Mostrar mensagens com a etiqueta Ficção. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ficção. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Saltando a Fronteira, vinte anos depois #1

Digimon.Frontier.full.1460676.jpg


 


Hoje completam-se vinte anos desde a estreia do primeiro episódio de Digimon Frontier – ou Digimon Fronteira, como é conhecido em terras portuguesas – no Japão. Vou aproveitar a ocasião para, finalmente, analisar esta temporada. 


 


Quem conheça o nosso grupo do Digimon PT/Odaiba Memorial Day PT saberá que o facto de ninguém gostar de Fronteira já é um meme entre nós. Não que não compreendesse, pelo menos em parte. Praticamente a única coisa que sabia sobre Fronteira antes era que o elenco não incluía companheiros Digimon. Havemos de falar sobre isso, claro, mas esta é uma queixa legítima. Até agora (assumo eu, que ainda não vi Savers, nem Xros Wars, nem Appmon), as parcerias entre humanos e Digimon eram a imagem de marca do anime. Sobretudo em Tamers, a temporada imediatamente anterior. Cortar com isso foi uma decisão arrojada que nunca iria agradar a toda a gente.


 


Ainda assim, quando me sentei para ver Fronteira pela primeira vez há quase dois anos, fi-lo com a mente aberta. Tentei dar uma hipótese a esta temporada para provar que merece sentar-se sem vergonha entre Adventure, 02 e Tamers. 


 


No entanto… bem, é melhor mostrá-lo em vez de explicá-lo.


 


A minha primeira maratona de Fronteira – a versão original – às cegas, foi relativamente rápida. Cerca de um mês e meio, encaixada confortavelmente na pausa do reboot de Adventure. A minha segunda maratona – dobrada em português, já tomando notas para a análise – só começou mais de um ano mais tarde, sobretudo porque precisei de tempo para digerir Kizuna. Comecei durante o verão de 2021, mas só terminei em fevereiro deste ano, mais de seis meses depois. Cheguei a estar dois meses sem progredir nessa maratona.


 


Por comparação, quando foi com Tamers, a minha segunda maratona demorou muito menos. Cerca de um mês, mais coisa menos coisa. O que é que isto vos diz?


 


04.png


 


Pois é, tenho de concordar com a opinião popular, pelo menos na minha tribo. Não gosto muito de Fronteira. Pelo menos não tanto como de Adventure, Tamers, mesmo Tri e 02. No que toca ao reboot de Adventure, ainda não tenho opinião formada.


 


Dito isto, tal não significa que Fronteira seja completamente má. Pelo contrário, tem vários aspetos que a redimem. Nos próximos tempos aqui no blogue iremos, então, discutir o que resultou e o que não resultou nesta temporada. 


 


Esta análise irá estender-se por várias partes, seguindo uma estrutura semelhante ao que fiz com as temporadas anteriores. Não deverá ser tão longa como a de Tamers – Fronteira não tem material para tanto. Irei usar os nomes japoneses e, como deverá ser óbvio, spoilers em todo o lado. A primeira parte da análise virá ainda hoje. No entanto, ainda estou a trabalhar nas partes seguintes. Para ter tempo de terminá-las, vou publicar apenas uma por semana. 


 


Como o costume, obrigada pela vossa visita. Fãs de Fronteira, tenham um feliz vigésimo aniversário. Se gostarem do que escrevo, podem pagar-me um café na minha conta do Ko-fi, se quiserem.Continuem desse lado. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Pokémon: Detetive Pikachu (2019)

4d6f8eac1efc327b9d1158f27dfae871.jpg


 


Não estava nos meus planos escrever um texto sobre o filme Detetive Pikachu. Ou melhor, só sobre este filme. A minha ideia era deixar algumas impressões sobre ele no meu balanço musical de 2019, a propósito de Carry On e Holding Out for a Hero. As frases, no entanto, transformaram-se em parágrafos, os parágrafos em páginas do meu caderno, fazendo um grande desvio ao assunto do texto. Era evidente que tinha muito a dizer sobre este filme. Fazia mais sentido dedicar-lhe a sua própria publicação, que as pessoas pudessem encontrar com maior ou menos facilidade pesquisando no Google, em vez que enterrá-lo no meio de outro texto.


 


Escolhi publicá-lo hoje, que se assinala o vigésimo-quarto aniversário de Pokémon enquanto franquia (tenho vindo a celebrar estes aniversários desde o inesquecível vigésimo, em 2016). Parece-me adequado dedicar uma publicação à melhor coisa que, a meu ver, aconteceu no último ano (talvez esperassem que eu referisse Sword&Shield, mas os jogos têm estado envolvidos em tanta polémica, começando desde uns meses antes do seu lançamento e continuando até hoje, que me têm alienado da comunidade de fãs). 


 


Um alerta importante: este texto está cheio de spoilers. Leiam-no por vossa conta e risco. Assim, sem mais delongas…


 


À semelhança do que aconteceu com Pokémon Go, um filme live-action era algo que eu sempre desejei, mas só o descobri quando saiu o primeiro trailer. Não vou dizer que nunca tenha pensado nisso… mas nunca o encarei como uma ideia viável. 


 


Em parte porque, tradicionalmente, filmes baseados em videojogos não prestam. Mesmo os baseados em anime não costumam ser grande coisa, tanto quanto sei.  Por exemplo, tanto quanto me lembro, ninguém gostou do filme baseado no Dragon Ball há coisa de dez anos. Também ninguém gostou da adaptação de Death Note do Netflix. 


 


24ebfdcbf89b002d226c3a2cd096a074.jpg


 


Por fim, quando víamos na Internet imagens “realistas” de Pokémon, era quase tudo monstruosidades (veja-se a imagem acima). Não havia nada do charme dos desenhos no anime e dos jogos (bem, tirando os da primeira geração).


 


Tudo mudou quando vi o primeiro trailer. Confesso que demorei um bocadinho a habituar-me a estes Pokémon mais “realistas”. À semelhança da maior parte das pessoas, suponho eu – ninguém se tinha apercebido antes que os Pokémon tinham tanto… pêlo. Suponho que faça sentido, no entanto. Mas depois de nos habituarmos, a maior parte dos modelos são bons. Alguns melhores do que outros, claro, mas no geral acho que conseguiram combinar os aspetos mais realistas dos Pokémon (um dos colaboradores foi precisamente o autor das tais fanarts realistas que circulavam pela Internet) com os aspetos mais apelativos dos bonecos que tão bem conhecemos. 


 


À medida que o tempo passava e mais trailers iam saindo, o meu entusiasmo crescia. No entanto, tentava ser cautelosa, mantendo as minhas expectativas no mínimo. Pela parte que me tocava, Detetive Pikachu não precisava de ser um filme extraordinário (e não o é). Só precisava de ser um típico filme de Hollywood… mas com Pokémon. Só precisava de não ser uma porcaria.


 


E o filme não é uma porcaria, longe disso. Foi uma jogada inteligente terem baseado o filme num spin-off menos conhecido, em vez de basearem nos jogos principais ou no anime. Na minha opinião, criarem uma típica história de um treinador de Pokémon não traria nada de novo aos fãs da franquia e poderia ser alienante para as pessoas de fora. 


 


Em vez disso, Detetive Pikachu colhe inspirações em filmes de detetives noir. É mais sombrio que o anime e que a maior parte dos jogos, mas acho que não ao ponto de traumatizar criancinhas. Eu pelo menos há anos que desejava uma história em Pokémon que não tivesse o tom paternalista e ultra-infantil do anime.


 


(Talvez devesse ler Pokémon Adventures…)


 


maxresdefault (2).jpg


 


Algo de que só me apercebi há relativamente pouco tempo diz respeito às semelhanças entre Detetive Pikachu e Zootopia (um filme de que gosto muito). Em primeiro lugar, centra-se numa cidade aparentemente utópica, onde em teoria criaturas fofinhas podem viver em paz. Na prática é uma fachada. Durante o decurso do filme a máscara acaba por cair mas, no fim, o elenco compromete-se a honrar o espírito da cidade. 


 


Em segundo, ambos são filmes de detetives/”buddy cops”. Um dos protagonistas nasceu numa terra pequena e vem de comboio para a tal cidade. Um dos protagonistas é um cínico, que em criança até tinha crenças que coadunavam mais ou menos com o espírito da cidade, mas a vida encarregou-se de destruí-las (o flashback da infância de Nick ainda hoje me parte o coração). 


 


O enredo centra-se no desaparecimento de um pai. Um dos elementos importantes do caso é uma substância que desperta os instintos selvagens e violentos das tais criaturas fofinhas. Existe um primeiro falso vilão mas, no fim, descobre-se que o verdadeiro vilão é uma figura de autoridade que os protagonistas consideravam um aliado.


 


Para ser sincera, a história é capaz de ser o aspeto mais fraquinho do fime. Pelo menos a parte relacionada com o vilão. Que o Presidente Howard Clifford quisesse transportar-se para o corpo do Mewtwo até faz sentido – quem nunca? Mas qual é a vantagem de obrigar o resto do povo a fazer o mesmo com os seus Pokémon? Não se percebe.


 


A força do filme está nos outros aspetos. O Detetive Pikachu em si é irresístivel: uma versão do Deadpool adequada a menores de 16, com toda a fofura que sempre caracterizou a mascote, captada na perfeição pelo filme. Justice Smith fez um bom trabalho dando vida a todas as facetas de Tim – e para nós, fãs, é bom saber que o ator gosta de Pokémon, à semelhança de Kathryn Newton, que dá vida a Lucy.


 



 


Esta, aliás, é adorável e merecia mais tempo de antena. Tem um par de cenas, como a acima, em que se esforça, de forma hilariante, por passar a imagem de jornalista intrépida. No entanto, na segunda metade do filme, tirando um momento ou outro, existe apenas para dar apoio a Tim.


 


Outra das falhas do filme, aliás, é ter pouquíssimas personagens femininas. Mal passa o teste de Bechdel. O que é uma pena quando Pokémon sempre fez por apelar tanto a rapazes como a raparigas. 


