domingo, 30 de agosto de 2015

Músicas Não Tão Ao Calhas - Boom


 


Assim está melhor.


 


Na passada sexta-feira, dia 27 de agosto, a banda canadiana Simple Plan lançou um novo single, retirado do seu quinto álbum de estúdio, ainda sem título, ainda sem data de lançamento, ainda inacabado ao que parece. A canção, chamada Boom, não era totalmente desconhecida dos fãs, visto que já tinha sido apresentada ao vivo no fim do ano passado, sob a forma acústica. Aparentemente, Saturday foi apenas um single promocional (que alívio!), Boom é o verdadeiro primeiro single, veio com videoclipe e tudo.


 


Como poderão ler aqui, o avanço anterior deste álbum desconhecido, Saturday, desiludiu-me. No entanto, como já gostava da versão acústica de Boom, era altamente provável que fosse gostar da versão de estúdio. E foi o que aconteceu.


 


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Ainda não sei de qual versão gosto mais, se da acústica, se da com banda completa. De qualquer forma, em ambas o ponto forte é a letra: faz-me lembrar Still Into You no sentido em que fala de um amor que tem resistido ao tempo e a um mundo imperfeito. A minha parte favorita da letra é o refrão: o verso em que o narrador compara a amada a uma canção preferida é uma das coisas mais românticas que já ouvi. Encontrar alguém que nos emocione continuamente, que nos console, que nos faça sentir vivos da maneira como só as músicas da nossa vida conseguem (efeitos que, de resto, já foram muito bem descritos em This Song Saved My Life) é algo a que todos nós devemos aspirar.


 


Tirando a parte dos "Boom!", se calhar, a versão acústica seria mais adequada à letra romântica. Na versão de estúdio, a letra perde-se um pouco no meio das guitarras barulhentas e bateria frenética, da sonoridade explosiva a condizer com o título. Uma pessoa comum que oiça esta música da rádio há de reparar mais depressa nos "Boom! Boom-boom-boom-boom-boom-boom-boom..." do que na metáfora que descrevi no parágrafo anterior. É óbvio que os "Boom!" foram colocados precisamente para isso, para chamar a atenção. O próprio Pierre Bouvier, o vocalista, disse qualquer coisa como:


 


- A partir de agora, as pessoas vão falar desta música como "aquela dos Simple Plan com os Boom-boom-boom".


 


O grande mérito de Boom é, assim, conjugar potencial radiofónico e para concertos ao vivo com alguma substância - ficando a anos-luz da fraquíssima Saturday. Ainda é muito cedo para decidir se Boom arranjará lugar entre as minhas preferidas dos Simple Plan, mas já se tornou uma das minhas favoritas deste ano. 


 


OK, eu sei que temos tido poucos singles dos meus artistas preferidos em 2015, mas mesmo assim...

terça-feira, 25 de agosto de 2015

TAG Era Uma Vez/Once Upon a Time

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Encontro-me, neste momento, a trabalhar na análise à segunda parte da quarta temporada de Once Upon a Time (podem ler a análise à primeira aqui). Em jeito de amostra, deixo aqui as minhas respostas à tag sobre a série.


 


1) Como descobriste a série?


Descobri Once Upon a Time há cerca de três anos, quando estava a fazer zapping e, no AXN (ou seria o AXN White?) estava a passar o episódio The Thing You Love Most - o segundo da primeira temporada.


 


2) Quem é a tua personagem preferida?


Definitivamente Regina, que tem sido a personagem a evoluir mais ao longo de toda a série. Apesar de, tecnicamente, estar agora do lado dos bons, manteve a língua afiada e uma dose saudável de malícia que toda a gente adora.


 


Em segundo lugar, está Emma, apesar de nem sempre gostar do que escrevem para a personagem.


 


3) Se fosses uma personagem de contos de fadas, quem serias?


Não faço a mínima ideia, sinceramente. Sempre gostei de ler histórias tradicionais, sobretudo quando era pequena, mas nunca me identifiquei com nenhuma personagem em especial.


 


4) Charming ou Hook?


Nunca achei muita piada ao Charming, mas o Hook é uma das minhas personagens preferidas. Adoro a química entre ele e Emma.


 


5) Qual é o teu episódio preferido até ao momento?


Já falei de muitos episódios marcantes na série em críticas anteriores. Entre aqueles que considero os melhores encontram-se Snow Falls, The Heart is a Lonely Hunter, Desperate Souls, A Land Without Magic, Lady of the Lake, Tallahasee, Manhattan, Quite a Common Fairy, Going Home, Snow Drifts/No Place Like Home, Shattered Sight, Operation Mongoose. No entanto, o meu preferido provavelmente será sempre o episódio-piloto. Para além de cumprir bem o seu papel de definir as premissas e de seduzir-nos para OUaT, é um dos melhores escritos de toda a série, com imensas deixas memoráveis - as declarações de Mary Margaret sobre a importância dos contos de fadas, as trocas de picardias entre Henry e Emma e até mesmo o discurso cheio de ameaças de Regina quando Emma dá a entender que quer estabelecer uma relação com o filho biológico.


 


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6) Se pudesses ser uma personagem da série, quem serias?


Sendo eu reservada, um pouco tímida e cheia de inseguranças, eu provavelmente seria Elsa ou, então, Ingrid enquanto jovem - até porque também tenho uma irmã mais nova, que adoro.


 


7) Se pudesses namorar uma personagem da série, quem seria?


Hook. Tal como disse antes, é um dos meus preferidos e... é extremamente sexy!


 


8) Qual foi a tua primeira impressão sobre a série? Mudou?


