
Hoje vamos finalmente falar sobre From Zero, o álbum de regresso dos Linkin Park após uma pausa de sete anos, devida à morte do vocalista Chester Bennington, em 2017. Faz hoje um ano do lançamento da edição-padrão do álbum, mas neste texto falaremos também sobre Up From the Bottom, Unshatter e Let You Fade. Ou seja, tecnicamente, esta é uma análise à edição Deluxe de From Zero, editada oficialmente a 17 de maio deste ano. Virá dividida em duas partes, a segunda parte será publicada logo à tarde.
Conforme já expliquei anteriormente, já gosto mais do título From Zero. Se quisermos ser cem por cento factuais, claro que os Linkin Park não começaram do zero: tinham sete álbuns e cerca de vinte e cinco anos de história a sustentá-los. Penso que, neste contexto, tirando a alusão à primeira versão dos Linkin Park, Xero, “Zero” representa os sete anos de pausa. A banda e os fãs têm usado a expressão “From Zero to [país ou cidade onde há concerto dos Linkin Park]”. Nós, por exemplo, temos dito “From Zero to Portugal”, a propósito do concerto deles no Rock in Rio do próximo ano. Há uma t-shirt e tudo!
Porque a sensação é mesmo essa: recuperámos a nossa banda do nada. Antes deste regresso, não me atrevia a sonhar com, por exemplo, um regresso deles cá.
Por outro lado, se me permitem que volte a falar outra vez sobre os Hybrid Theory, o tributo português aos Linkin Park, a expressão From Zero também se aplicaria a eles. Um dos nomes que terão usado, quando o plano ainda era criarem música original, era Zeroh. E nem sequer era uma referência a Xero, não tinha nada a ver com os Linkin Park. Segundo o Ivo, o vocalista, aludia ao facto de terem zero ideias para o nome da banda.
Não vou comentar.
Regressando a From Zero, o álbum, este é mais ou menos o que seria de esperar. Um típico álbum dos Linkin Park. Pode-se argumentar que a banda jogou pelo seguro em vez de explorar territórios novos – como fora a norma desde Minutes to Midnight, inclusive, para a frente. Como já escrevi antes, acho compreensível. No que toca a este álbum, estarem ativos depois de tanto tempo em latência, depois de reconstruírem a banda, já é território novo.
Além de que duas pessoas novas na banda, em particular uma nova voz, já constituem novidade suficiente. Suficiente até para a comunidade de fãs entrar em guerra civil – algo que também já era a norma.

Alguns fãs têm tratado as faixas de From Zero como se cada uma delas representasse um álbum anterior ou mesmo uma música anterior. Não concordo. Tirando dois casos específicos e muito óbvios de músicas que soam auto-plagiadas – e, fiquem descansados, falaremos sobre isso – mesmo sem grande experimentalismo, a larga maioria de From Zero tem carácter próprio que chegue. Aliás, sempre notei algumas influências de Post Traumatic, o álbum a solo de Mike Shinoda, compositor, produtor, multi-instrumentista e essencialmente cérebro dos Linkin Park. O próprio Mike confirmou-o em entrevista, no verão passado.
As faixas de From Zero têm muitos “samples” – um de Fuse, um tema do tempo dos Xero, juntamente com o som de uma cassete sendo virada, no final de Overflow; um sample de Step Up no início de IGYEIH – muita conversa de estúdio entre faixas. Faz lembrar o The Hunting Party por um lado, mas já reparei que, por exemplo, Heroes dos Dead Sara (a primeira banda de Emily Armstrong, a sucessora de Chester como vocalista dos Linkin Park) também incluiu conversa de estúdio no fim. Talvez seja uma maneira de comunicar que é suposto ouvir-se o álbum do princípio ao fim, pela ordem correta. Eu, no entanto, já ouvi o álbum em aleatório e as transições funcionam à mesma.
As exceções são o “get your screaming pants on” entre Over Each Other e Casualty e, claro, o final de Good Things Go e o início de Intro: From Zero. Eles fizeram algo que os Coldplay costumavam fazer (será que ainda fazem?) com os álbuns deles: transições entre as últimas faixas e as primeiras, criando um loop. Segundo Mike, a ideia era que o álbum formasse um círculo, um zero.
