Ora bem, é a primeira vez em seis anos que escrevo um texto para esta rubrica. Um texto que só entrou nos planos há relativamente pouco tempo. A minha ideia era a próxima entrada ser a análise ao terceiro álbum a solo de Hayley Williams, Ego Death at a Bachelorette Party.
Não desisti dessa análise, atenção. Tenho andado a trabalhar nela nos últimos meses de forma intermitente. Está demorada por, entre outros motivos, ter passado por mais uma fase de menos tempo e energia para escrever – algo que pode vir a acontecer outra vez. Também perdi uma parte das minhas notas com a pesquisa e planeamento desta análise – mas isso é uma história para outra ocasião.
Pelo meio, em maio, Olivia Rodrigo lançou the cure, o segundo avanço do seu terceiro álbum you seem pretty sad for a girl so in love. A música ficou-me na cabeça desde então, sobretudo pela letra e pela maneira como acaba por se relacionar com temas explorados em Ego Death at a Bachelorette Party.
Assim, decidi dedicar-lhe um texto de Músicas Ao Calhas. Durante algum tempo andei indecisa sobre quando o escreveria: se antes ou depois da análise a Ego e a outros textos que pretendo escrever. Cheguei a decidir deixar para mais tarde. No entanto, durante as minhas pesquisas para Ego, o tema voltou a surgir. Não fazia sentido deixar para depois.
Apesar de, tanto quanto me lembro, nunca o ter referido aqui no blogue, Olivia Rodrigo tem estado na minha rotação ao longo dos últimos anos, sobretudo desde que lançou GUTS. Não ouço todas as músicas com regularidade, mas gosto do estilo dela. Isto não é uma opinião inédita, mas Olivia é como se Avril Lavigne e Taylor Swift tivessem uma filha – e a segunda a tivesse deserdado entretanto.
As músicas que ouço mais são os singles – pelo menos nesta fase. Drivers licence é linda – noto um bocadinho da Lorde de Melodrama na incrível terceira parte. Ainda assim, prefiro os de GUTS: Olivia aperfeiçoando aquela fórmula específica. All american bitch é perfeita como sátira – devia ser presença obrigatória em playlists de hinos feministas. Bad idea right? é também deliciosa. Get him back! é muito Avril em The Best Damn Thing… mas Avril nunca na vida escreveria uma letra assim.
Ou melhor, tecnicamente já a escreveu, ou co-escreveu. Mas como não a lançou oficialmente, não conta.
Por fim, adoro Can’t Catch Me Now, que Olivia compôs para a banda sonora da prequela d’A Balada dos Pássaros e das Serpentes. Sei que Olivia viu o filme antecipadamente, não sei se chegou a ler o livro, mas raramente ouvi um tema de banda sonora que captasse tão bem as mensagens do filme em questão (isto é, tirando musicais).
Indo além da música pura e dura, nos últimos dias, Olivia subiu ainda mais na minha consideração graças ao festival Daisy Chain Fields, onde só participam mulheres, ou bandas lideradas por mulheres, sem receberem nada – os lucros revertem para associações de protecção a mulheres, em contextos de violência ou de direitos reprodutivos. Ela é uma das boas.
Olivia editou o álbum you seem pretty sad for a girl so in love no início do verão deste ano. Nele, procurou expandir o seu som além do pop rock e das baladas que sempre foram a sua imagem de marca.
Ainda assim, the cure, na qual este texto se centra, não é radicalmente diferente daquilo que conhecíamos da parte de Olivia. O instrumento principal é a guitarra acústica. Um dos meus elementos preferidos são os acordes de piano no fim do refrão, durante “it’ll never be the cure”. Por outro lado, já é habitual músicas de Olivia terem crescendos e um clímax no terceiro ato. Aqui acontece o mesmo, uma maravilhosa explosão orquestral desaguando numa conclusão lindíssima com os arranjos de violinos.
Passemos à letra, o mais importante. Recuando um pouco, you seem pretty sad for a girl so in love era para incluir apenas canções de amor tristes, inspiradas pela primeira relação adulta de Olivia. Essa relação, entretanto, foi ao ar. O álbum seguiu numa direção diferente, refletindo a história dessa relação, desde o seu nascimento até ao ocaso. Temos duas partes: “girl so in love” para a fase feliz do romance, “you seem pretty sad” para o declínio do mesmo.
The cure é a primeira faixa da secção “you seem pretty sad” – é o princípio do fim. Olivia revelou, em entrevista com o inevitável Zane Lowe, que compôs esta música após uma conversa com amigos. Estava numa relação supostamente feliz, mas ela mesma não se sentia feliz. Na letra, Olivia refere as suas inseguranças, os ciúmes, a solidão, pensamentos intrusivos em geral – coisas que já havia abordado em músicas anteriores. Olivia achava que, ao embarcar num romance feliz, saudável, tudo isso desapareceria.
Quem a pode censurar por pensar assim? É a ideia que a sociedade vende há décadas, ou mais, através de contos de fadas, de Hollywood, de canções de amor. “E viveram felizes para sempre”. All we need is love”. Temos uma pessoa destinada para nós, uma alma gémea, passamos a vida a procurá-la, encontramo-la. No último capítulo da história, subimos ao altar e, no momento em que dizemos que sim, passam os créditos, tudo na nossa vida fica resolvido.
Confesso que eu mesma pensava assim até há bem pouco tempo. “Aquela pessoa está num casamento saudável, tem filhos e tudo, não tem problemas económicos. Como assim não está feliz? De que precisa mais?”. Regressando a Hayley, ela mesma disse em entrevista, no ano passado: “Tenho a mania de achar que uma relação vai abrir as nuvens, deixar o sol brilhar e vou compreender porque passei por tudo por que passei. Vai tudo fazer sentido, eu ficarei curada e serei capaz de passar o resto da minha vida nesse lugar”.