Na sua essência, aquilo que sempre me atraiu em Once Upon a Time mantém-se até ao momento: o facto de ser uma série com personalidade própria, diferente de tudo o resto, uma espécie de Harry Potter com personagens mais velhas em televisão.


 


De início, a primeira temporada, muito focada nas personagens, impacientava-me por o enredo andar a passo de caracol. Daí que a primeira impressão da segunda temporada, com um ritmo mais elevado, tenha sido positiva. No entanto, esta temporada empalidece na comparação com a terceira e a quarta, sendo muitos os aspetos mal conseguidos: a frequente irrelevância de Emma exceto como deus ex-machina, a débil tentativa de redenção de Regina, uma cansativa disputa de custódia por Henry, a morte prematura de Cora, a história da Dark Snow (que não teve conclusão satisfatória), Greg e Tamara (a dupla de vilões que tenho procurado esquecer). O modelo atual de duas temporadas numa funciona - permite que o enredo avance a um ritmo razoável, dando igualmente tempo para o desenvolvimento das personagens.


 


Hei de falar melhor sobre isso na análise à segunda parte da quarta temporada, mas posso desde já assegurar que Once continua a ser a minha série preferida. Pode ter as suas falhas, pode ser cada vez mais Disney que contos de fadas propriamente ditos, mas as conclusões das histórias satisfazem.


 


Mais sobre Once Upon a Time em breve. Continuem por aí...


 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day - Digimon Adventure #15

Apesar de tudo o que fui assinalando ao longo desta análise, esta primeira temporada de Digimon encontra-se entre os melhores produtos televisivos para crianças alguma vez exibidos, na minha opinião. Marcou-me mais que os frequentemente sobrevalorizados filmes da Disney, por exemplo. A série ajudou-me a definir aquilo de que gosto em ficção e, tal como fui referindo inúmeras vezes neste longo testamento, é uma das minhas fontes de inspiração mais importantes.


 


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Vai ser especial, passados estes anos todos, assistir a novas aventuras com as personagens que todos adoramos, desta feita como adolescentes, em Digimon Adventures Tri - um conjunto de seis filmes, em que o primeiro será lançado dia 21 de novembro (se não estou em erro) no Japão, intitulando-se "Reunião". Ainda não existem grandes pormenores relativamente ao enredo destes filmes - se há, eu não sei - mas prefiro assim, para não ter expetativas demasiado altas. 


 


Antes destes filmes tenciono, no entanto, rever a segunda temporada de Digimon. Só daqui a algumas semanas - depois desta overdose de Digimon para o blogue, preciso de uma pausa. Tal com disse antes, só vi esta temporada uma vez e, mesmo assim, falhei uma mão-cheia de episódios, incluindo o(s) último(s). Daquilo que me recordo, a segunda temporada é significativamente mais sombria que a primeira e não sei se isso me vai agradar... Depois de a rever, talvez escreva sobre ela, bem com sobre Digimon Adventures Tri - mas, se possível, um bocadinho menos, que estas quinze entradas foram um exagero... 


 


Existem outras temporadas de Digimon para além das Adventures (Tamers, Frontier, Fusion...). Nunca as vi - tirando um ou dois episódios daquilo que penso ser o Tamers - e, para ser sincera, não tenho vontade de as ver. Segundo o que li na Internet, estas passam-se em realidades diferentes à de Adventures, a própria natureza do Mundo Digimon é diferente. Estando eu tão ligada ao elenco original, sendo as personagens a minha parte preferida de Digimon, não estou interessada em personagens diferentes e muito menos num mundo Digimon diferente.


 


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A todos aqueles que fizeram questão de ler esta longuíssima análise, o meu sincero "obrigada". Agora que já despachei este testamento, vou voltar-me para textos que já devia ter escrito e publicado há mais tempo...

Odaiba Memorial Day - Digimon Adventure #14 - Imagem e som

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Queria falar agora de um dos aspetos de que menos gosto no franchise: o desenho e/ou o conceito de vários Digimon. Referi antes que o Mundo Digital e respetivos habitantes se baseiam em mitologias e crenças humanas. No entanto, várias dessas inspirações são demasiado óbvias. Isto nota-se, sobretudo, nos vilões: temos uma linha evolutiva representando o Diabo, um vampiro e um palhaço retorcido. De uma maneira igualmente óbvia e pouco imaginativa, do lado dos bons, dois dos mais eficazes contra vilões são anjos. Por outro lado, a qualidade do desenho de certos Digimon deixa muito a desejar. Não sei se é de propósito ou não, mas muitos dos monstros digitais mais secundários são francamente repelentes, como poderão ver abaixo:


 


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Nesse aspeto, Pokémon ganha aos pontos. O franchise colhe, igualmente, inspiração em diversas mitologias e culturas, mas fá-lo de uma forma bem mais subtil. E no geral, tirando umas notáveis exceções, a qualidade dos desenhos em geral é muito superior.


 


Um pequeno apontamento sobre dobragens: já tinha afirmado aqui que não tenho grande opinião da dobragem portuguesa. Quando foi para rever a temporada há pouco menos de três meses, vi-a quase toda em japonês (com legendas, é claro). Gostei. Fiquei com uma certa vontade de aprender a língua. Achei particularmente interessante, sobretudo, o conceito dos títulos honoríficos, alguns dos quais já ouvira antes, sem saber o que significavam: -san, -chan, -senpai, -sensei... e, claro, o muito usado em Digimon e amoroso onii-chan.


 


A dobragem japonesa não foi, contudo, a minha primeira escolha. A minha ideia inicial era assistir à dobragem norte-americana. Esta, no entanto, sofreu uma série de alterações em relação ao guião original - para pior, pelo que li/ouvi em críticas. Graças a Deus, o resto do Mundo teve o bom senso de se guiar pela versão japonesa, ao contrário (julgo eu) da norma.