O que nos leva, então, a Intro: From Zero. Não é a primeira vez que os Linkin Park abrem álbuns com faixas que não são canções a sério, mas eu diria que esta é a menos necessária, a que menos acrescenta. Consiste no coro por detrás do refrão de The Emptiness Machine (com vozes de Emily e Mike) e uma voz essencialmente tentando descortinar o significado de “from zero” – eventualmente percebendo a referência a Xero.
Durante algum tempo pensou-se que seria a voz de Emily. Mike disse que não, terá sido um miúdo, provavelmente pré-adolescente. Já pensei que seria o filho mais velho de Mike – penso que o nome dele é Odis – mas suponho que ele já será demasiado velho para soar assim.
Tem a sua graça mas, como disse acima, na minha opinião, não acrescenta o suficiente ao álbum para justificar a sua existência. Mais valia terem feito o loop com o início de The Emptiness Machine. Ou então, se precisavam mesmo de uma introdução, que esta fosse um instrumental que fizesse a ponte entre essa e Good Things Go.
O que nos leva a The Emptiness Machine. Tecnicamente, já escrevi sobre ela no ano passado, pouco depois de a música ter saído, mas as minhas opiniões… não digo que tenham mudado radicalmente, mas foram evoluindo com o tempo.
The Emptiness Machine foi uma das primeiras faixas de From Zero a serem criadas. Mike tê-la-á composto algures em 2022. Na altura, ele andava a compôr músicas a solo – terá composto In My Head depois desta – mas sempre soube que The Emptiness Machine era música de Linkin Park, logo, guardou-a. Consta que a primeira versão de The Emptiness Machine tinha apenas a voz de Mike e que o feedback de quem a ouviu era apenas médio-bom. Entretanto, Emily juntou-se à festa, rearranjaram a música de modo a que ela entrasse após o primeiro refrão. Aí, a avaliação da música passou de “boa” a “estratosférica”.
E tinham razão.
Eu adoro The Emptiness Machine. Agora vejo que fui um pouco crítica demais no texto do ano passado. Talvez tenha internalizado um pouco das reações negativas à música e ao regresso da banda em geral. Talvez fosse o instinto, muito prevalente na comunidade de fãs desta banda, de inicialmente não reagir bem a um novo ciclo de álbum.
Não sei. Nem eu nem muitos outros fãs dos Linkin Park mostrámos a nossa melhor faceta em setembro de 2024. O que vale é que muitos de nós conseguimos evoluir além disso. Há quem (ainda) não o tenha feito.
Regressando a The Emptiness Machine, a minha parte preferida é mesmo a entrada de Emily. Vou dizê-lo já: um dos melhores aspetos de From Zero é o contraste entre as vozes de Mike e Em. Se fosse Chester a cantar, estas músicas não resultariam, o carácter não seria o mesmo – a voz dele cumpria um papel diferente. É por isso que depressa deixei de tentar imaginá-lo cantando as músicas novas.
O momento, então, em que Emily começa a cantar em The Emptiness Machine é marcante, só por si mesmo. Conhecendo o contexto histórico, torna-se ainda mais especial. Olhando para o resto do álbum, não existe mais nenhuma música com esta estrutura. Faz sentido que tenha sido escolhida como primeiro avanço – nenhuma outra funcionaria tão bem para assinalar o regresso.
Em relação à letra, não tenho nada a acrescentar. Aliás, aproveito para avisar que, em várias músicas de From Zero, não falarei sobre as letras. Temos muitos clichés de Linkin Park aqui – temas combativos, revolta contra pessoas e/ou situações tóxicas – e, embora não desgoste da maior parte dos casos, não tenho muito a dizer.
Claro que temos notáveis exceções à regra. Não passarão em branco.
Regressando a The Emptiness Machine, gosto imenso dela. Tanto pela música em si como pelo papel que desempenhou. As vozes de Mike e Emily soam fabulosas – recomendo a versão à capela. Uma das melhores dos Linkin Park – não digo ao nível de Numb ou de In the End mas, vá lá, Burn it Down ou What I’ve Done.