 


Outro ponto forte do filme, talvez a maior força do mesmo, é o respeito, mesmo o carinho com que trata a franquia. Um fã de Pokémon encontrará inúmeras referências e pormenores fantásticos – basta pesquisarem “Detective Pikachu Easter Eggs” no Google ou no YouTube para saberem do que estou a falar. 


 


Por outro lado, o filme não mostra demasiada reverência para com a franquia. Pelo contrário, Detetive Pikachu teve imaginação para explorar lados menos convencionais de Pokémon que conhecemos tão bem (não sei se isso veio do jogo Detetive Pikachu ou se dos próprios guionistas do filme). Um exemplo disso é o que fizeram com o Mr. Mime – que, segundo o que consta, esteve muito perto de não aparecer em Detetive Pikachu. 


 


Mr. Mime é um Pokémon com uma reputação… estranha na comunidade de fãs. Há muita gente que não se sente muito à vontade com Pokémon humanóides. Somando isso a doses variáveis de coulrofobia e não admira que Mr. Mime tenha fama de palhaço assustador. (E depois há toda aquela teoria de que Mr. Mime seria o pai de Ash. O que é estúpido. A mãe dele só conheceu o seu Mr. Mime no episódio 64 do anime, já Ash tinha pelo menos dez anos. Este pessoal nunca estudou Biologia?)


 



 


Eu nunca adorei o Mr. Mime, mas nunca o achei assim tão desconcertante. Não quando temos o Drowzee e o Hypno na mesma geração. Mas compreendo que algumas pessoas adorem odiá-lo.


 


Consta que, de início, a Pokémon Company não estava muito entusiasmada com a ideia de um Mr. Mime “realista” – porque, lá está, o resultado final poderia causar pesadelos. O realizador Rob Letterman teve de pedir autorização diretamente a Tsunekazu Ishihara, o presidente atual da empresa, para que o Pokémon aparecesse no filme.


 


Felizmente acabaram por aceitar. Ainda bem. Não sei como foi com vocês, mas a cena do interrogatório ao Mr. Mime fez-me gostar mais do Pokémon. Mantiveram as características desconcertantes, mas carregaram na parte de palhaço mimo. O resultado final foi uma das cenas mais engraçadas de todo Detetive Pikachu.


 


De mãos dadas com o carinho pela franquia está o facto de o filme ter coração e não se envergonhar disso (estou a olhar para ti, primeira metade de Bokura No Mirai!). Falo sobretudo na jornada emocional de Tim para fazer as pazes com o seu pai. 


c9f2e881e45852d76dfa36756e86bb86a3e3d132.jpg


 


O que me leva à grande reviravolta e fonte de confusão do filme: o facto de a personalidade do Detetive Pikachu ser na verdade um híbrido das mentes de Harry e do seu Pikachu. Eu sinto-me dividida em relação a este desenvolvimento. Por um lado, faz algum sentido. E é certamente comovente, à sua maneira, que o pai de Tim tenha estado lá desde o início. 


 


Por outro lado… é esquisito. É muito esquisito.


 


A pergunta que se coloca é com é que Tim não reconheceu a voz do pai saindo do Pikachu. Eu até consigo arranjar uma explicação, mais ou menos. No anime sempre existiram Pokémon com a habilidade de falar telepaticamente com humanos. Muitas vezes era explicado com “poderes psíquicos” (ex: Mewtwo) ou com aura (ex: Lucario). Talvez Tim soubesse disso e pensasse que o seu subconsciente estava a associar o seu pai com o seu Pikachu. Afinal de contas, ele de início pensou que a voz do Detetive Pikachu era uma alucinação.


 


Enfim, é só uma teoria, um bocadinho rebuscada. Na prática, se Tim tivesse perguntado logo desde início porque é que o Detetive Pikachu estava a falar com a voz do pai, a audiência adivinhava logo o twist final. 


 


O maior problema deste twist é que, agora, será quase impossível fazerem uma sequela com o Detetive Pikachu. Segundo o que percebi (e posso estar enganada), a personalidade do Detetive Pikachu era um híbrido das personalidades de Harry e do seu Pikachu, juntamente com amnésia. Depois de conhecermos a verdade, não dá para voltar atrás.


 


pikachu1.jpg


 


Mesmo que, por um motivo ou outro (e não consigo pensar em nenhum motivo plausível), a mente de Harry fosse de novo inserida no corpo do Pikachu, com amnésia e tudo, Tim saberia a verdade e as interações entre ambos seriam completamente diferentes. Mesmo que Tim também fosse afetado por amnésia ou a história envolvesse personagens que não soubessem a verdade… a audiência saberia. Não seria a mesma coisa. 


 


É por este motivo que me sinto dividida com este twist de Harry ter estado desde o início no corpo do Detetive Pikachu. Por esse motivo e porque, na minha opinião, tira um bocadinho de piada à personagem. 


 


Um dos atrativos da língua atrevida do Detetive Pikachu era o facto de ser um Pokémon, um Pikachu – uma figura adorável, símbolo de uma franquia, herói das nossas infâncias – metendo-se com Tim por causa da sua tentativa falhada de namoriscar com Lucy. saber que, afinal, existia uma mente humana pelo menos em parte por detrás daquelas palavras tira algum impacto. 


 


Acho que a jornada emocional do filme também poderia ter resultado se o Detetive Pikachu fosse apenas o companheiro Pokémon de Harry. Pai e filho fazendo as pazes através do Pikachu do primeiro… Até porque exploraria sobre o qual tenho tido curiosidade nos últimos anos: como é que um Pokémon reage quando o seu treinador/parceiro humano tem filhos. Ficam com ciúmes? Veem a criança como um irmão? Ou como uma espécie de sobrinho ou irmão mais novo que ajudam a criar?


 


Ainda assim, não tenho razões de queixas da forma como o filme explora a relação entre Tim e o seu pai. Uma das coisas de que me tenho vindo a aperceber nos últimos anos é que daddy ou mommy issues dão pano para mangas em termos de drama em ficção. Detetive Pikachu não foge à regra. 


 



 


O filme, aliás, traça um paralelismo curioso, ainda que algo forçado, entre a relação de Tim com Harry e a relação de Tim com os Pokémon em geral. O jovem sente que o pai o trocou pelos Pokémon – o que faria sentido se Harry o tivesse deixado para se tornar um treinador ou um líder de ginásio. Harry no entanto é detetive, o seu trabalho não parece assim tão relacionado com Pokémon – tirando o facto de exercer em Rhyme City, com a sua política menos convencional em relação às criaturas.


 


Pode ter mais a ver com o facto de a mãe ter morrido no dia em que, segundo o que o filme dá a entender, Tim iria receber o seu primeiro Pokémon. Não sei, podia ter sido explicado um bocadinho melhor.


 


A cena acima em que Tim e o Pikachu pensam que Harry morreu mesmo é uma das minhas preferidas em todo o filme. Tim arrependido por não ter vindo viver com o pai anos antes, quando este pediu. O Pikachu consolando-o com palavras que, sem sombra de dúvidas, vêm de Harry.


 


E, claro, a cena final já com Harry, em que Tim decide ficar em Rhyme City, em vez de regressar a casa. A atuação de Justice e sobretudo de Ryan transmitem as emoções do momento na perfeição. Tão pouco tempo depois de Deadpool, acho que ninguém estava à espera de ver Ryan Reynolds no papel de pai. 


 


É uma história bonita, de amor familiar e de perdão. Está longe de ser original, claro, mas foi bem executada, tornando este filme, como alguns têm dito nas internetes, “melhor do que tem direito a ser”. E como o próprio Ryan Reynolds disse, são temas universais, “wholesome”, que sabem bem de vez em quando nos dias conturbados de hoje.


 



 


Queria falar agora sobre aspetos mais secundários do filme de que gostei. Sei que vai contra o espírito de Rhyme City, mas eu gostei da cena na arena de combate. 


 


Que querem? Um dos maiores apelos de Pokémon para mim continuam a ser as batalhas. #Sorrynotsorry. Embora, claro, não tenha nada contra Rhyme City para os Pokémon e humanos que não gostem desta vertente.


 


Sebastian, que gere (?) esta arena e que dará a pista seguinte é o típico durão deste género de filmes, com os músculos, as tatuagens, o histórico de Internet questionável, mas depois salta para a arena quando sente que o seu Charizard corre perigo, chamando-lhe “my baby”. Preocupa-se muito com o seu “baby” mas usa-o em combates ilegais...  Gostei desse pormenor, dando alguma profundidade a uma personagem secundária, quando um guionista mais preguiçoso não teria ido além do estereótipo. 


 


De referir também que, apesar de, tanto quanto se sabe, Tim nunca ter chegado a ser treinador, ele não é nenhum ignorante no que toca a Pokémon. Os conselhos que dá ao Pikachu antes do combate com o Charizard são um exemplo disso – e é bonito quando, mais à frente no filme, o Pikachu recorda-se desses conselhos (já aí vamos).


 


Por outro lado, quando Sebastian liberta acidentalmente quantidades industriais do gás R, forma-se um caos com pormenores hilariantes. Começando com os Loudred tocando dubstep, acabando com o Pikachu evoluindo um Magikarp com um pontapé (pontos para a referência).


 


Por fim, a cara de “Oh crap!” do Charizard só por si valeu o preço dos dois bilhetes.


 



 


Outra parte muito bem sacada foi o jardim dos Torterra – os Torterra gigantescos que acabaram por se fundir (e confundir) com a paisagem. Detetive Pikachu levou as inspirações da tartaruga continental quase à letra e foi espetacular. O Torterra é um dos meus Pokémon preferidos de Sinnoh precisamente por causa desse conceito.


 


Apesar das minhas reservas em relação às motivações de Howard Clifford enquanto vilão, gostei da interpretação de Bill Nighy – que, segundo consta, tornou-se um fã de Pokémon ao entrar neste filme. Gostei também do papel do Mewtwo na história: dos paralelismos com o primeiro filme do anime e ainda mais do facto de não ser o vilão. 


