sexta-feira, 10 de abril de 2020

Músicas Não Tão Ao Calhas – Bright

Não estava nos meus planos escrever este texto mas aqui estamos.


 


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Bright é uma canção de Avril Lavigne, composta e gravada durante os trabalhos de Head Above Water, mas que foi excluída do alinhamento final do álbum. Há cerca de três semanas apareceu na Internet. Logo nas primeiras audições a música deixou a sua marca em mim. Pus a hipótese de escrever sobre ela, mas deixei-a de lado. Em parte porque ainda estava a trabalhar no meu texto anterior e tinha planos para escrever outro a seguir, em parte porque não era um lançamento oficial. Não que me tenha servido de impedimento antes, mas mesmo assim.


 


No entanto, a verdade é que a música tem vindo a significar mesmo muito para mim. Acabei por chegar à conclusão de que o tema tem uma mensagem importante nestes tempos conturbados que atravessamos, não podia deixar de escrever sobre ela. Estamos todos a precisar de uma canção como Bright.


 


Um pouco de contexto antes. Hoje em dia qualquer fã de Avril estará fartinho de saber que ela contraiu Doença de Lyme em 2014 e passou os anos seguintes a lutar contra a doença. Durante os primeiros dois, três anos da doença, deixou de poder fazer a sua vida normal. Houveram alturas em que ficou de cama, incapaz de realizar tarefas básicas, como lavar os dentes. Chegou a pensar que não conseguiria retomar a sua carreira musical ou mesmo sobreviver. 


 


Uma coisa de que me apercebi por estes dias foi que aquilo por que estamos a passar neste momento – a quarentena, o isolamento social – foi mais ou menos aquilo que Avril teve de fazer durante os seus primeiros anos da sua doença. A menos que tenhamos sintomas graves do Covid-19, não estamos tão debilitados como ela chegou a estar, felizmente, mas também estamos confinados às nossas casas, com as nossas vidas em pausa, sem saber quando, ou se, conseguiremos retomá-las. 


 


E agora, que Avril já tinha recuperado a sua vida, a sua carreira, tinha conseguido gravar e lançar um álbum, já tinha estado em digressão pelos Estados Unidos e Canadá, preparava-se para regressar à Europa e à Ásia (e eu ia vê-la a Zurique), isto acontece, ela é obrigada a colocar a sua vida, a sua carreira, em pausa outra vez.


 


Esta pandemia não está a ser fácil para ninguém e o caso de Avril está longe de ser o pior. Longe de mim insinuar o contrário. Mas não deixa de ser cruel.


 



 


Bright é uma canção que documenta bem a vida de Avril condicionada pela Doença de Lyme – melhor que as músicas da edição padrão de Head Above Water, tirando, quanto muito, a faixa-título. É possível que tenha sido composta mais ou menos na mesma altura em que Head Above Water e Warrior foram, quando Avril só tinha forças para se levantar da cama e se sentar ao piano. 


 


A produção é relativamente simples e minimalista – é possível que isto seja só uma demo. É conduzida pelo piano, a que se junta a percussão, teclados discretos e, apenas no pós-refrão e terceira parte, sintetizadores.


 


O foco deste texto não é a parte musical, no entanto, é a letra – que pode ter sido inspirada pelas dificuldades de Avril com o Lyme mas também pode ser aplicada à nossa situação. Bright começa com “Everything is numb. I lost all the feelings in my bones. Got no place to go.” Não sei como é com vocês, mas ultimamente tenho tido dias de desânimo, em que me custa sair da cama, em que não me apetece fazer nada – ou melhor, só me apetece fazer coisas improdutivas como jogar Sims ou Candy Blast Mania no meu telemóvel. 


 


Os versos do pré-refrão continuam nessa linha: “I’ve been sleeping through the days and nights”. A frase seguinte vai mais longe: “I’ve been feeling I can’t even fight for things that used to get me feeling so alive”. Avril aqui falará provavelmente sobre o facto de não poder fazer aquilo que mais gosta: cantar, ir em digressão. A mim, no entanto, recorda-me tudo o que o vírus nos tem tirado: a possibilidade de trabalharmos, para muitos nós; concertos, jogos de futebol, cinema, teatro e todo o género de eventos com multidões.


 


As coisas que, lá está, nos dão alegria, sentido, que nos fazem sentir vivos.


 


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Na segunda estância Avril canta “Feeling like I’m somewhere in between. Everything I know slowly coming back to meet me”. Faz-me lembrar 26, dos Paramore. “I talk to myself about the places that I used to go”. Estando nós impedidos de viver experiências novas, uma das coisas que temos feito é olhar para trás. Como por exemplo recordando a final do Euro 2016. 


 


Admito desde já que não tenho autoridade para criticar tais atitudes. Sempre tive esse defeito: viver no passado, recordando períodos felizes, ignorando as coisas boas do presente. Além de que serei a última pessoa a criticar recordações da final de Paris – ainda hoje me emocionam vídeos como este e sei perfeitamente que iremos falar desse jogo até ao fim dos nossos dias.


 


No entanto, nesta fase do campeonato, não me tem ajudado muito olhar para o passado. Ao fim de algum tempo, só me recorda daquilo que não podemos fazer. 


 


Tendo em conta aquilo que se está a passar agora, estou grata pelas oportunidades não desperdicei nos últimos anos. Todos os jogos da Seleção a que fui, sobretudo a final da Liga das Nações no Porto. Os concertos dos Sum 41, da Shakira, de Bryan Adams, os encontros do Odaiba Memorial Day. Todos os almoços e jantares com família, colegas ou amigos, festas de anos dos meus primos pequenos. As viagens que tenho feito. As férias na praia. Até mesmo coisas menores como os passeios com a minha cadela, as tardes de escrita na esplanada. 


 


Mas também tudo isto me recorda que tão cedo não serei capaz de formar novas recordações para juntar a essas. O concerto da Avril foi cancelado e ainda não foi remarcado. O Euro 2020 foi adiado para o próximo ano. Era suposto o meu irmão vir passar a Páscoa connosco, no Algarve. É possível que o encontro do Odaiba Memorial Day não tenha de ser cancelado, pois será só em agosto, mas ainda não se tem a certeza.


 


E seria uma chatice cancelar o evento deste ano – logo agora que vão lá estar dobradores!


 


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No refrão, Avril compara-se a uma estrela cadente. Que surge no céu, brilha durante alguns segundos e depois desaparece na escuridão. Se pensarmos um bocadinho nesta frase, se assumirmos que é uma metáfora da sua carreira, dos seus sonhos… é triste. 


 


Não duvido que hajam pessoas com sentimentos semelhantes neste momento – que tiveram de pôr as suas vidas, os seus projetos, os seus sonhos em pausa, e correm o risco de perdê-los definitivamente.


 


A segunda parte do refrão é mais otimista, falando da necessidade de manter os olhos no céu, não perder a luz de vista. O verso “Out of the darkness we burn so bright” faz-me pensar nos exemplos do melhor da humanidade que temos visto: o sacrifício de médicos e enfermeiros, pessoas cantando à janela, as mensagens de esperança de jornalistas, partilhadas nas redes sociais (com graus diferentes de realismo e lamechice mas, eh pá, se isso ajudar uma pessoa que seja a tornar isto tudo menos insuportável, não sou eu que vou criticar), os utentes que vêm à minha farmácia buscar medicamentos para os familiares e vizinhos, a senhora que, no outro dia, nos ofereceu umas fatias de bolo de chocolate. 


 


Na terceira parte, Avril fala sobre agarrar-se à sua luz interior, sobre lutar para recuperar os seus sonhos. Quando ela escreveu esta letra referia-se por certo à sua saúde. Aplicando à atualidade, no entanto, à pandemia, torna-se paradoxal porque, para muitos de nós, a única maneira que temos de lutar pela nossa liberdade é… continuando prisioneiros. 


 


 A solução passará mesmo pela ideia defendia pelo refrão: continuarmos à procura da luz, agarrar-nos ao nosso melhor lado – ao civismo, à solidariedade, à esperança. Acreditar que, mais cedo ou mais tarde, isto passará. Que, como dizem nas internetes, iremos todos ficar bem.


 


Ainda que eu tenha algumas reservas.


 


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Em suma, não sendo uma letra super original, Bright é melhor que músicas como Warrior e mesmo Head Above Water ou It Was in Me até certo ponto. Isto porque, como acabámos de ver, em vez de se pôr com clichés, Avril diz exatamente aquilo que sente: a apatia, a frustração, a determinação, a esperança. E, pelo menos falando por mim, isso repercute na audiência, sobretudo numa altura como esta. 