Vou também falar de novo sobre Heavy is the Crown. Consta que esta nasceu de uma ideia com vários anos. Mike terá desenvolvido um tema para a banda sonora de Arcane – uma série animada que decorre no universo dos jogos League of Legends (é possível que esta última parte seja do conhecimento geral, mas eu só descobri há cerca de um ano). Mike esteve na estreia da primeira temporada em finais de 2021 – onde decorreu o momento delicioso mostrado neste vídeo – terá conhecido o compositor da banda sonora de Arcane, Alex Seaver. Pouco depois, convidou-o a sua casa onde lhe terá mostrado a demo de uma ideia para a banda sonora da segunda temporada – ideia essa que daria origem a esta versão.
Cheguei a pensar que o plano seria Mike gravá-la a solo – ou arranjar alguém para interpretá-la. Só que entretanto encontrei este artigo que dá a entender (é algo ambíguo) que, já em finais de 2021, princípios de 2022, Mike tinha planos para recuperar os Linkin Park, ainda que ainda não tivesse recrutado Emily.
De qualquer forma, a segunda temporada de Arcane estreou no ano passado, três anos depois. Deu tempo a Mike e os outros para reconstruírem a banda – e Emily acabou por cantar na versão usada na banda sonora.
Entretanto, os Linkin Park decidiram criar uma versão mais roqueira para From Zero. Essa versão reteve o carácter épico e cinemático – que se mantém o meu aspeto preferido da música. É o que lhe dá personalidade, o que a distingue de Faint, com que partilha muitos aspetos, conforme referimos antes. Pelo meio, a banda e Seaver lembraram-se de fazer dela o hino oficial da edição de 2024 Campeonato Mundial de League of Legends. Os Linkin Park tocaram-na ao vivo na final do campeonato, em Londres, a 2 de novembro do ano passado – na véspera do concerto deles em Paris.
Nesse dia, como podem ver no vídeo acima, Olivee May, a repórter que não reconhecera Mike em 2021, pôde reencontrá-lo (a cara dele mata-me) e redimir-se. Assim se fecharam dois ciclos no mesmo dia.
Dito isto, apesar de ainda gostar de Heavy is the Crown, devo confessar, esta foi ficando para trás nos meus interesses à medida que fomos conhecendo mais músicas de From Zero. Mais: em setembro do ano passado, juraria a pés juntos que gostava mais de Heavy is the Crown do que de The Emptiness Machine. Agora já não é verdade.
O single que se seguiu, por sua vez, é uma das minhas músicas preferidas neste álbum. Over Each Other, lançada em finais de outubro do ano passado, poucas semanas antes do álbum. Tem uma personalidade diferente das suas antecessoras: uma balada, ainda que sem deixar de ser rock. Lembra temas como Valentine’s Day ou Final Masquerade. Uma das minhas partes preferidas em termos de instrumental é a sequência que se segue ao segundo refrão: mesmo a puxar aos headbangs.
Até agora, da era de Emily, esta é a música com menos Mike nos vocais – só um backvocal aqui e além. É o mais próximo que temos de uma música de Linkin Park cantada a solo por Emily. Não acho muito justo. Nos álbuns anteriores, Chester tinha sempre direito a pelo menos a duas ou três músicas a solo nos vocais em cada álbum (em Minutes to Midnight e em One More Light chegou a ter sete). Porque é que Emily só tem uma até agora? Pode passar a ideia de que a banda (ainda) não confia nela para carregar uma música sem a “ajuda” de Mike.
Por outro lado, o co-vocalista tem vindo a ganhar traquejo com a sua voz nos últimos anos – como cantor mesmo, não apenas como rapper. Já vinha a fazê-lo ainda Chester era vivo. Pode-se argumentar que ele viria sempre a ganhar cada vez mais protagonismo nos vocais.
E de qualquer forma, como já dei a entender, tenho gostado de ouvir Emily e Mike cantando juntos.
Regressando a Over Each Other, Jon Green é um dos compositores, depois de já ter contribuído para One More Light, o álbum. Não diria que Over Each Other se encaixaria nesse disco, pelo menos não em termos de sonoridade. Por outro lado, para mim, a letra soa a uma continuação de Friendly Fire (lançada no mesmo ano, mas numa era completamente diferente): conflitos desnecessários entre entes queridos. No caso de Over Each Other, tais conflitos baseiam-se em problemas de comunicação. Penso que é suposto considerarmos que a letra fala sobre uma relação romântica mas, na minha opinião, é daquelas que se podem aplicar também a amizades ou relações familiares.
