quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Digimon 02 #13

Não se pode falar de Digimon sem falar da música, em particular dos temas das digievoluções. Em 02 são introduzidas duas novas variantes de digievolução - Armo e ADN - cada uma com direito a tema próprio. Nesta temporada, as sequências de digievolução são um pouco melhor feitas que as de Adventures, sobretudo ao sincronizarem-se melhor com as músicas (o orçamento devia estar mais alargado). 


 



 


 


Break Up serve de banda sonora à ArmoDigievolução. Esta começa suave, com os "la la la...", mas depressa ganha ritmo com um solo de bateria que pede headbangs e notas de guitarra e piano. A música suaviza de novo nas estâncias, mas mantém o crescendo até ao refrão. Por esta altura, estamos já de punhos no ar.


 



 


Beat Hit, o tema da Digievolução ADN, também tem uma introdução em crescendo. Gosto particularmente do solo da bateria, que se sincroniza perfeitamente com os disparos do Paildramon na sequência evolutiva. Possui ainda uns quantos solos de guitarra bem sacados (à semelhança de Break Up). Ainda assim, o melhor é mesmo a sua terceira parte: primeiro com vocais distorcidos, depois com o solo de saxofone - instrumento que regressa para a conclusão da música.


 


Aquando da digievolução para nível Hiper Campeão, contudo, nota-se que os produtores ficaram com preguiça de arranjarem uma terceira música. Usaram Target, o tema do genérico (que não é nada de especial, embora eu goste da versão calminha do mesmo que, de vez em quando, aparece como música de fundo), e arrumaram o assunto. É um bocadinho anti-climático. Mais valia usarem de novo Beat Hit.


 


Nem Break Up nem Beat Hit roçam, sequer, a magia e emoção de Brave Heart, nem aspiram a isso. Ambas as faixas cumprem bem o seu papel de aumentar o entusiasmo da audiência aquando das digievoluções e dos combates. Não se lhes poderia exigir mais nada.


 


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Uma palavra rápida para as dobragens. Ao contrário do que aconteceu com Adventure, revi quase toda a temporada 02 em português de Portugal. Os episódios eram-me mais fáceis de enontrar que os originais e, pleo que me recordavaa a dobragem portuguesa não era má - ou, pelo menos, não tão má como a da primeira temporada. Ora, ainda que não tenha nada a apontar às vozes em si, a interpretação deixa muito a desejar. É, infelizmente, um problema comum a muitos desenhos animados na televisão portuguesa: metade dos atores contratados para as dobragens não estão para se chatear. Até em miúda eu percebia isso.


 


Em suma, apesar das fraquezas do Enredo e das Personagens menos bem desenvolvidas que em Adventure, a história global de Digimon 02 é boa, com uma boa mensagem, vilões interessantes (mais do que os heróis) e um final satisfatório - ainda que com um epílogo controverso. Em comparação com Adventure, empalidece, em certo, mas continua a ser muito melhor que a larga maioria das séries dirigidas ao público infantil. Quantos desenhos animados conhecem vocês que falem de solidão, rejeição, ansiedade escolar e, sobretudo, morte de entes queridos? Quantos desenhos animados conhecem vocês em que os vilões são pessoas normais que não conseguiram lidar com as coisas más que lhes aconteceram? 


 


Assim sendo, eu recomendaria tanto Adventure como 02 a qualquer criança (mais alertaria os pais para perguntas difíceis). Recomendaria Adventure a um adolescente ou adulto que se interessasse por anime e não se importasse com o público-alvo da série, mas só lhes recomendaria 02 se tivessem gostado muito da primeira temporada.


 


Não ficamos por aqui em termos de Digimon. Ainda falta falar da razão pela qual revi Adventure e 02 e escrevi estes testamentos todos: o primeiro filme de Digimon Adventures Tri, que saiu há pouco mais de um mês. A próxima entrada será sobre ele. Espero tê-la publicada antes do final do ano.


 


E já que hoje é dia 24... votos de um Natal muito feliz! 


 


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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Digimon 02 #12 - ...e viveram felizes para sempre?

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Tenho vindo a perceber que ninguém gosta de epílogos do género "não-sei-quantos anos mais tarde...". Muita coisa acontece nesse intervalo de tempo, por norma, as personagens mudam, mas nós, a audiência, não testemunhamos nada dessa mudança e as decisões tomadas pelas personagens nem sempre fazem sentido para nós. É um dos problemas do epílogo de Harry Potter: ainda no outro dia, J.K.Rowling teve de explicar o facto de Harry ter dado o nome de Snape a um dos filhos.


 


O mesmo se passa com o epílogo de 02, em que descobrimos os diferentes rumos que as doze Crianças Escolhidas tomaram. Este epílogo é tão controverso precisamente porque, nalguns casos, estes destinos são incompreensíveis.


 


Comecemos pelos casos menos polémicos: Izzy torna-se um estudioso do Mundo Digital, Joe torna-se médico de Digimons, Cody, como vimos antes, torna-se advogado. Nada a apontar. Conforme já tinha referido, Davis abre o tal restaurante italiano. Ele precisava de se transformar num grande empresário e de figurar na capa da Time? Também não me parece, mas faz sentido tendo e conta o espírito sonhador e lutador que revelou na batalha final de 02.


 


Outros destinos aceitáveis são ods de Ken como detetive, Kari como educadora de infância e T.K. como escritor. Mimi torna-se cozinheira e crítica culinária - não me é difícil imaginá-la como juíza no MasterChef. Ela consegue ser suficientemente mazinha para isso, quando quer. Tai torna-se diplomata e medeia as relações entre o Mundo Real e o Digital - pode parecer estranho no fim de 02, mas pelo primeiro filme de Tri já se torna mais compreensível.


 


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Agora o resto... (*suspiro*) Não me incomoda que Yolei se tenha casado com Ken. Mas tornar-se dona-de-casa?... Não vou ser daqueles que dizem que não ter carreira é anti-feminista e tal, eu acredito em liberdade para escolher sem ser julgada. Mas, para ser sincera, Yolei é a última rapariga em Digimon que eu imaginaria abdicando de uma carreira profissional. Ela, que, como disse antes, é inteligente, é a única com o mesmo fascínio de Izzy pela informática. Além disso, enérgica e entusiasta como é, não estou a vê-la contente por ficar em casa a tomar conta de criancinhas o tempo todo. Não faz sentido nenhum.


 


Por fim temos Matt e Sora (*suspiro ainda maior*). Não é dito preto no branco que eles se juntaram... mas o filho de Matt parece-se com Sora e a filha de Sora parece-se com Matt (outra coisa mal feita no epílogo é que cada um dos filhos das antigas Crianças Escolhidas são quase um copy-paste do progenitor que conhecemos). Eu não sou do género shipper, ao contrário de três quartos da Internet (tenho alturas em que chego a ser anti-shippers depois do que fizeram com Arrow) mas... Matt e Sora? Não me faz muito sentido, as personalidades deles são demasiado semelhantes. Se Matt não estivesse tão marcado pelo divórcio dos pais - pelo menos em Adventures - creio que seria muito parecido com Sora. Desde miúda que acho que Tai e Sora fariam muito mais sentido como casal. Dito isto, já que temos Tri, se derem alguns sinais favoráveis a um relacionamento entre Matt e Sora, não digo mais nada... mas espero que não desperdicem demasiado tempo com romance e, por amor a todos os monstrinhos digitais, ponham Tai e Matt às turras um com o outro (e já puseram...) por todos os motivos que quiserem... menos por Sora!


 


Na verdade, incomodam-me mais as carreiras que ambos seguiram. Matt, que tanto em 02 como em Tri toca em bandas de rock, torma-se... astronauta? A sério? Alguém se lembra de Matt alguma vez ter dado sinais de interesse em astronomia/astrofísica? Quem eu esperaria que trabalhasse nessa área seria Izzy, talvez Cody ou... bem, Yolei!


 


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Por sua vez Sora - a maria-rapaz de Adventures, que jogava futebol numa equipa masculina - torna-se... estilista de quimonos. Yep. Não digo que não seja possível uma menina ter uma fase de maria-rapaz para, mais tarde, se tornar mais feminina. Ouvi falar vagamente de uma certa Avril Lavigne que passou por um processo parecido. É dado a entender que Sora deixou-se convencer pela mãe a desistir do futebol e a seguir uma carreira mais "feminina", perdendo uma oportunidade de ser uma pioneira. O meu eu aos doze anos, que admirava imenso Sora, está um bocadinho desiludido. 


 


Uma das questões que esperamos ver respondidas em Tri é quanto deste epílogo ainda fará parte do cânone após o último filme. Não sei se os guionistas vão respeitar o que ficou determinado no fim de 02 ou se vão alterar coisas. A segunda opção pode ser arriscada, mesmo que os guionistas o façam para agradar aos fãs - as alterações terão de ser muito bem feitas e bem fundamentadas. Manter os destinos definidos no epílogo será a opção mais segura mas, já agora, espero que aproveitem para justificar as opções mais controversas, ainda que discretamente.


 


Estamos quase a terminar a nossa análise - não vamos chegar às quinze entradas sobre Adventure, mas não ficamos longe... Em princípio a próxima entrada será a última. Continuem por aí...

