de Paris em particular, as músicas mais calmas foram pontos altos, na minha opinião. Castle of Glass, por exemplo, que sempre esteve entre as minhas preferidas. Friendly Fire – a música tinha saído no início de 2024, mas parecia que já a conhecia há anos, que era uma de muitas das antigas que agora ouvíamos com o filtro de Emily. My December, uma das surpresas da nova era,  lindíssima sob esta nova versão. Tenho-me perguntado se foi também um pedido dos meninos novos.


 


Leave Out All the Rest foi das melhores. Foi das mais que mais me tocaram. Ouvi-a abraçada ao meu eu que dezassete anos, que ruminava sobre a letra vezes e vezes sem conta, sem nunca a compreender até anos depois. Eles mudaram a estrutura – um solo de guitarra no início, um pós-refrão no fim, Mike cantando o refrão na introdução e o resto praticamente a meias com Emily. 


 


Pensava que esta versão tinha sido criada para esta nova era. Nas pesquisas para este texto descobri que já havia sido tocada durante a digressão de One More Light – com Chester cantando quase tudo. Foi incluída no One More Light Live, na verdade, mas não me lembrava de a ter ouvido antes. 


 


Em todo o caso, adoro esta versão. Tanto a cantada em 2017 como a atual.


 


Outra que teve alterações interessantes foi Points of Authority. À semelhança de Leave Out All the Rest, foi Mike a cantar as estâncias, o que faz sentido. Houve um momento giro quando Emily se enganou nos últimos refrões – duas vezes! Ela depois foi ter com Mike como quem pede desculpa e ele deu-lhe um abraço. Adorável. 


 


Uma confissão: não vi o momento em direto, só mais tarde, na net. Estava demasiado ocupada abanando o capacete. Tive o problema oposto de quem passa os concertos de telemóvel em punho: estava tão perdida na música que nem prestei atenção ao que se passava em palco. 


 


Mike foi quem mais gostei de ver. Estava tão feliz – como, aliás, nunca deixara de estar nos dois meses anteriores. Como li por aí, nunca mais parou de sorrir desde o direto de 5 de setembro.


 



 


 


Neste concerto, então, não dava para ignorar. Durante Burn it Down, por exemplo. Ao longo dos anos, fui vendo vários vídeos da banda tocando-a ao vivo, Mike fazendo o rap com uma expressão relativamente séria. Em Paris foi a primeira vez que o vi fazendo o rap a sorrir. 


 


E In the End? In the End…


 


Durante muitos anos disse que a minha música preferida dos Linkin Park era New Divide. Mas a verdade é que tenho vindo a acumular inúmeras recordações maravilhosas relacionadas com In the End. A primeira há muito, no Rock in Rio 2008, mas a maior parte delas nos últimos dois anos. Muitas delas em concertos dos Hybrid Theory, claro: agarrando a mão do Ivo, do Pedro. Aliás, hoje em dia, incluo sempre o “Gritem!” do Pedro a meio da terceira parte – pertence à letra oficial, já. E, como referi antes, quando gente da família HT se reúne, muitas vezes acabamos a cantar In the End. Destaque para o momento em que “obrigámos” a Jéssica Cipriano a cantá-la aqui


 


Não digo que esteja entre as melhores da banda. Pelo contrário, é a versão mais palatável do estilo rock-e-rap pelo qual são conhecidos. Um dos êxitos mais óbvios, aquela que toda a gente conhece. Mas a questão é mesmo essa: é aquela que toda a gente conhece, que toda a gente adora. É a música que une todos os fãs. 


 


De qualquer forma, nunca tinha visto ninguém, nem eu mesma, cantando-a com tanta alegria como o Mike naquela noite. Penso que pelo menos parte disso terá sido influência de Emily, igualmente entusiasmada. Mesmo assim, nunca tinha visto o Mike assim: ao pulos, um sorriso de orelha a orelha, parecia um miúdo pequeno. 


 


Como já escrevi antes, a felicidade do Mike e do resto da banda, depois de tudo por que passaram, é tudo. Tem sido a melhor parte desta era. No ano e meio anteriores foram as várias as noites em que voltava de um dia de Hybrid Theory com o coração cheio, pensava em Mike e nos outros e perguntava-me: “Será que eles têm noção da alegria que a música deles continua a dar a esta gente toda? Eles mereciam fazer parte dela também.”