No respetivo episódio da LPTV, ouvimos parte de uma versão de Over Each Other cantada por Mike, grava algures em finais de 2022 – e até nem soa má. O vídeo salta para mais de um ano depois, já com Emily, mostrando Mike orientando-a enquanto esta criava a sua interpretação. E Em, tal como em The Emptiness Machine, elevou a música a todo um outro nível, sobretudo em termos de emoções.
A minha parte preferida é o último refrão: o verso “so say what’s underneath, I want to see your side” – o desespero e súplica tangíveis.
O videoclipe foi realizado pelo DJ da banda, Joe Hahn, e filmado em Seul, na Coreia do Sul. Ele e Emily ficaram para trás depois do concerto dos Linkin Park por lá, no ano passado. Joe ter-se-á inspirado em novelas coreanas (essa é a tradução correta para k-drama?) e nota-se um bocadinho.
Resumidamente, temos Emily e a sua namorada, têm uma discussão, a discussão prolonga-se até ao volante e têm um acidente. Melodramático e cliché – dos maiores clichés que existem – mas, a meu ver, funciona. Era o que a música pedia. E, de qualquer forma, sempre saca uma boa reviravolta, quando descobrimos que a Emily a cantar no local do acidente é um fantasma.
Over Each Other foi estreada ao vivo em Paris, precisamente no concerto a que fui. Emily toca guitarra nela – se a memória não me falha, foi a primeira vez enquanto vocalista dos Linkin Park. Foi agradável, mas na altura tinha alguma esperança de que estrearam uma inédita no meu concerto – tal como tinha acontecido no Rock in Rio de 2014, com Wastelands. Quem teve essa sorte foi Dallas, alguns dias mais tarde.
Nesta altura, vários de nós já sabiam que Casualty seria uma música pesada. Mike e Emily tinham-no referido neste podcast e, no final de Over Each Other, ouve-se Mike dizendo “OK, get your screaming pants on”. Já se conhecia o alinhamento do álbum, sabíamos que Casualty vinha depois de Over Each Other, noves fora…
Uma confissão: não gosto deste posicionamento. Sei que não é uma prática assim tão estranha transitar de uma música mais calma e sentida para uma música mais agitada e vice-versa. Nem sequer é a única vez que acontece em From Zero. Normalmente não me importo. Neste caso em específico, no entanto – talvez por Over Each Other mexer comigo como poucas mexem – é um contraste demasiado grande, na minha opinião.
Casualty terá nascido de uma ideia do guitarrista Brad Delson. Este juntou-se à festa com algum atraso. Quando já se sentia integrado no novo formato dos Linkin Park, sugeriu comporem algum bem pesado, algo que levasse Emily ao extremo (...agora que escrevo isto, pergunto-me se isto era a maneira de Brad de testar a miúda nova, de lhe fazer a praxe). Em correspondeu ao desafio, foi com tudo ao compôr o refrão, impressionando Mike.
Este por sua vez também se superou. Cantou em quase screamo, algo que, tanto quanto sei, nunca tinha feito. Muito fixe. E, uma vez mais, gosto do contraste entre a voz dele e a de Emily.
A letra, não sendo nada de extraordinário, tem os seus momentos. Só há poucos dias, quando ouvi a versão à capela da música, é que reparei no "Let's get out alive!" de Emily, no início da música. Estranhamente inspirador. Além disso, gosto de imaginar que o refrão é cantado por uma personificação do segredo do regresso dos Linkin Park – na Primavera do ano passado, quando andavam a escapar as primeiras pistas. “‘Cause something’s coming, it’s only a matter of time. Let me oooout! Set me free! I know all the secrets you keep!”.
E, inveja à parte, a estreia de Casualty ao vivo foi icónica. Mike invocando as “screaming pants” de Emily, a cara desta última, Em dizendo-se “muito tímida” antes de desatar aos gritos e aos headbangs. O que, por sinal, espelha bem a minha personalidade, as minhas duas facetas.
A última música que conhecemos antes do lançamento oficial de From Zero foi Two Faced – ainda que, no meu caso, não tenha sido bem assim. Se me permitirem o aparte, queria falar sobre a listening party oficial de From Zero – cujas recordações, para mim, estão associadas ao álbum em geral e a Two Faced. Na verdade, queria já ter falado sobre este evento neste texto, mas tive de cortar essa parte por motivos de extensão.