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Digimon 02 #11 - Oikawa, as Sementes da Escuridão e a batalha final

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Quando Oikawa aparece pela primeira vez em 02, tudo na sua aparência grita "Sinistro!", mas também isto é uma série infantil, não precisam de muita subtileza. Ele aborda a mãe de Matt e T.K e parece saber mais sobre Digimons que o cidadão comum. Nos episódios seguintes, com a ajuda dos seus minions Arukenimon e Mummymon, começa a recrutar crianças (para todos os efeitos, rapta-as) em quem, conforme já foi referido anteriormente, implantará Sementes da Escuridão. Descobrimos, mais tarde, que foi ele quem manipulou Ken para que se tornasse Imperador Digimon. Também se descobre que Oikawa criou Arukenimon e Mummymon, misturando o seu próprio ADN com dados digitais.


 


Ainda não falei sobre Arukenimon nem Mummymon, pois não? Falo agora rapidamente. Na altura em que ainda não se conhece a verdadeira identidade de Arukenimon, o mistério à volta da mulher, que cria Digimons a partir de Torres Negras e parece conhecer Ken demasiado bem, está bem construído, com as respostas sendo reveladas a pouco e pouco. Eventualmente, monta uma (óbvia) armadilha às Crianças Escolhidas, que as obriga a esforçarem-se para lhe sobreviverem. É também nessa altura que revela a sua verdadeira identidade e que Mummymon se junta a ela. No entanto, o par prolonga a sua estadia por demasiado tempo. A partir de certa altura tornam-se pouco mais que um mal conseguido alívio cómico. Eu tê-los-ia excluído da história mais cedo, no fim do arco "BlackWarGreymon e as Pedras Sagradas" - e de forma mais bondosa do que aquela que acabam por receber.


 


Enfim, voltando a Oikawa, já tinha dado a entender em entradas anteriores que este tem uma história de vida semelhante à de Ken. Oikawa era uma criança solitária, cujo único amigo era Hiroki, o pai de Cody. Ambos gostavam muito de videojogos, tendo sido capazes de descobrir o Mundo Digimon. O avô paterno de Cody, Chikara, tenta refrear a obsessão do filho pelos videojogos, mas não é bem sucedido. Hiroki e Oikawa crescem, mas o seu interesse pelo Mundo Digital não desaparece. É dado a entender que Oikawa começa a trabalhar na criação de Arukenimon e Mummymon encorajado por Hiroki. Até que este último morre em serviço. À semelhança do que aconteceu com Ken, Oikawa cai numa depressão, ninguém procura ajudá-lo, ficando vulnerável à influência das Trevas.


 


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O ponto mais baixo de Oikawa ocorre durante a cronologia de Adventures, no dia em que as Crianças Escolhidas derrotam VenomMyotismon e regressão ao Mundo Digital para enfrentar os Dark Masters. Quando Oikawa está imerso numa mistura de inveja, desespero e raiva, o espírito do recém-derrotado Myotismon apodera-se dele e usa-o para colocar em prática um plano - algo rebuscado, diga-se - para recuperar a sua forma física.


 


Tal como referi na entrada anterior, BlackWarGreymon é a primeira personagem a perceber o que se passa com Oikawa e a ter noção da gravidade disso. Tenta aconselhar Oikawa a resistir ao domínio. Quando não é bem sucedido, usa a sua morte para encerrar a passagem entre o Mundo Real e o Digital, numa tentativa de conter a força maligna que controla Oikawa. 


 


Isto ocorre pouco após Chikara confrontar Oikawa. O pai de Hiroki não mostra arrependimento por ter tentado afastar o filho dos videojogos, mas confessa que se arrepende de não ter tentado ajudar Oikawa após a morte de Hiroki, mesmo sabendo que o melhor amigo do filho precisava - da mesma maneira como os pais de Ken se arrependem de não terem apoiado o filho mais novo quando este mais necessitava. Chikara tenta corrigir o seu erro, estende uma mão a Oikawa e este, por um momento, parece conseguir escapar à influência de Myotismon... apenas para que Myotismon recupere o controlo de novo e ataque Chikara. Como sabemos, BlackWarGreymon salva a vida ao avô de Cody metendo-se à frente do ataque.


 


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No episódio seguinte, Oikawa reúne as portadoras as Sementes da Escuridão e usa o seu poder para abrir a passagem para o Mundo Digital. Aparentemente consegue e as Crianças Escolhidas seguem-nos... mas acabam por ir parar ao Mundo dos Sonhos - não se percebe ao certo se isto é devido ao selo de BlackWarGreymon, se é pela combinação errada das cartas, se é pela influência de Myotismon. É aqui que este recupera o seu corpo, assumindo a forma de MaloMyotismon. E começa a batalha final. 


 


Esta batalha prolonga-se por sensivelmente dois episódios e meio, muita coisa acontece. As Crianças Escolhidas são encurraladas numa realidade ilusória e escapam dela. Enfrentam MaloMyotismon com todas as evoluções possíveis ao mesmo tempo (é um momento muito fixe). O combate acaba por abrir uma brecha no Mundo dos Sonhos, conduzindo ao Mundo Digimon. A partir daqui MaloMyotismon tenta contaminar tanto o Mundo Real como o Digital com Escuridão. Há um momento bonito em que todas as Crianças Escolhidas por todo o Mundo (incluindo o elenco de Adventures) usam a Luz dos seus dispositivos digitais para contrariar a Escuridão. Eventualmente essas mesmas Crianças conseguem abrir passagens entre o Mundo Real e o Mundo Digimon e são transportadas até ao palco do combate.


 


Mas nem assim se consegue derrotar MaloMyotismon - o desânimo das crianças portadoras das Sementes da Escuridão mantém-no vivo, sobretudo quando estas lamentam não serem Crianças Escolhidas. Só quando os heróis as obrigam a revelar os seus sonhos é que MaloMyotismon é, finalmente, derrotado.


 


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Há quem ache este desenvolvimento um pouco lamechas, não sei razão, mas eu acho que faz sentido dentro do tema de 02. Tal como o final de Adventures fez sentido: numa temporada muito centrada no desenvolvimento das personagens, faz sentido que o momento decisivo tenha sido as Crianças recordarem o caminho que percorreram e serem capazes de invocar as Virtudes que lhes atribuíram mesmo sem os Cartões. 


 


Aquilo que é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior de 02 é o facto de esta ser menos a história das Crianças Escolhidas e mais a história dos vilões: Ken, Oikawa, mesmo BlackWarGreymon de certa forma contribuíram mais para o avanço e resolução do Enredo que os heróis, conforme de resto tenho vindo a dar a entender. O mesmo volta a acontecer agora, no final, com as crianças portadoras de Sementes da Escuridão. Tal como Ken e Oikawa, ao deixarem-se dominar pelos seus sentimentos negativos - neste caso, baixa auto-estima, ansiedade escolar, rejeição - foram facilmente influenciáveis pelas Trevas. Vimos que Ken só conseguiu escapar ao controlo da Escuridão ao fazer as pazes com os pais, consigo mesmo e com a memória de Osamu, ao recuperar a esperança. Vimos que a única altura em que Oikawa escapou ao controlo de Myotismon foi quando alguém lhe ofereceu a sua amizade. O mesmo acontece com as portadoras das Sementes da Escuridão: ao recordarem os seus próprios sonhos, recuperam a inocência, a alegria de viver, a esperança. Recuperam o poder que Myotismon lhes tirou, permitindo que este seja derrotado.


 


É este o tema de 02: o triunfo da vontade própria, da esperança, da inocência e, claro, da amizade e do amor sobre o poder da Escuridão. O tema de Adventures é essencialmente o mesmo, é certo, mas em 02 a Escuridão não está apenas num qualquer Digimon monstruoso: está dentro de nós. Acaba por ser uma mensagem muito parecida com as de Once Upon a Time, sobre o poder da vontade própria, bem como a importância do amor nas suas diversas formas - sobretudo na temporada atual, que viu Emma, a protagonista, possuída igualmente pelas Trevas.


 


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O que me chateia neste final é, lá está, a irrelevância das Crianças Escolhidas. Em quase todos os momentos-chave em 02, as coisas resolvem-se com Deus Ex-Machinas ou devido a ações de outras personagens sem serem os protagonistas. Acontece o mesmo aqui. Todo o contributo que as Crianças Escolhidas fazem para a vitória consiste em darem a Luz dos seus D3 (à semelhança de outras mil crianças) e encorajarem as portadoras das Sementes da Escuridão a vencerem Myotismon à sua maneira.


 


Mudando um pouco de assunto, também achei "batota" que as portadoras das Sementes da Escuridão, depois de se convencerem que podiam ser felizes mesmo não sendo Crianças Escolhidas... recebem cada uma um companheiro Digimon. Aliás, o final dá a entender que todos os seres humanos arranjam um companheiro Digimon. Tri já veio desmentir... por agora.


 


As coisas não acabam com a derrota de Myotismon, no entanto. Tal como referi antes, Cody faz questão de ajudar um moribundo Oikawa a cumprir o seu sonho de visitar o Mundo Digimon. O destino é-lhe simultaneamente cruel e generoso ao dar a Oikawa um companheiro Digimon quando este está prestes a morrer. Nesse momento, Oikawa usa o poder do Mundo dos Sonhos de modo a que o que resta da sua energia vital repare e proteja o Mundo Digimon. Curiosamente, essa energia assume a forma de borboletas, o que referencia a música-tema de Adventure.


