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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Digimon Tamers #11 – Uma pistola de brinquedo e um beijinho

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Esta é a parte da análise que eu mais ansiava escrever. Para vários temas desta série, precisei de pesquisar um bom bocado, rever partes de episódios, mesmo episódios inteiros, desenvolver as minhas opiniões. No que toca a Impmon, no entanto, planeei a maioria deste texto antes de qualquer outro – antes ainda de ver Tamers pela segunda vez, já de caneta em punho.


 


Não deve ser surpresa. Penso que todos concordamos que Impmon é uma das melhores personagens, não só de Tamers, de todo Digimon enquanto franquia.


 


Impmon não é bem um vilão. No entanto, tal como os melhores exemplos desse arquétipo, funciona porque é aquilo que os heróis podiam ser se tivessem tido menos sorte e/ou se tivessem tomado as decisões erradas. No caso de Impmon, o seu maior pecado é o orgulho, misturado com inveja. Uma coisa que o diabrete faz muito, quando lhe colocam o dedo na ferida, quando o confrontam com a verdade, é enfurecer-se e fincar ainda mais os pés nos seus hábitos destrutivos (auto e não só).


 


Mas comecemos pelo princípio. Na primeira metade de Tamers, Impmon é uma criatura ao mesmo tempo hilariante – no caso da dobragem portuguesa, muito por culpa da excelente interpretação de Pedro Cardoso – e irritante. Passa a vida à volta dos Treinadores, arreliando os seus Digimon (Culumon incluído). Troça deles por estarem ligados a humanos, acusa-os de serem pouco mais de mascotes, de brinquedos (no caso de Terriermon, não está completamente errado)...


 


...e no entanto, ele não os “deslarga”. Seria de esperar que ele se mantivesse afastado de criaturas que, parafraseando-o, lhe dão vontade de vomitar. Mas não é isso que acontece.


 


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Há que realçar, no entanto, que Impmon os arrelie, os Treinadores não antipatizam com Impmon. Pelo contrário, toleram-no, chegam mesmo a tratá-lo com simpatia. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais o diabrete não se afasta. O que só torna o que acontece mais tarde ainda mais reprovável.


 


Não são precisos muitos dedos de testa para perceber que Impmon é um caso clássico de “estão verdes, não prestam”. Sobretudo quando descobrimos o seu passado. Impmon nem sempre fora um Digimon independente, também tivera um Treinador. Ou melhor dois: Ai e Makoto, dois irmãos, ela com cinco anos no máximo, ele com três no mínimo. 


 


Como seria mais ou menos de esperar da parte de crianças daquela idade, os dois disputam Impmon como um brinquedo que são obrigados a partilhar. Chega a um ponto em que o diabrete farta-se e vai-se embora. Com isto tudo, fica com uma opinião péssima em relação aos humanos em geral. 


 


Não se pode censurar Impmon por esta atitude, mas também crianças daquelas idades não constituem uma boa amostra da Humanidade. Ao contrário do que muitas vezes tendemos a pensar (eu incluída), as crianças nem sempre são puras e angélicas. Muitas vezes, sobretudo antes dos cinco, seis anos, são egoístas insensíveis, melodramáticas, incapazes de empatia e de lidar com a frustração.


 


É claro que, nesta fase, ainda não é culpa delas. Pecam por ignorância. Com a devida educação ultrapassam essa fase. Crescem.


 


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Bem, algumas. Infelizmente há muita gente que nunca chega a aprender, que não chega a crescer.


 


Não acho que seja coincidência que, no início, os episódios centrados em Ruki e Renamon também destaquem Impmon. Quando Renamon sente dúvidas em relação ao seu vínculo com Ruki, Impmon funciona como o diabo no seu ombro, dizendo-lhe os humanos são estúpidos e os Digimon estão melhor sozinhos. 


 


Existem claros paralelismos entre os dois. Tamers dá a entender que Impmon veio para o Mundo Real pelo mesmo motivo que Renamon: à procura de um parceiro humano que o ajudasse a ficar mais forte, quiçá a digievoluir. 


 


O problema é que Renamon foi ter com a campeã do jogo de cartas. Impmon foi ter com dois pirralhos. Não se sabe como é que Ai e Makoto se tornaram Treinadores de Impmon, o que é uma pena. Na minha opinião, os meninos queriam um Digimon com quem brincar. Impmon alinhou por, das duas uma: por achar que, eventualmente, eles ajudá-lo-iam a digievoluir ou, pura e simplesmente, deixou em stand-by o seu desejo de se tornar mais forte e contentou-se com ser o companheiro de brincadeiras dos dois irmãos. Isto é, até a relação azedar.


 


Em todo o caso, tanto ele como Renamon entraram em conflito com os seus Treinadores e, a certa altura, tentaram tornar-se mais fortes sozinhos. A diferença é que Renamon era suficientemente forte para derrotar adversários sozinha – até isso deixar de ser suficiente e escolher ficar com Ruki. Impmon, por sua vez, é inútil em combate. Só assusta humanos. Ainda consegue arreliar Guilmon e Terriermon quando os seus Treinadores os proíbem de ripostar mas, quando podem ripostar, enxotam-o com facilidade.


 


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Mesmo assim, o diabrete garante a toda a gente, incluindo a si mesmo, que está bem assim, que não precisa de humanos ou de digievoluir.


 


Tem piada por um lado, como referi acima, mas por outro uma pessoa fica com vontade de lhe dar um par de estalos. Porque insiste Impmon em magoar-se a si mesmo, dizendo que despreza humanos, mas sem conseguir afastar-se deles? Das duas uma, ou aceita que precisa de humanos e tenta fazer as pazes com os seus Treinadores – ou tenta procurar outro Treinador, ou pelo menos aceita a amizade do Takato e dos outros – ou segue com a sua vida, procura um sítio onde possa viver (quer no Mundo Real quer no Mundo Digital) sem precisar de digievoluir. Agora, ficar preso naquele limbo pelo seu próprio orgulho e inveja é que não ajuda ninguém, a começar por ele mesmo. 


 


O cúmulo da sua negação e teimosia manifesta-se quando Impmon é confrontado por um dos Deva, Indramon, e este lhe pergunta porque não digievoluiu ainda, se já teve parceiros humanos – como referi antes, dedo na ferida. A resposta do diabete é tornar-se ainda mais arruaceiro perante civis – os únicos que, lá está, é capaz de assustar. Quando o Indramon regressa, Impmon faz questão de enfrentá-lo sozinho, para provar que não precisa de ninguém, muito menos de humanos, nem de digievoluir. Nem sequer permite que Takato e os outros o encorajem.


 


Como seria de esperar de um Digimon fraquinho mesmo para nível Infantil perante um nível Perfeito, Impmon é massacrado, perante os olhares horrorizados dos miúdos. De início, Renamon impede os humanos de intervir – ela sabe uma coisinha ou outra sobre orgulho. Ainda assim, até ela atinge o seu limite e, em conjunto com os outros, salva a vida a Impmon – apenas para o diabrete insistir na luta, levando uma sova que o atira para o horizonte.


 


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Impmon passa os episódios seguintes escondido de toda a gente enquanto lambe as feridas no corpo e no orgulho. Nisto, abre-se uma brecha para o Mundo Digital, de onde soa uma voz perguntando-lhe se quer tornar-se mais forte.


 


O diabrete vai, então, para o Mundo Digimon na mesma altura em que o resto do elenco vai. É aqui que se encontra com um dos Deva, Chatsuramon. Pegando de novo na fábula, Chatsuramon mostra-lhe uma parra que Impmon pensa ser uma uva: induz-lhe uma ilusão onde o diabrete estaria de volta ao Mundo Real à casa de Ai e Makoto. Impmon descobre a verdade, no entanto, quando se prepara para abraçá-los e estes passam através dele. Mais: Impmon vê os seus antigos Treinadores recebendo um cachorrinho e começando imediatamente a disputá-lo, como haviam feito com o seu Digimon.


 


Pergunto-me agora se essa cena com os meninos e o cachorrinho ocorreu mesmo – se era uma transmissão em direto do Mundo Real – ou se era uma ficção criada pelo Chatsuramon. Em todo o caso, serve para provar que, mais do que um catalisador para a digievolução, Impmon apreciava os seus antigos Treinadores pelo companheirismo. E inveja amargamente Guilmon, Renamon e os outros por terem as duas coisas. 





Mais uma vez, a reação de Impmon é fechar ainda mais o coração e fazer um pacto quase literal com o diabo. Desbloqueia a sua forma Extrema, Beelzebumon, e em troca assassinará os Treinadores e os seus Digimon – que, recordo, ainda o consideram um aliado, mesmo um amigo. 


 


Já falámos um par de vezes sobre o que acontece quando Beelzebumon aparece para cumprir a sua parte do acordo, não é necessário repetir. Gostava só de chamar atenção para o aviso de Leomon, que percebe logo que o demónio digital está a ser manipulado pelos Deva. É em resposta a esse aviso que Beelzebumon dá o golpe fatal.


 


Nota para mim mesma: nunca confrontar Impmon/Beelzebumon com a verdade.


 


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Como vimos antes, perante a morte do Leomon, Takato obriga Guilmon a digievoluir para a monstruosidade que é Megidramon… mas Beelzebumon, surpreendentemente, revela-se um adversário à altura. Talvez tenha sido pelo melhor – pode ter sido o único motivo pelo qual Megidramon não chegou a usar os seus poderes de destruidor de mundos.


 


Acaba por ser impressionante, até. Há um momento em que Beelzebumon está de costas no chão, uma das mãos afastanto as presas do Megidramon, a outra desfazendo o Makuramon em partículas digitais. Mais tarde, quando Rapidmon e Taomon decidem tentar a sua sorte frente a Beelzebumon, este consegue encurralá-los, obrigando-os a cederem parte dos seus dados ao demónio digital para se libertarem. No fim, ele próprio põe Megidramon fora de combate.