 


Outro dos destaques do filme é o combate entre o Mewtwo-possuído-por-Howard e o Detetive Pikachu. Em particular o facto de o último ter usado o Volt Tackle – tanto por seguir o conselho de Tim como porque, dos ataques característicos do Pikachu, é o meu preferido, sobretudo no anime.


 


Queria deixar uma palavra rápida para a banda sonora do filme. Não sendo nada por aí além, gosto das notas eletrónicas em temas como este que me recordam a banda sonora dos jogos. E, claro, a deliciosa sequência dos créditos, com desenhos de Ken Sugimori de todo o elenco no estilo do anime e das artes oficiais dos jogos, com um remix do tema principal da franquia com o estilo da banda sonora do filme.


 



 


Valha-me Hélix, já não bastava o Ryan Reynolds cantando Gotta Catch’em All. Eles sabem exatamente como fazer-me comer da mão deles… 


 


Em suma, como podem calcular, gosto mesmo muito deste filme. Tanto quanto sei, a maior parte da comunidade de fãs também gostou. Agora que penso isso, é capaz de ter sido o último momento relativamente pacífico na comunidade. Cerca de um mês depois descobriu-se acerca da remoção da National Dex em Pokémon Sword&Shield e caiu Kanto e a Trindade… mas não quero falar sobre isso hoje. 


 


Detetive Pikachu foi o único filme até agora que vi duas vezes no cinema. Primeiro com pessoas do meu grupo de Raids de Pokémon Go, depois com a minha irmã e um amigo dela. E agora comprei-o no YouTube – em parte para poder escrever este texto, mas sobretudo porque quero apoiar este filme dentro das minhas possibilidades. Porque não quero que seja o único.


 


Pois é, já se falam em sequelas – ou pelo menos em outros filmes neste universo. Uma sequela direta com o próprio Detetive Pikachu será difícil, como vimos acima. Mas não faltam ideias.


 


O que se lê nas internetes é que existem planos para fazer um filme baseado na jornada de Red, em Pokémon Red e Blue… mas a ideia não me entusiasma. Afinal de contas, esta é uma história que já foi contada ad nauseaum, em dois remakes dos jogos da primeira geração (um deles há menos de dois anos) e em Pokémon Origins (de que não gosto por aí além). 


 


tumblr_prh9udjtEk1rn5t5xo1_1280.png


 


É certo que o mainstream ainda não conhece a história. Talvez o público até aprecie… mas eu não queria mesmo.


 


Não quando existem melhores ideias, na minha opinião. Outras histórias baseadas nos jogos: a história de N, por exemplo, ou Zinnia. Ou então, se quiserem continuar na onda dos filmes noir, podiam colocar Lucy como protagonista. Lucy investigando uma história para uma reportagem, acompanhada pelo seu Psyduck. Tim e Harry podiam aparecer, mas num papel mais secundário. Looker podia entrar na história!


 


Em alternativa, podiam pegar em qualquer outro conceito típico de Hollywood e desenvolvê-lo no universo de Pokémon. Um filme de espionagem, por exemplo, estilo Missão Impossível ou James Bond. Uma comédia romântica – centrada em dois treinadores rivais mas apaixonados. O próprio Ryan Reynolds deu uma excelente ideia numa entrevista: um filme tipo Indiana Jones. Não falta mitologia e Pokémon Lendários para servir de inspiração.


 


Há esperanças de que daqui nasça um universo cinemático inteiro. Talvez um dos poucos ainda não monopolizado pela Disney. E espero que ninguém os deixe deitar as garras a Pokémon. A acontecer, não será de um dia para o outro, demorará meia dúzia de anos… mas acho que valerá a pena esperar. 


 


Com tudo isto, se vos apetece celebrar o aniversário de Pokémon enquanto franquia, verem o filme Detetive Pikachu é uma boa forma de o fazerem. De resto, ficam votos de que Pokémon continue a crescer, a criar conteúdo de qualidade, que os Dexxers vão dar banho a um Skunktank arranjem formas mais produtivas de passar o seu tempo. A mais vinte e quatro anos!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

The Hunger Games/Os Jogos da Fome



Ando para escrever sobre a série de livros da autoria de Suzanne Collins e respetivas adaptações cinematográficas há já algum tempo. É uma das sagas da moda e eu, à semelhança de muita gente, li os livros mais ou menos na altura em que saiu o primeiro filme. Não digo que os livros sejam dos meus preferidos mas, definitivamente, foram dos que mais me marcaram nos últimos anos, de uma maneira perturbadora até.

ALERTA SPOILER: Este texto contém revelações do enredo tanto dos livros como dos filmes da série The Hunger Games/Os Jogos da Fome. A leitura só é aconselhada caso tinham lido os três livros, até para a própria compreensão deste texto.

Vou começar por falar do primeiro livro, que deu o nome à série: The Hunger Games/Os Jogos da Fome. Nesta altura do campeonato, já toda a gente conhece as premissas: o mundo pós-apocalíptico e distópico, o governo opressivo, o contraste entre o luxo obsceno e degradante e a miséria medieval dos distritos mais desfavorecidos, o conceito dos Jogos da Fome. O único aspeto que não me convence em Panem é a ausência de uma qualquer obrigatoriedade de veneração dos líderes. As crianças não são obrigadas a cantar o hino nacional de olhos no presidente e no primeiro-ministro, como em Portugal, nem a expressão "Obrigado, Querido Líder" se encontra entre as suas primeiras palavras. A política de medo, sem nenhuma espécie de paternalismo que a atenuasse, facilitou a adesão do povo à revolta, bastou "uma mão-cheia de bagas" e a esperança revelou-se "mais forte que o medo" Se o povo tivesse sido (melhor) ensinado a venerar o presidente Snow, talvez a revolução não se teria alastrado tão "facilmente".

Mas este é apenas um pormenor.


Nisto surge Katniss, toda a gente sabe como. Uma jovem endurecida pelas dificuldades por que passou, em particular após a morte do pai e consequente depressão da mãe. Surge também Peeta, filho do padeiro, que ajudara Katniss anteriormente, num momento em que todas as portas se haviam fechado para a jovem. Enquanto Peeta se revela mais ingénuo, Katniss é mais cínica, sempre se questionando sobre as verdadeiras intenções do jovem padeiro, sem perceber que ele está a ser sincero, que os seus sentimentos são verdadeiros. Nos dois primeiros livros, aliás - pelo menos, da primeira vez que os li - Peeta não me é uma personagem mais apelativa: demasiado submisso e, muitas vezes, representando um fardo para Katniss na arena. Só no fim do terceiro livro é que compreendi verdadeiramente a personagem - mas já aí vamos.

Na minha opinião, se o primeiro volume é o melhor de trilogia não sei, mas é definitivamente o que se lê com mais facilidade. Tem um enredo mais linear, o ritmo é constante e eu, pelo menos, não conseguia parar de ler, precisava de saber desesperadamente como iria Katniss sobreviver aos Jogos.


Antes de prosseguirmos, quero referir brevemente que todo o conceito da "Girl on Fire/A Rapariga em Chamas" recordou-me, deste início, a obra portuguesa Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro, que aliás aborda temas semelhantes aos Jogos da Fome. Sempre torna o livro mais apelativo aos alunos do 12º ano, quando o estudam em Portugês - isto se ainda fizer parte do programa.

O segundo volume não é tão sólido como o primeiro. Em Catching Fire/Em Chamas, são abordadas as sequelas dos acontecimentos do livro anterior, em particular da maneira como Katniss e Peeta conseguiram sobreviver aos Jogos da Fome, quando a ideia era só haver um vencedor. O truque que os dois tributos usaram para não terem de matar o outro ou matarem-se a si mesmos é interpretado como um desafio ao poder instituído. São, assim, plantadas as sementes da revolta. Katniss é obrigada a tentar controlar o fogo que ela ateou acidentalmente mas não é bem sucedida, obrigando o Capitólio a tomar medidas.


Quando li o livro pela primeira vez, as hesitações de Katniss em aderir à revolta irritaram-me. Hoje sei que são mais do que justificadas - mais sobre isso adiante. Depois de Katniss, finalmente, aceitar passar do modo de fuga ao modo de luta, aquilo que me parecia ser o fluxo natural da história é interrompido pelo Quarteirão. Apesar de, de certa forma, esta edição especial dos Jogos da Fome fazer sentido - sobretudo depois de o filme dar uma explicação melhor, a mim pareceu-me um bocadinho enfiada a martelo. Além disso, os últimos capítulos estão demasiado confusos, penso que só compreendi verdadeiramente tudo o que tinha acontecido quando vi o filme.

O terceiro volume da trilogia, Mocking Jay/A Revolta, revelou-se algo confuso da primeira vez que o li. A ação decorre um pouco aos solavancos, com Katniss profundamente afetada, tanto física como psicologicamente, pelas duas participações nos Jogos da Fome, indo constantemente parar ao hospital, por motivos variados. Mas, ainda que o ritmo da história saia prejudicado, tudo isto faz sentido se formos a ver que a protagonista foi e continua a ser, ao longo do livro, ferida de todas as maneiras possíveis e imaginárias. Por outro lado, existe, na minha opinião, um excesso de personagens - eu, pelo menos, senti dificuldades em lembrar-me de quem é quem.

Neste volume, Katniss encontra-se a colaborar com o Distrito 13, responsável pela revolução em Panem. Apesar de, aparentemente, estarmos agora com os "bons", notei desde início que estes recorriam exatamente aos mesmos meios do Capitólio, seja pela filosofia "quem não é por nós, está contra nós", pela exploração política e mediática da imagem de Katniss, pela chantagem, pelo derrame de sangue. Daí que a relação entre Katniss e os rebeldes seja sempre pautada pela desconfiança. De certa forma, ajudou a atenuar a revelação no final, ainda que o choque não tenha deixado de existir.


