
Segunda parte da minha análise a From Zero. Podem ler a primeira parte aqui.
Avancemos, então, para as músicas não-single e não-Casualty. Em continuidade com esta última, começo pelas mais agitadas. Só faltam duas na verdade: Cut the Bridge e IGYEIH.
A primeira tem uma energia alucinante, com aquela bateria, com o refrão com partes cantadas em coro. Gosto de vocais em coro nas músicas dos Linkin Park – acontece muito em A Thousand Suns, por exemplo. Agora que temos uma mulher, o coro tem outro carácter, outro impacto, também muito fixe.
Eu recomendo a versão instrumental, que tem muitos detalhes – como o piano e elementos eletrónicos – que ficaram um pouco enterrados na versão completa. A minha parte preferida é o final da terceira estância, quando Mike e Emily cantam “just to watch it buuuurn. just to watch it buuuurn…” em tom grandioso. Na preparação deste texto, encontrei um comentário de YouTube a dizer que Cut the Bridge é uma combinação de What I’ve Done e Bleed it Out. Sou capaz de concordar.
Em termos de letra, queria só referir a terceira parte. Gosto das metáforas que Mike usa para explicar que o narrador está a chegar ao limite: “I'm the gas from a burner left open, I'm a tightrope held up by a clothes pin”.
Também queria falar sobre os versos “wanna go to the light and not the shadow, but the branch isn’t (as) shiny as the arrow”. Consta que foi uma ideia de Dave, inspirado pelo selo dos Estados Unidos. A águia tem um ramo de oliveira numa pata e um punhado de flechas na outra. É suposto significar que, como nação, os Estados Unidos têm “um forte desejo de paz mas estarão sempre preparados para a guerra”. No contexto de Cut the Bridge, então, aqueles versos significam que o narrador se sente tentado pela violência, embora saiba que não é o caminho correto.
Mas tenho de dizê-lo: pesquisar sobre a essência dos Estados Unidos a propósito deste álbum, ser confrontada com um símbolo com a apetência dos americanos para a guerra, tendo em conta o que o país tem feito neste último ano, deixou-me com um grande amargo de boca. Não é por acaso que digo que os Linkin Park são, neste momento, das pouquíssimas coisas boas a vir dos Estados Unidos.
Regressando a Cut the Bridge, dizem que a música soa muito boa ao vivo. Não vou verificar, não vão eles tocá-la no Rock in Rio.
IGYEIH é a primeira música dos Linkin Park com uma sigla como título. Não são os primeiros músicos a fazê-lo, não serão os últimos, mas confesso que não sou fã. Diria que loml de Taylor Swift é o único exemplo de que gosto. Preferia que usassem um nome de trabalho, como Faint ou QWERTY. No caso de IGYEIH, consta que o nome de trabalho era Villain. Na minha opinião, funcionava bem como título, encaixava na letra. Deviam tê-lo mantido.
Enfim, são escolhas.
Em From Zero, IGYEIH é uma das com mais participação de Emily – Mike tem só dois versos antes do refrão. Tirando isso, confesso, não tenho muito mais a dizer sobre a música – apenas que só reparei que, na parte final, dois dos versos são “From now on got amnesia” em vez de “From now on I don’t need ya” na preparação deste texto. IGYEIH é capaz de ser a música de que menos gosto em From Zero. Não porque a ache má, apenas acho as outras mais interessantes e cativantes.
Passemos, então, às baladas. No cômputo geral, diria que gosto um bocadinho mais destas que das mais agitadas. Não necessariamente por serem baladas. Mais por terem, na minha opinião, as melhores letras de todo o álbum. Mais porque cada uma das três – perdão, das quatro, pois isto também se aplica a Over Each Other – é fantástica à sua maneira.
Comecemos por Overflow: uma das melhores em From Zero, uma das mais experimentais. Dave e Colin referem-na como uma das preferidas deles e consta que é uma das que Emily mais gosta de cantar ao vivo.