 


Mesmo quando Takato recupera o juízo e desbloqueia o Dukemon, o combate com Beelzebumon continua equilibrado. Pelo meio, Dukemon derrota Chatsuramon (que viera para castigar Lopmon por se ter aliado aos humanos), mas Beelzebumon desvia os dados para si. Finalmente, como referido antes, o demónio digital fica a isto de eliminar Dukemon (com Takato lá dentro), mas é interrompido pelo Guardromon. E quando os papéis se invertem, é Juri quem impede o Dukemon de dar o golpe final.


 


O gesto da menina desarma Beelzebumon. Mais: provoca-lhe uma crise existencial de todo o tamanho. Não é a primeira vez que um humano ou um Digimon associado a um humano o trata com compaixão. Pelo contrário, os Treinadores e seus Digimon haviam passado a primeira metade de Tamers tratando Impmon com mais gentileza do que este merecia. Tais gestos, no entanto, chocavam com a carapaça do seu orgulho e inveja (isto parece ser um tema recorrente nesta série: muros, barreiras, que mantém os demais afastados e os corações fechados). 


 


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Fora preciso ter ficado quase literalmente entre a espada e a parede para Beelzebumon cair em si e perceber que estava errado em relação aos humanos. 


 


Este é o momento em que o demónio digital bate no fundo. O momento que melhor o simboliza é quando este é atacado por um bando de Chrysalimon (depois de, alguns episódios antes, ter dizimado uns quantos destes Digimon enquanto testava o seu novo poder) e regride para Impmon. Fica bastante maltratado. 


 


Como vimos antes, Ruki e Renamon dão uma corrida para ir buscá-lo antes de perderem a boleia para o Mundo Real. E ainda bem que o fizeram. 


 


Quando regressa a Shinjuku, Impmon vai à procura dos seus Treinadores. Há um momento engraçado quando o diabrete encontra o instrutor de kenpo de Jian e lhe pede que lhe leia o bilhete que Ai e Makoto lhe deixaram. Descobre assim que os meninos foram evacuados para a casa dos avós e é lá que os reencontra. 


 


Numa reviravolta surpreendente para crianças tão novas, Ai e Makoto pedem desculpa a Impmon pela maneira como o trataram. Reconhecem que as discussões entre eles, a disputa por Impmon como um brinquedo que não queriam partilhar, fizeram com que o diabrete se fartasse e se fosse embora – e enveredasse por um caminho destrutivo, mas os irmãos não sabem e, pelo menos por enquanto, não precisam de saber essa parte. Ai e Makoto chegam mesmo a mostrar um ursinho de peluche que haviam rasgado nas suas guerras. 


 


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Sinceramente, os meninos demonstram uma maturidade, uma responsabilidade pelos seus próprios actos que eu demorei anos a obter, que eu suspeito que demasiados adultos não possuam. Ai tem cinco anos no máximo! É certo que, regra geral, nestas idades atitudes egoístas e mimadas têm consequências relativamente menores – castigos, brinquedos confiscados, pais zangados. Não costumam implicar a perda de um amigo, de um companheiro de brincadeiras.


 


Impmon fez bem em deixá-los, apesar de tudo. Obrigou os meninos a sofrerem as consequências dos seus actos. A parte da inveja, do orgulho, do pacto com o diabo, do assassínio de Leomon, é que era desnecessária. 


 


Em todo o caso, Impmon perdoa-os e torna a ser o seu companheiro Digimon. Quando vê notícias da destruição provocada pelo D-Reaper na televisão, no entanto, quer juntar-se à luta. Como os meninos são demasiado novos para o acompanharem, estes ficam para trás. 


 


Antes de Impmon sair, no entanto, Makoto dá-lhe a sua pistola laser de brinquedo, para que a use “contra os maus”. Ai, por sua vez, dá-lhe um beijinho, em jeito de despedida – algo de que o diabrete não estava à espera. Enquanto se afasta, Impmon digievolui para Beelzebumon Blast Mode, com um par de asas e a pistola laser  convertida num canhão.


 


E foi assim, senhoras e senhoras, que Tamers criou a melhor sequência de digievolução de todos os tempos. Com uma pistola de brinquedo e um beijinho. Não há nada mais amoroso, não há nada mais fixe. Até a sequência da Sakuyamon fica atrás disto. É certo que só conheço este universo e o de Adventure, mas duvido que haja algo melhor do que isto.


 



 


Há que também dar crédito a Tamers por ter resistido à tentação de criar uma digievolução completamente nova para Impmon, mais convencionalmente heroica, para refletir este desenvolvimento. Beelzebumon continua a ser um demónio, continua a ter um nome inspirado por um dos nomes do diabo. Apenas ganhou algumas características menos vilanescas. 


 


Acho piada, aliás, ao contraste entre um demónio motoqueiro e os seus Treinadores, crianças pequenas e inocentes. Não me admirava, aliás, se uns anos após os eventos de Tamers, a fase de rebeldia adolescente de Ai e Makoto envolvesse motas e cabedal preto. 


 


Beelzebumon junta-se, assim, aos Treinadores no combate ao D-Reaper. Por motivos óbvios, ele é um dos mais motivados para salvar Juri – tanto como Takato ou talvez ainda mais. Conforme referido antes, ele e Culumon descobre Juri no núcleo do D-Reaper. Conseguem infliltrar-se, mas Beelzebumon e apanhado pelos tentáculos e fica inconsciente durante um par de episódios. Recupera a consciência numa altura em que o D-Reaper cria agentes novos para proteger o núcleo – e acaba por ser expulso para o exterior, onde se reencontra com Dukemon. 


 


Vimos antes que Dukemon e Beelzebumon tentam os dois abrir caminho até Juri – o desespero do segundo fica patente em cada gesto. Não ajuda o facto de o nono agente, a Bola do D-Reaper, apontar o seu olho gigante para Beelzebumon enquanto repete, usando a voz de Juri: “Beelzebumon. Nível Extremo do Impmon. O Digimon que absorveu o Leomon.” É francamente sinistro.


 


Por outro lado, sim, também fiquei zangada por o D-Reaper ter destruido a pistola laser de Makoto. Não se faz! 


 


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Como vimos antes, o esforço de Beelzebumon consegue despertar Juri do seu transe. E quando o demónio recorre ao Punho Real, consegue abrir um buraco na esfera e estender uma mão a Juri.


 


Se isto fosse uma história diferente, Juri teria sido resgatada neste momento e tudo ficaria bem. Mas isto é Tamers, em Tamers não há soluções fáceis. Como vimos antes, Juri ainda não estava preparada para perdoar Beelzebumon, para confiar nele. 


 


Infelizmente, pouco após a janela fechar, Beelzebumon é atingido pelas costas. Por momentos, o ferimento parece ser fatal – e Ai e Makoto estão a ver tudo na televisão! Ele prometera que voltaria!


 


Da primeira vez que vi Tamers, poucos episódios atrás, pensava que Beelzebumon morreria para se redimir. Esteve muito perto… A intervenção atempada de Grani salva-lhe a vida, numa altura em que este já regrediu para Impmon.


 


O diabrete não teve, assim, uma conclusão épica e triunfal para a sua história. O verdadeiro encerramento acontecerá mais tarde e será mais sereno. Antes, Ai e Makoto cuidam de Impmon enquanto este recupera da luta contra o D-Reaper. É nesta altura que os DigiGnomos lhes dão o seu próprio D-arco (só agora?).


 


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Depois de derrotado o D-Reaper, Impmon apresenta Ai e Makoto aos outros Treinadores. Imagino que para Juri, Takato, Ruki e companhia os meninos sejam a maior prova de que a bondade e compaixão que demonstraram para com Impmon não foram desperdiçados. Juri diz mesmo que está contente por Impmon ter sobrevivido – por certo porque não quereria que Ai e Makoto passassem pelo mesmo que ela passou, porque Juri sabe alguma coisa sobre canalizar traumas para ações destrutivas. Assim, perdoa Impmon.


 


O diabrete obtinha assim o seu final feliz… para imediatamente a seguir ser recambiado para o Mundo Digital, para longe dos seus Treinadores. Ai e Makoto nem sequer devem compreender os motivos. Nem no universo de Tamers há justiça…


 


Como referi antes, não considero Impmon/Beelzebumon um vilão propriamente dito. Aliás, nenhum dos antagonistas em Tamers merece ser classificado como vilão no sentido convencional do termo… mas isso é conversa para o próximo texto.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Digimon Tamers #9 – A Hikari é uma menina ao lado disto...

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Conforme referi antes, em Tamers existem várias crianças com companheiros Digimon na história, vários Treinadores. Apenas três são considerados protagonistas – Takato, Jianliang e Ruki – são os protagonistas. No entanto, a partir da segunda metade de Tamers, em particular nas duas últimas partes do Enredo, pode-se considerar que Juri ganha o estatuto de protagonista  – pela maneira como a jovem se encontra, quase literalmente, no centro de tudo o que acontece. 


 


Segundo o site de Konaka, o papel que Juri desempenha na segunda parte de Tamers só foi decidido precisamente quando estavam a escrever o vigésimo-quarto episódio  – aquele em que o elenco se prepara para ir ao Mundo Digital. A história familiar da jovem, no entanto, ficou decidida desde o início.


 


Bem, mais ou menos. De acordo com o site, a ideia inicial era de que os pais de Juri trabalhassem em prostituição. A jovem seria obrigada a ficar em casa a tomar conta da irmã mais nova. (Um momento de silêncio pelas infâncias que posso ter acabado de destruir.)


 


Não que a versão final da sua história de origem seja muito melhor, verdade seja dita. Juri perdeu a mãe quando ainda era muito nova. Não é muito claro que idade tinha ela ao certo, mas era suficiente para se recordar, ou pelo menos para ter pesadelos sobre isso, mais tarde. 


 


O pai tentou criá-la o melhor que pôde, sozinho, sem grande sucesso. Infelizmente, era de esperar. Numa sociedade tão patriarcal como a japonesa, pouquíssimos homens estariam (estão?) preparados para tomar conta de crianças. Já ouvi falar de um caso parecido, nos anos 50 e 60: um senhor que enviuvou de repente, quando a filha tinha apenas um ano. A criança acabou por ser confiada a uma tia.