 


Bright podia e devia ter sido incluída em Head Above Water. Talvez soasse um bocadinho redundante com Warrior ou a faixa-título mas este álbum está cheio de redundâncias. Birdie, I Fell in Love with the Devil e Tell Me It’s Over sobre relações tóxicas; Crush e Love me Insane sobre redescobrir o amor. Se era para haver repetição de temas neste álbum, que fosse, sobre a sua luta contra a Doença de Lyme – aquilo que, supostamente, seria o conceito principal de Head Above Water.


 


Por outro lado, não posso negar que Bright apareceu na Internet numa altura excelente. Pergunto-me se isso foi deliberado da parte do pirata informático que desencantou esta canção (simpático da parte dele ou dela) ou se foi mera coincidência.


 


Em todo o caso, é por situações como esta (que, como neste caso, nem sempre estão sob o controlo dela) que Avril se vai mantendo no topo das minhas preferências, mesmo sem o merecer por completo. Ela será sempre a minha mãe musical.


 


Espero, assim, que Bright também vos dê consolo e alento enquanto esperamos que esta pandemia se resolva. 


 


Quanto a este blogue, tinha referido na publicação anterior que queria escrever textos em atraso. E é o que tenho feito. Tenho estado a trabalhar numa análise que ando a adiar há muito tempo. No entanto, quero publicá-la numa data específica em maio. Ainda vão ter de esperar para poderem lê-la. 


 


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Entretanto, comecei outro projeto, algo inesperado. Um diário. 


 


Tinha visto de passagem no Twitter sugestões para escrevermos diários durante este período de pandemia – um período que, todos concordam, vai mudar o Mundo, que será estudado por historiadores no futuro. A ideia ficou-me no subconsciente, um dia destes ressurgiu e resolvi colocá-la em prática. 


 


Não voltei a encontrar o tweet em questão, mas tenho encontrado vários artigos sobre o assunto, encorajando as pessoas a escreverem diários. Para além dos benefícios psicológicos numa situação difícil e extraordinária como esta, no futuro estes diários serão objetos de estudo de historiadores. Servirão para informá-los acerca do impacto que esta pandemia está a ter no dia-a-dia de pessoas comuns como nós – algo que nem sempre é fácil descobrir através de fontes oficiais. 


 


A autora deste artigo, por exemplo, revela que escreveu no seu diário sobre as primeiras semanas ou meses após o 11 de setembro, a maneira como as pessoas da sua comunidade estavam a reagir à tragédia. Por outro lado, também escreveu sobre a maneira como viveu a vitória do seu clube, The New England Patriots, na Super Bowl. 


 


Não posso deixar de comentar esse aspeto pois foi precisamente com esse fim (ainda que de forma inconsciente) que criei o meu blogue sobre a Seleção Nacional. 


 


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Neste artigo referem que será preferível escrever um diário manuscrito em vez de digital. Supostamente serão mais duradouros.


 


Será verdade? Tenho as minhas dúvidas – não encontrei nenhuma fonte que corroborasse essa teoria. Mas suponho que, para um historiador, será mais fácil estudar um velho caderno escrito por uma tia-avó do que escavar por entre toneladas de lixo digital, tentando separar publicações sérias de desinformação.


 


Não me interpretem mal, se preferem escrever ao computador, num blogue ou num ficheiro Word protegido por palavra-passe (ainda é possível proteger ficheiros Word com palavra-passe?), estejam à vontade. Escrever é sempre bom. 


 


Eu no entanto prefiro escrever o meu diário à mão. Mesmo que não sirva de objeto de estudo para um historiador, pode ser que algum descendente meu queira ler sobre a minha vida durante a pandemia. Se nem para isso servir, será apenas um exercício de entretenimento e auto-reflexão.


 


Ora, visto que tenho escrito sobre coisas que ocorrem na minha família ou no meu emprego, não poderei partilhar o meu diário na íntegra aqui no blogue. A ideia é este diário só ser lido daqui a muitos anos – quando aspetos que hoje são privados já não serão relevantes. Mas poderei eventualmente publicar alguns excertos – com alguma distância temporal. 


 


Este texto foi adaptado de uma das entradas do meu diário, na verdade. Precisamente por causa do impacto que Bright teve em mim. 


 


Vou, assim, passar estes dias de quarentena e isolamento social a escrever, quer no meu diário quer neste blogue (o outro, infelizmente, vai ficar em águas de bacalhau por tempo indefinido). Quanto a vocês, lavem as mãos, fiquem bem e em casa. De uma maneira ou de outra isto há de passar. 

terça-feira, 24 de março de 2020

Pérolas escondidas de Bryan Adams #2

Segunda parte da minha lista de músicas menos conhecidas de Bryan Adams mas que mereciam mais atenção. Podem ler a primeira parte aqui. 


 


Ontem ficámos com Victim of Love. Agora vamos saltar mais de dez anos e vários álbuns até On a Day Like Today para falar de... 


 


 



  • Fearless & Lie to Me (& Before the Night is Over)


 


 


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On A Day Like Today é um dos meus álbums preferidos de Bryan Adams pura e simplesmente porque tem muitas músicas de que gosto. Já escrevi sobre How Do Ya Feel Tonight. Também gosto imenso de C’mon C’mon C’mon – soa a uma sequela à mensagem esperançosa da faixa anterior.


 


Durante muitos anos tive uma obsessão pela faixa-título. Já arrefeceu um bocadinho, mas faz parte da minha playlist da Seleção (à semelhança de Here I Am) e ainda hoje gosto bastante dela. Cloud Number 9 está numa situação semelhante: o meu eu aos treze/catorze anos ficava de coração derretido com a versão Chicane Mix dessa música, incluída em The Best of Me. 


 


E estas são apenas algumas. Hoje, no entanto, queria chamar a atenção para duas músicas neste álbum que abordam o tema de traições, que contam a história segundo personagens diferentes do triângulo amoroso.


 


Tecnicamente este álbum tem três músicas sobre o assunto. No entanto, Before the Night is Over é, na minha opinião, a menos interessante. Consideremo-la uma menção honrosa. 


 


Before the Night is Over tem várias semelhanças com One Night Love Affair – conforme apontaram há relativamente pouco tempo no grupo de fãs de Bryan Adams no Facebook. Tanto em termos instrumentais como temáticos – ao ponto de, segundo pessoas desse grupo, Bryan ter tocado um medley das duas durante a digressão de On a Day Like Today (não encontrei provas disso na Internet, no entanto).


 



 


(Um aparte só para dizer que, no concerto deste vídeo, só tinham o Keith Scott a tocar guitarra, Bryan ficou com o baixo e... não gosto. Como disse Vallance numa entrevista que li há imenso tempo, fica um buraco na música quando Keith faz um solo.)


 


Como vimos antes, One Night Love Affair fala sobre um caso de uma noite só com consequências inesperadas para o narrador. Before the Night is Over também se foca numa aventura romântica, aparentemente também de uma única noite (embora não seja muito certo). Desta feita, ambas as partes estão comprometidas com outras pessoas: um quadrado amoroso, portanto. Aqui o narrador sabe perfeitamente que está a cometer uma transgressão mas não se importa – o proibido faz parte do apelo.


 


É uma música gira, mas as outras duas de que vos vou falar são melhores, a meu ver. À semelhança de outras canções de Bryan, tem uma sequência de guitarra elétrica que lhe serve de imagem de marca – neste caso, uma série de três acordes no fim de cada verso das estâncias e no início de cada verso do refrão.


 


A letra de Fearless é narrada pelo “outro” – o homem com quem o interesse romântico está a trair o companheiro oficial. O narrador que que a sua amada deixe o parceiro romântico e se junte oficialmente a ele. 


 


Desde que ouvi esta música pela primeira vez não consigo evitar imaginar um videoclipe a partir das imagens pintadas pela letra (talvez um bocadinho literais, admito). Ela acordando na cama com o narrador, no início da primeira estância. Vestindo-se e preparando-se para sair enquanto o narrador pede-lhe que fique. Na segunda estância estão ambos no carro do narrador, parados em frente da casa dela. O narrador tenta dissuadi-la de entrar em casa, tenta convencê-la a deixar o companheiro, mesmo no caminho até à porta da frente. O narrador decide mesmo confrontar o seu rival, lá está, “sem medo”.


 



 


No fim, a questão fica no ar. Quem irá ela escolher? Na letra de Fearless, o narrador parece convencido que a amada o prefere ao companheiro, mas só ouvimos a história da perspetiva dele. Será ele capaz de ver as coisas como são?


 


Mesmo que a mulher decida deixar o companheiro para se juntar ao narrador, eu não poria as mãos no fogo por essa relação a longo prazo. Sobretudo se ela se mostra tão relutante em deixar o parceiro oficial… Costuma-se dizer que, se ele(a) traiu contigo, é provável que, mais cedo ou mais tarde, te traia. Talvez seja assim que ele(a) lida com problemas na relação.