É também para o fim que surgem outras falhas no livro. Começando pelo assalto ao Capitólio - uma óbvia compensação pela ausência de Jogos da Fome neste livro - cujo objetivo não me convence, visto que a batalha a sério decorre noutra frente. Sendo até essa a responsável pela vitória dos rebeldes. Também me parecem pouco credíveis as ruas armadilhadas do Capitólio e os mutantes para ali atirados. Por fim, já no rescaldo da revolução, por muito que tente, não sou capaz de compreender que Katniss tenha votado "sim" a uma edição dos Jogos da Fome com crianças do Capitólio. OK, no fim o voto não tem efeitos práticos, mas é algo que continua a fazer-me confusão. Apesar destas falhas, gosto muito da maneira como o livro acaba.

Antes de partir para as alegações finais, quero falar das adaptações cinematográficas dos dois primeiros livros. Ambos os filmes estão bem feitos, de uma maneira geral, muito por causa do excelente desempenho do elenco. Destaco Jennifer Lawrence, uma atriz que tenho vindo a admirar cada vez mais, que corporiza de maneira excelente a complexidade de Katniss, as suas diferentes camadas. Em termos de história, ambos os filmes estão extremamente fiéis aos livros, conseguindo em certas alturas superá-los. Momentos como a Ceifa, no primeiro, e o discurso no Distrito 11 no segundo, são retratados com emoção mais pungente nos filmes.


Outra vantagem em relação ao texto original diz respeito à inclusão de cenas pontuais não centradas em Katniss, que clarificam o enredo. Cenas que não eram possíveis num livro escrito na primeira pessoa, mas que fazem falta. É por estas e por outras que eu, provavelmente, não conseguiria escrever um livro na primeira pessoa. Gosto demasiado de apresentar a história sob perspectivas diferentes.

Estou com alguns receios relativamente à adaptação do terceiro livro. Primeiro, por estar dividido em dois filmes - uma decisão claramente comercial mas que duvido que seja a mais adequada à história. Outra preocupação prende-se com o substituto de Philip Seymour Hoffman.

Conforme já afirmei no início deste texto, os Jogos da Fome são uma das sagas mais populares da atualidade mas, na minha opinião, são muito mais do que um mero fenómeno infanto-juvenil ou uma série de blockbusters. Aliás, por vezes a intensa mediatização dos filmes irrita-me, pois estes acabam por passar por mais fúteis do que realmente são. Os Jogos da Fome podem ter como público-alvo o infanto-juvenil mas a verdade é que a série aborda questões bem sérias, sendo o tema principal a guerra e tudo o que com ela se relaciona: o conflito entre humanidade e sobrevivência, o combate à violência com violência. Quanto à crítica à cultura dos reality shows, muito referida a propósito destas obras, na minha opinião, assume um carácter secundário. O tema do "pão e do circo" - que de resto inspiraram a história - não está assim tão pouco batido. Outra das grandes falhas do sistema político em Panem é, aliás, o facto de o pão e o circo serem apenas dados à população do Capitólio, uma minoria. Por contraste, a população da larga maioria dos distritos passa fome e os Jogos não lhes servem de entretenimento - pelo contrário, são um pesadelo.


Por entre esta mediatização toda, Katniss é frequentemente apresentada como uma típica heroína feminina, uma badass com o seu arco e flechas, a anti-Bella Swan. Eu, no entanto, mais do que uma heroína, vejo-a como uma vítima. Ela oferece-se para substituir a irmã nos Jogos da Fome, é certo, mas depois disso passa a ter muito pouco a dizer sobre o seu destino. É usada sem dó nem piedade por ambos os lados da guerra, incluindo gente em quem confiava, quase sempre sob ameaça de perder a própria vida ou a daqueles que ama. Os únicos momentos em que verdadeiramente brilha são - conforme chega a ser afirmado em Mocking Jay - quando ela segue os seus próprios instintos, sem que ninguém lhe diga o que fazer. Contudo, demasiadas vezes tais atitudes apenas pioram uma situação já difícil. A sua relutância em Catching Fire pode frustrar mas, com o avançar da história, torna-se compreensível pois acontece tudo aquilo que ela temia e ainda mais: a sua terra natal é destruída, Peeta é torturado e submetido a lavagem cerebral, ela mesma sofre todo o tipo de ferimentos, vários amigos - incluindo a própria irmã - são assassinados. Katniss pode parecer uma heroína, mas não passa de um símbolo, de um peão, tudo o que faz é sobreviver - com grande dificuldade.

É o que acontece na guerra, na vida real. Tal como alguém diz - não sei se no livro ou no filme - "não há vencedores, apenas sobreviventes". Não há heroísmo, não há glória, apenas se cumprem ordens, se procura sobreviver e, quanto muito, proteger os companheiros - algo que, muitas vezes, implica cometer atrocidades e que, tal como Peeta afirma, "custa tudo o que se é". E os soldados, frequentemente, não passam de peões a quem os líderes recorrem quando não conseguem resolver os seus diferendos de outra maneira. E eu interrogo-me se esses líderes terão, de facto, noção das sequelas que ficam nos soldados, sem nunca desaparecerem por completo.


Nesse aspeto, os Jogos da Fome levam essa realidade até à última escala, na medida em que os soldados, os peões, são crianças.

De igual modo, é abordada a maneira como, na urgência de combater a opressão, a ditadura, se corre o risco de nos transformarmos precisamente naquilo que odiamos, no preço que é necessário pagar. O fogo é muito bonito, mas queima. No final de Mocking Jay, o regime cai, os Jogos da Fome são abolidos, é dado a entender que a democracia é instituída em Panem. Será que isso vale todo o sangue derramado, todo o sofrimento provocado? E, no entanto, teria sido melhor ficar tudo na mesma, com os distritos na miséria, crianças morrendo todos os anos, em direto na televisão?

São perguntas que ficam por responder no fim da história. É também por esta altura que, pelo menos pela parte que me toca, sobe a consideração por Peeta. Por, por entre tantas manifestações do pior da natureza humana, ele ir conseguindo manter a gentileza, algum do seu idealismo, acabando, no fim, por se tornar num símbolo de esperança, de "renascimento em vez de destruição", no fundo, do melhor lado na natureza humana.


Há que dar crédito a Suzanne Collins por ter sido capaz de ter contado esta história de uma forma acessível aos jovens - embora eu talvez ficasse demasiado perturbada se tivesse lido os livros há meia dúzia de anos - que transmite a sua mensagem de forma eficaz, sem cair em infantilizações ou lamechices: algo extremamente difícil de conseguir. Eu, pelo menos, não sei se conseguiria.

Não é possível evitar fazer comparações com a vida real. Pensar no nosso país, no nosso regime ditatorial, na sorte que tivemos por o 25 de abril ter sido relativamente pacífico, com "apenas" quatro mortos e quarenta e cinco feridos - demasiados danos, mesmo assim. Pensar, não apenas nas restrições à liberdade, mas também nos presos políticos, torturados e assassinados pela PIDE por tentarem mudar o regime - ouvi alguns testemunhos no programa "Limite da Dor" da Antena1. Indigno-me quando oiço pessoas comparando o sistema político atual com os anos da ditadura. Ou suspirando por um regresso de Salazar. O nosso regime atual pode ter muitos defeitos mas, entre muitas melhorias, não matamos nem torturamos presos políticos, tanto quanto sei. Demasiadas vezes, dá-me a sensação de que as pessoas tomam a liberdade por garantida - algo que considero perigoso.

Penso também na Coreia do Norte, cujas atrocidades lá cometidas apareceram nas notícias, recentemente. Penso nos confrontos na Ucrânia, atualmente, em como é tão fácil uma simples manifestação resvalar para a violência e tenho sempre medo de que aconteça o mesmo em Portugal.

É por todas estas reflexões que induz que os Jogos da Fome são uma obra que se destaca sobre as demais. E embora eu não deixe de reconhecer o valor de um mero entretenimento - sobretudo para aqueles cujas vidas são já suficientemente difíceis para, no seu tempo livre, irem meterse em ficção igualmente sombria, ou ainda mais - eu preciso de obras que me inspirem desta forma. Os Jogos da Fome tiveram, indubitavelmente, o mérito de me oferecer uma nova perspetiva sobre este género de ficção, depois de anos em contacto com ele, escrevendo sobre ele. Daí que, naturalmente, me sirva de ajuda na escrita. Digo mais: se, como escritora, o meu trabalho for capaz de induzir nem que seja um terço deste tipo de reflexões, considerá-lo-ei um sucesso.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O Sobrevivente - Planetas Homólogos


Uma vez que faz hoje um ano desde o lançamento oficial do meu primeiro livro, O Sobrevivente, julgo que é altura de, finalmente, falar sobre ele aqui no blogue. Não que nunca o tenha feito. Se repararem nas minhas outras entradas, em várias delas faço referência à minha escrita. Mas nesta falarei exclusivamente sobre o processo de criação da minha obra. Este, "oficialmente", começou em inícios de 2010 mas, na verdade, sinto que o tenho criado ao longo de toda a minha vida e só há quase três anos é que comecei a deitá-lo cá para fora.

Toda a minha vida adorei livros, eu e os meus dois irmãos mais novos, muito por influência dos nossos pais. É uma coisa quase inata. Ainda mal sabíamos andar e já íamos à estante dos policiais da minha mãe. É claro que na altura era para rasgá-los, não exatamente para lê-los... O meu pai ainda hoje nos lê livros em voz alta. Nós, os cinco, adoramos ler. Mas apenas a mim me calhou gostar de escrever. 

Escrever sempre foi, de resto, a minha atividade preferida, quase desde que aprendi a fazê-lo. Lembro-me de ter começado quando devia ter uns sete ou oito anos. Ou nove. Como já referi em entradas anteriores, comecei por escrever histórias com personagens de desenhos animados, como o Bugs Bunny ou o Rato Mickey e respetiva companhia. Foi algo que nunca deixei de fazer ao longo dos anos. Escrevia historietas de vários tipos, algumas fanfics before-it-was-cool (antes de ser fixe, de estar na moda); experimentei escrever poemas mas não tinha jeito; tive um diário durante vários anos; e, nesta altura, já saberão do meu primeiro blogue, O Meu Clube é a Seleção.