 


Agora claramente voltaram a fazer parte dela. E eu não podia estar mais feliz. Foi para isto que todos nós nascemos. 


 


Com tantos concertos a que tenho ido, regra geral, a recuperação não custa muito. Fico com a garganta e o pescoço um pouco doridos durante um dia ou dois, nada de especial. Desta vez, no entanto, o concerto foi num domingo e passei a tarde da terça-feira seguinte cheia de dores de costas. Não sei se foi só do concerto – não terá ajudado ter andado a passear a pé por Paris com uma mala demasiado cheia às costas. Mas também isso foi culpa dos Linkin Park – foi por causa deles que estava em Paris. 


 


Tive de dizer a mim mesma: “Foi a primeira vez em dez anos e meio que os viste ao vivo. Há três meses não achavas isto possível. Isto é um preço mais do que razoável. Como se diz, a dor é temporária, as memórias duram para sempre.” 


 



 


E agora ficam aqui. 


 


Foi lindo, mas ficou a faltar algo muito importante: não foi cá. Não foi em Portugal. E quando anunciaram a digressão de 2025, cerca de dez dias depois, Portugal não estava incluído. Tenho amigos que se preparam para ir vê-los a Paris – alguns que vieram comigo no ano passado, alguns que não. 


 


Ainda pensei nisso, mas recusei. Em parte por motivos práticos: não queria gastar tanto dinheiro outra vez e é mais complicado marcar férias durante o verão. Em parte por motivos sentimentais. Queria voltar a vê-los em Portugal. Apaixonei-me por eles no Rock in Rio de 2008. Uma bandeira portuguesa pendurada no teclado, Chester deixando elogios a Lisboa. E agora, ainda por cima, tenho aqui toda uma família graças aos Linkin Park – é mais fácil para eles virem a um concerto no nosso próprio país. 


 


…mais sobre isso já a seguir. 


 


Queria agora falar sobre os Hybrid Park – o outro tributo português. Vi-os duas vezes no inverno passado, uma vez no RCA, outra no Pátio do Sol – quando andávamos em abstinência sem concertos dos HT. Eles terão nascido em finais de 2017 – mais ou menos na mesma altura que os Hybrid Theory. 


 


Faz sentido: foi quando perdemos Chester e os Linkin Park entraram em pausa. A resposta de dois conjuntos de músicos portugueses foi dar uma de Katniss Everdeen: “we volunteer as tribute”


 


Os Hybrid Park não têm tido tanto sucesso como os Hybrid Theory, mas há que recordar que, no que toca a tributos, os moces são a exceção, não a regra. Consta também que este é apenas um entre vários projetos destes músicos. O baixista, Sérgio Duarte, é aliás manager do RCA. Um sujeito simpático. Da última vez que vi a banda, ofereceu-me uma palheta – por sinal, num momento em que estava com as emoções um pouco à flor da pele (música dos Linkin Park, gente…).


 


Entre ele, o Pedro dos Decoded e o Cenoura, ando com afinidade para baixistas. 


 


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Nas músicas pré-From Zero, os Hybrid Park fazem um bom trabalho. Continuo a preferir os HT, mas não são nada maus. No entanto, para mim, estes valem pela Kaddy – a cantora que recrutaram para fazer de Emily. Eu adoro a voz dela, para começar, faz um excelente trabalho. 


 


Além disso, spoilers para a minha análise ao álbum, mas eu gosto do From Zero pelo menos tanto quanto gosto dos restantes álbuns dos Linkin Park. E gosto de ouvir estas músicas em concerto. Os Hybrid Theory não as vão tocar, pelo menos não tão cedo. Ao menos tenho os Hybrid Park para preencher essa lacuna. 


 


Não garanto que me torne uma fã tão assídua como tenho sido em relação aos HT. Mas hei de voltar a vê-los. Penso que os próximos concertos serão no fim de semana do aniversário da morte de Chester. Não vou pois já tenho planos para esse fim de semana – e nem sequer é com os HT, o que, depois dos últimos dois anos, é estranho. Mas se tiverem oportunidade, caros leitores, ide vê-los. A Sofia recomenda. 