 


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O pai de Juri não chegou a esse ponto, mas é possível que tenha casado em segundas núpcias com uma mulher mais nova precisamente para servir de segunda mãe para a filha. Pelo meio, terá decidido que um estilo de educação autoritário era o mais adequado. Com tudo isto, Juri acabou por se afastar emocionalmente do pai. A jovem também revela, a certa altura, que nunca aceitou a madrasta, mesmo reconhecendo que ela era boa pessoa. 


 


Ou seja, Juri não possui nenhuma relação próxima com nenhuma figura parental. Mais: tirando possivelmente o seu irmãozinho, Juri não possui uma relação próxima com ninguém da sua família. É ainda obrigada a trabalhar no restaurante do pai (mais sobre isso adiante). 


 


Juri possui, assim, uma vida familiar difícil, tal como Ruki. Pior ainda. No entanto, reage da maneira completamente oposta. Juri é uma criança alegre, simpática, extrovertida, sempre com um cão de fantoche – sobretudo para divertir o irmãozinho, mas que raramente deixa a sua mão. Enquanto Ruki usava os seus problemas familiares como armadura, Juri enterra-os bem fundo. Ninguém adivinharia – e durante muito tempo ninguém adivinhou – que aquele exterior feliz e bem disposto mascarava uma profunda solidão e baixa auto-estima.


 


É outra maneira de ser impermeável, se formos a ver. Qual das duas atitudes será a melhor, a de Ruki ou a de Juri? Não sei dizer. Sentir-me-ia tentada a dizer que a atitude de Ruki é a melhor, pois não culminou com a jovem possuída pelo D-Reaper, mas seria simplificar demasiado a questão. Até porque, lá está, a Ruki saiu-lhe menos na rifa e Renamon não foi assassinada. 


 


Mas recuemos um pouco. Conforme referido antes, no início Juri é alegre e simpática. Dá-se bem com Takato, embora goze com ele pela sua paixão por Digimon. Conforme referido antes, o jovem tem um fraquinho por ela. Não é claro que Juri o saiba, preto no branco, mas há uma ocasião em que a menina tira partido disso: quando lhe faz aquilo a que gosto de chamar “olhinhos de Jane” para convencê-lo a apresentar-lhe Guilmon.


 


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Esta vai ser fresca quando crescer... 


 


Talvez seja de assinalar que, até ao momento, Takato assumira que Juri teria medo de Digimon (Culumon inclusive, o que é um disparate, quem tem medo de uma coisinha daquelas…?). Enganara-s redondamente, pois Juri adora Guilmon, desde o primeiro minuto em que o vê. Embora ao Takato, um miúdo fixe, com gostos indubitavelmente masculinos, não ache muita piada ao facto de o companheiro Digimon que ele mesmo desenhou estar a ser descrito como “kawaii”...


 


Depois de algumas ocasiões em que brinca com Guilmon – juntamente com Takato, Hirokazu, Kenta e outros colegas da turma deles – Juri decide, quase do dia para a noite, comprar um baralho inteiro de cartas de Digimon e aprender a jogar. Isto apesar de, no início de Tamers, ter troçado das mesmas pessoas a quem, agora, pedia que lhe ensinassem acerca daquele mundo.


 


No mesmo episódio, Juri começa a procurar obsessivamente um companheiro Digimon. Tenta a sua sorte com Culumon, primeiro, mas o seu verdadeiro alvo é um Leomon acabado de se realizar.


 


Será isto uma cena do Leomon, ter criaturinhas fofas… bem… seduzindo-o para uma inevitável morte? Em Tamers foi Juri, em Tri foi Meicoomon… Bem, todas as aparições de Leomon acabam com ele morto, de qualquer forma, segundo consta.


 


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À primeira vista, tem piada ver um Digimon grande, imponente como o Leomon perseguido por uma menina. A alcunha que Juri lhe dá na dobragem portuguesa, “meu príncipe Leomon” torna tudo ainda mais hilariante. À segunda vista… bem, continua a ter piada, mas também é um bocadinho triste. 


 


No entanto, é triste de todas as vezes quando, no fim do episódio, Leomon não se torna seu parceiro. Juri fica destroçada, além de qualquer consolo, mais do que seria de esperar.


 


Se isto não é um indício trágico, não sei o que mais será.


 


Felizmente (ou infelizmente, dependendo da perspetiva), um par de episódios mais tarde, Juri adota finalmente Leomon como companheiro Digimon oficial – no mesmo episódio em que Makuramon deita as mãos a Culumon, levando-o para o Mundo Digimon. 


 


Quando o elenco de Treinadores decide ir ao Mundo Digital, no episódio seguinte, temos o primeiro vislumbre da vida familiar de Juri. Vemos o pai trabalhando no restaurante com a esposa – uma mulher que, por sua vez, não é a que aparece na fotografia emoldurada no quarto de Juri, com esta em bebé. 


 


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A jovem não avisa ninguém na sua família que vai para o Mundo Digital – outro indício trágico. Nem todos no grupo dizem toda a verdade aos pais, mas sempre deixam uma carta ou um e-mail ou uma história qualquer – nenhuma opção é a ideal ou mesmo correta, mas sempre é melhor que não dizer absolutamente nada.


 


Queria agora falar sobre um episódio da terceira parte do Enredo que, confesso, adoro odiar: sobre uma colónia de Geckomon que é escravizada por um Orochimon alcoólico, obrigamos a fazer-lhe saqué (uma espécie de vinho de arroz, sendo a bebida nacional do Japão). Numa das ocasiões em que o grupo de Treinadores se separa, todos menos Takato, Jian e Terriermon vão parar ao mini-universo onde vive essa colónia. 


 


A certa altura, o Orochimon deita as mãos (figurativamente) a Juri. Leomon tenta salvá-la, como seria de esperar, mas não é bem sucedido. Enquanto o Orochimon a leva, Juri grita a seguinte pérola:


 


– Leomon, eu vou ficar bem! Não te esqueças que o meu pai tem um restaurante! Estou habituada a lidar com bêbados!


 


Juri. Com dez anos. Sabe lidar com bêbados. É para rir ou para chamar a CPJ?


 


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Um rápido àparte: depois de ver este episódio pela primeira vez, tive de descobrir como é que a dobragem americana, infame pelo seu puritanismo (como substituirem o vinho do Wizarmon por molho picante ou, pior, Vandemon “banindo” o Gottsumon e o Pumpmon para a sua “cave”, em vez de assassiná-los) descalçaria esta bota. Pois bem, substituíram o saqué por batido de leite. Eu fiquei uns bons dez minutos a rir-me com esta…


 


Em retrospetiva, não sei se inclua isto na lista de indícios trágicos sobre a família de Juri. Sinto-me tentada a incluir. Não estou a ver nenhum digiguionista a colocar esta fala na boca de uma menina de dez anos como se nada fosse.


 


Em todo o caso, por retorcido que seja, a experiência de Juri com alcoólicos sempre lhe dá coragem e capacidade para lidar com o Orochimon (a história deste episódio, aliás, parece ter sido inspirada pela Lenda do Orochi). Se acreditarmos que o CD drama Digimon Tamers 2018 faz parte do cânone (mais sobre isso um dia destes), em adulta Juri torna-se professora. E de facto, depois de ter lidado com bêbados em criança, lidar com alunos e respetivos pais será um piquenique. 


 


Regressemos ao Orochimon. A ideia de Juri era embebedá-lo, mas, longe de entorpecê-lo, o saqué dá mais força ao Digimon. Felizmente, na altura em que a jovem se apercebera do seu erro, já Leomon e os outros tinham conseguido chegar junto dela. Juri saca de uma carta da LadyDevimon, de todos os Digimon, ajudando Leomon a salvar o dia.


 


É de facto uma pena que a sua história com o Leomon tenha sido tão curta. Juri parecia ter potencial enquanto Treinadora e acabámos por ver muito pouco disso. 


 


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Temos então de falar sobre o ponto de viragem da história dela, infelizmente. O grupo acabara de se reunir de novo e Beelzebumon viera para cumprir a sua parte do acordo com o Chatsuramon. No início do combate, Leomon agarra Beelzebumon, impedindo-o de desferir um golpe, potencialmente fatal, em Kyubimon. Leomon consegue ler a situação e tenta avisar Beelzebumon que este está a ser manipulado. 


 


A resposta de Beelzebumon a este aviso é, quase literalmente, arrancar o coração a Leomon.


 


É importante chamar a atenção para as últimas palavras de Leomon em vida – “Parece que é este o meu destino” – pois estas serão uma faceta importante do trauma de Juri. Por outro lado, o aparecimento de Megidramon também terá agravado a situação para a menina. Ver o Guilmon, o primeiro Digimon que Juri conhecera e a quem se afeiçoara transformado naquela monstruosidade. Ver Takato, o seu amigo, potencial interesse amoroso, um rapaz até agora simpático e gentil, exprimindo tamanha raiva e instintos assassinos. 


 


Como vimos antes, o combate contra Beelzebumon estende-se por três episódios. Neste intervalo de tempo, o Megidramon “desdigievolui” e digievolui para Dukemon. No momento em que este último se prepara para acabar com Beelzebumon, Juri impede-o. Sabe que isso não trará Leomon de volta, não deseja mais lutas ou morte. Não por sua causa. E apesar de ela não o dizer preto no branco, eu apostaria que a menina não quer que Takato e Guilmon se tornem assassinos por sua causa.


 


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O anime de Digimon sempre deixou bem claro que perder um companheiro digital é traumático, independentemente das circunstâncias. Mesmo em universos onde estes regressam à vida. No caso de Ken, em 02, por exemplo, em que o próprio teve culpas na perda de Wormon, a morte deste desencadeia todo um processo de redenção pelo sofrimento que causou. O renascimento de Wormon representa a sua segunda oportunidade. 


