domingo, 8 de março de 2015

Dia da Mulher

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Como todos sabem, hoje, dia 8 de março, celebra-se o Dia Internacional da Mulher. Um dia escolhido para discutir a igualdade de género - ou falta dela - e todas as suas implicações: desde discriminação no acesso à educação e emprego à violência doméstica, sexual e mutilação genital. Uma das melhores coisas que poderia escrever neste dia é que, na atualidade, já se discutem estes assuntos quase todos os dias. E é o que se verifica, sobretudo ao longo do último ano.


 


Falando da minha própria experiência, considero-me sortuda pois, até ao momento, nunca me senti particularmente discriminada por ser mulher (tirando no caso que descrevi aqui, e mesmo assim foi de forma indireta). Quando era pequena, era um pouco maria-rapaz. Não gostava de usar vestidos (embora tivesse tido uma altura em que era obcecada por vestidos de princesa, estilo Idade Média), mais porque demorava demasiado a vesti-los e estes atrapalhavam quando queria correr. Gostava de brincar com bonecas, Barbies de vez em quando, de fazer dos peluches os meus bebés, mas também brincava com carrinhos, com legos, pistolas e espadas, sobretudo com o meu irmão. Ou seja, fazia livremente coisas de meninas e de meninos. 


 


Não me lembro de, na altura, me terem dado a entender que isso era errado. Não sei se os meus pais e outros adultos se calaram de propósito, para não me reprimirem, ou se, na verdade, não viam nada de errado uma menina brincando com espadas. Espero que seja a segunda hipótese, pois isso significaria que, na prática, não há assim tanto machismo na sociedade quanto se pensa. Felizmente. 


 


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A verdade é que nunca abandonei o meu lado maria-rapaz, mesmo depois de deixar a infância. Julgo que tive mais amigos rapazes que raparigas. Aos doze anos comecei a interessar-me por futebol e orgulhava-me de discutir as notícias desportivas de igual para igual com a população masculina da minha turma. Um dos motivos pelos quais comecei a ouvir Avril Lavigne foi por, no início da sua carreira, ela se apresentar com roupas pouco femininas, andando de skate, armando-se em durona, agressiva, tocando guitarra - isto quando o rock era dominado, e ainda é, por homens. Eu identificava-me com isso. Do mesmo modo, muitas das minhas personagens femininas de ficção preferidas têm sempre sido mulheres fortes, lutadoras - e sempre quis que a minha personagem principal, Bia, fosse assim.


 


É por estas e por outras que eu considero que uma parte do discurso feminista é exagerada: aqueles que se obcecam pelo facto de quase todas as histórias das princesas Disney se centrem numa relação romântica ou pela divisão dos brinquedos em "para meninos" e "para meninas". Estas segregações existem, sim, mas conforme o meu exemplo demonstra, as crianças (raparigas e rapazes) por si só não desenvolvem tais preconceitos. Desde que os adultos responsáveis não lhos imponham, elas podem perfeitamente crescer sem se deixarem definir pelo seu género.


 


Também ajuda  facto de a minha mãe ter dado um bom exemplo. Ela é médica, diretora de serviço, tal como o meu pai (o que arrasa a ideia que ainda prevalece de que, mulheres em saúde, só enfermeiras). É uma excelente profissional e conseguiu fazê-lo sem abdicar de ter vida pessoal. Bem pelo contrário: teve três filhos e esteve sempre presente, tanto ela como o meu pai. Ainda que eu esteja longe de ser perfeita, os meus irmãos são fantásticos e as pessoas de fora falam de nós os três como pessoas decentes e educadas - algo que eu sempre considerei um requisito básico mas que, pelos vistos, é raro, sobretudo entre os mais novos.


 


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Nós temos tido mais sorte que vários milhões de mulheres por todo o Mundo. Mesmo na nossa sociedade ainda há muito a fazer, conforme afirmei anteriormente. E felizmente, tal como disse no início do texto, ultimamente temos andado a discutir a sério estes problemas.


 


Há coisas, no entanto, como que não concordo neste debate: a mim não faz sentido falar de quotas de mulheres. Não me parece que isso resolva o problema na discriminação, pelo contrário: na altura de contratar, vamos olhar ainda mais para o sexo dos candidatos só para preencher os trinta por cento de mulheres. Só se elimina a desigualdade de género quando o género deixa de ser critério.


 


Também não defendo que, agora, todas as mulheres devem aspirar a líderes mundiais ou a outro cargo semelhante. Se uma mulher quiser ser CEO de uma multinacional, ótimo. Se uma mulher quiser ficar em casa a cuidar dos filhos, também é ótimo. Desde que não o façam por serem a isso obrigadas pela família, pelo marido ou pela sociedade. Por outras palavras, eu defendo a liberdade de escolha, que as mulheres possam ser donas do seu destino.