A ficção sempre foi aquilo que mais me atraiu. Ainda no outro dia estava a folhear um dos meus diários e encontrei uma passagem referente à altura em que me apercebi disso, há cerca de seis anos: "Deu-me um prazer infinito escrever a história. Criar as personagens, definir-lhes a personalidade, jogar com os seus pensamentos e emoções, com o medo, a coragem, a angústia, a cumplicidade, a determinação, motivados pela aventura... E como se fosse uma private joke dos escritores." Na altura, escrevia já as histórias que me serviriam de base a "Planetas Homólogos", a saga que começa com "O Sobrevivente".

Olhando para trás, reparo que os melhores períodos da minha vida têm sido aqueles em que criava ficção a um ritmo frenético. Ao mesmo tempo, aqueles períodos em que me sentia mais vazia correspondem a altura em que escrevia menos, em particular ficção. Com poucas exceções, só este género de escrita me preenche por completo.

E há já muitos anos que pouquíssimas coisas são melhores do que estar ao computador, passando a limpo o rascunho de uma qualquer história que estivesse a escrever na altura, ao som da minha música.

Já tinha feito algumas tentativas de escrever algo para publicar, mas não funcionaram. Demorei algum tempo a perceber porquê: eram demasiado impessoais. Para aquilo resultar, teria de torná-lo pessoal, de amar as personagens, de verter a minha personalidade, as minhas crenças, as minhas ideias, na história. Se não significar nada para mim, a minha escrita nunca passaria da mediania. Ou mesmo da mediocridade. Falo por experiência.


O que nos leva às minhas fontes de inspiração. Já falei de muitas delas em entradas anteriores. A inspiração pode vir de qualquer lado e de diferentes alturas da minha vida. Em termos de livros, destacaria a série Harry Potter e o Ciclo da Herança, de que falei AQUI. 

Outra fonte de inspiração é a música, como já devem ter percebido a partir das várias entradas deste blogue dedicadas ao tema. Existem músicas que me deram ideias (não dou exemplos por serem spoilers). Músicas que descobri e que calharam descrever bem uma determinada personagem (Guardian, de Alanis Morissette; Into The Fire, de Bryan Adams), um determinado sentimento (Keep Holding On, de Avril Lavigne) ou um determinado acontecimento, sobre o qual já tinha escrito, se não nesta história em particular, nas histórias que serviram de base (New Divide, dos Linkin Park). Músicas que ouvi numa altura em que trabalhava numa determinada parte, que me ajudaram na escrita da mesma (Faster, de Within Temptatin) ou cujo espírito se entrelaçou com o espírito da história (How Do Ya Feel Tonight, de Bryan Adams). Alguns dos capítulos do livro, bem como dos próximos, abrem com citações e a larga maioria delas são versos de músicas, como as que citei. 

Também me inspiro a partir de filmes, séries, coisas que me aconteceram, as minas próprias crenças e dúvidas. Obtenho inclusivamente inspiração a partir dos meus estudos - isso foi particularmente importante na definição do conceito-base da história. Como já afirmei NESTA ENTRADA, tudo isto pode não ser suficiente para tornar a história original mas torna-a algo que só eu poderia contar.

Isso transforma-se numa faca de dois gumes, é claro. Billie Joe Armstrong, dos Green Day, à sua maneira irreverente, definiu na perfeição esse sentimento: um misto de orgasmo e ataque de pânico. Uma pessoa sente-se entusiasmada por realizar o seu sonho, orgulhosa quando as pessoas lhe dão os parabéns e elogiam o seu livro e, ao mesmo tempo, sente-se aflita pois todo o seu eu está ali, escarrapachado nas suas páginas, disponível para qualquer um ler, à mercê da troça e da crítica de toda a gente. Dias antes do lançamento oficial estive com vómitos - algo que, segundo o meu pai, acontece a mim e à minha mãe quando nos stressamos a sério. Não é fácil, digam o que disserem. 


Esta parte da entrada tem imensos spoilers, por isso, caso não tenham lido o livro, aconselho-vos a saltar estes parágrafos.

Antes de começar a delinear a história sabia o que queria fazer. Queria criar algo que misturasse aventura, ação, romance, alguma fantasia e/ou ficção científica, lá está, estilo Harry Potter ou Ciclo da Herança. As personagens surgiram-me primeiro, adaptadas de histórias anteriores. O conceito demorou-me um pouco mais. Na altura - relembrando: inícios de 2010 - estavam muito na moda os vampiros e tinha acabado de sair o filme Avatar. Os vampiros não me diziam muito mas não nego que o Avatar me tenha influenciado, embora não saiba dizer se consciente ou inconscientemente. Queria criar as minhas próprias criaturas sobrenaturais.





Lembro-me razoavelmente do dia em que defini, finalmente, o conceito-base da história e certos pormenores do enredo, do momento em que tive a epifania - durante uma aula teórica - e até do raciocínio que a ela levou. Acima, estão algumas das digitalizações das notas que tomei na altura. Lembro-me de estar a ouvir a versão dos Full Blown Rose de In The Air Tonight - a versão que aparece em Tru Calling. Lembro-me de estar a pensar no Digimon, no conceito dos mundos/dimensões/realidades alternativas, de acabar por decidir criar um conceito misto de outro planeta e respetivos habitantes, com portais de acesso espalhados um pouco por todo o planeta Terra. Batizei o planeta de Minerva visto ser a única figura mitológica greco-romana de que me lembrava que não tinha dado nome a um planeta. Chamei nervianos aos habitantes. 

Nesta parte entra o meu curso. Visto que, naquela altura, andava a estudar a bioquímica do ADN e tudo o que a ele está ligado, decidi fazer uma analogia com os cromossomas homólogos. Daí que os portais se chamem "pontos de quiasma", que a troca de habitantes entre ambos os planetas se designe "crossing over", que a saga se chame "Planetas Homólogos".

Como forma de imortalizar esse dia, 22 de março de 2010, decidi torná-lo no dia de aniversário de Alex, a minha personagem masculina principal.


Fim dos spoilers

Comecei a escrever o primeiro capítulo no dia seguinte - bem, em rigor, não comecei pois já tinha um esboço. O que fiz foi escrevê-lo tendo em conta o conceito recém-criado. Foi nesse dia, também, que ouvi How Do Ya Feel Tonight pela primeira vez, a música que acabou por se tornar a faixa-tema da saga (mais pormenores AQUI).

Escrevi este livro sem grande planeamento, exceto no início de cada capítulo, deixando que a história se contasse a si mesma. Só quando ia mais ou menos a meio é que defini o esqueleto básico do que restava, bem como dos outros livros da série: quatro no total. Agora já não faço isso, já não parto às escuras para a escrita mas também não planeio tudo ao pormenor. Não sou capaz de fazê-lo, há coisas que só surgem durante a escrita propriamente dita. Só dessa fora consigo sentir a alma do livro.

Mas também me acontece o contrário, também me acontece bloquear quando tento ir às cegas. Foi o que me aconteceu no meu terceiro livro. Mas já lá vamos. Nesse aspeto, ESTA ENTRADA do blogue da escritora de fantasia Rachel Aaron foi uma ajuda valiosa. Esta e outras semelhantes do blogue dela. Só é pena que os livros dela não estejam a venda no nosso País, já que os textos dela me têm ajudado tanto. Além de que fiquei curiosa em relação aos livros dela.



Como já afirmei anteriormente, "O Sobrevivente" é o primeiro livro de uma série de quatro. O seu objetivo principal é quase só o de apresentar as personagens, o conceito. De certa forma, a história a sério começa no segundo livro, chamado "O Tsunami". Este já está escrito mas ainda está em bruto, falta-lhe ser editado. Na verdade, acabei de escrevê-lo há cerca de ano e meio mas tenho adiado o processo de edição pois as atenções estavam, na altura, todas voltadas para o lançamento de "O Sobrevivente". Posso desde já adiantar que "O Tsunami" está melhor que o seu antecessor, mais tenso, mais emotivo, com um enredo mais complexo. Estou bastante orgulhosa dele. Ainda não dei a ler a ninguém, tirando a minha irmã e mesmo ela não chegou a acabá-lo. Quero editá-lo primeiro, mas estou ansiosa por ouvir a opinião da minha mãe, do meu irmão e, depois de publicado, das outras pessoas. 

Neste momento, encontro-me a escrever o terceiro livro. Como já tinha mencionado no verão passado (ver AQUI), este está a custar-me mais. Enquanto os dois primeiros foram escritos em cerca de seis ou sete meses - lembro-me que, no início de "O Sobrevivente", escrevia um capítulo por semana - ando há mais de um ano a trabalhar neste. Tive vários bloqueios. Por exemplo, reescrevi várias vezes os primeiros capítulos - tanto "O Sobrevivente" como "O Tsunami" têm um bom primeiro capítulo, se tivesse seguido o plano inicial, a história teria demorado demasiado tempo a começar. Admito que aquele misto de entusiasmo e ansiedade ao lançamento de "O Sobrevivente", em particular, a parte da ansiedade, tenham contribuído grandemente para tais bloqueios. 




Outro fator terá sido, pelo menos inicialmente, a falta de planeamento, como referi anteriormente. No início, sabia como o livro começava e como acabava. Levei algum tempo a preencher o grande buraco no meio. Só consegui acabar de fazê-lo há poucos meses, depois de ter tido tempo de me organizar, durante o verão. Assim que tal buraco ficou preenchido, consegui retomar o ritmo de escrita dos dois primeiros livros. Só me falta escrever o fim. Ao longo das últimas semanas, fui passando a computador todos os rascunhos que fui escrevendo desde o início do ano, em particular nos últimos meses - cem páginas, no total! - de modo a montar o puzzle, dar coesão à história e descobrir como encerrá-la devidamente. No verão achava o livro não teria grande força por si só mas acho que consegui dar a volta ao texto - literalmente e não só. No processo da escrita, consegui descobrir a alma do livro, já antes mencionada, arranjar maneira de ligá-lo ao livro seguinte. Pode não ficar tão bom como "O Tsunami" mas andará perto, pelo menos em termos de tensão e emotividade. Conto acabar de escrevê-lo dentro de um mês ou dois. E depois começar o quarto e último livro.