 


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Uau. Será que Oikawa é o sujeito narrativo em Butterfly? Ele esteve sempre lá desde o início? Eis algo sobre que pensar...


 


Na próxima entrada falaremos, então, sobre esse tão controverso epílogo...

domingo, 20 de dezembro de 2015

Digimon 02 #10 - O Digimon que seguia Sartre

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BlackWarGreymon é o Mewtwo de Digimon. Ambos encontram-se entre os mais poderosos entre os seus semelhantes. Ambos foram criados artificialmente para serem a arma de um vilão. Ambos têm crises existenciais sobre a sua condição contra-natura, por não serem seres vivos no verdadeiro sentido da palavra, por não saberem onde pertencem. Ambos, de uma maneira igualmente rebuscada, optam por um caminho destrutivo como solução para os seus problemas existenciais. Ambos procuram um adversário à altura e quem os criou/deu vida. No caso de Mewtwo, tanto o adversário como o criador correspondem a Mew, o Pokémon Lendário a partir do qual Mewtwo foi clonado. No caso de BlackWarGreymon, o adversário é Azulongmon e o criador é Oikawa. Ambos, a certa altura, decidem optar por um caminho diferente por influência de criaturas do lado dos heróis. No caso de Mewtwo, falamos de Ash, que se sacrifica para terminar a luta entre Mewtwo e Mew e, mais tarde, salva a vida ao próprio Mewtwo. No caso de BlackWarGreymon, é Agumon, que desde a primeira oportunidade procura apelar ao lado "humano" de BlackWarGreymon - mais tarde, Veemon e Wormmon fazem o mesmo. São todos criaturas inocentes, sem maldade, sem preconceitos, antídoto ideal para demónios interiores dos dois anti-vilões. Suponho que outras histórias sobre criações artificiais atinjam notas semelhantes. 


 


Se por um lado, as crises existenciais de BlackWarGreymon, o vazio que ele sente, têm a sua lógica e são de aplaudir, sobretudo depois de Adventure ter tido vilões tão unidimensionais, por outro lado, demasiadas vezes BlackWarGreymon parece um adolescente passando por uma fase emo e, definitivamente, entra demasiado em terreno filosófico - o que é estranho para uma série destinada a um público infantil. Também não ajuda o facto de ser responsável pelo mini-arco mais frustrante de toda a temporada, em que ele pura e simplesmente não percebe que o percurso destrutivo que percorre não lhe levará a lado nenhum. 


 


O papel de BlackWarGreymon está melhor conseguido na última parte da narrativa. Depois de sair de cena após o confronto com Azulongmon, BlackWarGreymon aparece no Mundo Real à procura do seu criador, ainda que indireto, Oikawa. É notável a maneira como BlackWarGreymon consegue ver claramente a verdadeira natureza Oikawa (é o primeiro a fazê-lo, aliás), as semelhanças entre ambos. Tanto Oikawa como BlackWarGreymon têm ligações tanto ao Mundo Real como ao Digital sem pertencerem verdadeiramente a nenhum deles. Os dois desprezam-se mutuamente à conta de tais semelhanças.


 


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A certa altura, WarGreymon e Imperialdramon impedem BlackWarGreymon de matar Oikawa (o único que poderia extrair as Sementes da Escuridão que implantara em várias crianças). Têm um pequeno combate, de que BlackWarGreymon sai derrotado. Depois de regressarem ao nível Infantil, Agumon, Veemon e Wormmon tentam convencer BlackWarGreymon a seguir um caminho alternativo. Achei curiosas as palavras de Wormmon, claramente inspiradas naquilo que se passou com Ken. BlackWarGreymon considera ridículos os conselhos dos Digimons... mas aceita segui-los, pois, na verdade, as suas ações anteriores não haviam resultado em nada.


 


Mesmo assim, não termina aqui o seu interesse em Oikawa. Quando este recolhe a energia da primeira Semente da Escuridão que desabrocha, no episódio seguinte, BlackWarGreymon confronta-o de novo, desta feita com a verdade: que mesmo com o poder da Semente da Escuridão, Oikawa continua sozinho. Da mesma maneira que a destruição que BlackWarGreymon provocara em nada contrariara a sua sensação de vazio. Assiste à conversa entre Oikawa e o avô de Cody, sobre a qual falaremos na próxima entrada. É o único a perceber que Oikawa não está a agir por vontade própria, que está a ser controlado por uma qualquer força da Escuridão. Assim, quando essa força tenta atingir o avô de Cody, BlackWarGreymon mete-se a frente e é atingido mortalmente. Percebendo a ameaça da mão que manipula Oikawa como uma marioneta, numa tentativa de detê-la, BlackWarGreymon usa a sua própria morte para selar o portal entre o Mundo Real e o Mundo Digimon.


 


Tenho uma certa pena que BlackWarGreymon não tenha vivido tempo suficiente para experimentar o caminho sugerido por Agumon, que não tenha tido tempo para ser feliz. Podíamos tê-lo visto como aliado das Crianças Escolhidas, ou mais do que isso: como um amigo. De qualquer forma, ainda que a história de BlackWarGreymon nem sempre tenha sido bem conseguida, ao menos teve um fim satisfatório: algo que, nesta temporada, não foi muito comum.


 


Na próxima publicação falaremos, finalmente, de Oikawa.


 


 


 

sábado, 19 de dezembro de 2015

Digimon 02 #9 - Recuperando o controlo

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Ken é o vilão durante quase metade de 02 antes de ser integrado no grupo dos heróis Antes de ser desmascarado como Imperador Digimon, as Crianças Escolhidas conheciam-no como um famoso menino-prodígio, com capacidades académicas e atléticas sobrenaturais. Ninguém suspeitava que, nos seus tempos livres, aquele pequeno génio divertia-se construindo Torres Negras no Mundo Digital e torturando Digimons indefesos.


 


Descobrimos, mais tarde, que Ken pensava que tudo aquilo não passava de um jogo de computador. Porém, ao rever agora os primeiros episódios de 02, não acreditei que isso explicasse tudo. Ken dá sinais de ser um autêntico sociopata. Eu, pelo menos (e qualquer pessoa minimamente decente, espero), nunca trataria criatura nenhuma daquela forma, mesmo que pensasse que não eram reais, que não passavam de personagens num jogo de computador - sobretudo se estas fossem capazes de comunicar comigo, gritar de dor, pedir clemência. E o que achava Ken que as outras Crianças Escolhidas eram? Meros adversários para ele derrotar? Jogadores que levavam tudo aquilo demasiado a sério? Que, se Ken os "matasse" (e ele tentou), para eles seria apenas "Game Over"? A única explicação que me ocorre é a Semente da Escuridão ter catalisado muitas destas acções - e mesmo assim não deixa de ser um tanto ou quanto rebuscado.


 


A verdade é que Ken tem um passado trágico e foi, pelo menos em parte, para fugir a ele que se tornou Imperador Digimon. O jovem tinha um irmão mais velho, Osamu. Como em quase todos os relacionamentos entre irmãos, o relacionamento tinha momentos de amor e momentos de ódio. Por um lado, Osamu ensinara-lhe a soprar bolas de sabão. Por outro lado, irritava-se quando Ken mexia nas coisas dele e, visto ser um aluno brilhante, recebia todas as atenções dos pais. Numa altura em que, julgo eu, Ken já tinha visitado o Mundo Digital e sido infetado com a Semente da Escuridão, Ken chega a desejar que Osamu desaparecesse.


 


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E, de uma forma melodramática e extremamente cliché, Osamu morre pouco depois, atropelado.


 


Como seria de esperar, Ken entra numa espiral depressiva depois da morte do irmão, atormentado pelo luto e pela culpa. Os adultos da sua vida não reparam nisso, tirando Oikawa. Longe de ajudá-lo, Oikawa aproveita-se da dor e solidão de Ken para executar o seu plano. Através de um sinistro e enigmático e-mail anónimo, Oikawa manipula Ken, enviando-o até ao Mar Negro, onde o seu Dispositivo Digital é contaminado pela Escuridão. Desta forma, Ken inicia o seu percurso como Imperador Digimon, onde procura recuperar o controlo que perdera sobre a sua vida quando Osamu morrera. Sem fazer ideia que, longe de recuperar o controlo, ao se tornar Imperador Digimon Ken abdica ainda mais da sua vontade própria.


 


Conforme julgo já ter dito aqui no blogue, nestas coisas não sou de lágrima fácil. No entanto, cheguei a lacrimejar quando revi o episódio em que Ken, depois de perceber que o Mundo Digital era mais do que um jogo de computador e que os Digimons são seres vivos, depois de perder Wormmon, Ken revisita tudo isto. A sua redenção começa quando, no fim do episódio, Wormmon renasce e Ken faz as pazes com os pais, com a memória do irmão e consigo mesmo.