 


Por sua vez, Lie to Me conta a história da perspetiva do homem que está a ser traído… mas que não quer enfrentar essa realidade. Pelo menos não por agora.


 


Musicalmente, Lie to Me tem um tom relativamente grave e intimista, a condizer com a vulnerabilidade da letra. Faz lembrar outra música do álbum, Inside Out, embora esta última tenha uma sonoridade um pouco mais etérea. Por sua vez, o início da melodia nas estâncias faz lembrar Cloud Number 9. 


 


Na letra de Lie to Me, o narrador percebe que a companheira está a traí-lo, que a relação está com problemas, mas não quer confrontá-la (nem a si mesmo) com a verdade. Não se sente com forças para isso.


 


É uma situação bastante triste, na verdade. Como já referi antes, é parecida com a True Love dos Coldplay. É possível que hajam muitas pessoas que se conseguem identificar com esta letra, que até tenham feito o mesmo em circunstâncias parecidas: insistirem numa relação sem futuro só mesmo porque era confortável, servia de consolo, tinham medo de ficar sozinhos. 


 



 


Voltando ao cenário anterior, do videoclipe, seria cruel se o outro escolhesse este preciso momento para confrontar o seu rival. Por outro lado, não estou a ver a mentira aguentar muito mais tempo.


 


Suponho que a moral da história seja: sejam fiéis aos vossos parceiros. Ninguém gosta de triângulos amorosos em ficção e muito menos na vida real. 


 


 



  • Not Romeo Not Juliet


 


 


O álbum Room Service, lançado em 2004, tem valor sentimental para mim porque foi o primeiro álbum de estúdio de Bryan cujo lançamento testemunhei. Depois de algumas semanas ouvindo Open Road na rádio, comprei o CD no dia em que saiu – o mesmo dia em que comecei o décimo ano numa escola nova. Nos primeiros meses, o álbum serviu-me de consolo enquanto eu me tentava adaptar a uma nova realidade. 


 


Músicas como, lá está, Open Road, This Side of Paradise, Flying, Room Service, sempre me agradaram. Tive uma fase, nos primeiros tempos com o álbum, em que andei obcecada com I Was Only Dreamin’. She’s a Little Too Good For Me é hilariante. 


 


Ainda hoje gosto muito de East Side Story. Até há bem pouco tempo considerava-a uma antecessora de You’re Beautiful, de James Blunt – a mesma história de “homem atraído por uma mulher que vê nos transportes”, com a diferença de que a música de Bryan decorre num autocarro e a de James decorre no metro… até descobrir o verdadeiro significado de You’re Beautiful. 


 


Agora que penso nisso, acho que gosto mesmo de todas as músicas deste álbum. Às tantas será mesmo o meu preferido de Bryan.


 



 


Curiosamente, a canção sobre a qual vou escrever agora terá sido a que demorou mais tempo a cativar-me – cerca de meia dúzia de anos. Not Romeo Not Juliet tem um ritmo midtempo que me recorda músicas como Complicated e Hand In My Pocket. O seu ponto de destaque, no entanto, é a letra.


 


Not Romeo Not Juliet assemelha-se a Victim of Love no sentido em que a letra aborda o tema do amor de uma maneira atípica para Bryan – neste caso tem uma visão mais prática e realista, sobretudo quando comparada com as várias canções românticas idílicas na discografia do cantor. 


 


Esta canção conta a história duas personagens cínicas, endurecidas pela vida, infelizes, que se juntam só mesmo para fazerem companhia um ao outro. Para não terem de ser infelizes sozinhos. Não admitem, sequer, que seja amor. Veem-se a si mesmo como simplesmente duas pessoas juntas, sem expectativas, sem pressões. A ver no que dá.


 


O narrador defende que o amor nunca é perfeito, ao contrário do que muitas vezes se pensa. Nunca se tem a certeza absoluta. Pelo menos não se não houver um esforço nesse sentido. (“We’re nothing unless we try”)


 


O título da música vem da frase “We’re not Romeo, we’re not Juliet”... mas haverá alguém que queira ser Romeu e Julieta? Dois adolescentes que arruinaram as suas próprias vidas para se casarem e acabaram mortos? Só pessoas que nunca leram ou viram a peça, que pensam que Love Story é uma adaptação fidedigna. 


 


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Para sermos justos, não parece haver consenso sobre se Romeu e Julieta é uma épica história de amor ou uma fábula. Eu mesma não consigo decidir-me. Se a intenção de Shakespeare era avisar acerca da irracionalidade das paixões adolescentes, porque incluiu a reconciliação das famílias no fim da história – dando a entender que, ao menos, surgiu uma coisa boa da tragédia? 


 


Será a moral da história para os pais? Avisá-los para as consequências dos seus ódios e mesquinhezes, de forçar as filhas a casarem (no caso de Capuleto)?


 


E com isto desviei-me imenso do assunto do texto. Isto tudo para dizer que os protagonistas de Not Romeo Not Juliet não são adolescentes ingénuos, imaturos emocionalmente, longe disso. São adultos com experiência de vida, de sofrimento, que não são conduzidos exclusivamente por emoções. Ou seja, é provável que tenham um final mais feliz que Romeu e Julieta.


 


 



  • The Way of the World


 


 


Em termos sentimentais, 11 está numa situação parecida à de Room Service. Foi apenas o segundo álbum de Bryan cujo lançamento acompanhei, três anos e meio após o disco anterior (na altura era muito tempo). No ano anterior tinha descoberto que era possível acompanhar a atividade de artistas através da Internet (foi na altura que descobri os sites de fãs de Avril Lavigne). Assim, nas semanas antes de o álbum sair, li várias entrevistas e declarações, fiquei a par do essencial.


 


11 era para ser um álbum acústico. No entanto, depois de Bryan fazer uma pausa nos trabalhos deste disco para ir em digressão, este decidiu que não queria deixar o rock de fora. Desse modo, manteve a base acústica, mas incorporou mais guitarras elétricas do que o previsto. Ainda assim, Bryan passaria os anos seguintes dando concertos estilo Bare Bones. O disco recebeu o nome de 11 pura e simplesmente porque era o décimo-primeiro álbum de estúdio e Bryan não teve imaginação para mais. 


 


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O álbum foi também marcado pelo regresso da parceria com Jim Vallance, após cerca de quinze anos sem colaborarem – ele e Bryan zangaram-se no início dos anos 90 e, segundo o que li, não foi bonito, foi parecido com um divórcio. 


 


Havemos de regressar a Vallance. Para já, dizer que me lembro de ouvir I Thought I’d Seen Everything semanas antes de o álbum sair (foi lançado como single no dia em que fiz dezoito anos, mas só a descobri dias mais tarde). Ainda hoje gosto muito dessa música. Já escrevi sobre She’s Got a Way. Broken Wings é uma que tem sobrevivido ao teste do tempo, é uma canção de amor não muito original mas reconfortante.


 


A música de que falamos hoje é uma das minhas preferidas em 11 e nem sequer faz parte do alinhamento padrão. Para encaixar no conceito do título, este álbum só podia ter onze faixas, logo, algumas tiveram de ficar de fora. Por sinal, entre essas encontram-se duas das minhas preferidas.


 


Com Way of the World foi particularmente cruel. Esta encontrava-se entre as prévias publicadas no site de Bryan antes do lançamento de 11 e cativou-me logo. Mas depois o álbum saiu sem Way of the World. Antes da edição Deluxe, lançada mais de seis meses depous, seria um exclusivo do iTunes – que eu, na altura, não sabia usar. Não que isso tenha atrapalhado durante muito tempo pois acabei por sacá-la.


 


Way of the World foi uma das três canções que Bryan co-compôs com Vallance. Na altura, não podendo estar no mesmo sítio, iam enviando ficheiros áudio por e-mail um ao outro. Vallance publicou no seu site o demo instrumental a partir do qual Bryan e Gretchen Peters, também co-compositora, desenvolveram a música.


 


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Gosto imenso desta demo – quase mais do que da versão final. Vale a pena ouvi-la. 


 


Way of the World tem uma sonoridade diferente do resto do álbum – talvez tenha sido por isso que tenha ficado de fora da edição-padrão. Existe algo de atmosférico, de dramático, nas guitarras elétricas – daí a ter incluído durante muitos anos na playlist que ouvia enquanto escrevia cenas de ação. Como o próprio Vallance assinala no seu site, a bateria, o solo de guitarra depois da terceira parte, os violinos são elementos de destaque.


 


A letra condiz com o dramatismo do acompanhamento musical. Way of the World, como o título dá a entender, fala sobre a face sombria do mundo, com alusões a guerra e poluição. 