Alguns fãs dizem que Overflow faz lembrar A Thousand Suns. Em termos de letra, concordo, e falaremos sobre isso já a seguir. Por outro lado, a sonoridade recorda-me Post Traumatic – as tais influências que referi antes. O tom atmosférico faz-me lembrar Lift Off. A conclusão com a guitarra elétrica faz-me lembrar a conclusão de Watching As I Fall. Mike diz-me particularmente orgulhoso deste final de Overflow: ele terá tocado a guitarra, Colin terá tratado dos efeitos.
De facto, merecem orgulhar-se.
No primeiro refrão, temos a oportunidade – até agora única, pelo menos no seu trabalho com os Linkin Park, tirando a versão cinemática de Heavy is the Crown – de ouvir Emily num registo diferente. Será correto chamar-lhe a sua “voz de cabeça”? É certamente uma voz mais suave do que a que estamos habituados a ouvir. Espero que não seja a última vez.
Um pormenor de que gosto em Overflow são as notas iniciais – fazem lembrar um alarme de perigo, o que condiz com a letra. Overflow terá sido inspirada pelo chamado “doomscrolling”, por pessimismo, pelo acumular de tensões, tanto internas, psicológicas como tensões externas, da própria Humanidade. Que vão aumentando, acumulando, até um dia a bolha rebentar.
Agora que penso nisso, o tema de Overflow faz lembrar o conceito que inspirou o título Minutes to Midnight: o Relógio do Juízo Final, que conta o tempo que falta para, perdoem-me o dramatismo, o fim do mundo via guerra nuclear. Talvez explore melhor esta ideia quando escrever sobre esse álbum. Em todo o caso, essa sensação de que temos uma bolha prestes a rebentar (ou já terá rebentado?) é daqueles temas um tudo nada demasiado real por estes dias.
O único defeito de Overflow é, na minha opinião, ser demasiado curta, soar algo incompleta. Não digo que precisasse de mais letra, mas precisava de um refrão intermédio entre a suavidade do primeiro e a… digamos, rudeza do último e uma sequência instrumental na terceira parte.
Mas pronto. Não é uma falha assim tão grave.
Overflow tem sido um ponto alto nos concertos. A banda gosta de improvisar, brincar, tocar partes de outras músicas no início – por exemplo, Enjoy the Silence, dos Depeche Mode. Não sei exatamente como o fazem – não tenho visto muitos vídeos dos concertos para evitar spoilers.
Uma coisa que sei é que ao vivo, Mike altera o verso “I can hear the future callin’” para “I can hear the future, Colin”. Nota-se muito que ele é pai de adolescentes? Não é só ele: cheguei a ver um vídeo em que ele e Dave olham para Colin ao mesmo tempo aquando deste verso – pena não conseguir encontrá-lo agora.
À hora desta publicação, de acordo com o Linkinpedia, os Linkin Park ainda não disseram uma única palavra sobre Stained. Temos o episódio da LPTV, mais nada – é a única música em todo o From Zero, edição Deluxe incluída, em que isto acontece. É estranho.
Lembro-me que, na listening party, o refrão de Stained cativou-me logo. Mais tarde, passei por uma fase em que não gostava tanto. Stained é provavelmente o tema mais pop em todo o From Zero. Cheguei a pensar que o refrão recorria ao chamado Millennial Whoop. O episódio da LPTV dedicado a Stained fez-me ver que o refrão é bem mais complexo do que isso – as nuances, os backvocals, as diferentes tentativas de Emily e Mike.
Eu mesma fico com vontade de andar por aí a cantarolar, quer o refrão, quer aqueles vocais ecoados no início.
Não é só isso. Outro momento de que gosto muito é a segunda parte, em que Emily vai repetindo os versos de Mike. Um dos casos em que é o contraste entre as duas vozes, as duas interpretações, que fazem com que funcione,
A letra é das mais interessantes em todo o álbum. Sobre alguém que tem sangue nas mãos, um passado de pecados, crimes, que tenta desesperadamente esconder, tenta manter uma imagem imaculada. O/A narrador/a terá sido uma das vítimas (“Pretend you’re spotless but I don’t wash away”). A metáfora da nódoa que não sai não é particularmente original, mas foi bem executada. As manchas vão-se acumulando, crescendo, até que chegará o momento em que não será possível esconder mais – e a pessoa sofrerá as consequências dos seus atos.