 


No entanto, o maior crime da dobragem norte-americana, o crime que me fez procurar uma alternativa, não diz respeito às alterações no guião. É a ausência de Brave Heart.


 



 


Brave Heart - a canção que toca aquando das digievoluções e que, para mim, é o coração (no pun intended) de toda a série (ou, pelo menos, da primeira temporada). Daí que não tenha suportado ver a versão americana.


 


Conforme já fui explicando várias vezes ao longo desta análise, as digievoluções - sobretudo quando ocorrem pela primeira vez - acontecem quando as Crianças estão em perigo imediato ou quando invocam a virtude do Cartão que lhes foi atribuído. Ao ser tocada nesses momentos, Brave Heart acaba por simbolizar esse crescimento, essa invocação do melhor lado de cada uma das Crianças Escolhidas, o momento em que elas começam a vencer.  A própria essência de Digimon. Não é preciso saber japonês para compreender esta mensagem. Tudo disto faz com que os momentos das digievoluções se tornem verdadeiramente inebriantes - acreditem, eu andei viciada neles!


 


Estamos quase no fim desta análise, a próxima será já a última. Está quase...


 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure #13 - Os maus da fita

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Depois de uma extensa análise aos heróis da primeira temporada de Digimon, está na altura de falar dos vilões. Desta feita, a análise não será tão exaustiva pois estes são maioritariamente unidimensionais e pouco interessantes (algo que, mesmo assim, se alterará na segunda temporada). Devimon é um vilão clássico de desenhos animados. Suponho que a intenção de Etemon era ser uma caricatura de Elvis, mas só sei que aquele macaco é extremamente irritante. DemiDevimon tem o seu interesse pois, não primando pela força, consegue virar as Crianças Escolhidas umas contra as outras, o que causa mais dados do que, pura e simplesmente, atacá-las. Myotismon é outro vilão clássico, unidimensional, embora, por um momento, pareça sentir respeito por Kari, quando esta tenciona sacrificar-se pela população da sua cidade. Dos Dark Masters, o único que mostra um centímetro que seja de profundidade é Puppetmon quando as Crianças - destacando-se T.K. - conseguem fazê-lo sentir-se mal por não ter amigos. 


 


Pelo meio, torna-se a notar o chauvinismo da série, visto que a única vilã do sexo feminino desta temporada, LadyDevimon, apenas aparece para se envolver numa catfight com Angewomon.


 


Finalmente, o vilão final, Apocalymon, é mais modelado que todos os que o antecedem. Criado a partir da dor, do desepero e raiva sentida pelos Digimon que, não sendo capazes de evoluir, não conseguiram sobreviver no Mundo Digital - isto inclui todos aqueles previamente derrotados pelas Crianças Escolhidas. Apocalymon vive confinado a um mundo de escuridão e deseja espalhar essa escuridão por todo o Mundo Digital. Segundo o meu entendimento, terá sido para isso que ele criou os vilões anteriores, que fizeram com que o Mundo Digimon procurasse ajuda entre os humanos. Apocalymon consegue, assim, despertar sentimentos de culpa nas Crianças Escolhidas... antes de anular as Digievoluções dos seus Digimon, de destruir os Cartões, de converter tanto os miúdos como os respetivos Digimon a dados informáticos. 


 


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Não é de surpreender que, quando os heróis regressam ao estado normal - depois de um momento bonitinho, em que cada um reflete sobre tudo o que aprendeu enquanto Criança Escolhida, acabando por descobrir que conseguem canalizar as suas virtudes para a Digievolução sem intermédio dos Cartões - os anteriores sentimentos de culpa sejam esquecidos e que Apocalymon seja derrotado sem que se pense duas vezes. 


 


Acabou por ser uma oportunidade perdida para termos um vilão interessante, bem construído, mas, de resto, nunca poderiam fazer muito com uma personagem apresentada no penúltimo episódio da temporada. 


 


Estamos quase a terminar esta análise, só deverão faltar uma ou duas entradas. Nelas penso abordar alguns aspetos mais gerais. Peço-vos, assim, só mais um bocadinho de paciência...

domingo, 16 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure #12 - A iluminada

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Quando eu era mais nova, Kari era a minha personagem preferida da segunda temporada de Digimon. No entanto, na primeira temporada, tem muito pouco espaço para se desenvolver. Para começar, ela só entra bem depois do meio da temporada e, ao contrário de todas as outras Crianças Escolhidas, não tem um único episódio dedicado a ela e só a ela. Kari é a irmãzinha mais nova de Tai e caracteriza-se por, mais do que qualquer coisa, por ser altruísta, tão altruísta que, em certos momentos, chego a questionar a sua auto-estima. Chega a lembrar-me a Bella Swan, o que não é um elogio - já disse antes que não sou adepta de mártires. Não nos é fornecida uma explicação para este seu altruísmo incondicional e, na minha opinião, pouco saudável.


 


Na verdade, nesta temporada, Kari só parece existir para caracterizar Tai. Destaco o episódio em que ela adoece - revejam o efeito que isso tem em Tai aqui. É mais uma personagem feminina que só existe em função de uma personagem masculina - o T.K. também tem como função principal caracterizar Matt, mas, tal como expliquei aqui, pelo menos ele tem uma oportunidade de sair da sombra do irmão e mostrar o seu valor. Não vou reclamar muito mais, pois Kari encontrará mais tempo de antena na segunda temporada. 