 


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Queria, aliás, falar rapidamente sobre os pais de Ken. É difícil não sentir compaixão para com eles. Eles cometeram erros com ambos os filhos, mas são erros humanos, que qualquer pai ou mãe poderia cometer. Deixaram-se levar pelo brilhantismo, primeiro de Osamu, depois de Ken, sem pensar na felicidade deles, mesmo na sua sanidade mental, no caso de Ken. O filho mais velho morre. Por entre a sua própria dor, não reparam no sofrimento do filho mais novo e/ou não conseguiram ajudá-lo, deixando suscetível às maquinações de terceiros. Quando Ken se transforma num prodígio, os seus pais pensam que recuperaram o filho que tinham perdido. Mais tarde, o filho desaparece-lhes durante algum tempo (a ideia que fica é que pensam que ele se suicidara). Foram bonitos os vários momentos em que os pais de Ken admitiram os seus erros. Também gostei de, em episódios posteriores, ir vendo o alívio e alegria da mãe de Ken quando este pede autorização para passar a noite em casa de Davis, ou quando Ken convida os amigos a sua casa - tudo provas de que o filho se estava a transformar numa criança saudável e feliz de novo.


 


Conforme fui referindo nas entradas anteriores, as Crianças Escolhidas acabam por perdoar Ken, cada uma na sua altura, cada uma à sua maneira. Agora que penso nisso, o único dos heróis que não interagiu em particular com um Ken em tentativa de redenção é T.K., se a memória não me falha. Tal como disse antes, Cody é o último a perdoá-lo. Fá-lo ao aceitar o convite de Ken para a festa de Natal em sua casa - depois de vários episódios lidando com BlackWarGreymon e da conversa com Azulongmon, altura em que, suponho eu, Cody terá começado a perceber que as coisas nem sempre são a preto e branco, ao contrário do que este sempre acreditara.


 


Porém, o desenvolvimento de Ken não acaba aqui. Na quarta parte do segundo arco, Oikawa rapta-o e conta-lhe tudo: que sabe que Ken foi infetado por uma semente da Escuridão, que esta é a responsável pelas suas capacidades atléticas e académicas sobrenaturais, mas que, como contrapartida, predispõe-no para as Trevas. O plano inicial de Oikawa era encher o Mundo Digimon de Torres Negras, que alterassem o equilíbrio entre o Mundo Real e o Digital, permitindo-lhe visitar o Mundo Digimon. Quando isso falhou, Arukenimon e Mummymon encorajaram BlackWarGreymon a destruir as Pedras Sagradas (não me parece que isto fizesse parte do plano de Oikawa, parece-me mais um acaso feliz e... conveniente, mas também, conforme referi aqui, esse mini-arco fez pouco sentido).


 


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Quando isso falhou, enquanto as Crianças Escolhidas andavam ocupadas destruindo Torres Negras por todo o Mundo, Oikawa e os seus minions, Arukenimon e Mummymon abordaram várias crianças inseguras e de baixa auto-estima, convencendo-lhes que podiam dar-lhes os super-poderes que haviam feito de Ken um menino-prodígio. E, de facto, quando Oikawa rapta Ken, a sua Semente da Escuridão (que deixara de funcionar no momento em que Ken inicia a sua redenção) é extraída e implantada nessas Crianças. Quando as Sementes desabrochassem, Oikawa usaria o seu poder para abrir um portal para o Mundo Digimon.


 


Quando era miúda, esta história das Sementes da Escuridão perturbava-me, como perturbaria qualquer criança ou adolescente pressionado pelo desempenho escolar, quer pelos pais, pelos professores ou por eles mesmos. Mesmo hoje, acho assustadoramente realista que uma criança, e mesmo um adulto, esteja disposto a vender a sua alma para se tornar magicamente sobredotado.


 


Na altura em que Ken é finalmente libertado, os amigos tinham passado as últimas horas lutando contra os minions de Daemon. Eventualmente, as seis Crianças Escolhidas enfrentam Daemon diretamente. No entanto, os heróis não conseguem acabar com ele, nem com todos os seus Digimons na sua máxima força. Uma solução proposta é encerrá-lo num sítio qualquer, onde não pudesse fazer nada. Nessa altura, Ken revela que tem o poder de abrir um portal para o Mar Negro. 


 


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Este é o clímax do desenvolvimento de Ken. Ele nunca escolhera nada do que lhe acontecera nos últimos anos da sua vida. Não escolhera perder o irmão. Não escolhera... bem, ser uma Criança Escolhida. Não escolhera ser infetado por uma Semente da Escuridão nem ser manipulado por Oikawa para que se tornasse o Imperador Digimon. E, no entanto, naquele preciso dia, Ken vira outras crianças escolherem aquilo que arruinara a sua vida. Ao oferecer-se para abrir o portal para o Mar Negro, Ken reconhece o seu lado obscuro, um lado que, mesmo sem a Semente da Escuridão, provavelmente fará sempre parte dele. Porém, naquele momento, não era Arukenimon, nem Oikawa, nem mesmo a própria Escuridão a ditar os termos, a controlar a situação. Era Ken. Ele usará a própria Escuridão para derrotar a Escuridão.


 


Não que seja fácil. A agonia que Ken sente enquanto tenta resistir à influência das Trevas e/ou do Mar Negro é clara e... sonora. Mas Ken não está sozinho. Nunca teria conseguido anular a influência da Semente da Escuridão se estivesse sozinho, se não tivesse Wormmon, os seus pais, as outras Crianças Escolhidas. São precisamente elas a emprestar-lhe força e coragem para abrir o portal. É de assinalar que a primeira pessoa que corre a ajudar Ken é Kari, que também já tivera de luar contra a influência do Mar Negro. E que a última pessoa, quem relembra a Ken tudo o que já conseguira até ao momento, quem faz o clique final é Davis: aquele que, desde o primeiro momento, acreditara na melhor faceta de Ken.


 


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Este é o melhor momento de toda a temporada, o equivalente ao momento de Tai e Matt em Adventure que referi aqui. Quando Ken regressa a casa no final desse dia, conta finalmente toda a verdade aos seus pais. 


 


O mais triste é que Oikawa, a pessoa que manipulou Ken, acaba por ter um percurso semelhante à da criança que usou como marioneta. Mas não será ainda sobre ele que falaremos na próxima entrada. Existe uma certa criatura cheia de dúvidas existenciais que merece a nossa atenção...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Digimon 02 #8 - Não tão iluminada

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Tal como tinha referido anteriormente, quando vi 02 pela primeira vez, Kari era a minha personagem preferida. No entanto, agora que revi a temporada, não sei exatamente por que motivo gostava assim tanto dela. Talvez porque era a única rapariga que não era uma Mimi 2.0 ou sem sentido de humor (lembrem-se que eu pensava que Cody era uma rapariga). Talvez porque gostava do seu visual (vocês não imaginam durante quanto tempo andei à procura de luvas sem dedos...). Também acho que projetei muitas coisas nela.


 


À semelhança de T.K., Kari tornou-se mais confiante e desenrascada com a idade, mas de uma forma igualmente genérica. Além disso, Kari continua sobrenaturalmente altruísta (embora com menos martirização). Eu achei interessante ela ter dito, no episódio em que ela e Yolei desbloqueiam a Digievolução ADN, que não consegue exprimir livremente os seus sentimentos, dizer que tem medo. Continuamos sem saber ao certo porquê e, pior, não seria difícil arranjar uma explicação: poderia ser por ter adoecido gravemente em pequena e visto o efeito que isso tivera nos pais e no irmão e não querer ver mais pessoas sofrendo por sua causa. De qualquer forma, é uma boa explicação para a sua vulnerabilidade à influência do Mar Negro (para além do facto de, como encarnação da Luz, ser a inimiga natural da Escuridão, como diz Yolei). Assumindo que as Trevas funcionam como metáfora para a depressão e o pior lado da natureza humana, costuma-se dizer que as pessoas com mau feitio, que não reprimem os seus sentimentos, têm melhor saúde física e psicológica, vivem mais tempo. 


 


Podia, aliás, ter sido feito um paralelismo entre Kari e os percursos de Ken e Oikawa (de quem falaremos mais tarde), que, na sua solidão, permitiram que as Trevas os controlassem. Isso nunca aconteceu a Kari pois esta nunca esteve sozinha: tinha o irmão, Gatomon, T.K. e, mais tarde, Yolei. 


 


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O pior é que os guionistas não aproveitaram nada deste potencial e Kari, para grande irritação minha, acaba por passar demasiadas vezes por donzela em perigo, necessitando constantemente de ser salva, sobretudo por rapazes (o irmão, T.K., Davis...). Isto é particularmente evidente no sétimo e no décimo-terceiro episódio. No sétimo episódio, em que Kari fica presa numa cidade hostil no Mundo Digimon, Davis passa o tempo todo tentando armar-se em cavaleiro andante e com ciúmes de T.K. Para seu crédito, este último tem o bom senso de não alinhar nos jogos de um Davis movido a testosterona. E ao menos, neste episódio, Kari consegue salvar-se a si própria, de certa forma, ao fazer-se reconhecer pelo Andromon.


 


Quem me dera que o mesmo acontecesse no décimo-terceiro episódio. Neste capítulo sente o Mar Negro chamando-a através de pesadelos e alucinações e T.K. repara nisso. Focamo-nos brevemente nas inseguranças de Kari, na sua dependência de Tai (outro aspeto que podia ter originado uma linha narrativa interessante). Quando, finalmente, a jovem é transportada para o Mar Negro, ela encontra um grupo de Divermon escravizados por Espirais Negras do Imperador Digimon, que lhe pedem que os liberte e os proteja de um MegaSeadramon igualmente escravizado, para que possam regressar para junto do seu "deus das profundezas" (Dragomon). Pelo meio, Kari envia uma espécie de sinal de socorro a T.K. e Gatomon e estes vêm ter com ela ao Mar Negro. 