 


Regra geral, quando Bryan tenta sair da sua bolha habitual de amor/sexo para abordar temas mais… digamos, interventivos, a coisa não resulta muito bem. É essa uma das falhas de Into the Fire. Way of the World será uma das exceções. Existem alguns momentos algo simplistas, como por exemplo “We got a lot of dirty water, we got a lot of dirty air” mas, no geral, não ficou má.


 


O narrador revela o desejo de mudar o mundo, mas ao mesmo tempo manifesta o desejo de arranjar um cantinho para si, para a sua guitarra e a sua família, longe disto tudo. Não sei como é com vocês, mas devo confessar que, nos tempos que correm, me identifico cada vez mais com esta incoerência.


 



 


E pronto. Foram uma mão-cheia de músicas mais obscuras de Bryan Adams que achei por bem destacar. Gostava de um dia escrever uma sequela a este texto, mas não sei se consigo encontrar muitas mais faixas pouco conhecidas de que goste tanto como destas. Tenho de dar mais tempo de antena aos CDs de Bryan, a ver se descubro mais pérolas escondidas.


 


Antes de nos despedirmos, queria falar um pouco sobre os meus planos para o blogue a curto/médio prazo. Suponho que tenha de falar sobre o elefante na sala: o três vezes maldito COVID-19. O vírus que me tem tirado uma grande parte das coisas que trazem alegria à minha vida. Cancelou-me o concerto de Avril Lavigne, em Zurique (e parte de mim acha que é castigo divino pelas críticas que lhe tenho feito). Cancelou-me o Euro 2020. Mesmo coisas menores como idas ao cinema, raides e outros eventos do Pokémon Go, a natação, passeios longos com a minha cadela, idas ao café. 


 


Não sou estúpida. Mais: sou farmacêutica, profissional de saúde. Sei perfeitamente porque é que estas medidas tiveram de ser tomadas. Concordo com elas, talvez devessem ter sido tomadas mais cedo. Mas não tenho de gostar.


 


Está visto que sou menos introvertida do que pensava. Consigo viver em isolamento, até mesmo disfrutar dele. Não me faltam maneiras de me entreter. No entanto, não quero viver exclusivamente assim.


 


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A escrita, na verdade, é uma das poucas coisas que o COVID-19 não me pode tirar. Suponho que agora terei mais tempo… Não estou de quarentena, mas comecei a trabalhar menos horas esta semana. Vou tentar dar prioridade à escrita e não a outras atividades, como ver vídeos no YouTube ou jogar Sims – embora possa abrir uma exceção para as maratonas de Digimon em PT-PT na página do Odaiba Memorial Day em Portugal (provavelmente uma das melhores coisas deste período de isolamento).


 


Vou aproveitar e escrever textos que ando a adiar há algum tempo – pelo menos até encontrar maneira de ver Kizuna, o filme de Digimon Adventure, ou até Petals For Armor sair por completo. Da maneira como as coisas estão, não dá para fazer grandes planos – vive-se uma semana de cada vez, quando não for um dia de cada vez. Vou escrevendo para me manter sã, entretida, quiçá também para entreter outras pessoas. 


 


Até se resolver este imbróglio.


 


Devia ser nesta parte que eu deixava uma mensagem inspiradora de esperança. Há uns anos talvez o fizesse – neste momento não estou nessa onda. Apenas peço para lavarem as mãos, ficarem em casa, não serem bestas, protegerem-se a vocês mesmos e aos demais (uma das coisas que tenho aprendido com esta pandemia é que o mundo está cheio de bestas). Mais cedo ou mais tarde isto há de passar.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Pérolas escondidas de Bryan Adams #1

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Este é um texto que queria ter publicado há meses – uns dias antes do concerto de Bryan Adams, em dezembro do ano passado (sobre o qual escrevi aqui). Este no entanto revelou-se mais comprido e trabalhoso do que esperava (de tal forma que acabei por decidir publicá-lo em duas partes). Quando dei por mim, faltava uma semana para o concerto e eu ainda nem ia a meio do primeiro rascunho. 


 


Acabei por decidi deixar o texto de lado e começar a trabalhar noutros, mais urgentes. Só agora é que consegui regressar a este. Não vou aproveitar o interesse aumentado em Bryan Adams a propósito dos seus concertos em Portugal, paciência. Não quero esperar pela próxima passagem de Bryan por terras lusas. 


 


Mas sobre que é este texto? Passo a explicar. Penso que é do conhecimento geral que Bryan Adams é um cantor muito popular no nosso país. Eu não fujo à regra – é o meu cantor masculino preferido. Bryan possui um vasto catálogo de êxitos, pelo qual muitos artistas morreriam para obter. Durante muito tempo, aliás, quase só conhecia esses êxitos (de compilações como The Best of Me e Anthology) e um ou outro álbum dos mais recentes. 


 


Hoje no entanto não quero escrever sobre os Summer of 69 desta vida. Pelo contrário, vamos falar sobre as músicas menos conhecidas, que não são incluídas nos álbuns de Greatest Hits mas que, na minha opinião, são tão boas como os êxitos. As subvalorizadas. As pérolas escondidas. Algumas delas nem sequer são singles, uma delas nem sequer faz parte da edição padrão do respetivo álbum. 


 


Nesta lista vou seguir uma ordem cronológica (ainda que o primeiro caso fuja um bocadinho à regra). Como penso já ter referido antes aqui no blogue, acabei por adquirir a maior parte dos CDs de Bryan em 2010, quando estes começaram a sair em fascículos. Ainda não exclui por completo a hipótese de, um dia, analisar pelo menos alguns desses álbuns aqui no blogue. No entanto, vou deixar alguns apontamentos sobre eles caso alguma das suas músicas apareça nesta lista. 


 


Assim, sem mais delongas, começamos por…


 


 



  • Don’t Ya Say It


 


 


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Bryan Adams não foi um sucesso instantâneo – esse só começou com o terceiro álbum Cuts Like a Knife. No que toca ao seu primeiro álbum, homónimo, que completou quarenta anos (!) há pouco tempo, isso dever-se-á ao facto de… o álbum não ser grande coisa. O próprio Bryan descreveu o seu disco de estreia como uma manta de retalhos de estilos musicais, admitindo que ninguém sabia ao certo o que estava a fazer e que ele precisou de tocar ao vivo para descobrir a sua identidade musical. 


 


Além que Bryan tinha apenas dezoito, dezanove anos quando gravou este disco. Eu e a minha irmã costumamos brincar dizendo que ele ainda não tinha atravessado a puberdade. A sua voz ainda estava longe de ter o característico timbre rouco – este só começaria a aparecer dois álbuns mais tarde.


 


Confesso que, apesar e ter o CD, foram pouquíssimas as vezes que o ouvi do princípio ao fim. As únicas músicas que oiço com alguma frequência são Remember, que foi incluída no Anthology (Bryan cantou-a no concerto de Lisboa), Hidin’ From Love (a mais gira do álbum na minha opinião) e esta. 


 


Don’t Ya Say It é muito diferente do resto da discografia de Bryan. Com elementos dançantes, mesmo da disco pop que dominaria os anos 80 e que ainda hoje adoramos. A letra não é nada por aí além – pouquíssimas letras de Bryan o são. Fala apenas sobre um interesse amoroso que não consegue retribuir os sentimentos do narrador, logo, este coloca-lhe os patins (a letra da música não usa pronomes especificando o género, mas os interesses românticos de Bryan costumam ser mulheres. Por uma questão de facilidade, vamos adotar essa regra neste texto).


 


Na verdade, Don’t Ya Say It figura nesta lista mais por causa do cover que a cantora portuguesa Aurea gravou para o seu primeiro álbum, homónimo (uma coincidência engraçada), editado em 2010. Gosto um bocadinho mais da versão dela. 


 



 


Não que esta seja radicalmente diferente da versão original. No fundo, fez um arranjo moderno de um tema com trinta anos, na altura. O tema de Bryan é muito anos 80, mas não necessariamente no bom sentido. Aqueles sintetizadores soam demasiado artificias, como uma versão de karaoke barata. O solo de saxofone está bem sacado, no entanto.


 


Por sua vez, a versão de Aurea está melhor produzida, com mais influências soul, com uma maior participação do saxofone – embora o solo seja de teclado. E, claro, o desempenho vocal de Aurea é irrepreensível. 


 


Esta música está associada a um momento feliz. Na altura em que descobri este cover, enviei um tweet a Bryan perguntando-lhe a sua opinião… e ele respondeu. Eu, claro, na tenra idade de… quase vinte e dois anos, reagi como uma autência fan girl.


 


Ah… quando o Twitter não era um campo minado… 


 



  • Tonight


 


Esta é capaz de ser uma das minhas preferidas nesta lista, mesmo de toda a discografia de Bryan.