 


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Por sua vez, o seu Digimon, Gatomon, é o mais desenvolvido dos defensores das Crianças Escolhidas, mais desenvolvido que a humana que lhe coube proteger. Para além de ser mais forte que os equivalentes das outras Crianças (é a única que, em repouso, se mantém no nível Campeão), ela é mais madura do que os outros Digimon e do que a própria Kari. É de esperar, tendo em conta a sua história: ela foi separada dos outros Digimon ainda antes de nascer e escravizada por Myotismon ao ponto de esquecer a sua verdadeira identidade. Gatomon só percebe quem verdadeiramente é quando, depois de descobrir que Kari é a Oitava Criança, não consegue matá-la, contrariando, assim, as ordens de Myotismon.


 


Em linha com o que disse antes, faz muito mais sentido que Gatomon evolua para um anjo guerreiro implacável que o inocente Patamon.


 


O cartão de Kari é um dos mais controversos, pois não representa nenhuma virtude específica, apenas Luz. Da maneira como vejo as coisas, esta Luz representa o Bem em geral, em oposição à Escuridão, conceito que, no Mundo Digimon, se atribui ao Mal. Com a maior parte das outras Crianças, os Cartões assinalam uma virtude a que estas devem aspirar. No caso do Cartão da Luz, acaba por ser Gatomon quem, depois de tanto tempo na Escuridão, deve procurar a Luz. Há quem defenda que os verdadeiros virtuosos não são aqueles que nunca sentiram a tentação do Mal e sim aqueles que a sentiram, talvez tenham mesmo abraçado temporariamente esse lado, mas não se deixaram vencer. Gatomon é um bom exemplo disso. 


 


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Kari, por sua vez, não tem a oportunidade de sentir verdadeiramente o efeito da Escuridão, pelo menos não nesta temporada. O seu Cartão é ativado quando o seu ser se revolta contra a Escuridão - quando se entrega para proteger os amigos e quando Wizardmon, um amigo de Gatomon, dá a vida por elas. Não sei se deva considerar as estranhas possessões por Luz que ela sofre como parte do trabalho do seu Cartão. No entanto, se bem me recordo, será durante a segunda temporada que a jovem andará mais no limite entre Luz e Escuridão. 


 


Finalmente, já analisámos todas as Crianças Escolhidas. No próximo texto, falaremos sobre os vilões.

sábado, 15 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure #11 - Crianças Escolhidas não se medem aos palmos

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Chegamos, agora, aos membros mais novos do grupo. T.K e Kari são um caso à parte nas Crianças Escolhidas, em vários sentidos. Para já, ambos foram menos desenvolvidos que os demais. Acaba por ser aceitável pois ainda são novinhos, muitas vezes permanecem na sombra dos irmãos - contribuindo mais para a caracterização dos seus onii-chans do que para a sua própria caracterização - e, de qualquer forma, desempenham um papel mais relevante na segunda temporada. Apesar de nem T.K nem Kari serem particularmente interessantes enquanto personagens, os seus Digimon, que evoluem para anjos, desempenham com frequência um papel crucial na derrota dos vilões.


 


De assinalar, igualmente, a ironia de os Digimon mais sexualizados estarem associados às Crianças mais novas.


 


Comecemos por T.K., o irmãozinho de Matt. Apesar de também ter testemunhado o divórcio dos pais e a divisão da sua família, T.K. não ficou tão marcado pelo evento como o irmão - talvez por tudo ter acontecido quando ele ainda era muito novo. A única influência que a separação parece ter na sua personalidade é o facto de não gostar de discussões nem de divisões no grupo. T.K. é uma criança afável, inocente, como seria de esperar de um rapazinho da sua idade. Conforme afirmei antes, Matt mantém-no muito preso às suas calças mas, quando está sozinho, T.K. revela-se tão corajoso, engenhoso e protetor daqueles que ama como qualquer outra Criança Escolhida. Tai percebe isso antes de Matt, estando isso entre os motivos do desentendimento entre eles, na quarta parte da narrativa. 


 



 


Por outro lado, T.K. é o único que vê o seu Digimon morrer - embora este renasça no espaço de um dia, mais coisa menos coisa. O trauma não se manifesta de imediato. mas as consequências revelar-se-ão na segunda temporada.


 


O cartão de T.K é o da Esperança, mas esta acaba por não representar tanto uma virtude do rapazinho e sim o papel que o seu Digimon desempenha na luta pelo Mundo Digital - as primeiras vezes que Patamon digievoluiu, respetivamente, para Angemon e MagnaAngemon ocorreram, literalmente, quando tudo parecia perdido para as Crianças Escolhidas. As evoluções foram uma última esperança, quase um Deus Ex-Machina. E, tanto na forma de Angemon como na de MagnaAngemon, o Digimon de T.K revela-se um dos mais poderosos do grupo, sendo capaz de derrotar adversários de nível superior ao seu, destacando-se o Dark Master, Piedmon.


 


Um aparte só para assinalar a confusão que me faz o facto de Patamon - um Digimon muito acriançado, por vezes ainda mais infantil que o próprio T.K - evoluir para um poderosíssimo anjo guerreiro.


 



 


Na próxima entrada, falaremos, finalmente da última Criança Escolhida, Kari. Continuem por aí. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure - O papá neurótico

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Joe é a personagem de que menos gosto nesta temporada. Mais porque acho que faltou um bocadinho de consistência na sua génese. No início da narrativa, ouvimo-lo dizer que, sendo o mais velho do grupo, se sentia responsável pelos outros. Chega mesmo a dar a entender que ele devia ser o líder. No entanto, por esta altura, as ações em pouco ou nada ajudam o grupo, muitas vezes fazem o oposto. Por exemplo, num episódio, ele tenta ser racional, pensar antes de agir, no outro, é o primeiro a correr para uma armadilha. 