 


Ora, esta seria uma boa oportunidade para Kari ultrapassar as suas inseguranças, usar a sua própria Luz para digievoluir Gatomon e salvar-se a si mesma, mas não é isso que acontece. Gatomon digievolui para Angewomon por meio de um Deus Ex-Machina, T.K e Angewomon impedem os Divermon de reterem Kari para fazerem dela sua consorte (na versão japonesa... sim... os dobradores portugueses tiveram o bom senso de mudar para "a sua escolhida"). Para todos os efeitos, Kari mantém as inseguranças do início do episódio, T.K. passa por cavaleiro andante e, tal como disse antes, nunca mais voltamos a ouvir falar, nem dos Divermon, nem de Dragomon.


 



 


Uma palavra final para Gatomon. Em Adventures, ela era um dos Digimons ligados a Crianças Escolhidas mais maduros e interessantes, por ter sido escrava de Myotismon antes de encontrar Kari. No entanto, em 02 ela é relegada para o papel genérico dos outros companheiros Digimons. O que é estranho numa temporada com vilões complexos. Custa a acreditar que, enquanto as Crianças discutiam se Ken era ou não de confiança, se ela legítimo ou não matarem BlackWarGreymon, Gatomon não tivesse nada a dizer sobre o assunto. 


 


Talvez a personalidade de Kari se desenvolva em Tri mas, para ser sincera, não tenho grandes esperanças nisso. Entretanto, na próxima publicação, falaremos de uma personagem mais interessante...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Digimon 02 #7 - Sem piedade

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Um problema comum a T.K e Kari, os únicos do elenco de Adventure que continuam Crianças Escolhidas a título regular, é o facto de a idade não os ter tornado mais interessantes. Pelo menos não a um nível que considero aceitável. Agora que não têm de ficar à sombra de Crianças Escolhidas mais velhas, em particular dos irmãos, estão livres para serem tão corajosos e engenhosos como qualquer outro dos heróis - pena é fazerem-o de uma forma tão genérica.


 


O desenvolvimento mais notável em relação a Adventure é o lado obscuro de T.K., que emerge ainda durante a luta com o Imperador Digimon. Como se sabe, da primeira vez que Patamon Digievoluiu para Angemon, este sacrificou-se para que Devimon fosse derrotado. Na altura, conforme assinalei antes, T.K. não pareceu particularmente traumatizado por perder o seu Digimon, até porque este renasceu no episódio seguinte. No entanto, eu admito a hipótese de o trauma ter ficado enterrado, para ressurgir quando o jovem volta a ver Devimon, passados aqueles anos todos. Mais: quando T.K percebe que Ken pretende usar o poder de Devimon para criar Kimeramon, claramente sem saber em que se estava a meter, T.K. entra em modo Berserk e vai confrontar o Imperador Digimon.


 


Este é um dos momentos mais populares de T.K. A maneira como o jovem controla a sua raiva no confronto com Ken é de mestre. Quando T.K. mostra todo o desprezo que sente pelo Imperador Digimon por este não saber de todo o que anda a fazer, Ken - que, por esta altura, começa a perder o controlo da situação - leva aquilo à letra e responde com insultos e uma chicotada. Chicotada essa que T.K. recebe sem um esgar de dor, apenas com indiferença. Só depois de terminar o seu discurso é que T.K. parte para o combate corpo a corpo - onde, como se tudo o que fizera antes não fosse já à patrão, o jovem ainda agarra o chicote de Ken com a mão nua.


 


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Desculpa Tai. Tu serás sempre o líder supremo das Crianças Escolhidas e tal, mas nunca conseguirás suplantar T.K. no seu confronto com o Imperador Digimon. Além disso... é este o mesmo T.K. que, em Adventures, Matt achava completamente indefeso?


 


Um pouco à semelhança de Cody, T.K. não tem piedade para com Digimons aliados à Escuridão, embora por motivos diferentes: menos por princípio, mais em termos pessoais. Mesmo se não contarmos com o caso de Devimon, há que recordar que, em Adventure, os vilões são cem por cento maus e sem escrúpulos. Não admira que T.K. seja dos menos tolerantes para com BlackWarGreymon. Aliás, achei curiosa a maneira como Angemon Digievoluiu para MagnaAngemon motivado, não por esperança, antes por intolerância contra as Trevas - fiquei mesmo com a ideia de que MagnaAngemon era um anjo impiedoso, pronto a condenar um pecador às chamas do Inferno (a sério. As falas de MagnaAngemon podiam ter sido ditas por um padre fazendo um exorcismo). No entanto, como acontece frequentemente nesta parte da narrativa, não deu em nada. 


 


Só aquando da conversa com Azulongmon é que T.K. reconhece que a Luz e a Escuridão são indissociáveis. É uma grande evolução em relação à intolerância dos episódios anteriores, mas eu gostava de ter visto mais repercussões desta mudança nas suas crenças.


 


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O parceiro de T.K. na Digievolução ADN é Cody. Não falei desta parceria na análise a Cody porque, na verdade, não há muito para falar. Tal como escrevi antes, os dois até têm aspetos em comum e Cody, ao perceber que é com T.K. que terá de emparceirar, tenta decifrá-lo, chegando mesmo a pedir conselhos a Matt. No entanto, a ligação entre os dois arrasta-se e, quando a digievolução acontece, acontece de uma forma muito anticlimática: eles olham um para o outro, dizem praticamente "Agora? Agora!" e puff! Fez-se o Chocapic! Perdão, desbloquearam a Digievolução ADN. Não podiam ter feito isso um ou dois episódios antes?


 


Em todo o caso, a grande vantagem de T.K. e Kari como personagens é o facto de regressarem a Tri como protagonistas. Ainda poderão dar algo mais à história. Pelo menos é isso que espero...


 


As próximas Crianças Escolhidas de que vamos falar também têm um relacionamento muito próprio com a Escuridão. Continuem desse lado...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Digimon 02 #6 - O barómetro moral

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Por algum motivo, na dobragem portuguesa (que foi adaptada da espanhola), tornaram Cody uma rapariga. Não acho que isso tenha prejudicado a história, tirando no epílogo, em que ele aparece homem feito. Na minha opinião, Cody funcionaria bem como uma personagem feminina. Lembro-me, inclusivamente, de quando era miúda ter ficado contente por termos um número igual de rapazes e raparigas entre as Crianças Escolhidas. Mas isso seria demasiado progressista...


 


A personalidade de Cody parece ser um híbrido das personalidades de Izzy e Joe. Tal como Izzy, Cody é uma criança um bocado tímida, discreta, obediente e respeitadora para com os adultos da sua família - sobretudo o seu avô. É natural, tendo em conta que o seu pai era polícia e morreu em serviço, protegendo uma qualquer personalidade política. Igualmente em linha com esse facto, Cody dá uma grande importância à honra, ao dever e à honestidade, de uma maneira que recorda Joe, de certa forma.


 


É precisamente de Izzy e Joe que Cody "herda" os Digiovos. Se o Digiovo da Lealdade (pessoalmente, acho que a tradução mais correta é Confiabilidade, mas vou seguir a dobragem portuguesa para não criar confusão) faz sentido, o do Conhecimento não faz sentido absolutamente nenhum. Em nenhum momento Cody funciona como o Cérebro do grupo. Na verdade, tal como expliquei na entrada anterior, Yolei cumpre mais vezes esse papel. Mas uma rapariga representante do Conhecimento? Podia lá ser! As raparigas em Digimon apenas servem ou para serem as mamãs das Crianças Escolhidas, ou para serem fiteiras, ou para serem sobrenaturalmente altruístas


 


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Desabafos feministas à parte, faz sentido que, numa história com vilões complexos, tenham incluído uma Criança Escolhida com uma moralidade a preto e branco, que fizesse de barómetro moral do grupo. Nestas circunstâncias, era muito difícil Cody não evoluir por muito que os guionistas tentassem. Não é de admirar que Cody seja o último a perdoar e a aceitar Ken no grupo, quando este se junta ao lado dos bons. Do mesmo modo, na altura em que as Crianças Escolhidas descobrem que o BlackWarGreymon, apesar de ser constituído por Torras Negras, tem consciência e debatem se é legítimo tentarem matá-lo, Cody não perde tempo e confronta-o de uma maneira suicida. Diz-lhe, parafraseando: "Se na verdade tens coração, não queremos matar-te, por isso pára!". Não serve de muito, mas, tal como disse antes, nesta altura tudo o que as Crianças Escolhidas fazem não serve rigorosamente para nada. 


 


De qualquer forma, é com Oikawa que as convicções de Cody são verdadeiramente testadas - ao descobrir que este foi amigo de infância de Hiroki, o seu falecido pai, e que ambos tinham descoberto o Mundo Digimon por essa altura. Que Oikawa nunca recuperara da perda do melhor amigo. Que Chikara, avô paterno de Cody, se arrepende de não ter estendido uma mão a Oikawa após a morte de Hiroki sendo, portanto, parcialmente responsável pelos eventos de 02.