A listening party teve lugar dois dias antes do lançamento oficial do álbum, na sede da Warner Music Portugal. Inicialmente era um evento só para membros do LP Underground, mas acabaram por alargar a qualquer um que pedisse. Fui, naturalmente, com alguns amigos da família HT.
Foi uma noite muito gira. Na altura, nunca tinha ido a nenhuma listening party até à altura ou a outro evento do género. Foi a primeira vez que ouvi From Zero do princípio ao fim – tocaram-no duas vezes. Durante a primeira audição, ficámos só ali de pé, frente a uma grande tela onde fora projetada uma fotografia da banda – em que Mike e Emily pareciam estar a olhar diretamente para mim. Quando o álbum tocou segunda vez, dispersámo-nos pelo resto da sala, à volta das mesas onde estavam servidos canapés.
Já posso dizer que os Linkin Park me ofereceram jantar.
No fundo, foi mais uma noite para celebrar a banda e o seu regresso. Mais um exemplo de coisas que, poucos meses antes, julgava remotas.
Estou zangada em relação a uma coisa, no entanto. A Warner Portugal fez um reel do evento, mas retiraram-no das redes sociais. Eles entrevistaram-me durante o evento e passaram parte das minhas palavras na narração. Devia ter sacado o vídeo quando tive hipótese.

Regressando a Two Faced, durante a listening party, antes desta faixa, uma das pessoas com quem fui segredou-me que esta era muito Hybrid Theory (ele já tinha arranjado maneira de ouvir From Zero… não me perguntem como). Depois de ouvir pela primeira vez, a minha reação foi, de facto:
– Isto é quase um remix de One Step Closer!
Não fui a única. Nos dias que se seguiram apareceram logo montagens misturando as duas músicas. Uma das minhas preferidas é esta – parece que Chester e Emily estão aos gritos um com o outro.
– I can’t hear myself think…
– Shut up when I’m talking to you!
– Stop yelling at meeee!
– Shut up!
– I can’t hear myself think!
– Shut up!
Houve quem também apontasse semelhanças com Figure.09. Esta, já de si, é muito parecida com One Step Closer. As duas possuem um ancestral comum: a demo Plaster. Na preparação deste texto, apercebi-me que, na verdade, Two Faced parece-se ainda mais com Figure.09 que com One Step Closer. Ambas têm rap de Mike, os refrões têm melodias semelhantes, os gritos na terceira parte terminam ambos com “meeee”: “Get away from meeee! ”, “Stop yelling at meeee!“.
Uma vez mais, há misturas no YouTube, como a abaixo, em que incorporaram os vocais de Two Faced no instrumental de Figure.09. Encaixam quase na perfeição.
Ora, Mike recusa comparações entre Two Faced e músicas anteriores.
– Só quem não conhece bem a discografia dos Linkin Park – terá dito.
Assumindo que não nos está a tomar por parvos, há que recordar que este é o homem que garante a pés juntos que Meteora é um disco completamente diferente de Hybrid Theory. Eu adoro o Mike, mas nem tudo o que este senhor diz se escreve.
Também não acho que a intenção dele e do resto da banda com Two Faced fosse criar uma nova versão de One Step Closer. Mike afirmou ter-se inspirado nas suas influências durante os tempos de Xero, pré-Chester. Já vimos antes que, desta feita, os Linkin Park tiveram menos pudor em reutilizar elementos de trabalhos anteriores. Finalmente, como vemos no respetivo episódio da LPTV, a parte do “Stop yelling at me!” foi ideia de Emily, uma expressão que ela usa. Calhou ser algo que pertence ao mesmo território de “shut up when I’m talking to you!”.
Ainda assim, lamentavelmente, não consigo desassociar Two Faced de One Step Closer e de Figure.09. Não que não goste da música, atenção. Mal por mal, são elementos clássicos de Linkin Park e eu gosto de Linkin Park. Mas, infelizmente, Two Faced não consegue ter carácter próprio.