 


Costuma-se dizer que, se esta aventura se desenrolasse no Mundo Real, Joe assumiria naturalmente a liderança - num mundo tão fantasioso e imprevisível como o Digital, ele precisou de tempo para se adaptar. De qualquer forma, quando não está com uma das suas neuroses, Joe faz muito de "papá" do grupo, ajudando a cuidar das outras Crianças, frequentemente ignorando a sua própria segurança para protegê-los. A tradução da sua virtude é controversa - a que considero mais adequada é Lealdade, embora a ideal fosse um conceito que significasse "digno de confiança". 


 


Até agora, não tenho falado muito sobre o Digimon de cada Criança pois, na maior parte dos casos, a sua personalidade é uma extensão da personalidade da Criança que protegem. Com Joe e Gomamon é diferente, pois é, em vários sentidos, o oposto do humano que protege: divertido, descontraído. É ele quem vai ensinando a Joe a não se levar tão a sério. 


 


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A verdade é que não considero Joe uma personagem muito interessante. Ele cumpre o seu papel, tem algum desenvolvimento, mas pouco mais. Voltamos à velha questão: se ele tivesse tido mais tempo de antena, talvez gostasse mais dele.


 


Nas próximas duas entradas, falaremos dos membros mais novos do grupo, que são um caso à parte, em vários aspetos. Continuem por aí...


 

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure #9 - A princesinha

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Mimi nunca esteve entre as minhas personagens preferidas sobretudo por um motivo: a voz que lhe atribuíram na dobragem portuguesa da primeira temporada. Infelizmente, existem muitos exemplos de dobragens mal conseguidas em Portugal e Digimon nem sequer é o pior exemplo (sim, Navegantes da Lua, estou a falar de vocês e das vossas vozinhas infernais!), mas a voz da Mimi era pura e simplesmente atroz.


 


Mimi é a princesinha mimada do grupo. É a primeira a queixar-se de fome, de cansaço, de não poder tomar banho, etc. Não é difícil de imaginar o género. Não é o tipo de criança com que simpatizemos, mas, para sermos sinceros, todos nós já tivemos reações estilo Mimi quando éramos miúdos, às tantas por coisas bem menores que ir parar a um mundo desconhecido cheio de criaturas tentanto matar-nos. Todos gostaríamos de pensar que, no lugar e com a idade das Crianças Escolhidas, olharíamos o perigo de frente, como Tai, Matt ou Sora, mas provavelmente a maioria de nós reagiria como a Mimi.


 


Talvez seja por isso que nunca nos tenhamos tornado Crianças Escolhidas. 


 


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Apesar de mimada e, por vezes, egoísta, Mimi tem o coração no sítio certo e uma sensibilidade que falta à maioria das outras Crianças, destacando-se Tai. O seu momento redentor ocorre na quarta parte da narrativa, quando se sente farta de lutar, quer fazer o luto pelos Digimon amigos que haviam perdido e Tai não deixa. Mais tarde, na mesma altura em que Matt se separa do grupo, Mimi decide igualmente seguir o seu próprio caminho, procurar uma maneira de salvar o Mundo Digital que não implique o sacrifício de Digimon bons. Eventualmente descobre que a luta é inevitável e começa a reunir um exército a partir de antigos aliados das Crianças Escolhidas. Sempre dá uma ajudinha na derrota de Piedmon, mas contribui sobretudo para me fazer respeitar Mimi: no início da temporada, a jovem nunca se separaria volutariamente do grupo. E não é fácil questionar abertamente Tai, que para além de teimoso, no xadrez da luta contra a Escuridão, é uma das peças mais importantes. 


 


As traduções da virtude de Mimi são contraditórias. Na minha opinião, a mais adequada é Inocência - ou Pureza - o que faz sentido por muito do seu desenvolvimento passar pelo conflito entre as suas tendências egoístas e mimadas o seu coração puro.


 


Mimi é uma das personagens menos populares, não sem motivo, mas, na minha opinião, merecia receber um bocadinho mais amor por ser uma das personagens com maior evolução na primeira temporada. É a única personagem feminina com uma evolução digna desse nome, na verdade... Podem ler mais reclamações feministas no que diz respeito a esta série aqui.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Músicas Não Tão Ao Calhas - You Belong to Me

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Interrompemos uma longa série de entradas sobre a primeira temporada de Digimon para vos trazer o mais recente single de Bryan Adams, disponibilizado ontem: You Belong to Me, primeiro avanço de Get Up, o décimo-segundo álbum de inéditos do cantautor canadiano, com lançamento marcado para 16 de outubro. Não sei se é um single a sério, pela pouca divulgação da música até ao momento. Às tantas, é só uma faixa promocional, como acabou por ser Saturday, dos Simple Plan (e ainda bem!)


 


 You Belong to Me é uma faixa curtinha, com apenas dois minutos e meio de duração. Abre com uma linha de guitarra eléctrica que nos remete para o rock dos anos 60-70. Depressa se juntam outros instrumentos e a música ganha um carácter country, muito alegre e descontraído. A canção vai repetindo a mesma estrutura até ao fim, sem que o ritmo se altere e com pouquíssimas variações na melodia. O solo de guitarra é um dos pontos altos da faixa.


 


A letra é muito simples, dentro do registo romântico habitual de Bryan. Tirada do contexto de uma música alegre, no entanto, faz lembrar demasiado algo que um stalker - ou, pelo menos, um homem sem noção dos limites - diria. Se alguém falasse assim comigo, eu diria:


 


- Meu amigo, eu não pertenço a ninguém!