 


Hei de falar melhor sobre esta faceta da história. Para já, tudo o que interessa é que, (depois de ter testemunhado a redenção de Ken, de conhecer a história de Oikawa, de ver o BlackWarGreymon - o BlackWarGreymon -  salvar a vida do seu avô) a evolução de Cody culmina quando, mesmo depois da vitória final, ajuda um Oikawa enfraquecido por anos de possessão, à beira da morte, a cumprir o seu sonho de visitar o Mundo Digimon.


 


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De entre as Crianças Escolhidas em 02, Cody é o único que eu gostaria de acompanhar nos anos que se seguem aos eventos desta temporada. Agora que a moralidade a preto e branco com que ele foi educado foi questionada e, também, com a revolta natural da adolescência, não me surpreenderia vê-lo rebelando-se contra a mãe e o avô (sobretudo agora que Cody conhece os erros que Chikara cometeu), questionando a "morte honrada" que o pai teve. Sabemos do Epílogo que ele se tornará advogado de defesa em adulto. Em 02 deu os primeiros passos nessa direção. Gostava de ver mais desse percurso.


 


Talvez possamos vê-lo em Tri. 


 


O único problema de Cody é ser um pouco aborrecido. Um pouco à semelhança de Joe, Cody leva-se demasiado a sério. No entanto, ao contrário de Joe, cuja seriedade e rigidez é motivo de piada desde o início e que, de qualquer forma, começa cedo a ganhar sentido de humor, nada disso acontece com Cody. É pena que a Criança Escolhida melhor desenvolida seja, por vezes, a mais enfadonha...


 


No que toca à análise das Crianças Escolhidas, já vamos a meio. Continuem ligados, na próxima entrada falaremos de T.K.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Digimon 02 #5 - A herdeira da princesinha

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Yolei é quase uma cópia de Mimi, quer nas qualidades, quer nos defeitos. A única diferença entre ela e Mimi é o facto de ter um lado geek, de ser a única capaz de falar com Izzy na sua própria língua. Infelizmente, esse lado mais geek acaba por aparecer pouco na história. Para todos os efeitos, Izzy continua a ser o cérebro das Crianças Escolhidas.


 


Tal como Mimi - por quem, de resto, nutre uma espécie de girl crush - Yolei diz o que pensa e sente, independentemente das circunstâncias, chegando, por vezes, a revelar-se mimada e egoísta. No entanto, tal como Mimi, Yolei tem o coração no sítio certo. Na verdade, este lado mais bondoso e adverso à violência revela-se mais cedo do que aconteceu com Mimi em Adventures - talvez porque Yolei não tem de se queixar da falta de comida, água corrente, etc, visto que regressa a casa todos os dias, depois das atividades extracurriculares


 


Yolei recebe os Digiovos do Amor (herdando a virtude atribuída a Sora) e da Sinceridade/Inocência (virtude de Mimi). Em relação ao segundo, não há surpresa conforme expliquei acima. A atribuição do Digiovo do Amor é mais questionável. Yolei não é propriamente afetuosa da maneira que Sora é e definitivamente não tem perfil para mamã do grupo. A jovem, no entanto, tem dois momentos em que justifica o Digiovo - por sinal, quando desbloqueia Digievoluções sem serem Armo.


 


O primeiro momento decorre quando Yolei consegue a sua Digievolução para nível Campeão. Na verdade, é a única que se compara às equivalentes em Adventures: sempre em momentos significativos para as Crianças Escolhidas em questão, no culminar de um episódio dedicado a elas. Momentos emocionantes que, conforme referi antes, inebriam e viciam. Na verdade, este momento acaba por se assemelhar mais às Digievoluções para nível Super Campeão em Adventure. No entanto, depois de Davis ter desbloqueado a sua para se exibir perante uma rapariga (não me canso de frisar esse pormenor) e de Cody ter desbloqueado a sua de maneira extremamente anticlimática, num episódio em que a atenção estava voltada para outras coisas, a de Yolei foi a única que empolgou de maneira comparável a Adventures.


 


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Especificando, no episódio em questão, as Crianças Escolhidas debatem se podem confiar ou não em Ken, que abdicara do seu estatuto como Imperador Digimon apenas episódios antes. Tal como disse na entrada anterior, Davis é quem está mais aberto a Ken. Cody, por sua vez, está no extremo oposto. Algo que não favorece o caso de Ken perante os heróis é o facto de ele andar a matar os Digimons hostis que os têm atacado - até ao momento, as Crianças Escolhidas não tinham precisado de recorrer a esse extremo, tirando com Kimeramon.


 


Um aparte só para falar destes escrúpulos. Uma das críticas que são apontadas conjuntamente a Adventure e 02 é que, na primeira temporada, as Crianças Escolhidas não se ralavam com os Digimons que matavam. Eu concordo, mas também compreendo que, em Adventure, não havia muito tempo para debates éticos quando os Digimons hostis faziam tudo por matá-los e os miúdos não podiam voltar para o Mundo Real. 


 


Eventualmente, as Crianças Escolhidas descobrem que os Digimons que têm enfrentado foram criados a partir de Torres Negras. Sendo meras criações sem consciência (ou assim parece...), não há problema moral em matá-los. Nesse momento, Yolei percebe que se enganou em relação a Ken, que ele está verdadeiramente a tentar redimir-se. Pede-lhe perdão mentalmente e... Hawkmon Digievolui para Aquilamon. Sabendo que Yolei vai, eventualmente, casar-se com Ken, não sei se existirão sementes de romance nesta Digievolução.


 


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Outra prova de Amor, ainda que não-romântico (ou será? Fica ao critério de cada um... e também à imaginação...) dá-se quando desbloqueia a Digievolução ADN com Kari. As duas fazem um par interessante pois Kari é sobrenaturalmente altruísta, corajosa e, ainda que não propriamente tímida, é mais reservada que Yolei. No episódio em que conseguem a Digievolução ADN, Yolei vê tanto Kari como Ken procurando resistir à influência do Mar Negro. Quando Kari tem um ataque de histeria pouco característico, em que sente as Trevas engolindo-a, Yolei acalma-a. Primeiro com... uma estalada. Depois, dizendo-lhe que nunca deixará que a Escuridão a leve. É um momento bonito, de ligação entre as duas raparigas, permitindo que Gatomon e Aquilamon Digievoluam para Silphymon. 


 


O pior é que não passa disso, de momentos. Eu gostaria de ter visto mais deste lado mais gentil de Yolei. No entanto, como acontece com Davis, no fim de 02, o carácter de Yolei pouco ou nada mudou. Como prova o desejo que se manifesta no Mundo dos Sonhos: ser filha única. Para além de não lhe conquistar simpatia, fica a frustração de quase não termos visto nada destes supostos ciúmes antes (eu só digo "quase" por uma questão de precaução, porque eu não me recordo de alguma vez ter visto Yolei em verdadeiro conflito com os irmãos). Além disso, depois de a larga maioria das histórias pessoais em Adventures terem incluído a resolução de conflitos familiares, esta ponta por atar na história de Yolei incomoda.


 


Infelizmente é mais um exemplo do machismo em Digimon, já que, em duas temporadas, a única personagem feminina com um desenvolvimento decente é Mimi - e, mesmo assim, não tanto como personagens masculinas como Tai, Matt e, conforme veremos a seguir, Cody, Ken e Oikawa. É precisamente de Cody que falaremos na próxima entrada.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Digimon 02 #4 - Um líder ainda mais imperfeito

As Personagens são o grande calcanhar de Aquiles de 02. Não sei se é por mera nostalgia da minha parte, se é mesmo por má escrita nesta temporada ou por Adventure ter sido muito mais guiado pelo seu elenco de heróis mas, tal como insinuei antes, não gosto das Crianças Escolhidas em 02 da mesma maneira como gosto das suas antecessoras. Ainda agora, em Tri, ao ver o elenco de Adventures reunido de novo, reavivando cumplicidades, trocando picardias, diverti-me como em nenhum momento me diverti em 02.


 


No entanto, para ser justa, tenho de dizer que todas as Crianças Escolhidas nesta temporada tiveram, pelo menos, um momento que me agradou.


 


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Vou começar pela personagem de que gosto menos. Davis é o líder do grupo, nomeado por Tai que lhe confia os seus icónicos óculos. Porém, apesar de Tai ter sido um líder imperfeito, Davis é uma fraca imitação dele. Em termos de personalidade, é muito semelhante ao antigo líder - alegre, extrovertido, entusiasta, impaciente. No entanto, para além disso, é exasperantemente fútil e oco e, ao contrário do que aconteceria em Adventures, esses defeitos não são corrigidos. A maior prova da superficialidade de Davis é a maneira como desbloqueia a Digievolução para nivel Campeão: obrigando o seu companheiro, Veemon, a Digievoluir para impressionar Kari, por quem nutre uma irritante paixoneta.


 


O mais triste? Davis consegue a Digievolução. Quando Tai tentou fazer o mesmo, por motivos bem mais legítimos que tentar conquistar uma rapariga (a irmã de Tai, por sinal), a coisa correu horrivelmente mal, mas com Davis não.... Nem no Mundo Digimon há justiça!