É uma música muito fixe.
Por sua vez, Good Things Go é uma favorita entre os fãs, eu incluída.
A sua história de origem é engraçada. “Good things go” é uma expressão que já andava na mesa de trabalho de Mike desde, pelo menos, finais de 2020. Quase literalmente. Na altura, plena pandemia, como se devem recordar, Mike andava a fazer diretos no Twitch (um arrependimento que guardo é não ter pelo menos tentado acompanhá-los). Consta que, durante esses diretos, por vezes Mike tornava o desktop do seu computador visível. Os fãs, naturalmente, começaram a tomar nota dos nomes de ficheiros e pastas que conseguiam vislumbrar. Um deles era, precisamente, “good things go”. Num grupo de WhatsApp de fãs portugueses dos Linkin Park, consegui que me passassem este print screen, de um desses diretos. Aparece de facto uma pasta intitulada “Good Things Go Project”.
A partir de certa altura, no entanto, Mike terá reparado na bisbilhotice dos fãs. Assim, as pastas dele passaram a ter nomes como, numa tradução livre, “SIM EU SEI”, “VOCÊS CONSEGUEM VER AS MINHAS PASTAS”, “PÁREM DE CUSCAR!”.
Eu ri-me tanto quando li esta história pela primeira vez no Linkinpedia. Eu adoro este homem.
Já na era From Zero, Mike admitiu que “good things go” é uma expressão de que gosta. Terá tentado incluí-la em diferentes demos ao longo dos anos – o que explica os títulos de ficheiros e pastas durante a pandemia. Por outro lado, não se pode concluir que a ancestral da Good Things Go de From Zero venha dessa altura. Aqueles ficheiros poderão ser, precisamente, ideias que não chegaram a ser usadas até agora. Aliás, de acordo com o respetivo episódio da LPTV, a Good Things Go de From Zero será uma amálgama de ideias antigas, só tendo começado a ganhar forma em inícios de 2024.
Em Good Things Go temos de novo estâncias a duas vozes: Mike primeiro, Emily ecoando. Outra coisa de que gosto em From Zero é que há menos separação entre Mike a cantar e Mike a fazer rap – passa rapidamente de um estilo ao outro e há momentos em que parece fazer um híbrido de ambos. Como aqui e em Stained, por exemplo. É diferente, é interessante.
No episódio da LPTV, ouvimos Mike cantando o refrão. À semelhança do que acontecera com outras músicas, era apenas para servir de orientação para Emily, mas ele até se sai bem. Infelizmente para ele (ou felizmente? depende da perspetiva), Em é melhor como cantora. Tem as cordas vocais de Midas, pega em tudo o que Mike lhe dá e transforma-o em ouro. Good Things Go, então, tem uns quantos agudos impossíveis.
O rap na terceira parte é um dos meus momentos preferidos. Outro momento fazendo lembrar Post Traumatic – o que não surpreende tendo em conta que terá estado guardado na gaveta de Mike desde 2019. Traz uma dose saudável de drama, reforçado pelo acompanhamento em crescendo.
O/A narrador/a de Good Things Go parece ser uma pessoa profundamente deprimida, que se odeia a si mesmo/a. Tem uma pessoa na sua vida – uma vez mais, poderá ser um amante, um familiar, um amigo – que se preocupa, que quer ajudar. O/A narrador/a não quer ou não consegue aceitar ajuda, embora saiba que precisa. Tenta manter a outra pessoa à distância, talvez por instintos auto-destrutivos, talvez para tentar protegê-la. Mas a verdade é que acaba por magoá-la.