Nem sempre tem sido fácil esta jornada. Não falo apenas na dualidade orgasmo/ataque de pânico de que falei acima. Tenho plena consciência de que os meus livros não são perfeitos, antes pelo contrário. Existem muitas coisas que gostaria de mudar em "O Sobrevivente" e angustia-me já não poder fazê-lo. Tenho consciência de algumas das fraquezas da minha história, mas temo não estar a conseguir vê-las todas. Nos últimos dois anos habituei-me a ler críticas de livros, filmes, séries, etc - uma das coisas que me levou a criar este blogue. E se isso me permite aprender com os erros alheios, também me faz pensar no que diriam os críticos sobre o meu livro. Interrogar-me se este será pior do que a noção que tenho dele, se estarei a criar estereótipos em vez de personagens, se a minha história será previsível, cheia de clichés, se o meu livro será, pura e simplesmente, patético. Se teria feito melhor se nunca o tivesse publicado.

Em suma, muitas vezes sinto-me uma criança brincando aos escritores.


Não é o suficiente para me fazer parar de escrever, de criar ficção. Não é por teimosia, é porque já está tão enraizado em mim que se tornou quase uma necessidade fisiológica, como já mencionei anteriormente, como  o são a comida, a bebida, o sexo, o sono, etc. A minha mãe disse-me uma vez que admira a minha persistência por ter escrito um livro do princípio ao fim, mas para mim não se trata disso. Isto não me é um esforço, não é trabalho, antes pelo contrário. É ócio. É como ver televisão, estar no Facebook, jogar videojogos. É algo que me serve de consolo, que me ajuda tantas vezes a manter a sanidade mental. Acaba por se tornar um vício. Com a vantagem de, ao contrário do álcool e das drogas, não me dar cabo do fígado e estar a criar algo relativamente útil.

Pelo menos é o que digo a mim mesma.

De qualquer forma, a escrita - de ficção e não só - já se enraizou de tal forma na minha personalidade que, se não fosse escritora, não seria a mesma pessoa. Seria ainda mais insignificante, mais patética, do que sou atualmente. Além de que a escrita já me levou mais longe do que tudo o resto - não muito, mas o suficiente para me fazer sentir que, em quase vinte e três anos de respiração individual, já fiz alguma coisa nesta vida, por pequena que seja.

Como podem ver, desistir da escrita ou mesmo fazer apenas uma pausa, por curta que seja, não é opção.
Ainda não sei o que escreverei depois de terminar esta história. Tenho uma ou duas ideias muito vagas. O problema é que sinto que os "Planetas Homólogos" são a história que estava destinada a escrever, a história que esteve dentro de mim a vida inteira mas que só comecei a deitar cá para fora em 2010. E tendo em conta o que disse anteriormente, que a minha ficção só funciona quando amo as personagens, quando amo a história, tenho algum receio de não conseguir amar outras histórias, outras personagens, da maneira que amo estas.

Visto que ainda estou longe de terminar esta história, não terei de me preocupar com isso tão cedo. Nos próximos tempos, continuarei a trabalhar nela. Ao mesmo tempo, vou lendo livros, vendo séries e filmes, ouvindo música, falando sobre algumas dessas obras aqui no blogue, de modo a encontrar fontes de inspiração.

Mesmo que nunca seja uma escritora de sucesso, que não consiga vender muitos livros, que nunca realize os meus sonhos mais irrealistas - com ver os meus livros adaptados ao cinema - mesmo que nem sequer consiga publicar mais nenhum livro, ninguém será capaz de roubar o prazer destas epifanias criativas, dos impulsos febris de escrita, de escrevinhar até sentir a mão dorida, gastando bics atrás de bics, de passar horas e horas ao computador, convertendo o texto manuscrito em texto digital. Enquanto for capaz de escrever, quer seja ficção, quer seja nos meus blogues, de desfrutar tudo o que a isso está associado, nunca serei um fracasso como escritora, pois uma grande parte de mim viverá para sempre nos meus textos.

Podem adquirir o livro AQUI.

Visitem a página do Facebook AQUI.

domingo, 26 de agosto de 2012

Nómada / The Host


Melanie Stryder recusa-se a desaparecer.
O nosso Mundo foi invadido por um inimigo invisível. Os Humanos estão a ser transformados em hospedeiros destes invasores, com as suas mentes expurgadas, enquanto o corpo permanece igual.
Quando Melanie, um dos poucos Humanos "indomáveis", é capturada, ela tem a certeza de que chegou o fim. Nómada, a Alma invasora a quem o corpo de Melanie é entregue, foi avisada sobre o desafio de viver no interior de um humano: emoções avassaladoras, recordações demasiado presentes. Mas existe uma dificuldade com que Nómada não conta: o anterior dono do corpo combate a posse da sua mente.
Nómada esquadrinha os pensamentos de Melanie, na esperança de descobrir o paradeiro da resistência humana. Melanie inunda-lhe a mente com visões do homem por quem está apaixonada – Jared, um sobrevivente humano que vive na clandestinidade. Incapaz de se libertar dos desejos do seu corpo, Nómada começa a sentir-se atraída pelo homem que tem por missão delatar. No momento em que um inimigo comum transforma Nómada e Melanie em aliadas involuntárias, as duas lançam-se numa busca perigosa e desconhecida do homem que amam.
Este é um livro sobre extraterrestres escrito pela autora que é mais conhecida por escrever sobre vampiros. Gosto mais deste livro do que dos da "saga Twillight/Crepúsculo", também conhecida como saga Luz e Escuridão, em parte por causa de O Sobrevivente, que também é um livro sobre extraterrestres, mas não só.

Quando li "Nómada" pela primeira vez, o conceito de Alma, do alien que toma posse do corpo e da mente de um ser humano, recorda-me Sobrenatural, os anjos e os demónios, que usam igualmente humanos como marionetas. No entanto, após leitura mais cuidada, percebi que as Almas não são apenas, como uma das personagens refere, "a mão que manipula a marioneta", eles, de certa forma, acabam por adquirir a personalidade dos humanos que controlam. Nesse aspeto, Stephenie Meyer ganha pontos pelo conceito e, sobretudo, por não ter retratado as Almas como seres cruéis, que escravizam os humanos por motivos egoístas, mas sim como criaturas que acreditam sinceramente estar a fazer o correto. Na parte final do livro, é dado a entender que é possível um mundo em que ambas as raças possam viver em harmonia.

Um dos pontos fortes do livro é precisamente o facto de induzir reflexões sobre o amor e a natureza humana, de nos levar a concluir que nada é, pura e simplesmente, preto ou branco. E o facto de apresentar a Humanidade sob o ponto de vista de um alien é particularmente interessante para mim, que escrevo livros sobre extraterrestres.

Ora, o problema de Stephenie Meyer é ser capaz de criar conceitos interessantes à sua maneira, mas ser incapaz de criar enredos que lhes façam justiça. Esta deficiência é clara na saga Crepúsculo e também em "Nómada".

Ainda que, como referi acima, as Almas sejam retratadas como pacíficas, de não serem o inimigo cruel que, se calhar, outros autores criariam, julgo que estas premissas pediam uma história com uma tensão diferente, com mais ação. Em vez disso, o livro acaba por se centrar no triângulo/quadrado amoroso Melanie-Nómada-Jared-Ian. Para além de já ser um cliché em Meyer, que já teve um triângulo-amoroso-que-não-chega-a-sê-lo-pois-toda-a-gente-sabe-logo-com-quem-é-que-ela-fica noutros livros, não é assim tão interessante e acaba por conduzir a umas quantas situações um bocado parvas, mesmo quando inseridas no contexto.

A própria personagem principal Nómada - também conhecida como Noa - assemelha-se a Bella Swan de Crepúsculo. Na timidez, na baixa auto-estima, na - passe a expressão - choraminguisse. Enerva-me um bocado a maneira como ambas as personagens se fazem de mártires, se sentem culpadas por tudo o que de mau acontece à volta delas quando, na verdade, não têm capacidade de fazer mal a uma mosca. Nómada só não se torna tão patética como Bella pois partilha a mente com Melanie, uma humana completamente diferente, lutadora, que lhe empresta alguma da sua coragem e astúcia.

Além de que Stephenie Meyer parece convencida de que o suicídio é prova de amor. As suas personagens não parecem ter personalidade suficiente para ultrapassarem o luto derivado à perda dos respetivos apaixonados, nem mesmo quando até têm família e amigos que, em teoria, lhes dariam razão para viver. É claro que existe o muito apregoado em Harry Potter caso daquele que sacrifica a sua própria vida para salvar a vida de outros - mas eu, por vezes, questiono a bondade de tal ato. No caso de Nómada, ela até tem a hipótese de viver mas recusa-se a isso. Não acho que seja amor condenar os seres amados ao luto, à culpa, ao ódio a si mesmos por a sua vida ter custado a vida de um ente querido. Pelo menos não nestas circunstâncias.

Mesmo assim, apesar de tudo isso, considero "Nómada" um bom livro, à sua maneira, sobretudo pelo conceito, por nos fazer sentirmo-nos gratos por (ainda) termos um planeta tão belo como o nosso e por nos fazer refletir sobre a condição humana - algo que a saga Crepúsculo não faz. Por isso, recomendo a sua leitura e aguardo a exibição da versão cinematográfica do livro que, segundo o que consta, chega aos cinemas no próximo ano.

O Ciclo da Herança

AVISO: Esta entrada inclui informações relevantes sobre o enredo dos livros pelo que só é aconselhável lê-lo caso já os tenha lido.


Esta série de livros foi-me apresentada pelo meu irmão há já uma boa meia dúzia de anos ou mais. Julgo que foi em 2004, 2005, que ele comprou "Eragon", o primeiro livro e "Eldest" depois de ser editado. No entanto, não foi ele quem me convenceu a ler os livros. Foi Avril Lavigne. Desculpa, mano...