 


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A primeira vez que me lembro de ouvir Tonight na rádio foi em 2006, algures durante a Primavera. Naquela altura tinha comprado a compilação Anthology há relativamente pouco tempo. Andava a ouvir temas como Cuts Like a Knife, Somebody, It’s Only Love, Heat of the Night, All I Want is You, rendendo-me à maioria.


 


Tonight é diferente desses temas em termos musicais, como veremos adiante, e mais uma vez a voz dele ainda não era aquilo que é hoje. No entanto, nas primeiras vezes que ouvi, lembro-me de haver qualquer coisa que reconheci como sendo de Bryan. 


 


Ora, esse período coincidiu com a contagem decrescente para o Mundial 2006. Na altura, a EMI desafiou cinco jogadores da Equipa das Quinas – Costinha, Luís Figo, Maniche, Nuno Gomes e Ricardo – a fazerem eles mesmos uma seleção de músicas cada um. Podem ler a lista completa aqui (foi o único sítio da Internet onde encontrei a lista). Consta que a própria Seleção ouvia estas compilações no autocarro, durante o Mundial.


 


Nota-se mesmo que isto aconteceu a meio dos anos 2000, com temas como Don’t Cha, Don’t Phunk With My Heart, Love Generation, Pon de Replay e Fuck It (I Don’t Want You Back) – que é feito deste gajo? 


 


A lista do Costinha, no entanto, inclui vários temas rock dos anos 80, incluindo Tonight. Na altura fiquei naturalmente contente por haver pelo menos um jogador das Quinas que gostava também de Bryan Adams. Ainda hoje me interrogo se foi por esta escolha de Costinha que, nos meses seguintes, apanhei Tonight várias vezes na rádio.


 



 


Talvez não. Hoje em dia ainda passa de vez em quando na m80.


 


Naquele tempo ainda não sabia sacar músicas, quer legalmente quer ilegalmente – nem acho que a minha Internet desse para tal. Tinha um leitor de mp3 mas só albergava faixas retiradas de CDs. 


 


As novas gerações não conhecem as dificuldades desses tempos: ouvir uma canção na rádio, ficar obcecada com ela, deixar a rádio ligada durante horas só para poder apanhá-la de novo. Algumas até passavam pelo menos uma vez por dia. Outras eram tão raras como Shinies em Pokémon.


 


Houveram muitos CDs que comprei so mesmo por causa daquela música que captou a minha atenção. Nalguns casos eu depois não ligava ao resto do álbum, mas também foi assim que descobri alguns que, hoje, estão entre os meus artistas ou bandas preferidos. Por exemplo, Within Temptation.


 


Com Tonight, acabei também por comprar o CD You Want It You Got It. Infelizmene, o resto do álbum não me impressionou por aí além. Só agora é que começo a dar uma oportunidade a uma música ou outra – daí que, desta vez, não falarei muito sobre ele.


 


Mas esta introdução já vai longa, vamos falar sobre a música em si. A letra é simples. A sua mensagem é essencialmente “não estamos a ir a lado nenhum com esta discussão, vamos fazer uma pausa e dormir sobre o assunto”. Cumpre o seu papel. 


 


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Na verdade, interessa-me mais falar sobre o arranjo musical. Um dos aspetos mais interessantes em Tonight, aquilo que a torna tão rara tanto na discografia de Bryan como na música rock em geral (tanto quanto conheço, atenção) é o facto de ser guiada pelo baixo. Não existe guitarra rítmica tocando acordes de apoio à melodia, apenas uma guitarra tocando pontualmente uma nota ou outra, um acorde ou outro.


 


Peço desculpa por voltar mais uma vez ao passado, mas a nostalgia é um dos fatores que me atrai para a música. Como penso ter referido aqui antes, aos quinze anos comecei a aprender a tocar guitarra. Ao voltar a estudar música pela primeira vez desde o meu sexto ano, o meu ouvido ficou treinado para melhor distinguir e apreciar cada instrumento. Ainda hoje uso essa capacidade nas minhas análises a música.


 


É por isso que, apesar de ter aprendido a apreciar música eletrónica, continuo a preferir instrumentos a sério. São das minhas partes preferidas em música.


 


Nesse aspeto Tonight foi um objeto de estudo interessante. Quando tinha dezassete anos e já tinha o CD You Want It You Got It, lembro-me de estar a conversar com o meu irmão e um amigo dele sobre o papel da guitarra baixo em música (algo que eu mesma ainda estava a tentar compreender). Lembro-me de pôr Tonight a tocar precisamente para dar um exemplo de uma música com o baixo em destaque – e de compararmos com Holiday, dos Green Day, em que o baixo segue o mesmo padrão da guitarra rítmica (é mais fácil de reparar nos primeiros compassos depois do solo de guitarra. 


 


Para quem estiver interessado na questão, o baixo serve para ligar a parte rítmica da música à parte melódica, para dar profundidade ao som. Se removerem o baixo de músicas conhecidas – como, por exemplo, Ain’t it Fun – dá para notar a diferença.


 


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E faz confusão.


 


Hoje daria como exemplo de faixas com prevalência do baixo músicas da primeira parte de Petals for Armor, em particular canções como Leave it Alone (como vimos aqui) e Sudden Desire. Dá para perceber que foram co-compostas por um baixista, Joey Howard. Muita da personalidade destas canções, mesmo de Simmer até certo ponto, vem do baixo. Um tom intimista, sombrio, depressivo no caso de Leave it alone, erótico no caso de Sudden Desire.


 


E estou a desviar-me outra vez. Isto tudo foi para dizer que o baixo é um óbvio destaque em Tonight. A guitarra elétrica também brilha, mesmo sendo escassa – ou talvez precisamente por isso. Os outros instrumentos na música são apenas a bateria e um órgão ainda mais discreto que a guitarra. 


 


É uma instrumentação relativamente minimalista, mas resulta. Todos os instrumentos cumprem o seu papel, destacam-se de uma maneira ou de outra, não é preciso acrescentar mais nada.


 


No canal de YouTube de Bryan temos um vídeo de uma apresentação ao vivo de Tonight no concerto da Amnistia Internacional em 1986. Como poderão ver (e ouvir), de início é apenas Bryan com uma guitarra elétrica. Também resulta. 


 



 


Jim Vallance, co-compositor de Tonight, aponta no site para as semelhanças entre esta música e o tema dos Outfield, Your Love. E de facto existem parecenças "lisonjeadoras", como escreve Vallance: a guitarra elétrica durante o refrão, o destaque para a palavra “Tonight”.


 


Não é algo que me incomode, para ser sincera. E se, tanto quanto sei, ninguém processou os Outfield por plágio, assumo que o mesmo se passa com Bryan e com a sua equipa. Eu até gosto muito de Your Love – pode ser parecida com Tonight nalgumas coisas, mas também tem muitos méritos por si própria.


 


E não sou a única, curiosamente. Your Love também faz parte da compilação de Costinha.


 


Em suma, Tonight estará entre as minhas canções preferidas de Bryan Adams. Como referi aqui, uns dias antes do concerto de dezembro último no Altice Arena, deixei um comentário nas redes sociais pedindo que Tonight fosse incluída na setlist. 


 


O meu desejo foi realizado. Tocaram-na de maneira muito parecida à versão do álbum – é possível que fosse a primeira vez em algum tempo que a tocavam ao vivo, não terão tido tempo para inventar. Destaco o momento em que a atenção se voltou brevemente para o baixista Solomon Walker, após o segundo refrão.


 


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Foi um belo momento, um de muitos nessa noite. É sempre assim quando Bryan dá concertos. 


 


 



  • Take me Back


 


 


Esta é uma faixa do terceiro álbum de estúdio de Bryan, Cuts Like a Knife. À terceira foi de vez: este foi o álbum com que Bryan começou finalmente a ter sucesso visível – embora tenha sido o álbum seguinte, Reckless, a catapultá-lo para a estratosfera, a dar-lhe o estatuto de lenda. Dois dos singles, Cuts Like a Knife e Straight From the Heart são clássicos e presença obrigatória nas setlists.


 


Curiosamente, em maio Bryan vai dar três concertos em Londres, no Royal Albert Hall. Em cada um dos concertos, tocará um álbum por completo – juntamente com os outros êxitos. No dia 11, tocará Cuts Like a Knife. No dia 12, tocará Into the Fire (?!). No dia 13, tocará Waking Up the Neighbours. 


 


Isto é, se o Coronavírus não os cancelar entretanto… 


 


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Pessoalmente gosto bastante de Cuts Like a Knife enquanto álbum. Tem um estilo consistente, talvez demasiado homogéneo nalguns momentos – praticamente todas as canções são sobre amor, sem grande originalidade mas gosto de quase todas as músicas. O tema-título é um ponto alto em concertos, sobretudo com a parte dos “Na na na…”. Gosto da versão original de Straight From the Heart, mas adoro a versão acústica que Bryan tem tocado nos últimos anos – sobretudo esta. 