Um dos meus versos preferidos, não só nesta música mas em todo o From Zero, está nesse rap: “Fuck all your empathy, I want your fury”. Pode ser interpretado de várias maneiras. Talvez o/a narrador/a queira ser castigado/a. Talvez queira a raiva da outra pessoa para ter um pretexto para retribuir com hostilidade. Ou talvez queira que a outra pessoa seja sincera para com ele/a – às vezes, ao procurarem ser compreensivas, mostrar empatia, uma pessoa pode acabar por esconder os seus sentimentos. Porque quer agradar aos demais, não os quer magoar, porque saberá que tais sentimentos poderão não ser justos, poderão refletir os seus piores instintos. O/A narrador/a, no entanto, quererá ver esse lado.
Felizmente, Good Things Go termina numa nota de esperança: o/a narrador/a mostra-se disposto/a a assumir a responsabilidade pelos erros que tem cometido e agradece o apoio da outra pessoa.
É uma bela música, uma boa forma de encerrar a edição-padrão de From Zero. O que, de resto, vai em linha com o resto da discografia dos Linkin Park: todos os álbuns acabam com boas músicas.
Chegámos, assim, ao final da edição-padrão. É um álbum curtinho – só onze faixas (na prática, dez), trinta e um minutos de duração. É pouco, mas infelizmente é moda. As gravadoras usam a desculpa dos tique-toques desta vida, da redução do tempo de concentração. E tem sido caricato ouvir as desculpas que os músicos dão:
– Eu queria que fosse conciso e bom, para vocês quererem ouvi-lo várias vezes de seguida – disse Mike sobre a edição-padrão de From Zero.
– É um grande privilégio tomar trinta e cinco minutos do tempo de alguém. Não vou pedir-vos mais tempo, este é precioso – disse Lorde sobre o seu último álbum, Virgin.
– Podem ouvir duas vezes – disse Taylor Swift nos comentários de um Tik Tok de alguém queixando-se da curta duração das faixas de The Life of a Showgirl.
Meus senhores, ide enganar outra!
Em defesa de Taylor, o seu álbum mais recente é o sucessor de um autêntico testamento musical. Tem desculpa para, agora, lançar um trabalho mais conciso. Mesmo o Virgin, de Lorde, não soa demasiado curto, na minha opinião.
Ainda assim, regra geral, sempre preferi álbuns mais compridos do que curtos. Não digo que todos os álbuns tenham de ter a duração do The Tortured Poets Department: The Anthology ou, mais recentemente, do Ego Death at a Bachelorette Party. Mas sou antiquada: para mim um álbum deve ter entre doze e catorze faixas e, no mínimo, quarenta minutos de duração.

Dito isto, olhando para as músicas de From Zero em si, tirando os casos específicos da introdução e de Overflow, nenhuma das faixas soa curta demais. Por outro lado, agora que temos a versão Deluxe, esta soa mais completa, soa à versão definitiva do álbum. E, sejamos sinceros, não devia ser assim.
Ao mesmo tempo, tendo em conta que duas das músicas só ficaram concluídas após o lançamento da edição-padrão, também não sei o que podiam os Linkin Park ter feito de diferente.
Também me chateia (ainda) não haverem, à hora desta publicação, versões instrumentais, nem à capela, nem episódios da LPTV para estas três músicas.
Tecnicamente, a versão Deluxe foi editada em maio. Na prática, eles lançaram uma música de cada vez nas semanas anteriores: Up From the Bottom em finais de março, Unshatter em finais de abril e Let You Fade a 17 de maio, quando saiu o álbum todo. Nesse sentido sou menos antiquada: foi um lançamento interessante. Cada uma das músicas teve o seu momento.
Nas semanas anteriores ao lançamento de Up From the Bottom, a banda foi dizendo que esta era a melhor música que os Linkin Park alguma vez tinham criado. Não sei se eles estavam a falar a sério – com estes bacanos, não dá para ter certezas de nada. Dito isto, agora que já conheço a música… não digo que seja de facto a melhor dos Linkin Park, mas, vá lá, poderia figurar sem vergonha no alinhamento de Papercuts. É a minha preferida das três faixas extra da edição Deluxe e mesmo uma das minhas preferidas em From Zero, ponto.