 


Por sua vez, pode-se argumentar que o destino não foi assim tão duro com Takeru, pois este recebeu o Digiovo do Patamon menos de um minuto após o sacrifício de Angemon. Este, mesmo assim, guardou o trauma durante anos – em 02, em Tri. Estou convencida de que a experiência da perda influenciou as suas decisões em Kokuhaku, que contribuíram, pelo menos em parte, para o Reinício de todos os companheiros Digimon do elenco. 


 


No que toca a estes últimos, vemos as consequências desta perda a curto prazo nos restantes filmes de Tri. Na minha opinião, tal trauma pode tê-los impedido de eutanasiarem Meicoomon mais cedo, evitando inúmeros danos colaterais, sobretudo a morte de Daigo. Pergunto-me se o trauma do Reinício será referido em Last Evolution Kizuna, o próximo filme de Adventure. 


 


Por fim, Maki foi a única Escolhida no universo de Adventure (exceto Meiko) que não recuperou o seu Digimon depois de o perder. Mais: foi a própria Homeostase quem o reclamou sem cerimónia ou piedade. Anos mais tarde, nem a entidade divina nem os seus representantes valorizam ou sequer reconhecem o contributo e o sacrifício de Maki, Daigo e restante grupo das Primeiras Crianças Escolhidas. Pode-se argumentar que Maki teve pior sorte que Juri, pois teve ainda menos controlo sobre o seu destino. 


 


A resposta da Escolhida ao seu trauma foi unir-se voluntariamente ao inimigo, manipulando Escolhidos mais novos e um (ex?) parceiro romântico no processo. E vimos como é que isso acabou.


 


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Tendo tudo isto nem conta, a direção que a história de Juri toma não surpreende. Durante uns quantos episódios, vêmo-la fechada sobre si mesma, fitando a estática no ecrã do seu D-arco, balbuciando frases soltas sobre o destino. A certa altura, quando Takato tenta consolá-la, Juri diz não ser boa pessoa – porque, segundo ela, recuperou demasiado depressa da morte da mãe e, quando o pai casou de novo, nunca aceitou a madrasta, como vimos antes. 


 


Novo indício trágico.


 


Por outro lado, depois de Ruki regressar da ravina onde resgatara Culumon e desbloqueara Sakuyamon, Juri corre a abraçá-la, aliviada por a amiga ter sobrevivido. Um claro exemplo de um gato escaldado com medo de água fria.


 


A certa altura o fantoche da menina começa a falar sozinho – qualquer coisa sobre não gostar de tristeza. Depois desta, Juri afasta-se para, segundo os amigos, ir ao WC. Quando regressa, vem… diferente.


 


Qualquer membro da audiência com mais de dez anos, talvez menos, ou que pelo menos se recorde das Sementes da Escuridão de 02, desconfia logo que aquela não é bem a Juri. Eu não cheguei logo a “substituída por um dos agentes do D-Reaper”, pensei primeiro que ela estaria possuída por qualquer coisa. 


 


Os miúdos atribuem o seu estado catatónico a uma nova fase da sua depressão. Mas, confesso, custa-me a acreditar que ninguém tenha reparado nos olhos dela.


 


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Em todo o caso, “Juri” regressa ao Mundo Real juntamente com os outros Treinadores. O regresso dos miúdos é um evento bastante mediático, com os vários familiares acorrendo ao local (uma variação interessante em relação ao universo de Adventure), mas Juri não tem ninguém à espera dela. Quando conseguem entrar em contacto com o seu pai, este responde que, se a filha foi capaz de ir ao Mundo Digital sem avisar ninguém, será igualmente capaz de vir sozinha até à casa dos familiares onde se tinham abrigado. E é se quiser.


 


Novo indício trágico, um particularmente duro. É certo que Tadashi não sabia tudo por que a filha passara no Mundo Digital. Mesmo assim, que pai se recusa a vir buscar a filha após esta ter estado desaparecida, por muito zangado que esteja?


 


Eu confesso que, da primeira vez que vi Tamers, não simpatizei nada com o pai de Juri. Sobretudo no momento em que, quando reencontra a “filha”, a puxa com brusquidão para o táxi. Mesmo agora sabendo toda a verdade, continuo a achar que Tadashi vai longe demais. Uma coisa é ser-se severo. Outra coisa é ser-se cruel. Por muito zangado que Tadashi esteja, não sem razão, ele é o adulto. Aquilo não é aceitável.


 


Mas estou a adiantar-me. Recuemos um pouco. Quando se descobre, então, que Juri não tem ninguém que a leve a casa, Takato oferece-se para acompanhá-la de comboio. 


 


Confesso que me faz alguma confusão duas crianças de dez anos andando sozinhas de comboio, de noite. Suponho que, se foram capazes de sobreviver ao Mundo Digital com apenas um par de traumas psicológicos, hão de conseguir sobreviver aos transportes públicos. Ao menos têm uma criatura que cospe bolas de fogo a protegê-los.


 


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O mutismo de “Juri” continua durante a viagem de comboio. Takato aproveita a ocasião para abrir o seu coração perante a “amiga”: faz um misto de declaração de amor e de culpa por aquilo que aconteceu ao Leomon, por não ser capaz de consolá-la, por agora ela estar naquele estado catatónico. Tudo isto regado com lágrimas porque Takato.


 


Não sei se é suposto sentirmos pena do miúdo neste momento, mas eu não consigo evitar irritar-me um bocadinho. Esqueçamos que aquela não é a verdadeira Juri. A menina perdera o Leomon no Mundo Digital. Ao regressar ao Mundo Real, o pai nem se dignara a vir buscá-la – tinha de estar a regressar com Takato, de comboio, à noite. A última coisa de que Juri precisava neste momento era de fazer o amigo sentir-se melhor consigo mesmo. A paixoneta e sentimentos de culpa não são para aqui chamados.


 


Faz lembrar aquele episódio de How I Met Your Mother, em que Robin descobre que não pode ter filhos. Quando imagina a reação da melhor amiga, Lily, à notícia, imagina-a virando os holofotes para si, choramingando que é uma péssima, obrigando a própria Robin a consolá-la. A previsão revela-se certeira pois, quando Robin lhe conta uma história para encobrir o verdadeiro motivo da sua tristeza, Lily tem a mesma reação. 


 


Por outro lado, é óbvio que Takato não tem más intenções. Pelo contrário, está a tentar ajudar. Além disso, ele tem dez anos, é demasiado para compreender estas subtilezas. Há adultos que não as compreendem. 


 


De qualquer forma, nem Takato nem ninguém merece receber a resposta que “Juri” lhe dá: ler em voz alta a composição nutricional do snack que Takato lhe comprou. Até a mim me doeu…


 


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Juri reúne-se, então, com a família. Culumon fica com ela. Logo no episódio seguinte, vêmo-lo brincando com o irmãozinho de Juri. A certa altura, o menino cai, começando a choramingar. A mãe dele (madrasta de Juri) consola-o da forma habitual, dizendo algo como:


 


– Já passou. Já passou.


 


Nisto aparece “Juri”. Esta empurra o menino contra o chão, ambas as mãos nos ombros dele, repetindo monocordicamente as palavras da madrasta: “Já passou. Já passou.”


 


Acho que teria sido um pouco menos assustador se ela tivesse pura e simplesmente tentado esganá-lo.


 


Mais tarde, a madrasta dá pela falta da enteada. Quando pergunta ao filho, este responde que a irmã desaparecera “pela parede” – só mesmo uma criança muito nova para ver algo assim e não estranhar.


 


Se até este momento existia alguém na audiência que ainda pensasse que aquela era a verdadeira Juri, depois desta não há margem para dúvidas. Sobretudo quando Takato a vislumbra em Shinjuku, no intervalo das lutas do D-Reaper – a uma distância considerável da casa onde devia estar abrigada com a família.


 


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É nesta altura que se descobre que Juri está desaparecida. Takato torna a vê-la em Shinjuku – desta feita, com palavras niilistas nos lábios. De notar que o jovem é o único a vê-la. Nem Jian nem Ruki parecem dar por ela. Mais tarde, aliás, quando os três protagonistas estão a lutar contra o D-Reaper, já conjugados com os seus Digimon, nas suas formas Extremas, o D-Reaper escolhe agarrar Dukemon e trazê-lo para o seu núcleo.


 


Aqui Takato e Guilmon separam-se – as formas Extremas não se aguentam no núclo do D-Reaper – e tornam a encontrar “Juri”. Esta finalmente revela a sua verdadeira identidade: nada menos de um dos agentes do D-Reaper, conhecida por J-Reaper ou Juri-Type, que substituíra a verdadeira Juri após esta ser raptada pelo D-Reaper ainda no Mundo Digital. 


 


A J-Reaper viera infliltrada entre os Treinadores para o Mundo Real para analisar a humanidade. Estudara a mente de Juri, bem como as pessoas com quem contactara – só refere a depressão da menina, mas eu pergunto-me se a declaração lacrimosa de Takato, os modos bruscos de Tadashi, as lamúrias do irmão mais novo também foram objetos de análise. Chegara à conclusão de que os seres humanos são demasiado irracionais e instáveis para existirem, devendo, por isso, ser eliminados. 


 


A verdadeira Juri estava presa no núcleo do D-Reaper, mantida num transe de pesadelos. A J-Reaper tentara, inclusivamente, fazer o mesmo a Takato, esfregando-lhe no nariz recordações roubadas a Juri – é a intervenção de MarineAngemon e Kenta que o salva.


 


Um dos pesadelos de Juri centra-se na morte da mãe e na justificação que tanto o pai como os médicos lhe tinham dado: 


 


– É o destino.


 


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É provável que tanto Tadashi como os médicos tivessem usado esta expressão no sentido de “Não havia nada que ninguém pudesse fazer”. Juri, no entanto, internalizou a mensagem como o Universo conspirando ativamente para que a menina perca aqueles que ama. Primeiro a mãe, em tenra idade, depois o Leomon. Talvez tivesse determinado que o pai se afastaria emocionalmente dela. Daí o D-Reaper repetir monocordicamente a palavra “destino” na voz de Juri.