O livro "Eragon" foi adaptado ao cinema e o resultado esteve em exibição em finais de 2006. A cantora canadiana - que se encontrava naquela altura a gravar o seu terceiro álbum de originais - foi convidada para compor e interpretar um tema para o filme. Avril chegou a criar duas ou três músicas para o efeito - no ano passado chegou a aparecer na Internet uma faixa chamada Won't Let You Go que, pelas semelhanças com o tema utilizado nos créditos no filme, se suspeita ter sido composta com o mesmo objetivo. Por alguma razão, Keep Holding On foi a escolhida.

Keep Holding On é mais conhecida como uma balada sobre amizade mas, para mim, é mais do que isso. Mais do que sobre apenas companheirismo, penso que a música fala sobretudo sobre união, transmissão de coragem, resistência perante adversidades, tudo isto com um cheirinho a épico. Daí que a mensagem se aplique, não apenas o filme "Eragon" e ao próprio Ciclo da Herança, mas também a outras obras de ficção: Harry Potter, o Senhor dos Anéis, mais recentemente os Jogos da Fome e, sobretudo, às histórias que eu escrevia na altura, que serviram de base a "O Sobrevivente". Daí que depressa a faixa se tenha tornado especial para mim, que tenha incluído a citação "With you by my side I will fight and defend". Esse carácter universal da música é, na minha opinião, o seu maior ponto forte.


Quando vi o filme pela primeira vez não tinha, portanto, ainda lido o livro em que se baseara. Por isso, até não desgostei, se bem que se assemelhasse a outras produções inspiradas em O Senhor dos Anéis, como por exemplo As Crónicas de Nárnia. Contudo, lembro-me de o meu irmão me segredar, não deviam ter ainda passado quinze minutos desde o início do filme, que este não prestava.

E, realmente, quando se compara o livro com o filme, é óbvio que foi uma adaptação muito mal feita. Simplificaram demasiado a história de tal forma que inviabilizaram logo a adaptação do segundo livro. É uma pena que tal tenha acontecido. Mas falarei melhor sobre isso mais à frente.


Quando Eragon encontra uma pedra azul polida na floresta, acredita que poderá ser uma descoberta bendita para um simples rapaz do campo: talvez sirva para comprar carne para manter a família durante o Inverno. Mas quando descobre que a pedra transporta uma cria de dragão, Eragon depressa se apercebe de que está perante um legado tão antigo como o próprio Império.

De um dia para o outro, a sua vida muda radicalmente, e ele é atirado para um perigoso mundo novo de destino, de magia e de poder. Empunhando apenas uma espada legendária e levando os conselhos dum velho contador de histórias como guia, Eragon e o jovem dragão terão de se aventurar por terras perigosas e enfrentar inimigos obscuros, dum Império governado por um rei cuja maldade não conhece fronteiras.Conseguirá Eragon alcançar a glória dos lendários heróis da Ordem dos Cavaleiros do Dragão? O destino do Império pode estar nas suas mãos...
Christopher Paolini planeou a série quando tinha quinze anos, se não me engano. Inicialmente, tencionava criar uma trilogia mas, quando começou a trabalhar no terceiro volume, decidiu esticar a série para um ciclo de quatro livros. Grande fã de fantasia, a sua ideia inicial era criar uma história que reunisse os seus elementos preferidos sem, contudo, pretensões de ser publicada. É assim que muitos escritores jovens dão os seus primeiros passos. Eu, por exemplo, quando era pequena escrevia histórias com o Bugs Bunny e/ou o Rato Mickey e afins e, mais tarde, com o Pokémon. Meros exercícios de escrita mas, sem eles, dificilmente teria escrito livros "a sério". No entanto, Paolini acabou por decidir publicar "Eragon", o primeiro livro da série. A obra acabou por ser um sucesso a nível planetário, mesmo utilizando conceitos emprestados.

"Eragon" é capaz de ser, dos quatro, o livro que se lê mais facilmente, por ter mais ação, por quase todo o livro contribuir para o avanço da história, enquanto os outros três possuem frequentes passagens mais "paradas", digamos. A tensão é maior por o protagonista se encontrar sobre ameaça quase permanente, por, durante uma boa parte do enredo, não perceber o que acontece em seu redor, por ainda ser relativamente imaturo, sobretudo nas capacidades que começa a desenvolver, obrigando, como uma das personagens chega a assinalar "por obrigar toda a gente a protegê-lo".



A narrativa de Eldest começa três dias após a cruel batalha travada por Eragon para libertar o Império das forças do mal. Agora, o Cavaleiro de Dragões se vê envolvido em novas e emocionantes aventuras. Em busca de um tal Togira Ikonoka – "O Imperfeito que é Perfeito" –, que supostamente possui as respostas para todas as suas perguntas, Eragon parte, junto com Saphira, o dragão azul que o acompanha desde o início da aventura, para Ellesméra, a terra onde vivem os elfos. Lá, eles pretendem aprender os segredos da magia, da esgrima e aperfeiçoar o seu domínio da língua antiga.

Em sua jornada, que também é uma caminhada para a maturidade, Eragon conhece seres e lugares diferentes e se apaixona por Arya, filha da rainha Islanzdaí. Mas também descobre que nem tudo é o que parece. Conflitos e traições aguardam o jovem herói e por um longo tempo ele não tem certeza em quem pode confiar. Os desafios de Eragon são entremeados pela luta de Roran, cuja importância aumentou em relação ao primeiro livro, formando narrativas paralelas que se juntam no fim com um único objetivo: derrotar o grande rei.

Mais maduro e preparado, Eragon consegue afastar o exército inimigo por algum tempo. A vitória definitiva, no entanto, só acontece depois da revelação de um grande segredo, que fará com que Eragon e Roran se unam novamente e decidam partir para uma nova e perigosa missão, que parece ser o ponto de partida do terceiro livro: salvar a noiva de Roran, Katrina, dos Ra’zac.
Enquanto "Eragon" se focaliza exclusivamente na personagem principal, homónima, em "Eldest", a história é-nos contada também na perspetiva de Roran - primo de Eragon - e Nasuada - neste livro, eleita líder dos Varden, uma organização de resistência ao regime totalitário de Galbatorix. E ainda bem que assim é, uma vez que a situação de Eragon é bem menos interessante do que no primeiro livro, agora que já não se encontra em perseguição/fuga quase permanente. A tensão, neste livro, acaba por se centrar em Roran, perseguido pelo Império sem saber porquê, acabando por ser obrigado a fugir, juntamente com a população da sua aldeia natal, de modo a salvar as vidas deles todos, e a resgatar Katrina, a sua noiva.

No entanto, aquelas passagens mais monótonas de que falei acima, mais irrelevantes do ponto de vista da ação, não deixam de ser interessantes pelas reflexões que a própria personagem principal é induzida a fazer, traçando paralelismos com a realidade. Abordarei este assunto mais exaustivamente mais à frente nesta entrada.


Em Brisingr, Eragon e seu dragão, Saphira, conseguiram sobreviver à batalha colossal na Campina Ardente contra os guerreiros do Império. No entanto, Cavaleiro e dragão ainda terão de se deparar com inúmeros desafios. Eragon se vê envolvido numa série de promessas que talvez não consiga cumprir, como o juramento a seu primo, Roran, de ajudá-lo a resgatar sua amada Katrina das garras de Galbatorix. Todavia, Eragon deve lealdade a outros também. Os Varden precisam desesperadamente de sua habilidade e força, assim como elfos e anões. Com a crescente inquietação dos rebeldes e a iminência da batalha, Eragon terá de fazer escolhas que o levarão a atravessar o Império, viajando muito além. Escolhas que poderão submetê-lo a sacrifícios inimagináveis? Conseguirá o jovem unir as forças rebeldes e derrotar o Império?
Este é, na minha opinião, o livro mais fraco do ciclo, por ser aquele que menos avança na ação, por ter demasiadas passagens monótonas - e nem todas têm a contrapartida de induzirem reflexões, algumas parecem estar lá apenas para encher chouriços. Tem os seus momentos, sem dúvida - o momento em que Eragon descobre a verdadeira identidade do seu pai é, na minha opinião, o ponto alto de Brisingr - mas o livro não tem grande força por si só, limita-se a abrir caminho para o último livro, a definir o cenário em que este decorrerá, a fornecer armas a Eragon para o confronto final - armas tanto no sentido literal como no figurativo: segredos, alianças, etc. Nesse aspeto, assemelha-se a Harry Potter e o Príncipe Misterioso, até porque também Brisingr termina com a morte de um mentor. Até Eclipse, da saga Twillight/Crepúsculo ou Luz e Escuridão, se assemelha em parte pois também vai dando pistas - ainda que de uma forma mais subtil - que remetem para o livro final.

Isto deve até ser uma maldição relacionada com penúltimos livros pois encontro-me, neste momento, a trabalhar no terceiro e penúltimo livro da minha série e estou a ter grandes dificuldades. Enquanto os dois primeiros livros me saíram naturalmente, ficando o primeiro rascunho pronto em cerca de seis ou sete meses, ando encalhada neste há quase um ano. E não acredito na máxima que diz que o que é escrito sem esforço é lido sem gosto, antes pelo contrário. Pelo menos no meu caso, com as suas exceções, os melhores textos são aqueles que se escrevem a si mesmos. Uma parte de mim deseja, pura e simplesmente, saltar para o livro final - o que não é possível. Em todo o caso, pode ser que o resultado final se aproveite. Vou fazer por isso, pelo menos.



Há pouco tempo atrás, Eragon – Aniquilador de Espectros, Cavaleiro de Dragão – não era mais que um pobre rapaz fazendeiro, e o seu dragão, Saphira, era apenas uma pedra azul na floresta. Agora, o destino de toda uma sociedade pesa sobre os seus ombros.


Longos meses de treinos e batalhas trouxeram esperança e vitórias, bem como perdas de partir o coração. Ainda assim, a derradeira batalha aguarda-os, onde terão de confrontar Galbatorix. E, quando o fizerem, têm de ser suficientemente fortes para o derrotar. São os únicos que o podem conseguir. Não existem segundas tentativas.