 



 


Em suma, You Belong to Me não é uma música extraordinária, nem anda perto disso. Tem o mérito de ter uma sonoridade, tanto quanto sei, única na carreira de Bryan - e isso é significativo, sabendo que o homem já lançou onze álbuns de inéditas. Nesse aspeto, ganha a She Knows Me, lançada há um ano. You Belong to Me é uma audição agradável. No entanto, os seus méritos limitam-se a isso - volto a dizer que, comparando com outros primeiros avanços, I thought I'd seen everything encantou-me mais.


 


De qualquer forma, estou curiosa em relação a este álbum. Conforme expliquei no início, este intitula-se "Get Up" - um título demasiado prosaico para um álbum, na minha opinião. Suponho que o "up" se refira a "upbeat", ou seja, alegre, animado em termos musicais. É assim que Bryan, de resto, o descreve: "animado, roqueiro, soa muito retro... e não me importo!"


 


Continuo a achar que é um título pouco imaginativo.


 


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Pegando de novo nas declarações de Bryan sobre Get Up - que ele afirma ser um dos melhores que já fez - as influências retro não me surpreendem. Depois de Tracks of My Years, estava mais ou menos à espera. No entanto, acabo de ler no site de Jim Vallance que a coisa é mais complexa do que isso: You Belong to Me e outra música, intitulada Don't Even Try foram compostas em finais de 2012 para uma série sobre uma banda pré-Beatles - logo, teriam de soar à anos 50, 60. Mais tarde, o produtor Jeff Lynne gravou-as e produziu-as. Nos dois anos que se seguiram foram criando mais faixas de longe a longe, até terem um álbum (que, mesmo assim, só tem nove músicas inéditas. Forretas...).


 


Já que falo em Jim Vallance, assinalar o facto de Get Up ser o primeiro álbum, depois de Into the Fire, em 1987, em que o compositor participa em todas as faixas. 


 


Na verdade, aquilo que mais me intriga em Get Up é o entusiasmo com que Bryan fala dele. Já referi aqui no blogue que, durante muito tempo, julguei que ele não tornaria a lançar álbuns de inéditos. E, no entanto, ei-lo aqui. Se um cantor com mais de trinta e cinco anos de carreira, com uma mão-cheia de êxitos no currículo, que já não tem nada a provar como cantautor, sente este nível de entusiasmo ao lançar um álbum novo, dizendo mesmo que este é um dos melhores da sua carreira... isso tem de significar alguma coisa!


 


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Os próximos singles de Get Up não tardarão: a 7 de setembro será lançada uma faixa chamada A Brand New Day, com a participação de Helena Bonham Carter no videoclipe (estão a ver o que eu digo? O álbum 11 não teve direito a videoclipes a sério e, agora, Bryan vai lançar um videoclipe com Helena Bonham Carter?!?!?). Para além da óbvia entrada de Música Ao Calhas, estou a pensar escrever uma crítica ao álbum Into the Fire mais ou menos na mesma altura (quando receber o CD que encomendei na Amazon). Contem, por isso, com uma overdose de Bryan Adams aqui no blogue nos próximos tempos.


 


Antes disso, no entanto, tenho muitas outras coisas sobre que escrever. Mantenham-se ligados!


 

domingo, 9 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure #8 - O cérebro

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Voltando a pegar na comparação com Lost, Izzy é o equivalente a John Locke, no sentido em que é o primeiro a aperceber-se da natureza única do mundo onde vieram parar. Por outro lado, Izzy também pode ser considerado o oposto de Locke por ser um "homem de ciência" - de resto, se formos a ver, o Mundo Digimon é um mundo informático, "científico" (embora com elementos de fantasia e, mesmo, de religiosidade) enquanto a ilha de Lost é um lugar essencialmente espiritual (embora com elementos de bizarria científica). Como acontece muito entre crianças, de início, Izzy é levemente marginalizado do grupo pelos seus tiques de nerd. E, na verdade, o próprio Izzy revela-se um bocadinho antissocial, separando-se frequentemente das outras Crianças na sua ânsia por descobrir mais sobre o Mundo Digital - foi, por exemplo, hilariante meterem-no sozinho com a princesinha Mimi. 


 


 O Cartão atribuído a Izzy é, naturalmente, o do Conhecimento (Curiosidade na versão japonesa, embora não deixe de existir um pequeno paradoxo. Izzy deseja saber tudo e, de facto, sabe imenso, mas sabe pouco acerca de si mesmo. Poucos anos antes dos eventos desta temporada, Izzy descobrira acidentalmente que fora adotado. Não descobrira porquê e é insinuado que tinha medo de descobrir. Assim, foi-se distanciando das pessoas, encontrando abrigo no mundo dos computadores. A relação de Izzy com os país, quando este regressa temporariamente ao Mundo Real, é a mais interessante de todas as Crianças.


 


É dado a entender que, já antes de ser transportado para o Mundo Digimon, Izzy é uma criança invulgarmente bem educada. No entanto, a dinâmica que observamos entre Izzy e os pais é mais estranha do que isso. Não falta amor naquela família, ninguém duvida disso. Porém, tratam-se uns aos outros com um tudo nada de delicadeza a mais do que seria expectável entre pais e filhos. Imagino que Izzy sinta um misto de gratidão pelos pais, que o acolheram mesmo não sendo biologicamente seus, e de medo de ser "devolvido à precedência" - por isso, procura portar-se o melhor possível. Quando regressa brevemente do Mundo Digimon, sente-se também culpado por ter de ocultar o seu trabalho como Criança Escolhida aos pais. Nesse aspeto, acaba em pé de igualdade com os progenitores - estes também guardam um segredo e a culpa que sentem influencia a relação com Izzy. Em momentos em que, se calhar, outros pais fariam perguntas, estes retraem-se. Volto a frisar, no entanto, que ninguém duvida do amor entre eles. 


