quinta-feira, 27 de abril de 2017

Não sejam idiotas. Vacinem as vossas crianças!

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Por estes dias, existem duas coisas que me irritam mais do que qualquer outra no Mundo. Uma delas é Donald Trump e tudo o que ele representa. Outra é a moda de não vacinar as crianças. Esta última é um dos assuntos da moda, tendo em conta o recente surto de sarampo que provocou a morte de uma adolescente não-vacinada. Sendo algo relacionado com a minha área - Ciências Farmacêuticas - achei por bem escrever sobre o assunto.


 


Começo por admitir um viés: eu tendo a ser pró-Medicina Tradicional e pró-Indústria Farmacêutica. Para além de ser de Ciências Farmacêuticas e ter tirado um curso em Ensaios Clínicos, tenho pais médicos. É uma questão de educação, em suma. Fui sempre uma mulher de Ciência. Não desvalorizo as medicinas alternativas, mas confio menos nelas que na Medicina Tradicional.


 


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Não quero com isto dizer que a Medicina e a Indústria Farmacêutica sejam isentas de corrupção - nada o é neste mundo. No entanto, o público em geral não parece ter noção de quanta fiscalização e controlo existe na Indústria Farmacêutica. Na minha primeira aula de Farmacologia, o meu professor - julgo que foi o professor Hélder Mota-Filipe, que chegou a ser presidente do Infarmed - afirmou mesmo que o setor farmacêutico é um dos mais regulados, a par do setor da aviação civil. Nenhum medicamento ou dispositivo médico é lançado no mercado sem ser sujeito a uma infinidade de controlos e avaliações (aquando do fabrico, dos ensaios clínicos, etc). Ou seja, dificilmente lançam produtos sem eficácia e/ou com níveis de toxicidade inaceitáveis. Mesmo depois de o medicamento ter entrado no mercado, continua a haver monitorização constante de possíveis efeitos secundários.


 


E este sistema, bem como a Medicina em geral, por muitos defeitos que tenha, permitiram aumentar imenso a nossa esperança média de vida, qualidade de vida em geral e reduzir a nossa mortalidade infantil. Cá em Portugal, aliás, temos mais sorte que uma boa parte do Mundo, com o nosso Sistema Nacional de Saúde tendencialmente gratuito. Este pode já ter visto melhores dias, mas ainda permite, entre outros benefícios, cem por cento de comparticipação nos medicamentos para o HIV. Tendo em conta que foram estes medicamentos que permitiram transformar a SIDA numa doença crónica, que não mata, sim, isto é um enorme benefício.


 


Como tal, irrita-me solenemente quando as pessoas não dão o devido valor à Medicina. Ainda mais quando desdenham abertamente dela. A moda de não vacinar as criancinhas é o expoente máximo dessa filosofia.


 


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Antes de mais nada, uma breve explicação sobre como funcionam as vacinas - acho que, no meio da polémica toda, ainda ninguém o explicou como deve ser. Quando o nosso organismo é infetado por um determinado agente patogénico (um vírus, uma bactéria, etc) pela primeira vez, a resposta do sistema imunitário - resposta primária - é relativamente lenta e pouco intensa e a pessoa pode desenvolver sintomas mais intensos da doença. Aquando desse primeiro contacto e “combate” com o agente patogénico, são criadas células de memória. Estas guardam a informação específica sobre esse agente patogénico durante vários anos, às vezes mesmo durante a vida toda. Assim, quando ocorre uma segunda infeção pelo mesmo agente patogénico, uma vez que o sistema imunitário já o “conhece” e sabe tudo sobre ele, graças às tais células de memória, a resposta - resposta secundária - é muito mais rápida e intensa. Podemos nem sequer desenvolver sintomas da doença em questão.


 


Ora, o que as vacinas fazem é explorar as potencialidades dessas células de memória. As vacinas contém, ou o agente patogénico que queremos combater numa versão atenuada, ou partículas desse agente. O objetivo é que estas provoquem uma resposta primária por parte do sistema imunitário. Como usamos uma versão bem mais suave do agente patogénico em questão, ou partes dele, não ficamos doentes (embora certas vacinas, como a do tétano, possam provocar alguma reação). No entanto, se tudo funcionar como deve ser, a resposta do sistema imunitário será o suficiente para criar células de memória.