O Cavaleiro e o seu Dragão chegaram até onde ninguém acreditava ser possível. Mas serão capazes de vencer o rei tirano e restaurar a justiça em Alagaësia? Se sim, a que custo?
Os primeiros capítulos deste livro continuam, um pouco, a linha de Brisingr: relativos poucos avanços na história, cimentação de alianças, preparação do herói para o confronto final. E mesmo ultrapassada essa parte, o livro demora a arrancar. Só arranca verdadeiramente após o rapto de Nasuada. A partir daí o livro ganha maior interesse à medida que nos são revelados os segredos finais - segredos esses que me fizeram arquejar de espanto quando os li pela primeira vez - conhecemos, finalmente, Galbatorix no cativeiro de Nasuada - até ao momento, Galbatorix fora uma personagem ausente, o máximo que havíamos tido direito fora ouvir a sua voz à distância no final de Brisingr - onde também assistimos à tortura, tanto física como mental da jovem líder dos Varden e ao nascimento de uma ligação entre esta  Murtagh - ligação esta que se tornará crucial - e assistimos ao longamente antecipado confronto final, herói versus vilão.

Nesta última parte, faz-me alguma confusão a forma como Galbatorix está ciente de todas as armas dos heróis, incluindo as "arranjadas" à última hora. Não ficou bem explicado. Não sei se foi uma ponta deixada propositadamente por atar ou se foi um deslize...

O epílogo da história ainda se estende por uns quantos capítulos. Pessoalmente, tenho pena de que o terceiro ovo de dragão só tenha chocado já depois de Galbatorix ter sido derrotado, mas compreendo que tal não fosse possível...


Muitos esperavam que, no final, como em todas as histórias, o herói conquistasse a donzela. O próprio autor admitiu que era esse o plano inicial. No entanto, à medida que a história ia prosseguindo e a personagem se ia desenvolvendo, Paolini concluiu que não seria coerente com a sua personalidade se Arya "caísse nos braços" de Eragon.

Eu tive pena. Gosto da dinâmica entre Eragon e Arya, de como ela é, em simultâneo, mentora e companheira de luta do jovem Cavaleiro, ao invés de ser apenas uma donzela em apuros - ou vice-versa. Mas compreendo. No momento em que Herança acaba, a diferença de idades e a fidelidade de Arya a um amante morto são grandes barreiras a um eventual romance entre ela e Eragon. No entanto, a meu ver, uma vez que ambos são imortais e Cavaleiros, com o tempo, tais obstáculos deixarão de sê-lo.

É outra das características de Herança: por um lado, muitas pontas soltas são atadas - algumas até de forma algo forçada - outros arcos narrativos são deixados em aberto. Como a personagem Angela, uma das mais interessantes e misteriosas das quatro obras. Paolini deu a entender que atar essas pontas em futuras obras - mas num futuro ainda distante.


A série foi batizada Ciclo da Herança pois, na sua essência, a história é sobre passagem do testemunho da geração mais velha para a mais nova, sobretudo no que toca à luta contra a tirania de Galbatorix. Ao longo da série, praticamente todos os progenitores, todos os mentores - que ainda não estiverem mortos no início de "Eragon" - vão morrendo um a um, tendo o seu trabalho de ser continuado pelos filhos e/ou alunos, pelos herdeiros.

Um dos aspetos mais interessantes do Ciclo é, na minha opinião, a dinâmica daquelas que considero as três personagens principais: Eragon, o seu meio-irmão Murtagh e o seu primo Roran. Eragon e Roran foram criados como irmãos, no mesmo meio. No entanto, o primeiro torna-se Cavaleiro do Dragão, enquanto o outro mantém-se humano. Não que isso lhe constitua um entrave, ele acaba por desempenhar um importante papel na luta contra o Império ao tirar o maior partido possível das armas que possui. Ele e Eragon têm, portanto, vidas divergentes. Por sua vez, Eragon e Murtagh têm vidas convergentes. O primeiro cresce num meio completamente diferente daquele em que o irmão cresce: sempre consciente de que é filho do falecido Morzan, um antigo aliado de Galbatorix e um dos homens mais odiados do Império. No entanto, os dois irmãos acabam por ter vários aspetos em comum e acabam, ambos, por se tornarem Cavaleiros.

Este conceito de personagens ligadas umas às outras desta forma, por um lado tão parecidas, por outro lado tão diferentes, faz com que o Ciclo se assemelhe a Harry Potter. O trio Harry-Voldemort-Snape acaba por ser parecido com o trio Eragon-Roran-Murtagh.

Murtagh assemelha-se a Snape no sentido em que ambas as personagens são ambíguas, despertam sentimentos contraditórios. Isto é mais claro no caso de Murtagh já que, no caso de Snape, a maneira como ele se relaciona com Harry dificulta a perceção do seu lado bom. E, no final, o amor leva-os à redenção, desempenhando um papel fundamental na derrota do mau da fita.

Acho tão interessante esta dinâmica que resolvi reproduzi-la também nos meus livros. Aparecerá a partir do terceiro.


Já que se aborda o assunto, vale a pena mencionar as semelhanças entre o Ciclo da Herança e Harry Potter. São várias e provavelmente tratam-se de coincidências. Ambas as séries se centram num órfão "escolhido" para derrotar um inimigo tirano, cujo poder reside, em parte, em certos objetos - os conceitos de Horcruxes e Eldunarí são parecidos embora já tenha ouvido dizer que o conceito de objetos de poder não é novo.

Por fim - e considero este um dos maiores pontos fortes de ambas as séries - o facto de, apesar de ambas serem séries de fantasia, ambas apresentarem analogias para a "vida real", induzindo reflexões. No Ciclo da Herança, este carácter está mais evidente em Eldest e Brisingr e os temas abordados são o racismo, a desconfiança perante aquilo é diferente, a ditadura, a política, a própria natureza humana, deixando, no fim, uma mensagem de tolerância, de empatia, de que "o importante não é aquilo que se nasce mas aquilo em que se torna", que "são as nossas escolhas e não as nossas qualidades que determinam quem somos".

E, mais uma vez, espero conseguir o mesmo com os meus livros.


Diria que a minha personagem preferida é Nasuada. Ela é filha de Ajihad, líder dos Varden, acabando por herdar a liderança do grupo de resistência. Quando Nasuada foi nomeada líder pelo Conselho de Anciãos, estes esperavam que a jovem funcionasse como uma marioneta, que eles fossem os verdadeiros detentores do poder. No entanto, Nasuada cedo deixa bem claro que é capaz de tomar decisões pelos Varden, mostrando ser uma líder carismática, capaz de conquistar a lealdade por parte dos seus súbitos.

Nasuada destaca-se no Ciclo da Herança precisamente pela sua personalidade forte, pela forma como gere a resistência ao Império. Apesar de fazer questão de lutar ao lado dos soldados, fugindo à sua condição de mulher, o seu maior papel é nos bastidores das batalhas, fazendo a gestão pessoal de guerreiros como Eragon e Roran, transmitindo coragem e determinação ao seu povo. Durante Eldest e Brisingr, Nasuada é, no fundo, a personificação dos Varden - tanto as suas motivações como preocupações são as motivações e as preocupações do grupo rebelde. É a figura política perfeita, dedicada ao seu povo, como não existe na vida real. Nesses dois livros é difícil destrinçar Nasuada, a pessoa, de Nasuada, a líder os Varden.

O seu rapto em "Herança" torna-se interessante pois, pela primeira vez vemos Nasuada "liberta" da responsabilidade da liderança dos Varden, sem outras motivações ou preocupações que não a própria sobrevivência, a resitência à tortura por parte de Galbatorix. É obviamente de louvar a sua coragem e perseverança perante as condições em que decorre o seu cativeiro e interessante assistir ao nascimento do "romance" entre ela e Murtgah que, como já foi referido várias vezes nesta entrada, consegue alterar as motivações do jovem Cavaleiro conduzindo-o à redenção.

Depois da morte de Galbatorix, a sua nomeação para Rainha surge de uma forma natural. Eu, pelo menos, estava à espera. Segundo o plano inicial, seria Roran a assumir o trono. No entanto, à semelhança do que tinha acontecido com Arya, à medida que a personagem se foi desenvolvendo, tornou-se claro que tudo o que Roran deseja é uma vida pacífica, em Carvahal, junto da mulher e dos filhos que eventualmente terá. De resto, notam-se algumas semelhanças nas personalidades de Nasuada e Roran: também ele é devotado ao seu povo - no caso dele, a aldeia de Carvahal - e revela ter capacidade de liderança, de incitar os outros para a luta, pelo que daria igualmente um bom rei, se assim o desejasse.


Com tudo isto, acho lamentável o facto de terem desperdiçado a adaptação ao cinema do Ciclo da Herança. Apesar de não ser completamente original, a série tem, na minha opinião, potencial para ser um fenómeno do calibre de Harry Potter, Crepúsculo e Jogos da Fome.

Talvez fosse necessário para tal apostar forte na vertente romântica da coisa. O Ciclo não tem o triângulo amoroso da praxe mas tem a sua quota-parte de amores contrariados. A história de Eragon e Arya teria de acabar com eles juntos, por muito que isso contrariasse a personalidade da última. O amor entre Roran e Katrina é interessante embora seja a história clássica da donzela cujo pretendente não é aprovado pela família, em particular o pai, e depois da donzela em perigo. O romance mais interessante nesse aspeto acabaria por ser o de Nasuada e Murtagh: uma paixão entre "inimigos" que, ainda por cima, desempenha um importante papel na derrota do mau da fita. Mais uma vez, o final teria de ser alterado pois, no livro, visto que o desfecho de Murtagh fica um pouco em aberto, o potencial romance com Nasuada é igualmente deixado em stand-by.


Em suma, o Ciclo da Herança é uma das minhas séries de livros preferida, é uma referência, é uma fonte de inspiração, pelos motivos que listei exaustivamente - estiquei-me imenso, não foi? Para algo que começou por ser um mero exercício de escrita, considero que foi muito bem construído. Christopher Paolini pode ter aspetos a melhorar mas tem tempo para fazê-lo já que está ainda em início de carreira. E se o seu exercício de escrita é deste calibre, mal posso esperar para ver o que pode ele escrever "a sério".
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...