 


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No discurso do feminismo, a mensagem com que mais me identifico é a campanha #HeForShe, para a qual a atriz Emma Watson dá a cara. Eu também acho que o problema da desigualdade de género não é exclusivo das mulheres. Aliás, nalguns aspetos, a discriminação pode ser mais prejudicial para o sexo masculino. Uma mulher que faça coisas de homem é, de uma maneira geral, mais tolerada que um homem que faça coisas de mulher. E isto tem vários exemplos. Costuma-se dizer que um homem não chora - deve ser duro, agressivo, não deve demonstrar emoções que não raiva. Chorar, mostrar vulnerabilidade, entre outras atitudes, são consideradas coisas de mulher - quando isto é visto como um defeito, é como se dissessem que atitudes femininas são inferiores. Por outro lado, muitas vezes se esquece que os homens também podem sofrer de violência doméstica, abusos sexuais, violações - e ao trauma que essas situações provocam por si só, junta-se o estigma de terem sido vítimas quando, supostamente, não pertencem ao sexo "indefeso".


 


Todo este assunto dá pano para mangas, tem inúmeras outras vertentes de que não falei aqui, se fosse cobrir todas elas escrevia um livro inteiro. Conforme já disse antes, há que começar por algum lado, contribuir para o debate de uma forma ou de outra. Pode ser que, tal como ouvi na rádio hoje de manhã, se possa ir mudando o Mundo ao mover grãos de areia. Termino esta entrada com uma ligação para outra deste blogue, também focada no 8 de março mas de uma forma mais ligeira. Feliz Dia da Mulher!

5 comentários:

  1. Os meus pais também me transmitiram a mim e às minhas irmãs uma abertura no que toca "brinquedos para rapazes ou para raparigas" e essas coisas. Eu tenho 24 anos (fi-los no dia 10 Janeiro) e duas irmãs mais velhas (faziam-me a vida negra), uma tem agora 30 e a outra 45!!
    Vestiam-me de nenuco, de bailarina e princesa para grande desgosto do meu pai. Eu odiava barbies, bonecas, nenucos da mesma maneira que odiava Action Mans, batmans e homens aranhas. Adora Playmobil Lego Pinipom, construía imensas cidades com isto (a minha irmã destruía de vez em quando, é imperdoável). E não sei porquê adorava andar de... bandelete.. até ao dia em que fui assim para a escola.
    E sempre fui muito desportista como muito introspetivo (fechar-me na solidão a ler poesia, a escrever romances ou tocar piano), depois a minha evolução foi um bocado decadente mas pronto!

    Lendo o teu texto gostaria de saber a tua opinião como mulher sobre este tema já que eu, como homem, é costume darem-me menos autoridade para este tipo de assuntos pois alegam a minha inexperiência (eu já fui imensas vezes assediado!!):
    https://www.youtube.com/watch?v=mbo-GY-2x5Q

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  2. "Coisas de homens" e "coisas de mulheres" é uma questão de cultura apenas, e isso está a mudar. Antigamente, torcia-se o nariz a rapazes que gostavam de cor-de-rosa e bonecas porque podia significar que iam ser gays. O que, em primeiro lugar, não é necessariamente verdade, em segundo, ser gay não é uma coisa má -- cada vez mais pessoas concordam com isso.

    Além disso, ainda há muito a ideia de que feminino = inferior. Uma mulher que se interesse por moda e maquilhagem é apelidada de fútil, mas ninguém se importa que um homem goste de futebol, que está longe de ser uma coisa "útil" à Humanidade -- digo isto como uma grande amante de futebol. Isto manifesta-se de muitas formas. Os rapazes são desencorajados de se interessarem por coisas "femininas". As raparigas, por sua vez, são encorajadas a deixarem o seu lado "feminino" para trás -- ou seja, acabam por internalizar a misoginia. Muitas como eu passam por uma fase, sobretudo na adolescência, em que dizem: "Ah, eu não sou como as outras raparigas, eu não faço ballet/não uso maquilhagem/eu uso calças de gangas e ténis, não vestidos e saltos altos/eu gosto de futebol/eu não gosto dos One Direction". Só há bem pouco tempo é que me comecei a aperceber de que, com isto, estava a dizer que coisas associadas ao sexo feminino (ou melhor, coisas que a sociedade associa ao sexo feminino) são inferiores.

    Eu acho que estamos finalmente a mudar de mentalidades e a dar mais liberdade às crianças (e às pessoas em geral) para serem aquilo que quiserem. Pode às vezes haver exageros -- como a questão dos livros de atividades para meninos e meninas, do verão passado -- mas isso faz parte. Por isso não, não acho que haja mal nenhum que não te encaixasses nos estereótipos masculinos em miúdo.

    Quanto à questão do assédio (não vi o episódio todo), estou longe de ser uma autoridade na matéria, por isso, não tomes aquilo que vou dizer como verdade absoluta. É verdade que, na larga maioria das vezes, as vítimas são mulheres e os agressões são homens. Isso não significa que seja SEMPRE assim -- pelo contrário, acho que é mais difícil aos homens admitirem que são vítimas.