Eu assumi o mesmo para Hayley e o… bem, agora será o ex-namorado Taylor York, guitarrista dos Paramore (a banda da qual Hayley é vocalista). Acreditava genuinamente que o namoro seria para sempre, talvez desaguando em casamento e filhos.
Mais sobre isso na análise a Ego Death at a Bachelorette Party. Obviamente.
Hayley e Taylor são, aliás, um caso curioso. Creio que ela esperava que ele a curasse, a salvasse, conforme referiu em Parachute. Ao mesmo tempo, ela também queria salvá-lo. The cure faz um paralelismo acidental com Disappearing Man, do Ego de Hayley: “and I tried to make it to the bottom, suck out all the poison”. O companheiro de Olivia terá tentado fazer o mesmo: “I got toxins in my bloodstream, you tried hard to suck them out”.
Pois bem, não funciona assim – e Olivia bem lamenta “why can’t you come stich me up? Why can’t it ever be enough?
Não concordo com aqueles que dizem que só podemos ser amados se nos amarmos a nós mesmos – não é assim tão simples. Não é preciso estar-se cem por cento saudável mentalmente para se poder estar numa relação. Arrisco-me a dizer que ter alguém que nos ama é bom para a nossa saúde mental – “And it feels like medication and it’s good for me I’m sure”.
Mas, lá está, não é uma cura. Nenhum de nós está habilitado para resolver os problemas psicológicos das pessoas que amamos, sobretudo se estivermos a falar de coisas de raíz, recorrentes. Olivia chegou a comentar, em entrevista ao Popcast do New York Times, que, quando nos apaixonamos, esses problemas tendem a vir à tona, ficamos a conhecer-nos melhor a nós mesmos. Ficamos virados do avesso, vulneráveis (“I’m unraveled! I’m unraveled!”).
Não acho que seja saudável entrarmos numa relação assim, despejando toda a nossa bagagem noutra pessoa. Temos de ser nós a resolver, sozinhos ou com a ajuda de um psicólogo ou equivalente. No que toca a isto, não é o amor romântico por si só que nos vai salvar.
E sinceramente? Imenso respeito por Olivia por ter conseguido desmontar quiçá a maior falácia da sociedade atual. E ela tem apenas vinte e três anos! Mais de uma década menos que eu ou Hayley. Quantas pessoas da nossa idade, ou ainda mais velhas, ainda não o perceberam? Tanta gente por aí que não sabe estar solteira e, assim, mantém-se em relações disfuncionais. Ou que corta com uma grande parte da sua vida (amigos, passatempos, etc) quando entra numa relação (hei de falar melhor sobre isso noutro texto de Músicas Ao Calhas).
Existem muitos casos de violência doméstica que começam assim, com a vítima isolada das demais pessoas na sua vida.
E mesmo que a outra pessoa tenha boas intenções – e tenham em consideração que eu sempre adorei canções de amor, várias delas centradas na ideia, e respectivos corolários, de que, lá está, “all we need is love”... não é demasiada pressão ser-se tudo para alguém? Tudo? Ser o eixo da vida de outra pessoa, o único apoio emocional, a única fonte de realização pessoal, a única razão do seu viver?
A moral que tiro desta história é de que o amor romântico é sobrevalorizado. Não é tudo. Precisamos de outras pessoas na nossa vida: nós mesmos para começar, a nossa saúde mental, amigos, parentes de fora da família nuclear, comunidade. Precisamos de suplentes. Precisamos de distribuir os nossos ovos por vários cestos. Precisamos de pessoas que nos ofereçam novas perspectivas, que nos ajudem a observar os nossos relacionamentos (sejam eles românticos, familiares, de trabalho, amizades) do lado de fora. Precisamos de trabalho, de passatempos, de coisas que sejam só nossas.
E, claro, de ajuda psicológica quando necessário.
The cure é já uma das minhas canções preferidas do ano. Para este texto, fiz questão de separá-la um pouco do contexto do resto do álbum. You seem pretty sad for a girl so in love é um disco muito coeso, mas as músicas não deixam de funcionar bem isoladamente. As faixas posteriores a the cure dão mais informação: descobrimos que, não só a relação não aliviava o sofrimento de Olivia mas também seria responsável por esse mesmo sofrimento. Ao ponto de Olivia lamentar não ter cortado com ele antes, ao ponto de se arrepender da relação.
Às vezes estamos melhor solteiros.
Já não é a primeira vez que digo que adoro músicas que convidam à introspeção. Adoro ainda mais quando ocorrem estes crossovers entre universos musicais diferentes. Não que seja uma surpresa assim tão grande – há temas que são universais.
Ainda hei de dar mais tempo de antena a you seem pretty sad for a girl so in love – um álbum excelente, como muitos têm assinalado. Até o ouvi com alguma frequência quando saiu, mas esse foi um período muito agitado na minha vida, com muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. Preciso de lhe dar mais rotação, ler as letras, dar-lhe a atenção que merece.
Mas agora a prioridade é Ego Death at a Bachelorette Party, que anda há mais de um ano a suplicar que escreva sobre ele. O universo Paramore – mais do que qualquer outro, diria eu – é por norma um excelente exemplo de música que convida à introspeção. E este álbum em particular será, porventura, o mais sumarento até agora. Só espero ser capaz de lhe fazer justiça.
Ainda vai demorar, mas fiquem desse lado, para ver como me saio.

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