 


Por outro lado, também gosto de This Time – a versão do álbum Live At Sydney Opera House, estilo Bare Bones, com um homem do público gritando dois versos no início, é hilariante. Sobre The Best Was Yet to Come será provavelmente incluída numa eventual sequela a este texto. Músicas como The Only One, a versão original de I’m Ready e What’s It Gonna Be são agradáveis ao ouvido.


 


No entanto, queria destacar Take Me Back – mais uma vez, menos pela letra, mais pelo instrumental. Esta é outra faixa em que o baixo ocupa um lugar de destaque, se bem que não tanto como Tonight.


 


Take Me Back começou com uma demo composta por Jim Vallance em 1980, uma coisa muito básica. Podem ouvi-la no site deste último. Na altura Bryan mostrou-se vagamente interessado. No entanto só a gravou um par de anos mais tarde, nos trabalhos para o álbum Cuts Like a Knife, desenvolvendo-a, dando-lhe personalidade. 


 


A música arranca num tom grave, algo tenso, mal controlado. Quando soam os vocais da primeira estância, as guitarras como que contém-se, só se elevando quando os vocais pausam. Precisamente como se a trela fosse aliviada momentaneamente, antes de ser encurtada de novo.


 


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Gosto imenso do refrão, dos vocais de apoio uma oitava acima do tom principal – um elemento que já veio da demo de Vallance. É uma pena só ouvirmos o refrão duas vezes – é o único defeito que temo a apontar à canção. 


 


Depois do segundo refrão, a energia da música é finalmente libertada, com acordes sonoros de guitarra elétrica e os vocais “Ah won’t you take me back!”. Esta parte não veio da demo, foi Bryan a compô-la. 


 


Na terceira parte da música, no entanto, regressa-se à contenção. É agora que o baixo se destaca, conduzindo a música, enquanto o órgão e sobretudo a guitarra elétrica vão brincando, improvisando discretamente. Repete-se a primeira estância num tom falado.


 


Era nesta parte que, nos primeiros anos após a edição de Cuts Like a Knife, Bryan começava a falar para o público. Monólogos politicamente incorretos, segundo Vallance no seu site. Dá para ouvir um aqui (não me parece assim tão politicamente incorreto… se calhar era segundo os critérios dos anos 80). Segundo o livrinho que veio com o fascículo deste CD, Bryan socorria-se desta canção muitas vezes para cativar públicos mais difíceis. 


 


Em suma, não sendo uma música extraordinária, Take Me Back é uma música interessante, invulgar, sobretudo dentro da discografia de Bryan. Talvez a peça da próxima vez que ele der um concerto por cá. 


 


 



  • Victim of Love


 


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Tirando os mais recentes Get Up! e Shine a Light, o álbum Into the Fire foi o último de Bryan Adams que comprei, em 2015 – foi o único que não consegui comprar em fascículo. Eu já conhecia algumas músicas: o tema-título, Hearts of Fire, Heat of the Night (quando tinha dezasseis, dezassete anos andava obcecada com esta), Victim of Love. 


 


Na altura em que comprei o CD já tinha este blogue. Cheguei a pensar escrever sobre este álbum, mas outros projetos foram-se metendo à frente, este ficou para trás.


 


Talvez um dia escreva sobre Into the Fire. Não tenho grande vontade, para ser sincera, mas não excluo a hipótese por completo. Assim, a única coisa que vou dizer sobre o álbum neste momento é que tem algumas músicas giras mas, no geral… é esquisito.


 


Victim of Love é capaz de ser a melhor música em Into the Fire, sobretudo pela letra, e uma das melhores de toda a discografia de Bryan. É uma canção muito única, muito diferente de todas as outras do cantor. Quase todas no álbum Into the Fire o são, na verdade. 


 


Victim of Love é a única neste álbum, tirando Hearts on Fire, que fala de amor – o que é raríssimo na discografia de Bryan. E mesmo assim fala de amor de uma maneira completamente diferente – tanto dentro da música de Bryan como da maioria das canções de amor e separação, tanto quanto conheço.


 



 


Esta balada tem uma letra e um tom extremamente melancólicos, quase “emo”, invulgares para Bryan. Fala sobre desgostos amorosos, relações falhadas, sem culpar nenhuma das partes do casal – pois ambos sofrem no rescaldo (“Doesn’t matter who was right or wrong. When the fire’s over, when the magic’s gone, You pick up the pieces, do the best you can.”). Nem sempre as relações resultam – faz parte da vida, faz parte do crescimento. A letra coloca a culpa no amor em si, chama-lhes, lá está, “vítimas do amor”. 


 


Ainda assim, a música deixa uma discreta nota de esperança, dizendo que não é o fim do mundo. Mesmo que doa ao princípio, uma pessoa pode sempre tentar de novo. “It knocks you down but you try again.” “Ain’t nothing you can’t rise above.” O instrumental reflete bem a melancolia da letra, sobretudo com o piano e a guitarra elétrica. 


 


É de facto uma canção que merecia mais destaque. No entanto, tenho de confessar que não pediria esta música num concerto. É demasiado triste, ia destacar-se pela negativa numa setlist cheia de músicas bem mais leves e alegres. Talvez faça mais sentido num concerto de Bare Bones. Ou então no tal concerto de maio com todas as músicas de Into the Fire – muitas têm um tom semelhante, não destoará tanto.


 


Na verdade, Victim Of Love é ótima para uma playlist de consolo após uma separação. “You’re just a victim of love” seria um título perfeito. 


 


As próximas canções também se referem a vítimas do amor, se bem que de uma maneira diferente... mas falamos sobre essas e outras na segunda parte deste texto, amanhã. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Pokémon: Detetive Pikachu (2019)

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Não estava nos meus planos escrever um texto sobre o filme Detetive Pikachu. Ou melhor, só sobre este filme. A minha ideia era deixar algumas impressões sobre ele no meu balanço musical de 2019, a propósito de Carry On e Holding Out for a Hero. As frases, no entanto, transformaram-se em parágrafos, os parágrafos em páginas do meu caderno, fazendo um grande desvio ao assunto do texto. Era evidente que tinha muito a dizer sobre este filme. Fazia mais sentido dedicar-lhe a sua própria publicação, que as pessoas pudessem encontrar com maior ou menos facilidade pesquisando no Google, em vez que enterrá-lo no meio de outro texto.


 


Escolhi publicá-lo hoje, que se assinala o vigésimo-quarto aniversário de Pokémon enquanto franquia (tenho vindo a celebrar estes aniversários desde o inesquecível vigésimo, em 2016). Parece-me adequado dedicar uma publicação à melhor coisa que, a meu ver, aconteceu no último ano (talvez esperassem que eu referisse Sword&Shield, mas os jogos têm estado envolvidos em tanta polémica, começando desde uns meses antes do seu lançamento e continuando até hoje, que me têm alienado da comunidade de fãs). 


 


Um alerta importante: este texto está cheio de spoilers. Leiam-no por vossa conta e risco. Assim, sem mais delongas…


 


À semelhança do que aconteceu com Pokémon Go, um filme live-action era algo que eu sempre desejei, mas só o descobri quando saiu o primeiro trailer. Não vou dizer que nunca tenha pensado nisso… mas nunca o encarei como uma ideia viável. 


 


Em parte porque, tradicionalmente, filmes baseados em videojogos não prestam. Mesmo os baseados em anime não costumam ser grande coisa, tanto quanto sei.  Por exemplo, tanto quanto me lembro, ninguém gostou do filme baseado no Dragon Ball há coisa de dez anos. Também ninguém gostou da adaptação de Death Note do Netflix. 


 


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Por fim, quando víamos na Internet imagens “realistas” de Pokémon, era quase tudo monstruosidades (veja-se a imagem acima). Não havia nada do charme dos desenhos no anime e dos jogos (bem, tirando os da primeira geração).


 


Tudo mudou quando vi o primeiro trailer. Confesso que demorei um bocadinho a habituar-me a estes Pokémon mais “realistas”. À semelhança da maior parte das pessoas, suponho eu – ninguém se tinha apercebido antes que os Pokémon tinham tanto… pêlo. Suponho que faça sentido, no entanto. Mas depois de nos habituarmos, a maior parte dos modelos são bons. Alguns melhores do que outros, claro, mas no geral acho que conseguiram combinar os aspetos mais realistas dos Pokémon (um dos colaboradores foi precisamente o autor das tais fanarts realistas que circulavam pela Internet) com os aspetos mais apelativos dos bonecos que tão bem conhecemos. 