 


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De resto, quando Myotismon decide raptar todos os humanos em Odaiba para procurar a Oitava Criança, Izzy é o único entre os Escolhidos que consegue proteger ativamente os pais. Quando arranjam um momento de acalmia depois disso, os país contam, finalmente, a Izzy a verdade sobre a sua adoção, naquele que é um dos momentos mais comoventes de toda a temporada. Pouco após, os  pais de Izzy até dão uma mãozinha quando o filho tenta decifrar a profecia que lhes indicará como derrotar VenomMyotismon.


 


Isso, bem como o respeito que fora conquistando entre as outras Crianças, graças aos seus conhecimentos sobre o Mundo Digital, faz com que Izzy perca os seus tiques mais antissociais. O rapazinho chega mesmo a servir de suporte emocional a Tai quando a irmã adoece. Em suma, apesar de não ter uma evolução tão marcante como Matt ou Tai, Izzy é uma personagem bem construída, uma das que mais gostei quando revi a temporada recentemente.


 


Da próxima vez, falaremos de uma personagem muito mal-amada, inclusive por mim, que se calhar não o merecia... 


 

sábado, 8 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure #7 - O coração

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Sora era a minha personagem preferida quando eu era mais nova. Não me é difícil explicar porquê: uma rapariga, algo maria-rapaz, forte e corajosa - como penso já ter referido aqui no blogue, sempre gostei de personagens femininas assim. Também gostava do visual dela, apesar de as semelhanças com Misty serem gritantes (ao menos Sora tem uma imagem menos sexualizada). Quando não iguala Tai e Matt em termos de coragem, Sora funciona muito como mamã do grupo: carinhosa, geralmente a primeira a acorrer quando alguém começa a chorar, a discutir, ou a primeira a mudar de assunto quando a disposição geral do grupo é de tristeza.


 


O Cartão atribuído a Sora é o do Amor, o que faz sentido tendo em conta a personalidade dela, embora ela tenha sentido alguma dificuldade em aceitá-lo. O paradoxo em Sora é que ela não tem problemas em dar amor, mas não parece acreditar que merece receber amor. Isso explica que não tenha formado imediatamente uma ligação com Byomon, que estranhasse a ideia que este a adora e protegê-la-á a todo o custo. Também explica, em parte, o relacionamento difícil com a sua mãe, explorado no episódio em que Byomon atinge o nível Super Campeão. Há quem critique esse episódio, dizendo que Sora se deixou manipular demasiado facilmente por DemiDevimon, questionando logo o amor da sua mãe, mas eu não concordo. DemiDevimon poderia ter dito a praticamente qualquer uma das crianças que estas eram mal-amadas e elas acreditariam: Tai acharia que seria por quase ter causado a morte à irmã; Matt e T.K. pensariam no divórcio dos pais; Izzy acharia que seria por ser adotado e por aí adiante. Até comigo resultaria, já que eu, na idade dos miúdos ou, vá lá, mais nova, sempre que os meus pais me repreendiam, achava que eles não gostavam de mim. 


 


No entanto, numa coisa estou de acordo com a opinião geral: os supostos problemas entre Sora e a sua mãe nunca são explicados devidamente e basta um episódio (da digievolução para Super Campeão) e pedaços de outros, no Mundo Real, para se resolverem e Sora regressar a cem por cento ao papel de cuidadora. Comparem isto com a história familiar de Izzy e, sobretudo, de Matt, que demora uma temporada inteira a resolver o ressentimento que tem aos pais.


 


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É uma das maiores críticas que tenho a fazer a Digimon: a maneira como lida com as personagens femininas. Mimi é a única que tem direito a um desenvolvimento decente. Kari existe quase só em função de Tai. Sora existe para ser a mamã, o coração do grupo, papel estereotipicamente feminino. Podem dizer o que quiserem da série animada do Pokémon, mas nesse aspeto Pokémon revelou-se bem mais progressista: logo nos primeiros episódios e durante muitos anos, o papel de cuidador foi atribuído a Brock. Ele cozinha para o grupo, muitas vezes apazigua discussões e, mais do que combater, a sua  paixão é precisamente cuidar de Pokémon. E nem sequer se pode questionar a sua sexualidade pois ele atira-se, indiscriminadamente, a qualquer personagem feminina pós-puberdade.


 


Apesar disto tudo, continuo a gostar imenso de Sora - ela merecia mais. Além disso, a linha evolutiva de Byomon sempre foi, e continua a ser, a minha preferida.


 


Depois de termos falado do coração do grupo nesta entrada, na próxima falaremos do cérebro. Claro que teria de ser um rapaz...

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Aventure #6 - O irmão-galinha

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Matt é, em vários aspectos, o oposto de Tai: sério, introvertido, cuidadoso, sensível para com os companheiros, ainda que tenha dificuldades em confiar nos demais. Na altura de tomar decisões, ele escolhe sempre a opção mais segura - entrando, naturalmente, em conflito com Tai.


 


Uma parte significativa da personalidade de Matt é definida pelo divórcio dos pais, que fazem com que este só veja a mãe o irmão mais novo, T.K. - também uma Criança Escolhida - muito raramente antes do início da história. Matt é, aliás, um feroz protector de T.K., quase um pai-galinha - já que fizemos um paralelismo com Lost, faz lembrar um pouco a relação entre Michael e o filho Walt. Em praticamente tudo o que acontece com Matt nesta temporada, T.K. está envolvido de uma forma ou de outra.