 


São cenas horríveis, os pesadelos de Juri. Realmente, todo este terror, todas estas monstruosidades catalisadas pelos traumas de uma menina de dez anos fazem os estranhos poderes de Hikari, no universo de Adventure, a sua estranha relação com as Trevas, parecerem uma ninharia. Até a Ordinemon, que Hikari soltara no mundo quando pensara que tinha perdido o seu adorado onii-chan parece um mero Digimon vilão-da-semana comparado com o D-Reaper e os seus agentes, a Juri-Type em particular. 


 


Quase fico aliviada por não ter visto Tamers em miúda. Acho que teria pesadelos durante semanas – e já tinha doze ou treze anos quando Tamers foi exibido pela primeira vez em Portugal! 


 


Felizmente, por esta altura, Culumon e Beelzebumon conseguem infiltrar-se no D-Reaper. Culumon consegue entrar na esfera onde Juri se encontra, mas Beelzebumon é agarrado pelos tentáculos do D-Reaper e é mantido preso e inconsciente durante alguns episódios.


 


Quando se descobre que Juri está aprsionada no núcleo do D-Reaper, os seus pais são naturalmente convidados a juntar-se aos adultos de apoio aos Treinadores: os membros do Hypnos, o Grupo Selvagem, os pais dos miúdos. 


 


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Vemos a madrasta de Juri a chorar no ombro de Rumiko (com a filha desta última a ver, conforme comentámos no texto anterior), pedindo perdão à falecida mãe da enteada. Tadashi, por sua vez, de início mantém a sua postura fria (da primeira vez que vi Tamers, nesta altura estava a chamar-lhe nomes). No entanto, depressa vemos as coisas sob a perspetiva dele – aquilo que comentámos antes, sobre as suas dificuldades em ser pai solteiro.


 


É neste momento que lhe saem as garras de papá sobreprotetor. Pega no camião do pai de Takato (o futuro compadre?) e vai até junto do D-Reaper. De início tenta negociar: desfaz-se em lágrimas, pede para tomar o lugar da filha. Quando isso não resulta, pega de novo no camião e tenta atropelar o D-Reaper. 


 


Nada disto resulta mas, pelo meio, o D-Reaper analisa-o. A criatura fica baralhada quando analisa as memórias de Juri sobre o pai – porque, neste universo, os Digimon não têm progenitores e talvez porque a relação de Tadashi com a filha não encaixa com a visão niilista que recolhera até agora. Além que de Juri reage à presença do pai – embora não chegue para sair do seu transe.


 


Depois desta, há uma cena breve, o episódio seguinte, em que vemos Tadashi debatendo-se contra uma janela do Hypnos, numa das ocasiões em que o D-Reaper fala com a voz de Juri. Tirando isso, Tadashi não torna a aparecer em Tamers – o que é uma pena.


 


É nesse mesmo episódio, de resto, que Juri finalmente sei do seu transe. O responsável é Beelzebumon, de todas as criaturas possíveis, humanas ou digitais. Depois de algum tempo inconsciente, prisioneiro do D-Reaper, conseguira soltar-se e emparceirar com Dukemon no resgate de Juri. É quando Beelzebumon está a tentar abrir a esfera onde a menina está presa ao murro que esta finalmente desperta. Este, por sua vez, só consegue abrir a esfera quando recorre ao Punho Real, um ataque do Leomon.


 


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Este é um dos poucos casos em que, conforme observámos antes, um Digimon usa poderes de um adversário que absorveu. Embora também seja legítimo uma pessoa interrogar-se se aquilo não será uma manifestação do próprio Leomon, ajudando a salvar a sua Treinadora.


 


Através do buraco que abriu, Beelzebumon enfiar-se parcialmente dentro da esfera e estende uma mão a Juri. Esta, no entanto, ao ver Beelzebumon usar o Punho Real do Leomon, bloqueara. O buraco na esfera fecha-se de novo antes que a menina conseguisse descongelar.


 


Naquele momento, uma boa parte da audiência fica com vontade de dar um par de estalos à miúda, por ter deixado fechar aquela quase literal janela de oportunidade. Ainda há semanas, no encontro do Odaiba Memorial Day, estivemos a falar sobre este momento. Mesmo eu, da primeira vez que vi este episódio, fiquei confusa com o final deste – como se estivesse a colocar a última peça de um longo puzzle e esta, por algum motivo, não encaixasse. Porquê, Juri, porquê?


 


No entanto, se formos a ver, Juri estivera afogada em pesadelos durante dias. Acabara de acordar deles e a primeira coisa que via fora o Digimon que começara tudo aquilo, que lhe arruinara a vida e que, ainda por cima, usava o ataque de marca do Leomon – mesmo a servir de lembrete. Eh pá, eu se calhar também bloquearia! É um daqueles casos – como Takato com o Megidramon – em que o cérebro parece falhar durante segundos, em que uma pessoa se arrepende quase de imediato, mas as consequências são graves.


 


Também é possível que Juri não tenha ido com Beelzebumon porque não estava preparada para ser salva – não achava que o merecia. Os seus sentimentos de culpa e baixa auto-estima agravam-se quando pensa que Beelzebumon vai morrer – o que, felizmente, não acontece. Juri tenta, então, escapar sozinha, mas o D-Reaper torna a imobilizá-la – desta feita fisicamente. A menina fica assim durante uma semana, pois nesta altura o D-Reaper cresce ainda mais, obrigando os Treinadores a bater em retirada.


 


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No fim dessa semana, quando Culumon diz a Juri que ele só deseja vê-la feliz, a jovem diz que não o merece. Somos, então, brindados com uma tentativa de suicídio num desenho animado que passou no Canal Panda. Uma menina tentando asfixiar-se com um cão de fantoche. Eu… eu nem tenho palavras. 


 


A verdade é que Juri pensa que, se morrer, o D-Reaper será travado (algo questionável nesta fase do campeonato) e os amigos deixarão de correr perigo. Eu suspeito que seja essa a lógica por detrás de muitas mortes por suicídio: acharem que os seus entes queridos estarão melhor sem eles. 


 


Bem, Juri está enganada e não é a única. Morrer por suicídio nunca, NUNCA, é solução, bem pelo contrário! Se alguém com ideias de se magoar a si mesmo estiver a ler este texto, por favor, não o faça, peça ajuda! Vou deixar links para linhas de apoio em Portugal e no Brasil (se alguém conhecer mais linhas, deixe nos comentários). Não estão sozinhos, o mundo precisa de vocês, por favor, peçam ajuda! 


 


Regressando a Tamers, no caso de Juri, é Culumon quem entra em pânico e dissuade a jovem de ceder à sua depressão. Em lágrimas, o pequenote recorda-lhe que há imensas pessoas que gostam dela e querem-a viva e feliz. O próprio Culumon, Takato, Guilmon, Ruki, os seus pais, o seu irmãozinho, até mesmo Beelzebumon.


 


Isto na verdade não são palavras muito diferentes daquelas que outras personagens tinham dirigido a Juri ao longo de Tamers, Takato sobretudo. Mas até ao momento a mensagem tinha chocado com o muro da baixa auto-estima da jovem. Fora preciso alguém tirar-lhe quase literalmente a arma da mão, alguém sujeitar-se às torturas do D-Reaper só para estar ao lado dela, para Juri acreditar nessas palavras. Para acreditar que merece ser salva. Para acreditar que a própria Humanidade e o Mundo em geral merecem ser salvos, que o destino de ninguém está gravado em pedra, que cada um escolhe quem quer ser. 


 


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Sim, ela pede ajuda a Takato à distância, como numa típica história de donzela indefesa. Quando sai finalmente do D-Reaper, vai literalmente nos braços do seu interesse amoroso. Mas se isto fosse uma típica história de donzela indefesa, Juri teria sido resgatada antes, por Beelzebumon. Juri precisava de acreditar que merece viver, que merece ser salva, antes de aceitar a ajuda dos demais. 


 


Há ainda tempo antes do final de Tamers para Juri conhecer Ai e Mako, os Treinadores de Impmon, e finalmente perdoar este último. Mesmo no rescaldo imediato da morte do Leomon, a menina mostrara misericórdia – era uma questão de tempo até ao perdão. Juri sabe como é ter traumas e deixá-los manifestarem-se de maneiras destrutivas – ainda que tal tenha resultado da manipulação do D-Reaper. 


 


Por fim, a menina aprendera que tanto as pessoas como os Digimon têm a capacidade para mudar. Impmon já o fizera, logo, merecia ser perdoado. 


 


Depois disto tudo, apesar de perder Culumon (que se tornara quase um segundo companheiro Digimon) por causa das consequências da Operação Joaninha, à primeira vista Juri tem um final feliz. No breve epílogo de Tamers, vêmo-la com Takato e os outros colegas de turma, aparentemente satisfeita… mas, lá está, ela também parecera satisfeita antes de as coisas terem dado para o torto.


 


Eu acho que Juri ainda precisará de algum tempo. A sua bagagem toda – a morte da mãe, a relação difícil com o pai e a madrasta, a perda do Leomon, a tortura do D-Reaper – não se resolve de um dia para o outro, com um mero resgate do seu Príncipe Encantado. Juri não partirá do zero: agora sabem que tem pessoas que gostam dela, que lutaram por ela. Tadashi certamente fará um esforço por ser melhor para a filha. Irá demorar – espero que lhe arranjem acompanhamento psicológico – mas quero acreditar que ela ficará bem, mais cedo ou mais tarde, que se tornará mais forte.


 


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E com isto terminámos a análise aos protagonistas. Como não terei muito a dizer sobre os restantes Treinadores, no próximo texto falarei de todos os que faltam, bem como de Culumon. Fiquem por aí!

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Digimon Tamers #8 – Quando for grande, quero ser como ela...

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...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.