 


À medida que o tempo passava e mais trailers iam saindo, o meu entusiasmo crescia. No entanto, tentava ser cautelosa, mantendo as minhas expectativas no mínimo. Pela parte que me tocava, Detetive Pikachu não precisava de ser um filme extraordinário (e não o é). Só precisava de ser um típico filme de Hollywood… mas com Pokémon. Só precisava de não ser uma porcaria.


 


E o filme não é uma porcaria, longe disso. Foi uma jogada inteligente terem baseado o filme num spin-off menos conhecido, em vez de basearem nos jogos principais ou no anime. Na minha opinião, criarem uma típica história de um treinador de Pokémon não traria nada de novo aos fãs da franquia e poderia ser alienante para as pessoas de fora. 


 


Em vez disso, Detetive Pikachu colhe inspirações em filmes de detetives noir. É mais sombrio que o anime e que a maior parte dos jogos, mas acho que não ao ponto de traumatizar criancinhas. Eu pelo menos há anos que desejava uma história em Pokémon que não tivesse o tom paternalista e ultra-infantil do anime.


 


(Talvez devesse ler Pokémon Adventures…)


 


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Algo de que só me apercebi há relativamente pouco tempo diz respeito às semelhanças entre Detetive Pikachu e Zootopia (um filme de que gosto muito). Em primeiro lugar, centra-se numa cidade aparentemente utópica, onde em teoria criaturas fofinhas podem viver em paz. Na prática é uma fachada. Durante o decurso do filme a máscara acaba por cair mas, no fim, o elenco compromete-se a honrar o espírito da cidade. 


 


Em segundo, ambos são filmes de detetives/”buddy cops”. Um dos protagonistas nasceu numa terra pequena e vem de comboio para a tal cidade. Um dos protagonistas é um cínico, que em criança até tinha crenças que coadunavam mais ou menos com o espírito da cidade, mas a vida encarregou-se de destruí-las (o flashback da infância de Nick ainda hoje me parte o coração). 


 


O enredo centra-se no desaparecimento de um pai. Um dos elementos importantes do caso é uma substância que desperta os instintos selvagens e violentos das tais criaturas fofinhas. Existe um primeiro falso vilão mas, no fim, descobre-se que o verdadeiro vilão é uma figura de autoridade que os protagonistas consideravam um aliado.


 


Para ser sincera, a história é capaz de ser o aspeto mais fraquinho do fime. Pelo menos a parte relacionada com o vilão. Que o Presidente Howard Clifford quisesse transportar-se para o corpo do Mewtwo até faz sentido – quem nunca? Mas qual é a vantagem de obrigar o resto do povo a fazer o mesmo com os seus Pokémon? Não se percebe.


 


A força do filme está nos outros aspetos. O Detetive Pikachu em si é irresístivel: uma versão do Deadpool adequada a menores de 16, com toda a fofura que sempre caracterizou a mascote, captada na perfeição pelo filme. Justice Smith fez um bom trabalho dando vida a todas as facetas de Tim – e para nós, fãs, é bom saber que o ator gosta de Pokémon, à semelhança de Kathryn Newton, que dá vida a Lucy.


 



 


Esta, aliás, é adorável e merecia mais tempo de antena. Tem um par de cenas, como a acima, em que se esforça, de forma hilariante, por passar a imagem de jornalista intrépida. No entanto, na segunda metade do filme, tirando um momento ou outro, existe apenas para dar apoio a Tim.


 


Outra das falhas do filme, aliás, é ter pouquíssimas personagens femininas. Mal passa o teste de Bechdel. O que é uma pena quando Pokémon sempre fez por apelar tanto a rapazes como a raparigas. 


 


Outro ponto forte do filme, talvez a maior força do mesmo, é o respeito, mesmo o carinho com que trata a franquia. Um fã de Pokémon encontrará inúmeras referências e pormenores fantásticos – basta pesquisarem “Detective Pikachu Easter Eggs” no Google ou no YouTube para saberem do que estou a falar. 


 


Por outro lado, o filme não mostra demasiada reverência para com a franquia. Pelo contrário, Detetive Pikachu teve imaginação para explorar lados menos convencionais de Pokémon que conhecemos tão bem (não sei se isso veio do jogo Detetive Pikachu ou se dos próprios guionistas do filme). Um exemplo disso é o que fizeram com o Mr. Mime – que, segundo o que consta, esteve muito perto de não aparecer em Detetive Pikachu. 


 


Mr. Mime é um Pokémon com uma reputação… estranha na comunidade de fãs. Há muita gente que não se sente muito à vontade com Pokémon humanóides. Somando isso a doses variáveis de coulrofobia e não admira que Mr. Mime tenha fama de palhaço assustador. (E depois há toda aquela teoria de que Mr. Mime seria o pai de Ash. O que é estúpido. A mãe dele só conheceu o seu Mr. Mime no episódio 64 do anime, já Ash tinha pelo menos dez anos. Este pessoal nunca estudou Biologia?)


 



 


Eu nunca adorei o Mr. Mime, mas nunca o achei assim tão desconcertante. Não quando temos o Drowzee e o Hypno na mesma geração. Mas compreendo que algumas pessoas adorem odiá-lo.


 


Consta que, de início, a Pokémon Company não estava muito entusiasmada com a ideia de um Mr. Mime “realista” – porque, lá está, o resultado final poderia causar pesadelos. O realizador Rob Letterman teve de pedir autorização diretamente a Tsunekazu Ishihara, o presidente atual da empresa, para que o Pokémon aparecesse no filme.


 


Felizmente acabaram por aceitar. Ainda bem. Não sei como foi com vocês, mas a cena do interrogatório ao Mr. Mime fez-me gostar mais do Pokémon. Mantiveram as características desconcertantes, mas carregaram na parte de palhaço mimo. O resultado final foi uma das cenas mais engraçadas de todo Detetive Pikachu.


 


De mãos dadas com o carinho pela franquia está o facto de o filme ter coração e não se envergonhar disso (estou a olhar para ti, primeira metade de Bokura No Mirai!). Falo sobretudo na jornada emocional de Tim para fazer as pazes com o seu pai. 


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O que me leva à grande reviravolta e fonte de confusão do filme: o facto de a personalidade do Detetive Pikachu ser na verdade um híbrido das mentes de Harry e do seu Pikachu. Eu sinto-me dividida em relação a este desenvolvimento. Por um lado, faz algum sentido. E é certamente comovente, à sua maneira, que o pai de Tim tenha estado lá desde o início. 


 


Por outro lado… é esquisito. É muito esquisito.


 


A pergunta que se coloca é com é que Tim não reconheceu a voz do pai saindo do Pikachu. Eu até consigo arranjar uma explicação, mais ou menos. No anime sempre existiram Pokémon com a habilidade de falar telepaticamente com humanos. Muitas vezes era explicado com “poderes psíquicos” (ex: Mewtwo) ou com aura (ex: Lucario). Talvez Tim soubesse disso e pensasse que o seu subconsciente estava a associar o seu pai com o seu Pikachu. Afinal de contas, ele de início pensou que a voz do Detetive Pikachu era uma alucinação.


 


Enfim, é só uma teoria, um bocadinho rebuscada. Na prática, se Tim tivesse perguntado logo desde início porque é que o Detetive Pikachu estava a falar com a voz do pai, a audiência adivinhava logo o twist final. 


 


O maior problema deste twist é que, agora, será quase impossível fazerem uma sequela com o Detetive Pikachu. Segundo o que percebi (e posso estar enganada), a personalidade do Detetive Pikachu era um híbrido das personalidades de Harry e do seu Pikachu, juntamente com amnésia. Depois de conhecermos a verdade, não dá para voltar atrás.


 


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Mesmo que, por um motivo ou outro (e não consigo pensar em nenhum motivo plausível), a mente de Harry fosse de novo inserida no corpo do Pikachu, com amnésia e tudo, Tim saberia a verdade e as interações entre ambos seriam completamente diferentes. Mesmo que Tim também fosse afetado por amnésia ou a história envolvesse personagens que não soubessem a verdade… a audiência saberia. Não seria a mesma coisa. 


 


É por este motivo que me sinto dividida com este twist de Harry ter estado desde o início no corpo do Detetive Pikachu. Por esse motivo e porque, na minha opinião, tira um bocadinho de piada à personagem. 


 


Um dos atrativos da língua atrevida do Detetive Pikachu era o facto de ser um Pokémon, um Pikachu – uma figura adorável, símbolo de uma franquia, herói das nossas infâncias – metendo-se com Tim por causa da sua tentativa falhada de namoriscar com Lucy. saber que, afinal, existia uma mente humana pelo menos em parte por detrás daquelas palavras tira algum impacto. 