    Eu também já fui vítima de assédio, nada de muito grave, mas felizmente nunca ninguém me passou a mensagem de que era algo que tivesse de aceitar calada. Por exemplo, contei aos meus pais quando me tocaram onde não deviam sem autorização, na escola, e eles fizeram queixa à minha diretora de turma -- não deixei de me sentir humilhada, mas hoje vejo que não tinha razões para isso e que fiz bem em não ficar calada. E quando um tipo tentou agarrar-me numa discoteca, fiz-lhe um gesto de "Afasta-te!".

    A questão é que as mulheres são muito mais educadas para se responsabilizarem pelos comportamentos dos homens, porque eles, coitadinhos, têm o cérebro entre as pernas, não se conseguem aguentar. Se uma mulher é assediada, ou mesmo violada, vai haver sempre alguém a dizer: "Ela estava a pedi-las, quem lhe mandou usar uma mini-saia, ou beber bebidas alcóolicas, ou andar sozinha na rua à noite, ou dar conversa àquele tipo, ou ir a uma discoteca ou, essencialmente, ser mulher?". REGRA GERAL (ênfase no regra geral), os homens não têm de estar a pensar duas vezes antes de vestir uma roupa mais provocante, que poderão atrair agressores sexuais. É por isso que parece mal quando os homens falam sobre abusos sexuais, porque eles têm privilégios que as mulheres não têm.

    DITO ISTO, se tu foste assediado, também não tens de ficar calado. O assédio nunca é aceitável, independentemente das circunstâncias.

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  3. A tua opinião é bastante diferente da minha, mas gostei de a ler pois quanto mais opiniões souber melhor.

    A maquilhagem que se usa diariamente sem nenhum fim profissional é como muitas atividades que apenas se aceita nas mulheres visto como inferiores, não admira já que as mulheres eram vistas como tal e ainda há reflexos dessa visão. Lavar a casa, cozinhar, é algo importantíssimo no meu ponto de vista e acho que no teu também e não é bem visto, a não ser em algumas profissões como o de cozinheiro (que normalmente dá ordens e portanto nem cozinha) ou o dono duma empresa de limpezas (este então é que não limpa mesmo, é como o ministro da agricultura que muito provavelmente nunca plantou uma couve). A questão: são as atividades desvalorizadas em si e consequentemente aplicam-se às mulheres ou são as atividades desvalorizadas precisamente por estarem ligadas às mulheres?
    Se o futebol é útil ou não, parece-me que ele tem a potencialidade de ser tão útil como um outro desporto qualquer em Portugal dou o exemplo do voleibol. Mas o voleibol em Portugal não é algo visto como útil, para mim é útil. (Isto já entramos noutra discussão mas importante no sentido de distinguir o valor que se dá às atividades consoante o género que estão ligadas e o valor que lhe são atribuídas. Já agora eu odeio futebol e voleibol, para mim só existe um desporto: Hóquei Patins)

    Eu não tenho nada contra o assédio, até o apoio, agora esta opinião vem de mim que sou uma pessoa que já fui várias vezes abordado tanto por homens como por mulheres em espaços que não eram discotecas/bares/ou qualquer lugar associado a qualquer comportamento mais sexual, (e as vezes que fui não foram de amigas/namoradas ou brincadeiras, foi mesmo assédio, por exemplo uma vez uma mulher em Paris começou a pôr-me a mão na perna). Assédio para mim é diferente de violação e como tudo, há sempre limites (eu uma vez ajudei uma amiga pois um tipo perseguia-lhe por Lisboa, e eu não lhe espanquei porque não foi preciso. Estou a dar este exemplo não por heroísmo, até porque eu sou anti-herói e gosto de desgraças, mas para te demonstrar que reconheço os abusos)
    Agora o comportamento da mulher ou do homem, tendências, eu tento ler o máximo de pesquisas sociológicas e antropológicas, e também das áreas da biologia, e acho que são questões que têm muito que se lhe diga, se de facto o homem é mais sexual, digamos assim, que a mulher é um exemplo.
    Por favor não me leves a mal esta opinião, tu para mim serás para sempre aquela que escreveu a carta à Misty

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  4. Não, eu não levo a mal as tuas opiniões, isto é um debate civilizado.

    Tem só cuidado para não confundires assédio com sedução ou galanteio ou engate. Não existe mal nenhum com trocas de frases de engate. O assédio é quando ocorre contra a vontade de uma das partes e/ou quando falta ao respeito da vítima.

    Quanto às tarefas domésticas e à cozinha, hoje em dia, qualquer um tem de ter algumas noções básicas, seja homem ou mulher. Nem todos podemos fiar-nos no cônjuge ou pagar a uma empregada doméstica: temos de saber alimentarmo-nos, vestir roupa lavada e viver numa casa limpa (confesso que tenho de trabalhar nisso, já que ainda vivo em casa dos meus pais...).

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