Up From the Bottom terá sido composta há cerca de um ano, talvez um bocadinho mais. Foi já depois do regresso oficial, entre datas da mini digressão do ano passado. A banda ter-se-á inspirado precisamente na energia desses concertos.
Nota-se. É um dos meus aspetos preferidos da música: a sua energia incrível.
Não que tenha muito muito a dizer sobre ela. A letra, não sendo nada de extraordinário, é boa. Em termos de vocais, Emily desempenha o papel principal com competência. E gosto de ouvir Mike nos vocais de apoio na segunda estância.
A melhor parte é a terceira. Gosto do ritmo do rap de Mike. Este termina com “already off running”, temos uma pausa de cerca de meio segundo, antes de uma sequência absolutamente alucinante. Consta que mistura guitarra, teclado, discos giratórios, vocais de Emily. Mike explicou-o num tweet demasiado técnico para os meus humildes conhecimentos, de tal forma que nem consigo traduzi-lo.
Só sei que será, porventura, o melhor momento instrumental em todo o From Zero.
Up From the Bottom teve direito a videoclipe. Não sendo mau, não é nada da extraordinário. Casa bem com a música e adoro os visuais deles todos, sobretudo de Emily (tenho de comprar calçar tipo “cargo”). A minha cena preferida é aquela em que Mike passa a guitarra a Emily antes da fantástica terceira parte. É um momento discreto, talvez insignificante, mas a mim tocou-me. Já sou fã de música há muitos anos mas, tanto quanto me lembro, nunca vi membros de uma banda trocando instrumentos entre si num videoclipe.
É bonito.
Unshatter terá sido uma das primeiras músicas que os Linkin Park terão criado com Emily. Há uma história engraçada por detrás disso: quando Emily estava no gabinete a gravar a terceira parte da música, Colin terá entrado no estúdio. Ao ouvir o que estava a ser gravado, terá dito algo como:
– Olha! Parece a cantora dos Dead Sara!
Imagino que Mike tenha dito algo como:
– Tem piada dizeres isso…
Colin terá reagido com entusiasmo ao descobrir que era mesmo com Emily que estavam a colaborar. Tudo isto terá, então, decorrido antes de o alinhamento da nova versão dos Linkin Park estar definido.
Colin não foi o único a ouvir a terceira parte de Unshatter e a pensar “Dead Sara”. Vários fãs tiveram a mesma reação quando a música saiu. Curiosamente… eu não o vejo. E até tenho dado muita rotação a Dead Sara neste ano civil. Para mim, aquela terceira parte é clássico screamo de Linkin Park. Podia ter sido criado para Chester interpretar.
Temos de novo Mike no rap, Em no refrão. Temos de novo uma bateria forte, semelhante a Cut the Bridge. Um pouco semelhante demais, penso eu – talvez tenha sido por isso que tenha sido deixada de fora da edição-padrão.

Na minha opinião, foi a decisão correta. Cut the Bridge é melhor. Unshatter não é má. Tem um refrão cativante. Tirando isso e o seu significado histórico, no entanto, não me diz muito. Gosto menos que do restante From Zero.
Só falta falar, então, sobre Let You Fade. Uma das mais… interessantes em todo o álbum.
Esta terá começado a ser composta ainda durante os trabalhos de From Zero edição-padrão, mas a banda só conseguiu concluí-la e gravá-la em finais do ano passado. Assim que foi lançada, toda a gente fez a mesma interpretação.
Vou um bocadinho mais longe – ou melhor, vou numa direção ligeiramente diferente. Para mim, a letra de Let You Fade (não o som) recorda-me Post Traumatic, de Mike. Faz a ponte entre esse álbum e From Zero – no sentido em que é menos sobre a perda de Chester em si e mais sobre as consequências dessa perda. Sobre a perda da banda.