 


Consta que Ruki, a única rapariga que faz parte do trio de protagonistas, é a personagem mais popular em Tamers. Eu neste caso concordo com a opinião do público. Se tivesse visto Tamers em miúda, teria desenvolvido uma enorme “girl crush” por Ruki. Tentaria imitar o penteado dela – e falharia, porque o meu cabelo só atingiu o comprimento suficiente para um rabo-de-cavalo aos catorze anos. Andaria a chatear os meus pais para me arranjarem uma t-shirt com um coração azul partido – segundo eles, nunca fui de pedir muitos presentes em pequena, mas as coisas que pedia eram difíceis de arranjar.


 


Hoje felizmente temos a Tee Public e já ganho o meu próprio dinheiro. Por isso…


 


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(Fiquei um bocadinho desapontada por terem demorado várias horas a reparar, no encontro do Odaiba Memorial Day.)


 


Como adulta, continuo a sentir admiração por ela, mas diria que Ruki está mais ou menos empatada com Takato como personagem preferida de Tamers. De uma forma simplista, Takato é quem eu sou. Ruki é quem eu gostava de ser. 


 


Segundo o site de Konaka, brinquedos centrados em personagens femininas vendem menos que os centrados em personagens masculinas (ou pelo menos vendiam menos na altura do planeamento de Tamers. Para contrariar um pouco esse fenómeno, os produtores decidiram que a rapariga protagonista teria de ser a mais poderosa e capaz. 


 


Por um lado, acho que foi uma boa decisão, mesmo que por motivos comerciais: os próprios produtores admitindo que boas personagens femininas vendem. E Tamers quebrou convenções, sobretudo para a época, ao ter dois protagonistas masculinos mais para o emotivo e sensível e uma protagonista feminina mais estóica e durona.


 


É pena, no entanto, que se considere que, para se tornar uma personagem feminina “melhor”, mais apelativa comercialmente, se tenha de torná-la… bem, menos feminina. Sou a primeira a admitir que é uma faca de dois gumes. Eu também era maria-rapaz em miúda, ainda o sou um bocadinho, sendo este um dos motivos pelos quais gosto de Ruki (e de Sora, de quem Ruki parece ser uma versão melhorada, nalguns aspetos). Estou certa que existirão muitas outras meninas com gostos menos femininos na audiência de Digimon. Mas quantas de nós nos tornámos marias-rapaz porque internalizámos que ser-se feminina, gostar de vestidos, de cor-de-rosa, de princesas da Disney não é fixe?


 


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Enfim, passemos à frente.


 


Quando conhecemos Ruki, esta tem várias características de uma adolescente rebelde: reservada, aparentemente fria e distante, segura de si mesma – eu daria tudo para ter um décimo da sua confiança. Não é má rapariga. Não é mal-educada – Konaka referiu no seu site que não queria que Ruki usasse linguagem grosseira. E de facto vêmo-la tratando a avó e a maior parte dos adultos (com notáveis exceções) com respeito (Editado: entretanto, recordaram-me que, na sociedade japonesa, as gerações mais jovens em geral nutrem imenso respeito pelos mais velhos, mais do que no mundo ocidental. Por isso, talvez não seja assim tão significativo.) Mesmo com Takato ou Jian, ela é fria, mas não chega a ser malcriada. 


 


Ruki é apenas solitária, focada nas suas coisas, não tem paciência para pessoas de que não gosta ou que não tem em grande conta. Como Takato e Jian de início, Hirokazu e Kenta mais tarde, mas sobretudo a sua mãe.


 


Recuando um pouco no tempo, quando Ruki nasceu, a sua mãe, Rumiko, tinha apenas dezoito anos. Ela terá chegado a casar com o pai da filha mas, como seria mais ou menos de esperar de um casamento tão precoce, este não resulta. Por altura dos eventos de Tamers, o pai está desaparecido do mapa. Não é muito claro se Ruki ainda mantém contacto com ele – supostamente sim, segundo um monólogo da jovem, mas isso contraria o segundo filme de Tamers (que, por outro lado, acho que toda a gente concorda que não faz parte do cânone oficial).


 


Konaka fez questão de referir no seu site que a personalidade de Ruki não é influenciada pela ausência do pai… mas será verdade? Tal como é referido neste vídeo, o trauma de abandono explicaria pelo menos em parte a relutância de Ruki em abrir o seu coração a Renamon, bem como aos outros treinadores. Mais sobre isso adiante.


 


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Mesmo tendo sido mãe muito cedo (o facto de a avó de Ruki ter estado por perto e de haver dinheiro na família terá ajudado), Rumiko conseguiu lançar uma carreira bem sucedida como super-modelo. Possui mesmo o estatuto de mini-celebridade. Ao contrário de Ruki, é extrovertida, convencionalmente feminina e tenta transformar a filha numa miniatura de si mesma – pressionando-a para ter interesses mais femininos e arrastando-a para sessões fotográficas. 


 


Devo dizer, as cenas em que Rumiko tenta convencer Ruki a usar vestidos bonitos lembram-me a minha própria infância. Qualquer uma que tenha sido maria-rapaz nalguma altura da sua vida terá recordações semelhantes.


 


Só que Rumiko pressiona um bocadinho além do que é saudável e Ruki, naturalmente, ressente-se. Torna-se maria-rapaz – a certa altura dá-se a entender que terá sido por influência do pai. Dedica-se ao jogo de cartas de Digimon, uma franquia dirigida sobretudo a rapazes. 


 


É possível que tenha escolhido deliberadamente um passatempo, um mundo onde a mãe não pudesse assoberbá-la. E eu, admito, revejo-me ainda mais nesta atitude no que no estilo menos feminino. 


 


Rumiko domina o jogo de cartas com facilidade, perdendo apenas para Ryo, ganhando o cognome de Rainha dos Digimon. A vitória, no entanto, não a satisfaz, não preenche o vazio.


 


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É nessa altura que aparecem Digimon em sua casa, pedindo-lhe para ser sua Treinadora. Este é um caso excecional em Tamers, em que são dos Digimon que vão atrás de uma humana, em vez do oposto. Ainda assim, Ruki declara que só quer um Digimon verdadeiramente forte. Renamon avança – um nível Infantil, apesar de existirem níveis Adultos e Perfeitos entre as opções.


 


Na verdade, antes de ver Tamers, pensava que Renamon era um nível Adulto – por causa do tamanho e pelo comportamento, mais parecido com o da Tailmon que do Agumon ou do Guilmon. Tirando esse aspeto, a família digievolutiva da Renamon é a minha preferida em Tamers. 


 


São sempre os Digimon das meninas, curiosamente.


 


No início, Ruki e Renamon possuem uma relação estritamente profissional. Renamon procurava a ajuda de um humano para se tornar mais forte, quiçá digievoluir. Ruki vê Renamon e os restantes Digimon como uma extensão do jogo de cartas: apenas dados digitais, personagens de um videojogo.


 


Nesta fase, há quem compare Ruki a Ken, quando este era Imperador Digimon – no sentido em que ambos encaram os Digimon como um jogo. Não sei se é uma comparação legítima. Ken não possuía controlo total sobre as suas atitudes para começar; torturava e obrigada Digimon a combater sem o consentimento deles.


 


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Por sua vez, Renamon luta de livre vontade. Pode-se argumentar que o mesmo acontece com os adversários que derrota e absorve pois, lá está, dos Digimon vivem sobre a lei do mais forte. Combater e absorver adversários faz parte da sua cultura.


 


Não deixa de ser uma área moralmente cinzenta. Afinal, essa cultura foi inscrita no ADN dos Digimon por humanos e, agora, uma humana aproveita-se dessa cultura para entretenimento e prestígio pessoal. Ruki não está a fazer o mesmo que Ken. Mas não significa que seja o correto.


 


Um caso em que Ruki claramente não faz o correto é quando conhece o Takato e o Guilmon. Aqui não há desculpa, Guilmon tinha pouco menos de um dia de vida, era um bebé. Nem ele nem Takato queriam combater. Ruki só tinha de deixá-los em paz. 


 


Felizmente, esta atitude depressa se volta contra ela. Bem, não sei se posso usar a palavra “felizmente” associada a uma cena onde uma menina de dez anos é encostada à parede por uma criatura apontando-lhe uma arma. Em todo o caso, é a primeira ocasião em que vemos a autoconfiança de Ruki abalada e as suas convicções questionadas. 


 


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A convivência com Takato, Jian e respetivos companheiros Digimon provoca mudanças em Renamon antes de em Ruki. Ao ver as relações afetivas que Guilmon e Terriermon cultivam com os seus treinadores, ela começa a desejar algo semelhante para si – ainda que apenas no subconsciente. Renamon começa a sentir que está a desiludir Ruki pessoalmente por não conseguir a digievolução.


 


Esta, na verdade, é desbloqueada, não após a absorção de adversários suficientes e sim durante um combate em, pela primeira vez, ambas se preocupam com a segurança uma da outra. Em que tentam proteger-se uma à outra.


 


Ainda assim, Ruki não percebe logo a mensagem. A jovem ainda não está preparada para aceitar que gosta de Renamon. As coisas só mudam quando Ruki começa a ser perseguida por algo… gélido. Ao perceber que a sua Treinadora está assustada, Renamon oferece-se para protegê-la… ao que Ruki responde com duas pedras na mão- Tenta colocar o Digimon no seu lugar e ergue uma barreira entre elas. 


 


Renamon ausenta-se. Por norma, sabe que Ruki gosta do seu espaço, sobretudo quando algo a perturba. No entanto, dá para ver que ficou magoada.


 


Ruki não demora a descobrir a identidade do seu stalker. IceDevimon, uma criatura francamente sinistra – parece que, tal como o Takeru, não sou grande fã de Devimon nem que Digimon semelhantes. Este deseja substituir Renamon como companheiro Digimon de Ruki. Persegue e rapta a jovem, trá-la para a sua cave e mostra-lhe os cadáveres congelados de todos os Digimon que derrotou – como quem mostra as duas credenciais, a sua sala de troféus.