 


Depois disso, quando ocorrer uma infeção a sério por parte desse agente, o sistema imunitário pensará que é uma segunda infeção e partirá de imediato para a resposta secundária. Assim, desenvolvemos menos sintomas da doença em questão - ou não a desenvolvemos de todo.


 


Tem-se também falado, por estes dias, da imunidade de grupo. Passo também a explicar esse conceito.


 


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Existem pessoas que não podem ser vacinadas, por motivos de saúde: pessoas imunossuprimidas, que sofrem de cancro ou que desenvolvem reações alérgicas a um qualquer componente da vacina. Consta que a bebé de treze meses que terá começado o surto e a jovem de dezassete anos que morreu não foram vacinadas por motivos de saúde.  


 


Nesses casos, é importante que as pessoas em redor desses indivíduos estejam vacinadas. Porquê? Porque, como o sistema imunitário delas combate rapidamente o agente patogénico em questão, é menos provável que contagiem uma pessoa não-vacinada.


 


Como podem ver, a decisão de vacinarem ou não os vossos filhos afeta-nos a todos. As vacinas são uma das principais razões pelas quais temos a longevidade e a qualidade de vida que temos hoje, tal como referi acima. Ajudam a prevenir doenças devastadoras como, lá está, o sarampo (cujas complicações incluem cegueira, pneumonia e encefalite - as duas últimas são, frequentemente, fatais), a tuberculose, a tosse convulsa, a difteria, a febre-amarela, a poliomielite (que pode provocar paralisia), a papeira e a rubéola (que, se contraída durante a gravidez, pode provocar malformações, abortos espontâneos e nados-mortos). Os programas de vacinação em países subdesenvolvidos têm tido resultados fantásticos - na Guiné-Bissau, por exemplo, ajudaram a reduzir a mortalidade infantil de cinquenta para sete por cento. Aliás, a UNICEF acaba de revelar que a vacinação reduziu em oitenta e cinco por cento a morte de crianças com menos de cinco anos.


 


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Eu não gosto de tecer juízos de valor sobre as capacidades parentais de ninguém quando nem sequer sou mãe. Mas que pai ou mãe nega este tipo de proteção aos seus filhos? Quem é que permite que os seus filhos corram o risco de contrair doenças como estas?


 


Claro que existem riscos na vacinação, como existem em qualquer medicamento ou dispositivo médico. Um princípio que aprendemos outra e outra vez no curso de Ciências Farmacêuticas reza que tudo é um veneno, depende apenas da dose. Mesmo assim, tirando reações alérgicas graves (como, segundo consta, seria o caso da jovem que morreu) ou caso estejam imunossuprimidos, não vejo que malefícios suplantam o risco de contrair poliomielite ou tosse convulsa. Mesmo que as vacinas causassem autismo, como se chegou a alegar - e já foi mais que provado que esse estudo foi a mãe de todas as fraudes - arrisco-me a dizer que prefiro ter um filho autista do que um filho morto.


 


Ainda não conheci pessoalmente nenhum anti-vacinas confesso e militante, mas, se vier a conhecer, não devo conseguir evitar dizer-lhes umas quantas verdades. Com o devido respeito, estas pessoas julgam-se mais bem informadas que médicos, enfermeiros, farmacêuticos, cientistas? Pessoas que estudam durante anos, investigam durante anos? Cujas descobertas têm se ser revistas por outros investigadores antes de serem publicadas? Um estudo aldrabado e uns quantos blogues manhosos valem mais que séculos de Medicina?


 


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A verdade é que estamos a entrar em tempos perigosos, dos chamados “factos alternativos”, em que confundimos verdade com opinião. Não foi por acaso que, no fim de semana passado, se realizou uma marcha pela Ciência em diversos pontos do Mundo, Portugal incluído. A ignorância e a arrogância unidas são catastróficas. Eu tenho medo de viver num mundo assim.