A primeira parte fala sobre noites mal dormidas (um tema recorrente em Post Traumatic), lamenta esforços feitos por um projeto que colapsou de um dia para o outro (“breaking our backs for a pile of sand, just to have it all falling out of our hands”). A segunda parte parece ser sobre a reconstrução da banda, o receio de que tudo volte a falhar (“Tryin’ to get with the rhythm, I’m all over the place”), a noção de que nada poderá ser como dantes (“we don’t want to admit that we are never going back”).
O refrão, por sua vez, é todo ele uma promessa: recordar alguém, honrar a sua memória, mesmo com todas as voltas que a vida possa dar.
Let You Fade terá começado como uma música calminha, só piano e voz, antes de a banda perceber que a música precisava de mais intensidade. O resultado final é, digamos, barulhento. Nem sequer sei se pode ser considerado balada.
Eu gosto assim. Existem muitas músicas sobre luto mais calmas e eu gosto de várias: Hear You Me, dos Jimmy Eat World, por exemplo, Bigger than the Whole Sky, de Taylor Swift, a própria One More Light. Dito isto, há alturas que preciso de música sobre perda com algum barulho, com notas agudas, para a catarse. Who Knew, da P!nk, sobretudo a parte final; Brighter, dos Paramore. Mesmo regressando a One More Light, a minha parte preferida é o solo de guitarra muito suave e o grito de “I do” – na versão de estúdio soa apenas no fundo, ao vivo soa alto e bom som. Têm sido muitas as ocasiões em que grito essa parte em coro com o Ivo, nos concertos de Hybrid Theory – é de facto uma grande catarse.
Por outro lado, o refrão cantado num tom mais grave e calmo por Mike – provavelmente mais parecido com com a tal versão só com piano e voz – funcionaria bem como uma conclusão para One More Light ao vivo. Se alguém estiver interessado… fica a sugestão.
Ora, Mike disse que a letra de Let You Fade não é sobre a perda de Chester. Não quero acusá-lo de estar a mentir – até porque é possível q|ue não tenha havido uma única situação a inspirar a letra – maaaaaasssss… vá lá.
Dito isto, não os censuro. Eu compreendo – tal como compreendo que não queiram voltar a tocar One More Light, pelo menos para já. Isto não é fácil para ninguém. Já escrevi muito sobre a perda de Chester, sobre como a sua vida e morte estarão para sempre ligados aos Linkin Park, para o melhor e para o pior. Mike compôs uma música sobre isso – About You, do álbum Post Traumatic – em 2017/2018. Acredito que esse seja um dos motivos pelos quais demoraram tanto tempo a reconstruir a banda. Não é fácil para ninguém e, ao fim de mais de oito anos, de milhares ou mesmo de dezenas de milhar de palavras escritas, de todas as fases do luto, as convencionais e as inventadas para este caso em específico, continuo sem saber a maneira correta de lidar. Se é que existe uma maneira correta.
Penso que todos concordamos que, de uma maneira ou de outra, não existe Linkin Park sem Chester e nunca existirá. Tal como reza Let You Fade, Chester nunca será esquecido – os milhões de fãs que deixou para trás nunca o permitirão. Ao mesmo tempo, já lá vão oito anos (não oito dias, não oito meses, oito anos). As saudades não desaparecem, mas nenhuma pessoa mentalmente sã vive em luto para sempre. Eu então já chorei muito, demasiado, pelo Chester. Foi necessário nas diferentes alturas, mas agora prefiro recordá-lo com alegria, celebrar as coisas boas da minha vida que ganhei graças a ele, direta ou indiretamente.
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Na mesma linha, compreendo que, nesta fase, os Linkin Park queiram contrabalançar o luto com alegria, que queiram fazer da banda um espaço seguro, um escape. Estão no seu direito. E tem resultado, entre palhaçadas, soutiens, gomas, fatiotas do Lidl, disfarces do Maradona, “gender reveals”. Não é por acaso que digo que o universo dos Linkin Park é uma das poucas coisas boas a acontecer no mundo neste momento.
Dito isto, é bom termos um momento com Let You Fade, onde os fãs possam projetar as suas emoções em volta de Chester. Na minha opinião, era a peça que faltava a From Zero. Agora o álbum está completo.