 


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IceDevimon acaba por funcionar como personificação da faceta que Ruki, até ao momento, procurara mostrar ao mundo: fria, ambiciosa, implacável. IceDevimon pensa que Ruki valoriza tais características, que a persuadirão a jovem a tornar-se sua Treinadora… mas Ruki está essencialmente a olhar-se ao espelho e não gosta do que vê. 


 


Ninguém gostaria. Ruki repetira inúmeras vezes desde o início de Tamers que os Digimon são apenas dados. Quando uma pessoa repete a mesma ideia com esta frequência, pode significar que está a tentar convencer-se a si mesma tanto quanto dos demais. Os Digimon podem ser apenas criaturas digitais – o que não significa que sejam incapazes de sofrer ou que seja agradável vê-los congelados numa perpétua expressão de terror.


 


Ruki não quer ser mais essa pessoa, mas também não quer pedir ajuda a Renamon. Receia que, depois da maneira como a tratou, ela não venha. Renamon, no entanto, conseguira sentir que Ruki estava em perigo e aparece para ajudar.


 


De início tudo corre bem, como já acontecera muitas vezes em Digimon. Pela primeira vez, Ruki afirma que Renamon é sua amiga, com todas as letras. Em resposta, Renamon digievolui… mas Kyubimon é incapaz de derrotar IceDevimon. Quem o faz é Guilmon, orientado por Takato que, pela primeira vez, usa cartas e é bem sucedido. 


 


No rescaldo daquela situação, Ruki grita que detesta Digimon, vai para casa sem Kyubimon e deita fora as suas cartas e o seu D-arco.


 


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Uma reação intempestiva, é certo, mas compreensível. Vejamos a situação. Ruki tinha acabado de sobreviver a um Digimon francamente sinistro. Acabara de descobrir que o seu passatempo, aquilo que dava sentido à sua vida, era essencialmente uma carnificina. Tinha tentado fazer diferente, admitir ao mundo que gostava de Renamon, o que não era fácil para uma pessoa orgulhosa e reservada como ela – o que não chegara para derrotar IceDevimon. Quem o fizera, fora um puto que, no episódio anterior, estivera a chorar como um bebé agarrado ao Growmon. 


 


Em suma, Ruki devia estar a sentir-se confusa e humilhada e reagiu da maneira que qualquer criança da idade dela reagiria: amuando, batendo com a porta, dizendo que não quer brincar mais.


 


Tanto ela como Renamon passam algum tempo afastadas, refletindo. Renamon chega a conversar sobre o sentido de ter um companheiro humano, primeiro com Jian, mais tarde com Impmon, que tem um histórico… digamos, interessante com Treinadores. Este último acaba por funcionar como o reverso da medalha para Renamon, como veremos um dia destes.


 


Entretanto, Renamon vai derrotando outros Digimon sozinha, concluindo que talvez não precise de Ruki para se tornar mais forte. No entanto, nesta altura, tornar-se mais forte só porque sim já não a satisfaz – tal como o jogo de cartas deixou de satisfazer Ruki, a partir de certa altura.


 


Por seu lado, apesar de Ruki ter, aparentemente, desistido dos Digimon, não consegue manter-se afastada quando estes aparecem. Vêmo-la de fora do campo de dados, enquanto Renamon derrota um bando de Flybeemon, afastando-se de seguida sem falar com a sua companheira. Pensa, agora, que Renamon só queria saber dela para se tornar mais forte. 


 


É também nesta altura que a avó de Ruki, na sua sabedoria, avisa que o isolamento constante não é saudável, que ninguém sobrevive a este mundo sozinho.


 


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Havemos de regressar a esta ideia mais adiante. Para já, dizer que, quando outro Digimon, uma Harpymon, aparece, mais uma vez Ruki não consegue manter-se afastada. Desta feita, deixa-se ver por Renamon. À primeira vista, esta derrota a Harpymon, mas em vez de lhe absorver os dados, fica ali parada, apercebendo-se de que nada daquilo lhe contribui para a sua felicidade. Lá porque Renamon consegue derrotar adversários sozinha, não significa que o queira. 


 


Ora, Harpymon aproveita as reflexões existenciais de Renamon para atacá-la quando tem as defesas em baixo. Renamon, apanhada de surpresa, não se consegue defender. Ruki, em pânico, leva a mão aos bolsos mas lembra-se que atirara tanto o seu D-arco como as cartas para o caixote. Sem alternativa, agarra num pau caído e corre a espetá-lo nas costas da Harpymon. 


 


Naturalmente, o Digimon selvagem volta-se para Ruki – que fica com uma cara de devia-ter-pensado-melhor-nisto. Felizmente, Renamon digievolui à moda antiga, para proteger a sua companheira (uma sorte o Culumon estar por perto), e derrota a Harypymon.


 


Ou seja, tal como na ocasião em que desbloquearam a Kyubimon, por muito reservadas e orgulhosas que sejam, Ruki e Renamon não conseguem afastar-se uma da outra, preocuparem-se uma com a outra, protegerem-se uma à outra. E desta vez admitem-no preto no branco.


 


Depois de conseguir abrir-se a Renamon, Ruki começa a fazer o mesmo com os outros Treinadores – sobretudo quando começam a aparecer os Deva e ela, Takato e Jian se encarregam de proteger a população civil. Eu destacaria a ocasião em que se oferece para ensinar o jogo de cartas a Juri, quando esta adquire o seu próprio baralho. 


 


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Por outro lado, regressando à relação de Ruki com a sua mãe, quando o elenco vai ao Mundo Digital resgatar Culumon, a jovem sente-se mal pelo sofrimento que vai provocar a Rumiko. Assim, dá um primeiro passo no sentido de uma reconciliação ao aceitar usar um dos vestidos que a mãe tentara impôr-lhe – em jeito de despedida. 


 


Havemos de regressar a Rumiko. Para já, no Mundo Digital, os instintos protetores de Ruki tornam a manifestar-se, desta feita para com Hirokazu e Kenta. Os dois tinham-se juntado ao grupo de resgate à procura de companheiro. Não o encontram de imediato, ou seja, passam bastante tempo indefesos – e Ruki assume a tarefa de protegê-los.


 


Não que o faça pacificamente. Pelo contrário, não se coibe de dizer-lhes exatamente o que pensa deles (e até tem alguma razão), chegando mesmo a dar-lhes um literal pontapé no rabo. Quando Ryo se junta à festa – o lendário Digitreinador, o único a derrotar Ruki no campeonato de cartas antes de literalmente desaparecer da face da Terra, que a narrativa trata quase como um Gary Stu e tenta insinuar que Ruki tem um fraquinho por ele – a jovem atinge o seu limite, optando por virar as costas ao grupo e venturar-se sozinha.



Enfim. Como fizem os anglo-saxónicos, baby steps.


 


No meio disto tudo, tem alguma piada ver Renamon “ralhando” com Ruki, aconselhando-a a ter paciência com os demais. Como, por exemplo, quando a jovem reclama com Juri por esta a tratar por “chan”. (Há um par de ocasiões em que, na versão original, Ruki reage mal a ser tratada por um chan, compreensivelmente. A dobragem portuguesa traduz ambas literalmente, o que é uma falha infeliz, conforme expliquei aqui.) Só reforça a ideia de que Treinador e digimon puxam um pelo outro, crescem em conjunto.


 


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Por outro lado, Ruki pode ter pouca paciência para com os rapazes do grupo que não Takato ou Jian, mas é meiga com Shaochung, mesmo com a choradeira toda. Mais compreensiva que o irmão, como vimos no texto anterior.


 


Com a luta com o Beelzebumon e consequente morte de Leomon, os instintos protetores de Ruki saem reforçados. A seguir a Takato, ela é a mais preocupada com a visível depressão de Juri, a sua conversa sobre o destino. Renamon diz mesmo que o coração da amiga está fechado pelo sofrimento – mas que terá de ser ela própria a escolher abri-lo de novo, a aceitar a morte do Leomon e a seguir em frente.


 


As palavras de Renamon são surpreendentemente proféticas, como veremos no próximo texto. Para já, pergunto-me se Ruki se revia em Juri naquele momento. Ela também passara muito tempo com o coração fechado e teve de escolher abri-lo de novo, como vimos antes. 


 


Havemos, aliás, de voltar a falar de semelhanças entre as duas meninas. Entretanto, quando descobrem que Culumon está preso numa ravina cheia de D-Reaper, Ruki oferece-se para descer sozinha com Renamon, precisamente para que nenhum dos amigos tenha de arriscar a vida – embora Ryo vá atrás dela. 


 


Ruki consegue chegar a Culumon, mas teemos um par de momentos assustadores. Algumas bolhas do D-Reaper rasam Ruki e Culumon e acabam por apanhar a mochila da primeira.  Por fim, chegam a uma posição em que os quatro – Ruki, Renamon, Culumon, Ryo – estão encurralados pelo D-Reaper. Takato, Jian e os outros estão mais acima, mais resguardados, mas não escaparão durante muito tempo.


 


É na combinação destas fintas próximas à morte com o desejo de proteger os amigos, mesmo de desafiar o destino e escrever a sua própria história que Ruki e Renamon dão um literal salto de fé, para o abismo do D-Reaper. Assim nasce o nível Extremo de Renamon.


 



 


Tenho um conhecimento limitado de Digimon, mas estou certa de que haverá quem concorde comigo quando disser que a sequência de digievolução para Sakuyamon é a mais bela em toda a franquia (embora não seja a minha preferida, está em segundo lugar). O fundo azul com a lua, a água, as cerejeiras em flor, o coro feminino no início de One Vision… Só de escrever fico com pele de galinha!


 


Tamers faz questão de realçar que o interior de Sakuyamon é quentinho, que ela mesma irradia calor para os demais. Aposto que é um contraste intencional com o gelo de IceDevimon, a sua cave cheia de cadáveres, que se comparava a si mesmo com Ruki, na primeira parte da narrativa. Sakuyamon é uma guerreira, mas é também uma força benevolente, maternal, protetora – um pouco como a Wonder Woman – que entoa um cântico com traços de canção de embalar, enquanto usa os seus poderes contra o D-Reaper.