 


Mas regressemos às vacinas. Se a decisão de não vacinar afetasse exclusivamente o decisor, ninguém se ralava. Infelizmente, a decisão afeta crianças - não apenas os filhos dos decisores, os filhos de muitos outros também. Seriam capazes de viver com a vossa consciência se o vosso filho morresse só porque vocês não querem vaciná-lo? Querem mesmo correr esse risco?


 


Não sejam idiotas. Oiçam os médicos, enfermeiros e farmacêuticos. Vacinem as vossas crianças!


 


Alguns dos artigos que consultei, só para verem que não estou a inventar nada.


 



 

6 comentários:

  1. Muito bom. Afinal, na sua grande maioria, são conceitos que se ensinam/aprendem no 6.º ano e consolidam no 9.º. Como ignorar? Como não entender?

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  2. Agora que o refere, sim, acho que já se fala de vacinas no 6ºano - eu, pelo menos, acho que falei, embora só tenha aprendido pormenores como as células de memória no 12º ano.

    É menos uma desculpa.

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  3. Fala sim. Sou prof. da disciplina.
    Normalmente, abordo as células de memória já no 6.º ano quando perante uma boa turma ou mediana. Os "miúdos" não têm dificuldade em compreender e estão na "idade dos porquês". Adoram saber porque apenas têm parotidite ou varicela uma vez, por exemplo, mas existem casos em que a doença se verifica uma 2.ª.
    Quando lecionei CN no 3.º CEB, este tema era aprofundado no 8.º ano. Na altura não tínhamos Biologia no 9.º. Como tal, passou para este ano, uma vez que tem sido dada maior ênfase às Ciências da Terra (não concordo muito). Entretanto, com o aparecimento dos exames, comecei a lecionar sobretudo Mat, mas nunca deixei as CN6 (pelo menos isso). Ou seja, ensinamos os filhos, os pais têm acesso a esta matéria (e só não a estudaram caso não tenham feito o 6.º ano pois também eu a estudei neste ano, na 2.ª metade dos anos 80) e... é o que se vê.
    Algo de que tenho quase certeza absoluta prende-se com o não nos podermos matricular, nas escolas que frequentei como aluno, sem as vacinas em dia.
    Contudo, o que faz com que os programas sejam "manobrados" por quem pouco ou nada entende de educação. Antes, era através de CN6 que motivava os meus alunos para percursos relacionados com a saúde. Ou apenas com o bem-estar, no caso dos menos interessados. Os níveis 2 eram tão escassos!!!
    Um abraço e continue (posso tratar por tu? No meu caso pode!!!) a escrever como escreve.

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  4. Sim, pode(s) tratar-me por tu. ;) Obrigada.

    Também concordo que não faz muito sentido darem prioridade à Geologia e outras Ciências da Terra. Não é absolutamente essencial os miúdos conhecerem os nomes e origens dos "calhaus todos", como dizia a minha irmã. Só se pretenderem seguir Geologia, Ordenamento do Território e, vá lá, Engenharia. No entanto, todos temos um corpo humano, acho mais importante conhecê-lo.

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  5. Plenamente de acordo. Só tive Geologia no 2.º ano de curso e Petrologia no 3.º. Sou suspeito pois não gosto muito de Geologia e adoro Fisiologia humana e vegetal. Mas como não concordar com a tua irmã?
    Nos meus tempos de estudante do básico e secundário era dada maior importância ao corpo humano. Tínhamos, a para de biologia, Saúde do 9.º ao 11.º ano e Socorrismo no 11.º ano. Ecologia tinha uma grande abrangência ambiental (10.º ano). Agora, rochas e afins? Por alguma razão do 6.º para o 7.º (rochas), as notas baixam.

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  6. Pois. Eu também gosto de Geologia. Ainda me lembro de muito acerca dos "calhaus" e, quando visito um sítio novo, gosto de olhar para as características da paisagem, para o tipo de rochas na zona. Mas, lá está, é conhecimento que não aplico na prática. Talvez não tivesse sido necessário gastar metade do 10º e do 11º ano estudando "calhaus".

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