 


Eu, sinceramente, dispensava esta atração de Davis por Kari. Em Adventures, nunca houveram paixonetas (tirando uns Digimons que queriam sair com Mimi... *arrepios*) e vejo agora que era uma coisa boa. Há histórias em que ligações românticas não acrescentam nada. A ideia que fica é que puseram Davis a perseguir Kari só para que a personagem tivesse algo que fazer quando não liderava as Crianças Escolhidas.


 


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Na verdade, a superficialidade de Davis, longe de corrigida, chega a ser recompensada. Personagens como Yolei e Cody têm uma certa tendência para cederem ao desespero e desistirem de lutar, precisando de Davis para obrigá-las a continuar, em parte por coragem legítima, em parte porque... ele não pensa muito nas coisas. No final de 02, no Mundo dos Sonhos, quando as Crianças Escolhidas estão demasiado assustadas para lutarem, Myotismon (que adota a forma de MaloMyotismon) encerra-as numa realidade ilusória, em que os seus maiores desejos se realizaram. Davis é o único em quem a ilusão não funciona, pois ele não tem problemas nenhuns, é uma criança satisfeita e feliz, não deseja mais nada que não fazer o seu trabalho como Criança Escolhida. De certa forma, é realista. A ideia que eu tenho é que as pessoas de mente mais simples, sobretudo crianças, de uma maneira geral, costumam ser mais felizes, ao contrário do que acontece as mais inteligentes. No entanto, a verdade é que pessoas cem por cento felizes e satisfeitas não dão grandes personagens.


 


Uma coisa admito: teve piada quando, num final bastante sombrio, perguntaram a Davis qual era o seu maior sonho e ele saiu-se com:


 


- Quero ter um restaurante italiano!


 


De qualquer forma, Davis redime-se aos melhos olhos pelo seu apoio a Ken, quando este tentava reconstruir a sua vida e redimir-se dos seus feitos como Imperador Digimon. Não sei se isto é por mera ingenuidade, não sei se é esta a prova de que Davis merece o Digiovo da Amizade (o episódio em que ele o obtém não convence), mas ele é o primeiro a perdoar Ken e eu respeito-o por isso. Aliás, ambos conseguem a Digievolução ADN quando Davis diz a Ken para parar de ter pena de si próprio e o dissuade de se sacrificar pelo Mundo Digital. Se Davis não lhe tivesse estendido a mão, Ken não teria saído do buraco onde caíra - só por isso, este líder pouco dotado e, por vezes, irritante, merece louvores.


 


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sábado, 12 de dezembro de 2015

Digimon 02 #3 - Arcos e mini-arcos

Como já tinha desenvolvido aqui, o Enredo em Adventures é muito direto, com arcos narrativos bem definidos, o nível de dificuldade crescendo de forma mais ou menos linear. Tinha momentos em que parecia demasiado formulaico, sobretudo nos primeiros episódios, mas funcionava.


 


Infelizmente, o enredo de 02 tem problemas de consistência. Ao contrário do que acontecia com Adventures, existem muitos fillers. Certos momentos são muito leves e descontraídos, mesmo cómicos, mas, se for preciso, o episódio seguinte é muito mais sombrio. 


 


Eu dividiria o enredo de 02 em duas partes: a arco do Imperador Digimon e o arco pós-Imperador Digimon. Não vou escolher o melhor entre estes, pois ambos possuem pontos fortes e fracos de maneira mais ou menos equilibrada. 


 


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O primeiro arco funciona um bocadinho como transição entre Adventure e 02. Em muitas ocasiões, os veteranos juntam-se às novas Crianças Escolhidas nas suas missões. Isso contribui para o desenvolvimento dos novos heróis, mas também deixa claro que os "caloiros" não possuem o carisma dos antigos protagonistas. O próprio conceito de ArmoDigievolução (desbloqueada através de Digiovos representantes das virtudes encarnadas pelos protagonistas de Adventure) dá a entender que, pelo menos nesta fase, as novas Crianças Escolhidas servem para substituir as antigas - uma vez que estas, por influência das Torres Negras, não conseguem fazer com que os seus companheiros digievoluam. No entanto, acaba por funcionar. E, de qualquer forma, apesar da constante ideia de transição neste arco, este é bem mais consistente que o segundo. Mas já lá vamos.


 


Na verdade, o maior defeito deste arco é a sua conclusão. As Crianças Escolhidas têm vários desafios a ultrapassar. O facto de o vilão ser um humano, uma Criança Escolhida: Ken. A apetência desta mesma Criança para a tortura de Digimons inocentes e jogos psicológicos com os heróis. A altura em que Ken consegue escravizar Agumon. Kimeramon, a monstruosidade que o próprio Imperador cria a partir de pedaços de outros Digimons. As Crianças Escolhidas apenas conseguem derrotá-lo porque encontram o Digiovo Dourado (um grande Deus Ex-Machina) e porque o companheiro Digimon de Ken, Wormon, se sacrifica. O mérito dos heróis nesta vitória é mínimo, para não dizer inexistente, o que mina a credibilidade de um grupo de Crianças Escolhidas que, já de si, empalidecem na comparação com as suas antecessoras.


 


O maior ponto forte do primeiro arco em relação ao segundo é o facto de seguir uma linha narrativa única, de forma mais ou menos consistente. As coisas, no entanto, ficam confusas após a queda do Imperador Digimon. Eu dividi este segundo arco em quatro partes, numa tentativa de dar sentido a uma narrativa que, demasiadas vezes, pouco sentido faz.


 


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primeira parte vai do episódio 22 ao 29, inclusive. É a única parte para a qual não arranjei um título porque acontecem muitas coisas. Para começar, no final de um episódio em que conhecemos o passado sombrio de Ken, este recupera Wormon, dando o seu primeiro passo na busca de redenção. Nos episódios seguintes, o jovem vai-se integrando no grupo das Crianças Escolhidas. Estas, por seu lado, vão desbloqueando as Digievoluções "normais", para nível Campeão - de forma bastante anti-climática, diga-se (exceptuando Yolei), sobretudo comparando com Adventure. Entretanto, é-nos apresentada uma nova vilã: uma misteriosa mulher, que consegue criar Digimons a partir de Torres Negras e que terá influenciado as ações de Ken enquanto Imperador Digimon. Mais tarde, descobrimos que essa mulher é, na verdade, um Digimon: Arukenimon que tem ainda um companheiro, Mummymon. Por fim, é desbloqueada a primeira Digievolução ADN, entre Ex-Veemon e Stingmon (de Davis e Ken, respetivamente).


 


segunda parte compreende os episódios 30 até ao 37, inclusive. O título que lhe daria é "BlackWarGreymon e as Pedras Sagradas" (uau, dava um bom nome para uma banda... alguém que faça um meme!). Nesta parte, Arukenimon cria um Digimon de nível Hiper Campeão para derrotar as Crianças. No entanto, ao contrário das outras criações dela a partir de Torres Negras, BlackWarGreymon desenvolve uma consciência e escapa ao controlo de Arukenimon. Numa tentativa de encontrar sentido para a sua vida e, ao mesmo tempo, um adversário à sua altura (mais sobre isso adiante), BlackWarGreymon desata a destruir Pedras Sagradas (marcos que, supostamente, mantém a estabilidade do Mundo Digimon), lançando o caos no Mundo Digital.


 


Esta é a parte mais frustrante de toda a temporada. Numa altura em que as Crianças apenas conseguiram desbloquear duas Digievoluções ADN (que, de resto, são apenas de nível Super Campeão), em quase todos os episódios os heróis tentam desesperadamente impedir BlackWarGreymon de destruir as Pedras Sagradas e falham de todas as vezes. A situação melhora um bocadinho nos últimos episódios desta parte, quando só sobra uma Pedra Sagrada, depois de a terceira Digievolução ADN ser desbloqueada. Mesmo assim, a onda destruidora de BlackWarGreymon só termina quando Azulongmon (um Digimon Dragão, semi-deus, um dos quatro guardiões do Mundo Digital) é invocado. E, mesmo assim, termina porque Azulongmon, essencialmente, manda-o pastar (OK, manda-o procurar um sentido para a vida noutro lado, obrigadinho) e, de facto, BlackWarGreymon desaparece do mapa até à quarta parte deste arco.


 


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Aqui é que as Crianças Escolhidas foram completamente inúteis, tirando quando usaram os D3 para invocar Azulongmon - e nem sequer foi intencional, eles queriam apenas mover a Pedra Sagrada. O melhor é mesmo passar à frente... 


 


A terceira parte deste arco (entre o episódio 38 e o 42, inclusive) é mais levezinha e agradável: é a "Digressão Mundial de Natal". Estamos na época natalícia na cronologia de 02, mas as festas são interrompidas que começam a surgir Torres Negras no Mundo Real, primeiro em Tóquio, depois um pouco por todo o Mundo. Os veteranos juntam-se aos caloiros na luta e, graças a uns cordelinhos puxados por Gennai e Azulongmon, os Digimons dos mais velhos recuoeram a capacidade de atingir o nível Super Campeão e o Paildramon - a Digievolução ADN de Davis e Ken - desbloqueia a sua forma de nível Hiper Campeão, Imperialdramon. 