 


O último concerto que recordaremos é, então, o segundo dos Hybrid Theory, no Pavilhão Atlântico. Faz sentido serem eles a abrir e a fechar (bem… mais ou menos) esta retrospetiva. Correndo o risco de me repetir, foi graças a gente que conheci através dos mês moces que fui à maior parte dos concertos sobre os quais escrevi – inclusive o dos Linkin Park originais. Foi graças a Hybrid Theory – a banda e, sobretudo, a família – que desbloqueiei esta versão de mim.


 


O 22 de março foi, então, uma noite de homenagem ao Chester, dois dias depois daquele que seria o seu quadragésimo-nono aniversário. Houveram algumas dúvidas, mas o Pavilhão Atlântico voltou a encher, talvez tenha mesmo esgotado. 


 


A abertura ficou a cargo dos Grey Daze, a primeira banda do Chester. Nos anos que se seguiram à morte dele, os membros sobreviventes foram lançando versões remasterizadas das músicas que Chester gravou com a banda – era ele adolescente. No último ano e tal, no entanto, recrutaram um novo vocalista – Cris Hodges que, por sinal, também canta num tributo aos Linkin Park, os In the End – e entretanto começaram a criar e a lançar músicas novas, sem Chester. 


 


Mais ou menos como os próprios Linkin Park fizeram. 


 


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Nos meses anteriores ao concerto, andei a estudar a discografia dos Grey Daze. Gosto mais de Linkin Park e mesmo de Dead By Sunrise, mas música deles não é nada má – sobretudo tendo em conta que foi criada por adolescentes. E, de uma maneira muito típica comigo, fiquei a gostar mais depois de ouvir ao vivo. 


 


Só tive pena de não terem tocado a minha preferida, Shouting Out. 


 


Passemos agora aos próprios Hybrid Theory. Em termos de produção pura e dura, foi o melhor concerto deles que vi até agora. Aproveitaram bem as oportunidades que o Pavilhão Atlântico lhes deu. E, apesar de, para já, não tocarem nada de From Zero, não deixaram de se inspirar na nova era dos Linkin Park: com os lasers e uma adaptação de Inception Intro A na abertura do concerto, os ecrãs gigantes em espelho. 


 


O alinhamento foi OK. Tenho alguns reparos. Eles repetiram algumas músicas que já tinham estado em rotação no ano passado e de que, aqui entre nós, já estava um pouco farta: No More Sorrow, Final Masquerade, Lost in the Echo, como referi antes. Abriram com What I've Done, mas tiraram o solo prolongado de que falei acima. Por fim, não gostei muito de One Step Closer como encerramento – prefiro Bleed it Out ou mesmo Faint. 


 


Claro que isto é uma questão de opinião, não é possível agradar a todos. E ninguém me mandou ir a tantos concertos como fui no ano passado. Acho que este concerto também foi filmado e é possível que eles quisessem que músicas como Final Masquerade ou No More Sorrow tivessem registo em vídeo. 


 


E até houveram muitas coisas que me agradaram. Continuo a não adorar Heavy, mas gostei que o Cris dos Grey Daze tenha voltado ao público para fazer dueto com o Ivo. Voltaram a tocar Waiting for the End, mais de um ano depois da última vez – tinha de ser. Tocaram QWERTY, uma favorita dos fãs mas que só teve lançamento oficial no ano passado. O Ivo arrasou: conseguiu recriar a maneira imaculada como Chester alternava entre screamo e melodia. Gostei particularmente da inclusão de In My Remains, uma velha favorita. Por fim, outra surpresa foi Kings to the Kingdom. Chester nunca a cantou ao vivo e mesmo os próprios Linkin Park só tocaram umas duas ou três vezes – depois de Mike fazer uma piadinha com as queixas de falta de The Hunting Party em Papercuts. 


 


No fim, eu e a seita deixámo-nos ficar no Pavilhão. Foi a primeira vez que vi o palco desmontado e o que há por detrás. Fotos e abraços aos membros dos HT já são habituais – e eu valorizo cada um deles. Não tão habitual foi o Dani ter-me acertado com uma goma desde o palco. Em sua defesa, ele estava a tentar acertar no Ivo (que é um alvo pequeno)... mas talvez me vingue. Também pudemos abraçar membros dos Grey Daze: o Chris e o Sean Dowdell, agradecer-lhes por manterem o legado de Chester vivo e prometer-lhes que, caso voltem a Portugal, estaremos lá. 


 


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Porque, no fim do dia, de uma maneira ou de outra, tudo isto tem acontecido graças a Chester. Ele vive em cada uma destas músicas, em cada uma destas bandas, em cada um de nós.