Como disse antes, From Zero é um típico álbum de Linkin Park. Quem for fã da banda e não tiver picuinhices em relação a Emily, vai gostar. Já tive oportunidade de ouvir as músicas de From Zero em aleatório à mistura com o resto da discografia dos Linkin Park e estas encaixam perfeitamente. Não tenho uma tabela classificativa com os álbuns da banda, pois estes estão em constante reavaliação. Mas neste momento diria que From Zero está confortavelmente na meio da tabela – a meio e a tender para cima.
Também vimos que From Zero não inova muito, o que é compreensível. Dito isto, é possível que o seu sucessor seja mais experimental – sobretudo tendo em conta que, desta feita, não estarão a reconstruir a banda ao mesmo tempo que criam o álbum. Pode ser que Emily e Colin tenham ainda mais influência no próximo trabalho. Eu gostava.
Para quando podemos esperá-lo? É uma boa pergunta. A digressão atual prolongar-se-á até meio do próximo ano – literalmente, a última data é 30 de junho – e passará por cá. São muitas datas e aqueles bacanos já não são assim tão novos: os mais jovens estão perto dos quarenta, os mais velhos estão perto dos cinquenta. Duvido que não precisem de pelo menos uns meses para descansarem depois desta.
Mike é Mike, é viciado. Mesmo que a digressão páre, aposto que ele se vai enfiar logo no estúdio. A questão é se será para criar música para os Linkin Park ou para projetos laterais. Mike tem dito que os Linkin Park são o seu verdadeiro amor, não será uma grande surpresa se quiser manter o comboio em andamento, para compensar pelo tempo perdido. Há de depender mais da vontade dos colegas.
Depois temos Emily com os Dead Sara. Acho que ela não quer desistir da sua banda original – algo que aplaudo. Até porque eu mesma, entretanto, me tornei fã da banda, ainda de forma muito superficial. Talvez queiram criar um álbum novo entretanto e/ou mesmo fazer uma digressão. Eu ficaria contente, mesmo que a possível digressão não passe por Portugal.

A minha única preocupação é que Emily – ou qualquer um dos outros, na verdade – se estique demasiado com todos estes projetos. Porque suspeito (atenção, isto sou só eu a especular, vale o que vale) que o burnout tenha sido uma das coisas a tramar Chester no fim. Até 2017, os Linkin Park andavam a lançar álbuns a cada dois, três anos. Não me importava se, nesta segunda vida, os ciclos vierem com mais anos de intervalo. Não deixa de ser uma melhoria em relação aos sete anos de pausa – desde que os seis (sete, se contarmos com Alex Feder, o guitarrista de apoio) estejam saudáveis e felizes.
Mesmo na pior das hipóteses, mesmo que tudo acabe, usando uma expressão muito usada por uma certa banda de tributo, os últimos catorze meses e tal já ninguém nos tira. Dito isto, espero que From Zero seja o primeiro de muitos álbuns desta versão da banda, que esta segunda vida dure até Mike, Emily e os outros terem noventa anos.
E era tudo o que tinha a dizer sobre From Zero. Não posso terminar sem deixar um agradecimento ao site Linkinpedia, que como o costume me facilitou imenso a pesquisa para esta análise. O próximo álbum sobre o qual escreverei será Virgin, de Lorde. Uma parte de mim quer desesperadamente saltar para Ego Death at a Bachelorette Party, de Hayley Williams: um álbum ainda mais sumarento do que o costume no que toca ao universo dos Paramore. Mas tenho de dar uma oportunidade a Virgin – é o mínimo, sobretudo tendo em conta que vou finalmente ver Lorde ao vivo, no próximo ano.
Além disso, já não é a primeira vez que digo que o universo dos Linkin Park e o dos Paramore têm tido mais tempo de antena aqui no estaminé do que quaisquer outros. Tenho de continuar a diversificar.
Como sempre, muito obrigada pela vossa visita. Até à próxima.
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