 


No episódio seguinte, Ruki e Renamon citam a benevolência e compaixão de Sakuyamon como inspiração para irem à procura do Impmon e levá-lo para o Mundo Real. Mesmo depois de este ter assassinado o Leomon, mesmo depois de ter estado a isto de assassinar o Dukemon (com Takato lá dentro).


 


Uma vez mais, talvez Ruki e Renamon se tenham revisto em Impmon. Como referido antes, elas quiseram absorver o Guilmon no início de Tamers. Tinham, também, uma longa lista de adversários derrotados – adversários esses que podiam ter um Treinador ou andar à procura de um. Além disso, conforme veremos quando falarmos sobre Impmon, se as coisas entre ela e Ruki não tivessem resultado, Renamon podia ter seguido um trajeto muito parecido. 


 


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Esta decisão quase custou a boleia para o Mundo Real – não só a Ruki e Renamon, mas também a Takato, que ficou para trás à espera delas – mas valeu a pena. Ambas deram a Impmon uma segunda oportunidade e este, como veremos mais tarde, não a desperdiça.


 


Quando regressam a casa, Ruki e Renamon não conseguem lá ficar por muito tempo, por causa da ameaça do D-Reaper. Rumiko aproveita para terminar o que a filha começara antes de ir para o Mundo Digital. Pela primeira vez trata Ruki, não como um molde de plasticina para ela esculpir à sua imagem e semelhança, e sim como uma pessoa independente. Respeita-a por esta seguir o seu coração, as suas convicções, contra as opiniões dos demais – tal como Rumiko fizera aos dezoito anos, ao casar e ter um bebé nessa idade, certamente contra os conselhos dos mais velhos.


 


Se essa decisão de Rumiko foi a mais acertada é questionável – o casamento não durou e a filha está a crescer sem o pai por perto. Mas sempre lhe deu Ruki, que provavelmente nem seria a mesma pessoa se tivesse sido nada e criada noutras circunstâncias. 


 


Eu adoro a simbologia da t-shirt que Rumiko oferece à filha: idêntica à que Ruki usara até ao momento, mas com um coração inteiro em vez de partido. Ao contrário dos vestidos de antes, é uma peça de roupa que respeita a personalidade da filha. Mais: a própria Rumiko também arranja uma t-shirt com um coração, mas em rosa e vermelho, mais de acordo com o seu estilo pessoal. As t-shirts, com o mesmo desenho mas em cores diferentes, mostram que mãe e filha são pessoas distintas, mas na mesma equipa.


 


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Além de que a mudança de um coração partido para um inteiro é um bom reflexo da evolução de Ruki. Mas eu confesso que a adolescente rebelde em mim gosta um bocadinho mais do coração partido.


 


Outro momento marcante envolvendo Ruki e a sua família ocorre alguns episódios depois, quando se descobre toda a verdade sobre a situação familiar de Juri. Ruki apercebe-se que a sua família, por comparação, não é assim tão má. Os pais estão divorciados, mas estão ambos vivos. Rumiko tem muitos defeitos, mas toda a gente percebe que está a dar o seu melhor. Além de que a sua avó sempre estivera presente, funcionando como segunda mãe. 


 


A Juri saíra-lhe muito pior na rifa – mas nunca o usara como desculpa para se isolar, ser arrogante, matar outros Digimon como passatempo. Pelo contrário, Juri era simpática, tratava bem toda a gente, escondendo de todos a sua infelicidade. 


 


Não que o comportamento de Juri fosse saudável, como veremos no próximo texto. Tanto ela como Ruki tentaram lidar o melhor que puderam com coisas sob as quais não tinham controlo. E têm apenas dez anos! Nenhuma delas pode ser censurada.


 


De qualquer forma, esta reflexão é uma boa prova do crescimento de Ruki, enquanto personagem. 


 


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Na verdade, a história de Ruki em Tamers recorda-me as histórias de outras personagens femininas marcantes. Há uns anos li este excelente artigo, num blogue que já mencionei antes, desmontando alguns mitos sobre personagens femininas fortes – que muitos acusam de amolecerem a partir do momento em que desejam a ajuda e/ou companhia de outras pessoas, se apaixonam, ou, pura e simplesmente, exprimem emoções que não raiva ou orgulho.


 


Katie, a autora do texto, cita como exemplos Kate Beckett, de Castle, e Emma Swan, de Once Upon a Time, mas eu também incluiria Temperance Brennan, também conhecida por Bones. E agora Ruki.


 


Todas estas mulheres tiveram infâncias difíceis, em graus diferentes e, como resposta, ergueram muros em torno de si, fecharam-se ao amor e à amizade. Não posso falar muito sobre Beckett, pois não acompanhei Castle assim tão perto, mas posso falar sobre Emma após escrever várias vezes sobre Once. 


 


Emma crescera como órfã, fora magoada por praticamente toda a gente com quem teve alguma proximidade: o casal lhe a acolheu em bebé mas mandou-a de volta; uma das poucas amigas que teve em miúda; uma mãe de acolhimento que esteve muito perto de adotá-la; o primeiro homem que a amou mas que a deixou grávida e na cadeia em vez dele. Usava casacos de cabedal como armadura, como símbolo dos muros que erguera. Precisou de muito tempo, praticamente toda a série, para abrir o seu coração por completo – primeiro ao filho, depois aos pais, depois ao homem com quem casaria.


 



 


Da mesma maneira, desde que, ainda adolescente, fora abandonada pelos pais e, mais tarde, pelo irmão, Bones usara a sua extrema racionalidade como escudo, não se permitindo sentir qualquer emoção. Em parte por causa do seu trabalho – ninguém consegue trabalhar com ossos e cadáveres se não tiver pelo menos algum controlo sobre as suas emoções. Mas sobretudo para se proteger contra o sofrimento.


 


Mas, regressando a Once, como diria Mary Margaret, estas atitudes podem bloquear o sofrimento, mas também bloqueiam o amor, a amizade, a felicidade em geral.


 


É de Bones, aliás, que vem uma citação perfeita para estes casos. Vou tentar traduzir o melhor que consigo (com supressões).


 



Brennan: Eu sou… bastante forte.


Booth: Tu sempre foste forte.


Brennan: Sabes qual é a diferença entre força e impermeabilidade, não sabes?


Booth: Não.


Brennan: Uma substância impermeável a danos não precisa de ser forte. Quando nos conhecemos, eu era uma substância impermeável. Agora sou uma substância forte. Pode chegar uma altura em que eu esteja suficientemente forte para arriscar perder o resto da minha impermeabilidade. Talvez nessa altura possamos juntar-nos.



 


Durante muito tempo, Ruki sentiu-se relutante em tirar os seus óculos escuros, em confiar noutras pessoas, fazer amizades. Usava o jogo de cartas de Digimon e, mais tarde, os combates com Renamon como armadura – e possivelmente porque não tinha mais nada a que se agarrar. A jovem era uma substância impermeável, que não se deixava afetar por emoções, por nada.


 


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Os eventos de Tamers, por sua vez, tornaram-na uma substância forte: que sofre danos mas que não é destruída por eles. O seu conhecimento e talento como Digitreinadora deixou de ser um mero escape para se tornar numa arma para proteger aqueles que ama. 


 


No fundo, tal como Takato, ao longo de Tamers, Ruki aprendeu a canalizar a sua paixão por Digimon para propósitos heróicos. É por isso que não concordo quando certos fãs dizem que Ruki perdeu a piada ao tornar-se menos durona – eu diria que nunca deixou de sê-lo, apenas tornou-se durona de uma maneira diferente, melhor. Passou de uma durona que usa a carta certa para derrotar e absorver um Digimon para uma durona que salta de uma ravina para tentar proteger os amigos do D-Reaper. 


 


Por outro lado, cheguei a concordar, durante o meeting do Odaiba Memorial Day, que Sakuyamon foi algo nerfada (continuo a odiar esta palavra…), desempenhando um papel demasiado defensivo em comparação com o início de Tamers… mas, depois de rever alguns episódios, ou partes deles, enquanto trabalho nesta análise, não acho que tenha sido assim tão defensivo quanto isso. 



Admito, no entanto, que, pelas semelhanças nas histórias das duas, pela amizade entre elas, gostava de ter visto Ruki pelo menos tão empenhada como Takato no resgate de Juri. Mas claro, Takato é o gogglehead, é o interesse romântico, tinha de receber mais tempo de antena.


 


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Gostava de assinalar também que, no cúmulo do heroísmo de Takato, o Dukemon ganhou uma nova armadura, mas no cúmulo de Ruki Sakuyamon teve de perder a dela. Para aumentar a arma de Justimon, ainda por cima. Enfim…


 


E o que acontece no fim, depois de Ruki ter aberto o seu coração por completo, a Renamon, à família, aos amigos? Renamon tem de regressar ao Mundo Digital. 


 


Ruki é de longe a personagem mais dolorosa de se ver durante o traumático final de Tamers. Porque é a única vez que a vemos chorar (ao contrário do que acontece com os outros protagonistas, sobretudo Takato), porque sabemos quão difícil foi para ela deixar-se afeiçoar a Renamon e porque, pelo menos na dobragem portuguesa, a atriz que lhe dá voz faz um trabalho excelente. 


 


Quero acreditar que Ruki se tornou suficientemente forte para sobreviver a esse desfecho, que a mãe, a avó e os amigos consolá-la-ão. Mas não deixa de ser cruel.


 


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Em suma, se no início de Tamers Ruki já era digna de admiração – durona, competente enquanto Treinadora, segura de si – no fim ganha qualidades extra – coragem, compaixão, empatia – que ainda a tornam mais fantástica. Mesmo não tendo podido conservar Renamon, Ruki sai de Tamers uma pessoa melhor, mais forte. É por isso que reitero: quando for grande, quero ser como ela.


 


...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.

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