 


Foi um dia excelente. Só sinto que, depois de meses à espera, passou demasiado depressa. E não consegui voltar a ver os Hybrid Theory depois desta. Por esta altura no ano passado, andava a vê-los uma vez por mês – e andava um bocadinho mais feliz. As saudades são muitas. Felizmente não falta muito para a próxima, em Loures. 


 


Nestes últimos tempos tenho sentido que o tema principal do universo Linkin Park é segundas oportunidades. Comigo já tinha acontecido há dois anos, com os Hybrid Theory: os moces deram-me uma oportunidade… Ou melhor, várias oportunidades para ouvir música de Linkin Park ao vivo, de conhecer pessoas através dela. Permitiram-me desenterrar algo que esteve adormecido durante anos. Doeu imenso, mas hoje penso que foi melhor ter arrancado o penso nessa altura do que fazê-lo quando os Linkin Park regressaram. 


 


Terá sido também uma segunda oportunidade para os próprios membros do tributo – para terem uma carreira no mundo da música. E para os fãs: muitos deles na casa dos trinta, quarenta, cinquenta. Os concertos dos HT, as pessoas que conhecemos graças a eles, têm-nos dado novas oportunidades para sermos jovens outra vez – sairmos à noite, conhecermos pessoas, viajarmos, mesmo que seja só dentro do País. 


 


No fundo, o tema destes três textos. 


 


Do mesmo modo, o regresso dos Linkin Park foi uma oportunidade para quatro senhores com quase cinquenta anos começarem de novo – do Zero. Foi uma segunda oportunidade para Emily e Colin abraçarem um projeto desta envergadura – eles que estão perto dos quarenta e estavam longe de serem novatos no mundo da música. 


 


E, claro, tem sido uma segunda oportunidade para os fãs. Para vê-los ao vivo ou, pura e simplesmente, vê-los lançando música nova, videoclipes, entrevistas, sendo uma banda – depois de passarmos anos sem saber se isso voltaria a ser possível. Nenhum fã da minha geração, que estava cá durante o tempo de Chester, é jovem – e nem sequer falo em termos físicos. Nós passámos por muito, aprendemos da pior maneira possível que os nossos heróis não vivem para sempre, que as nossas bandas são frágeis. E foi-nos concedido o enorme privilégio de recuperarmos a nossa banda, mesmo que nem tudo seja igual.


 


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(Fonte)


 


Segundas oportunidades como estas não surgem assim tantas vezes na vida. 


 


É por isso que o Mike nunca mais parou de sorrir, com a cara toda, desde o dia 5 de setembro. É por isso que ele e os colegas se dizem mais felizes do que nunca na banda – aprenderam a dar ainda mais valor. Eu mesma dou mais valor agora, vendo-os sendo uma banda outra vez. Entusiasmando-me com eventos como a inclusão de músicas deles em bandas sonoras, atuações em eventos desportivos – destaque para a final da Liga dos Campeões – até mesmo o lançamento de… gomas (outra que não estava no meu cartão de bingo). 


 


É mais do que nostalgia. Nostalgia só olha para o passado. Aqui temos… Não, recuperámos o presente e o futuro. A possibilidade de criar novas recordações, de continuar a história. 


 


E daqui a um ano vamos ter a maior segunda oportunidade de todas. 


 


Não resisto a entrar em território meta e a escrever sobre o dia em que recebemos a notícia. Era dia 30 de maio, o décimo-primeiro aniversário da participação dos Linkin Park no Rock in Rio de 2014 – a tal noite em que agarrei na mão do Chester. Eu estava de férias – tinha, aliás, um voo de manhã cedo. Antes de embarcar, fiz uma publicação sobre esse concerto na página do Facebook. “Lisboa nunca se cansará de receber Linkin Park”. Durante anos citei a frase com mágoa, agora o subtexto era outro: estávamos à espera. 


 


Depois disso estive offline durante várias horas. Passei o voo escrevendo o primeiro rascunho deste mesmo texto, a parte sobre o concerto de Paris. Isto enquanto ouvia Inception Intro A várias vezes – antes de The Emptiness Machine, antes de Somewhere I Belong – e fiquei com a música na cabeça. Ou seja, estava já no estado de espírito certo. 