 


Não gostei da forma como Davis e Ken conseguiram o nível Hiper Campeão. Foi demasiado fácil, nem eles nem os Digimon fizeram nada por merecer. Eu sei que, em Adventures, Tai e Matt conseguem-no de uma forma não muito mais brilhante, com uma profecia enfiada a martelo. No entanto, sempre obrigou Tai e Matt a emprestarem coragem um ao outro, enquanto Angemon e Angewomon lhes lançavam flechas com a luz, a esperança e o amor dos irmãos mais novos - um dos meus momentos preferidos em Digimon, chegando mesmo a ser brevemente referido em Tri.


 


São nestes pequenos pormenores que 02 empalidece em relação ao seu antecessor. No entanto, não me vou queixar muito pois, alguns episódios mais tarde, teremos um momento semelhante ao referido acima em termos de emoção e significado.


 


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Convenientemente, Imperialdramon é capaz de voar a grande velocidade e de transportar as Crianças Escolhidas para diferentes pontos do planeta em duas ou três horas (sem terem de passar pelas medidas de segurança e burocracia dos aeroportos e, aparentemente, sem ficarem com as náuseas e dores de cabeça com que eu fico sempre que ando de avião. Há gente com sorte...). Nos diferentes países, os heróis colaboram com as Crianças Escolhidas locais na destruição das Torres Negras e orientação dos Digimons perdidos para que voltem para o Mundo Digital. Estes episódios pouco mais são que fillers, as Crianças Escolhidas locais não passam de estereótipos, mas eu até gosto desta parte. A ideia de Crianças Escolhidas de diversas nacionalidades colaborando em diversos pontos do planeta é, na minha opinião, muito fixe por si só. Juntem o elenco de Adventures e um tom natalício e temos uma combinação vencedora. Foram momentos divertidos, ligeiros, antes de as coisas ficarem muito sombrias nos últimos episódios da temporada.


 


Intitulo a quarta e última parte (do episódio 43, inclusive, até ao fim), Oikawa e as Sementes da Esturidão (outro nome possível para uma banda...). Nesta fase, descobrimos que Oikawa foi quem criou Arukenimon e Mummymon e quem manipulou Ken para que ele se tornasse Imperador Digimon. Oikawa tem, aliás, um novo e perigoso plano para cumprir o seu sonho de infância de visitar o Mundo Digital.


 


Conforme veremos adiante, esta situação já suficientemente complicada por si só. No entanto, os guionistas lembraram-se de enfiar a martelo mais um vilão: Daemon e uns quantos minions. Nunca se percebe muito bem o que vieram eles fazer, para além de criar confusão. Aparentemente, não têm ligação nenhuma ao vilão principal da temporada. Por fim, Daemon nem sequer é derrotado, o melhor que as Crianças Escolhidas conseguem é encurralá-lo no Mar Negro. Fica, assim, esta ponta solta no fim de 02, juntando-se ao deus do Mar Negro, Dragomon (pergunto-me se Daemon ou Dragomon regressarão em Tri...). Ao menos, este mini-arco insatisfatoriamente resolvido destaca-se de outros mini-arcos insatisfatoriamente resolvidos em 02 ao proporcionar um dos melhores momentos de toda a temporada - mais sobre isso quando falarmos sobre Ken.


 


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Pelo meio, nesta parte da narrativa, BlackWarGreymon aparece no Mundo Real e a sua história resolve-se de forma aceitável. Finalmente, no antepenúltimo episódio, Oikawa consegue abrir um portal... mas não para o Mundo Digimon. Em vez disso, Oikawa, as crianças em quem ele implantou as Sementes da Escuridão (mais sobre isso adiante) e as Crianças Escolhidas vão parar ao Mundo dos Sonhos, de que já falámos antes. Aqui é revelado o vilão principal da temporada, a mão que controlava Oikawa havia já três anos. Nada mais nada menos que Myotismon.


 


Esta é a minha parte preferida da temporada. Para além de termos a resolução das várias histórias da temporada (com as exceções já referidas), temos mais desenvolvimento de carácter nesta parte que em todo o resto de 02, sobretudo no que toca aos vilões. Falarei melhor sobre isso quando analisarmos as Personagens.


 


Não falo, para já, do controverso epílogo de 02. Vou guardá-lo para o fim, depois de analisar o elenco da temporada. Algo que começo... na próxima publicação.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Digimon 02 #2 - Cenários e atividades extracurriculares

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Falemos um pouco dos Cenários. Não me vou alongar muito no que toca ao Mundo Digimon visto que este é o mesmo que em Adventures, expandindo-se apenas num aspeto ou outro. Por outro lado, em 02, é-nos revelado que existem outros mundos/dimensões paralelas, para além do Mundo Real e do Mundo Digital, embora só cheguem a falar de dois deles: o Mar Negro e o Mundo dos Sonhos.


 


De 02, eu fiquei com a ideia de que o Mar Negro é a fonte de toda a Escuridão do Mundo Digimon (e não só, suponho...). No entanto, não encontro informação oficial que confirme, preto no branco (no pun intended) esta teoria. O Mar Negro é governado por Dragomon, cujos súbditos, Divermon, se referem como o seu "deus das profundezas". De uma maneira paradoxal, Kari, a Encarnação da Luz, é particularmente vulnerável à influência deste Mundo. Por outro lado, o Mar Negro serve de catalisador à transformação de um Ken deprimido e solitário no Imperador Digimon. O Mundo dos Sonhos, por sua vez, acaba por ser a antítese do Mar Negro no sentido em que dá vida a emoções, sonhos e desejos. O Mundo Digimon acaba por ser formado a partir de elementos tanto do Mar Negro como do Mundo dos Sonhos à mistura com dados digitais, tal como já tinha explicado aqui


 


Eu sei que isto parece muito vago e resumido, mas a verdade é que isto é tudo o que sabemos sobre estes mundos. O Mar Negro aparece algumas vezes ao longo de 02, mas sempre num plano secundário. No fim do episódio 13, o primeiro em que visitamos o Mar Negro, a ideia que fica é que Dragomon será um vilão futuro, que as Crianças Escolhidas terão de enfrentar depois de vencerem o Imperador Digimon. No entanto, este nunca mais é referido.


 


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Por sua vez, o Mundo dos Sonhos só aparece no final da temporada, embora isso até faça o seu sentido: um mundo em que os desejos se tornam facilmente realidade não tem grande potencial em termos de história - pelo menos, não no universo de Digimon. Mesmo assim, sobretudo no que toca ao Mar Negro, é apenas mais um exemplo de conceitos mal-desenvolvidos em 02.


 


Mudando de assunto, ao contrário do que acontece em Adventure, aqui as Crianças Escolhidas (exceto Ken) não chegam a viver no Mundo Digimon, tirando durante três ou quatro episódios. As Crianças vão salvando o Mundo Digital mais ou menos em jeito de atividade extracurricular. Tal como já tinha escrito antes, eu gostava desse aspeto quando tinha doze anos. Por outro lado, este carácter um bocadinho facultativo da salvação do Mundo Digital faz-nos questionar as motivações das novas Crianças Escolhidas. Sobretudo quando Yolei - que, em muitos aspetos, é uma Mimi 2.0 - depressa revela insegurança e aversão à violência. E mesmo Cody, que chega a trocar uma visita ao Mundo Digimon por... uma aula de kendo. As primeiras Crianças Escolhidas foram, literalmente e sem cerimónias, atiradas para o Mundo Digimon. Mesmo que não quisessem fazê-lo, tiveram de lutar para sobreviverem. Desta forma, quando descobriram que o seu dever era salvar o Mundo Digital, já existia uma certa ligação àquele mundo e, de qualquer forma... salvá-lo permitir-lhes-ia regressar a casa. Aqui não existiam problemas de motivação, enquanto que, em 02, tirando T.K e Kari, a única motivação parece ser, apenas, o cliché de fazer o que está certo. 


 


Em 02 existe, ainda, um maior enfoque nas tecnologia e informática - outro dos aspetos que mais me agradou quando tinha doze anos. Para começar, passa a ser possível entrar no Mundo Digimon a partir de um computador. Por essa altura, sempre que passava por um computador, na escola ou noutro sitio qualquer, divertia-me pensando que, enquanto outros viam meros monitores, em via passagens para o Mundo Digital. Ainda existiram ocasiões em que pegava num D3 (os dispositivos digitais em 02) imaginário, encostava-o aos monitores e exclamava para mim própria: "Porta digital aberta!"


 


Se a história decorresse nos dias de hoje, talvez fosse possível entrar no Mundo Digimon com maior facilidade, através de um smartphone - provavelmente com uma aplicação especial para o efeito. 


 


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Já que falo em smartphones, quero falar também dos D-Terminais - outros dispositivos usados pelas Crianças, embora não seja clara a maneira como estes foram obtidos. Numa altura em que os SMS estavam apenas a começar a estar na moda, com cada caracter pago a peso de outro, em que ter uma conta de e-mail em meu nome e só em meu nome era um dos meus maiores orgulhos (pensar que, hoje em dia, miúdos de doze anos já têm Facebook, Twitter, Instagram, etc...), eu invejava as Crianças Escolhidas por poderem trocar mensagem entre si em qualquer sítio, a qualquer hora, através de dispositivos manuais. Algo que hoje é trivial, quer com telemóveis dos mais baratos, quer com o último iPhone, que dispõe de inúmeras aplicações diferentes para o efeito.


 


É tudo por hoje, na próxima entrada falaremos do Enredo de 02. Continuem ligados.

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