Queria assinalar um aspeto curioso. Como sabem, o refrão começa com “two faced, caught in the middle”. Esta última expressão é relativamente comum na língua inglesa – é inclusivamente o título de uma música dos Paramore. E aparentemente, segundo este Tik Tok, a expressão é cantada sempre com esta melodia – com muito poucas variações. Eles só dão quatro exemplos – incluindo Two Faced e Caught in the Middle dos Paramore. Poderão existir várias outras músicas usando a mesma expressão que não a cantem da mesma forma.
Mesmo assim, quatro músicas de bandas diferentes usando essencialmente a mesma melodia? É uma coincidência muito grande.
Ainda dentro do tema, logo nos primeiros dias após o lançamento da música, fãs começaram a brincar dizendo que o início do refrão soava a “toothpaste, bought in the Lidl” ou outras variantes. Não digo que não ache piada ao meme, mas sempre me pareceu um tudo nada forçado. Mais do que, por exemplo, “try the ketchup, motherfucker”.
Dito isto, os Linkin Park entraram na piada. A partir de certa altura – quando começou a digressão europeia deste ano, ou talvez antes – os fãs começaram a especular se Emily andava a cantar a letra erradamente de propósito. Tivemos a confirmação quando, no concerto de Dusseldorf, a mulher foi-me vestir uma daquelas fatiotas do Lidl para cantar Two Faced, como podem ver no vídeo acima.
Daquelas coisas que não estavam no meu cartão de bingo para os Linkin Park há um ano ou dois. “Já não bebes mais”, diria eu se mo contassem. Ao mesmo tempo, isto foi umas duas outras semanas depois de Emily ter rapado o cabelo a um fã a meio de um concerto. Soube a uma terça-feira normal no universo de Linkin Park.
Consta que, no concerto seguinte, ainda na Alemanha, andaram a distribuir fatos do Lidl entre os fãs na fila. Se fosse comigo, no entanto, bem diria aos Linkin Park para tirarem o cavalinho da chuva. Seria capaz de morrer por eles, mas não de vestir uma fatiota daquelas. Há limites.
Falta só falar sobre o videoclipe para Two Faced – o motivo pelo qual a música estará para sempre ligada à listening party. Saiu nessa mesma noite, poucas horas depois. Eu e os meus amigos vimo-lo pela primeira vez no telemóvel de um de nós, à porta de um bar na 24 de julho. Lembro-me de nos rirmos da cena final.
Aparentemente, um videoclipe para Two Faced não fazia parte dos planos, terá sido insistência da gravadora. Ninguém tinha nenhuma ideia. Mike em particular não andaria com grande vontade – e de facto, se pensarmos nisso, o vídeo foi filmado poucos dias antes do concerto de regresso. Eles deviam andar numa pilha de nervos nessa altura, não precisavam mais desta.
Joe lembrou-se de aproveitar o palco do concerto de regresso, vestir toda a gente de fato e gravata e pura e simplesmente tocarem a música. E a banda acabou por se divertir à grande. Com o playback, não precisava de se preocupar em cantar e/ou tocar como deve ser, tiveram permissão para se descontrolar, para abanarem o capacete, para andarem ao moche. Como eu e os meus amigos nos concertos. E isso refletiu-se no resultado final, no vídeo. Dá gosto ver.
Voltando à questão dos nervos pré-regresso, se eu estivesse no lugar dos Linkin Park, uma tarde de headbangs seria exatamente aquilo de que precisaria para lidar.
O episódio da LPTV que mostra os bastidores das filmagens é também delicioso. Emily chegando de skate, claro. Mike portando-se como se tivesse a idade dos próprios filhos nas brincadeiras entre takes. Emily acidentalmente empurrando o baixista Dave Farrell contra a bateria (esqueceu-se que tem de ter cuidado com os velhotes); com o joelho magoado; deitada de costas no chão, com Mike abanando-lhe a mão como se fosse um leque.
Não digam a ninguém, mas já tive vontade de fazer o mesmo depois de alguns concertos dos HT. Sobretudo depois do de Gondomar.
Acho que não é a primeira vez que refiro cá no blogue que nem sempre ligo aos videoclipes dos Linkin Park. Over Each Other e Two Faced são duas exceções. Estão entre os meus preferidos.
E para já ficamos por aqui. Não saiam desse lado, que a segunda parte vem já a seguir. Obrigada pela vossa visita.
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