 


Finalmente, aterrámos. Ainda dentro do avião, desliguei o modo de voo e dei logo com um reel publicado nas redes sociais do Rock in Rio com a imagem abaixo. O meu coração falhou um batimento. 


 


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O reel acabaria por ser apagado umas duas ou três horas depois. Em defesa do estagiário das redes sociais do RiR, para o cidadão comum, a imagem não é assim tão óbvia. É “apenas” a silhueta do guitarrista Brad Delson (que ironicamente, nesta fase, nem sequer sobe ao palco). O problema foi que era uma imagem parecidíssima com outra, que fazia parte da tal publicação que eu partilhara horas antes, sobre o RiR de 2014 – é logo a primeira fotografia! E a bandeira portuguesa pendurada no teclado é demasiado icónica. 


 


Nós soubemos logo. 


 


Ainda assim, foi preciso esperar várias horas para a confirmação final: os Linkin Park serão cabeças de cartaz no Rock in Rio de 2026 no dia 21 de junho.


 


Já consegui bilhete e não podia estar mais feliz. Sinto que isto é o culminar desta história toda, sobretudo nestes últimos anos: voltar ao início, ao local onde me apaixonei, onde tive duas das melhores noites da minha vida, ter uma terceira. Como disse acima, a derradeira segunda oportunidade. O sonho seria estar na grade, com os próprios Hybrid Theory ao meu lado, bem como todos os amigos que fiz graças a ambas as bandas. Na prática, alguns deles já decidiram que não vão. Mas outros já têm bilhete, como eu. Entretanto, tenho andado também a conversar com outros fãs portugueses de Linkin Park na Internet, também será bom tê-los ao meu lado. 


 


E estou contente por todos os fãs portugueses, como grupo. Vamos vê-los de novo. Mike e os outros membros vão matar saudades de nós e nós deles. Se calhar Emily tentará falar português. E ficaremos com um vídeo gravado profissionalmente de todo o concerto. 


 


Só mesmo os Linkin Park para me fazerem voltar ao Rock in Rio, depois da má experiência do ano passado. Vai ser um sacrifício, até porque, como vou tentar ficar na grade, vou ter de passar lá o dia todo, provavelmente à fome. Só espero que não esteja demasiado calor. 


 


Terei trinta e seis anos quando voltar a ver os Linkin Park. O dobro da idade que tinha quando os vi pela primeira vez, no Rock in Rio de 2008. O primeiro capítulo de uma história que, como referi antes, tem tido tantos desenvolvimentos inesperados e que, agora está numa etapa bem feliz. Adaptando algo que vi algures na Internet, o mundo é um lugar melhor com Linkin Park no ativo, bem como as suas bandas de tributo. 


 



 


Aliás, por estes dias tenho sentido que os Linkin Park são a única coisa a acontecer a nível global – tirando a vitória portuguesa na Liga das Nações. É certamente a única coisa boa a vir dos Estados Unidos neste momento. Chega a ser caricato: pego no telemóvel, de um lado aparecem-me notícias sobre a escalada dos conflitos no Médio Oriente, o crescimento da extrema-direita, da xenofobia, da violência. De outro aparece-me um vídeo da Emily rapando a cabeça a um fã a meio de um concerto.


 


Ao menos serve de consolo.


 


O fim da história está longe. Continuará a ser escrita aqui mesmo, no blogue. 


 


Chegámos, finalmente, ao fim desta retrospetiva. Algo de que me apercebi algures no ano passado foi que já tive o privilégio de ver praticamente todos os meus artistas e bandas preferidos ao vivo pelo menos uma vez. Não creio que haja muita gente que se possa gabar disso. Avril Lavigne, Bryan Adams, Linkin Park, Paramore, Taylor Swift, Within Temptation… Só me falta a Lorde – pode ser que haja oportunidade daqui a um ano ou dois. 


 


O plano é continuar a ir a concertos, dentro das minhas possibilidades. Tenho passado por um período de seca nestas últimas semanas, mas isso irá mudar em breve. Talvez faça um novo apanhado de concertos daqui a um ano ou dois – quando achar que se justifica. Entretanto, o próximo texto daqui do estaminé será sobre Digimon: o Início – já comecei a planeá-lo. A seguir, escreverei sobre From Zero. Depois disso, talvez escreva sobre Virgin, o novo álbum de Lorde, prestes a sair. 


 


Obrigada por terem recordado todos estes dias maravilhosos comigo. Continuem desse lado. 

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