 


Acho que a jornada emocional do filme também poderia ter resultado se o Detetive Pikachu fosse apenas o companheiro Pokémon de Harry. Pai e filho fazendo as pazes através do Pikachu do primeiro… Até porque exploraria sobre o qual tenho tido curiosidade nos últimos anos: como é que um Pokémon reage quando o seu treinador/parceiro humano tem filhos. Ficam com ciúmes? Veem a criança como um irmão? Ou como uma espécie de sobrinho ou irmão mais novo que ajudam a criar?


 


Ainda assim, não tenho razões de queixas da forma como o filme explora a relação entre Tim e o seu pai. Uma das coisas de que me tenho vindo a aperceber nos últimos anos é que daddy ou mommy issues dão pano para mangas em termos de drama em ficção. Detetive Pikachu não foge à regra. 


 



 


O filme, aliás, traça um paralelismo curioso, ainda que algo forçado, entre a relação de Tim com Harry e a relação de Tim com os Pokémon em geral. O jovem sente que o pai o trocou pelos Pokémon – o que faria sentido se Harry o tivesse deixado para se tornar um treinador ou um líder de ginásio. Harry no entanto é detetive, o seu trabalho não parece assim tão relacionado com Pokémon – tirando o facto de exercer em Rhyme City, com a sua política menos convencional em relação às criaturas.


 


Pode ter mais a ver com o facto de a mãe ter morrido no dia em que, segundo o que o filme dá a entender, Tim iria receber o seu primeiro Pokémon. Não sei, podia ter sido explicado um bocadinho melhor.


 


A cena acima em que Tim e o Pikachu pensam que Harry morreu mesmo é uma das minhas preferidas em todo o filme. Tim arrependido por não ter vindo viver com o pai anos antes, quando este pediu. O Pikachu consolando-o com palavras que, sem sombra de dúvidas, vêm de Harry.


 


E, claro, a cena final já com Harry, em que Tim decide ficar em Rhyme City, em vez de regressar a casa. A atuação de Justice e sobretudo de Ryan transmitem as emoções do momento na perfeição. Tão pouco tempo depois de Deadpool, acho que ninguém estava à espera de ver Ryan Reynolds no papel de pai. 


 


É uma história bonita, de amor familiar e de perdão. Está longe de ser original, claro, mas foi bem executada, tornando este filme, como alguns têm dito nas internetes, “melhor do que tem direito a ser”. E como o próprio Ryan Reynolds disse, são temas universais, “wholesome”, que sabem bem de vez em quando nos dias conturbados de hoje.


 



 


Queria falar agora sobre aspetos mais secundários do filme de que gostei. Sei que vai contra o espírito de Rhyme City, mas eu gostei da cena na arena de combate. 


 


Que querem? Um dos maiores apelos de Pokémon para mim continuam a ser as batalhas. #Sorrynotsorry. Embora, claro, não tenha nada contra Rhyme City para os Pokémon e humanos que não gostem desta vertente.


 


Sebastian, que gere (?) esta arena e que dará a pista seguinte é o típico durão deste género de filmes, com os músculos, as tatuagens, o histórico de Internet questionável, mas depois salta para a arena quando sente que o seu Charizard corre perigo, chamando-lhe “my baby”. Preocupa-se muito com o seu “baby” mas usa-o em combates ilegais...  Gostei desse pormenor, dando alguma profundidade a uma personagem secundária, quando um guionista mais preguiçoso não teria ido além do estereótipo. 


 


De referir também que, apesar de, tanto quanto se sabe, Tim nunca ter chegado a ser treinador, ele não é nenhum ignorante no que toca a Pokémon. Os conselhos que dá ao Pikachu antes do combate com o Charizard são um exemplo disso – e é bonito quando, mais à frente no filme, o Pikachu recorda-se desses conselhos (já aí vamos).


 


Por outro lado, quando Sebastian liberta acidentalmente quantidades industriais do gás R, forma-se um caos com pormenores hilariantes. Começando com os Loudred tocando dubstep, acabando com o Pikachu evoluindo um Magikarp com um pontapé (pontos para a referência).


 


Por fim, a cara de “Oh crap!” do Charizard só por si valeu o preço dos dois bilhetes.


 



 


Outra parte muito bem sacada foi o jardim dos Torterra – os Torterra gigantescos que acabaram por se fundir (e confundir) com a paisagem. Detetive Pikachu levou as inspirações da tartaruga continental quase à letra e foi espetacular. O Torterra é um dos meus Pokémon preferidos de Sinnoh precisamente por causa desse conceito.


 


Apesar das minhas reservas em relação às motivações de Howard Clifford enquanto vilão, gostei da interpretação de Bill Nighy – que, segundo consta, tornou-se um fã de Pokémon ao entrar neste filme. Gostei também do papel do Mewtwo na história: dos paralelismos com o primeiro filme do anime e ainda mais do facto de não ser o vilão. 


 


Outro dos destaques do filme é o combate entre o Mewtwo-possuído-por-Howard e o Detetive Pikachu. Em particular o facto de o último ter usado o Volt Tackle – tanto por seguir o conselho de Tim como porque, dos ataques característicos do Pikachu, é o meu preferido, sobretudo no anime.


 


Queria deixar uma palavra rápida para a banda sonora do filme. Não sendo nada por aí além, gosto das notas eletrónicas em temas como este que me recordam a banda sonora dos jogos. E, claro, a deliciosa sequência dos créditos, com desenhos de Ken Sugimori de todo o elenco no estilo do anime e das artes oficiais dos jogos, com um remix do tema principal da franquia com o estilo da banda sonora do filme.


 



 


Valha-me Hélix, já não bastava o Ryan Reynolds cantando Gotta Catch’em All. Eles sabem exatamente como fazer-me comer da mão deles… 


 


Em suma, como podem calcular, gosto mesmo muito deste filme. Tanto quanto sei, a maior parte da comunidade de fãs também gostou. Agora que penso isso, é capaz de ter sido o último momento relativamente pacífico na comunidade. Cerca de um mês depois descobriu-se acerca da remoção da National Dex em Pokémon Sword&Shield e caiu Kanto e a Trindade… mas não quero falar sobre isso hoje. 


 


Detetive Pikachu foi o único filme até agora que vi duas vezes no cinema. Primeiro com pessoas do meu grupo de Raids de Pokémon Go, depois com a minha irmã e um amigo dela. E agora comprei-o no YouTube – em parte para poder escrever este texto, mas sobretudo porque quero apoiar este filme dentro das minhas possibilidades. Porque não quero que seja o único.


 


Pois é, já se falam em sequelas – ou pelo menos em outros filmes neste universo. Uma sequela direta com o próprio Detetive Pikachu será difícil, como vimos acima. Mas não faltam ideias.


 


O que se lê nas internetes é que existem planos para fazer um filme baseado na jornada de Red, em Pokémon Red e Blue… mas a ideia não me entusiasma. Afinal de contas, esta é uma história que já foi contada ad nauseaum, em dois remakes dos jogos da primeira geração (um deles há menos de dois anos) e em Pokémon Origins (de que não gosto por aí além). 


 


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É certo que o mainstream ainda não conhece a história. Talvez o público até aprecie… mas eu não queria mesmo.


 


Não quando existem melhores ideias, na minha opinião. Outras histórias baseadas nos jogos: a história de N, por exemplo, ou Zinnia. Ou então, se quiserem continuar na onda dos filmes noir, podiam colocar Lucy como protagonista. Lucy investigando uma história para uma reportagem, acompanhada pelo seu Psyduck. Tim e Harry podiam aparecer, mas num papel mais secundário. Looker podia entrar na história!


 


Em alternativa, podiam pegar em qualquer outro conceito típico de Hollywood e desenvolvê-lo no universo de Pokémon. Um filme de espionagem, por exemplo, estilo Missão Impossível ou James Bond. Uma comédia romântica – centrada em dois treinadores rivais mas apaixonados. O próprio Ryan Reynolds deu uma excelente ideia numa entrevista: um filme tipo Indiana Jones. Não falta mitologia e Pokémon Lendários para servir de inspiração.


 


Há esperanças de que daqui nasça um universo cinemático inteiro. Talvez um dos poucos ainda não monopolizado pela Disney. E espero que ninguém os deixe deitar as garras a Pokémon. A acontecer, não será de um dia para o outro, demorará meia dúzia de anos… mas acho que valerá a pena esperar. 


 


Com tudo isto, se vos apetece celebrar o aniversário de Pokémon enquanto franquia, verem o filme Detetive Pikachu é uma boa forma de o fazerem. De resto, ficam votos de que Pokémon continue a crescer, a criar conteúdo de qualidade, que os Dexxers vão dar banho a um Skunktank arranjem formas mais produtivas de passar o seu tempo. A mais vinte e quatro anos!

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