 


Não é de surpreender que, quando T.K. revela coragem e engenho próprios, quando se descobre que o rapazinho mais novo do grupo até sabe tomar conta de si mesmo e, até, ajudar o grupo, Matt se sinta perdido. É o que acontece na quarta parte da narrativa: Matt faz lembrar um pai que percebe que o filho já não é uma criança pequena, tem personalidade própria, toma conta de si, já não precisa dele. Sente mesmo que já não conhece o seu filho. Em oposição, Tai sempre lidou com T.K. como um pai fixe, que trata o rapazinho mais novo como alguém que pode ajudar o grupo, em vez de alguém a manter agarrado às sai... bem, às calças. Ou calções. É esse um dos motivos pelos quais Matt acaba por se virar contra Tai.


 


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A Matt é atribuído o Cartão da Amizade, o que é paradoxal. Se por um lado ele coloca a segurança dos companheiros em primeiro lugar (ao contrário de Tai), por outro lado, ele tem dificuldades em confiar nos outros. Por duas vezes os vilões conseguem virá-lo contra os amigos: primeiro Joe, depois Tai, na situação que descrevi acima. Por sinal, é quando Matt descobre que se enganou em relação a Joe, quando descobre que devia ter confiado nele, que o Cartão da Amizade é activado pela primeira vez.


 


Da mesma maneira, quando, em cima do final da temporada, Matt é obrigado a enfrentar os seus próprios demónios (muitos fãs torceram o nariz à caverna onde os miúdos vão parar quando se deixam abater por pensamentos negativos, mas eu acho que funciona bem como metáfora), percebe que o divórcio dos pais o fez desconfiar das pessoas, despoletando as fricções com os amigos, Tai e T.K. sobretudo. É nesse momento (mais ou menos na mesma altura em que Tai se torna verdadeiramente um líder) que Matt abraça completamente a virtude que lhe foi  atribuída. Quando regressa para junto de Tai, o Cartão da Amizade reanima WarGreymon e a luta contra Piedmon é relançada.


 


Aquando deste recente revisionamento da primeira temporada de Digimon, Matt foi uma da minhas personagens preferidas. Ele é, de longe, um das personagens melhor construídas da temporada, com um lado sombrio mais evidente que qualquer outra Criança Escolhida. De resto, ele e Tai são claramente beneficiados em relação ao resto do elenco - são melhor caracterizados e são os únicos cujos Digimons atingem o nível Mega Campeão. Isto incomoda-me um bocadinho, para ser sincera, dá ideia de hierarquia entre as Crianças Escolhidas, quando deveria haver uma certa igualdade. É outra das consequências de ter um elenco tão grande, suponho eu...


 


Na próxima entrada, falaremos de Sora.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Aventures 01 #5 - Um líder imperfeito

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Tai, à primeira vista, obedece ao estereótipo do protagonista masculino numa série infantil: alegre, extrovertido, entusiasta, impaciente. É sempre o primeiro a atingir as digievoluções, precisamente por ser o primeiro a agir, a puxar o grupo para a ação.


 


Naturalmente, o reverso da medalha é agir sem pensar, cair na arrogância, na imprudência, na insensibilidade, falhas essas que resultam em erros graves. Erros como quase matar a irmã, forçar uma digievolução, permitir o rapto de Sora, contribuir para a divisão do grupo na quarta parte da narrativa.


 


Tal como expliquei antes, está é uma altura em que as Crianças começam a sentir sequelas da luta pelo Mundo Digimon. Cansados, enlutados pelos amigos que perderam, alguns dos miúdos precisam de tempo, questionam a maneira como estão a conduzir a luta, querem pensar em alternativas. Tai não compreende nada  disso, quer continuar a lutar da mesma forma - e não está totalmente errado pois, depois de salvo o Mundo Digital, os Digimons que morreram nascerão de novo. No entanto, também Jesus chorou por Lázaro antes de o ressuscitar...


 


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Na verdade, Tai só compreende o que os amigos sentem quando a sua irmã, Kari, adoece sem que ele perceba até a coisa se agravar a sério. A doença de Kari fá-lo recordar-se da última vez que ela esteve doente com gravidade, quando a sua imprudência quase a matou. Será por essa altura que o rapazinho se apercebe das consequências das suas atitudes (mesmo que tenham sido para salvar o Mundo Digital) nos amigos, quer humanos quer Digimon, dos motivos pelos quais o grupo se dividiu. Aquando das últimas grandes batalhas, a abordagem de Tai é completamente diferente, menos impulsiva e mais estratégica, com vista a derrotar os inimigos mas sem perder mais aliados.


 


O Cartão atribuído a Tai é o da Coragem, o que faz sentido pois, em linha com o que acabei de explicar, todo o arco de personagem de Tai serve para lhe ensinar o verdadeiro significado de coragem - não que Tai alguma vez tenha sido cobarde, mas, lá está, ele era imprudente, ele saltava para o perigo sem pensar nas consequências. Coragem não é isso, coragem é ter perfeita noção dos riscos e, mesmo assim, seguir em frente, sobretudo quando "valores mais altos se alevantam".


 


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Uma das críticas apontadas a esta temporada de Digimon, com que concordo, diz respeito ao facto de Tai gozar de demasiado tempo de antena, quando outras Crianças Escolhidas (sobretudo as raparigas - mais sobre isso adiante) precisavam de um bocadinho mais. Isto é mais evidente na tal segunda parte, tão impopular, em que chegamos a ter três episódios seguidos dedicados a Tai. É verdade que muito do desenvolvimento de Tai ocorre nesta altura, com o rapazinho cometendo alguns dos erros referidos anteriormente. Mas nem tudo é bem executado - o episódio com Piximon tinha uma premissa interessante, mas revelou-se uma oportunidade desperdiçada - e podiam perfeitamente ter aproveitado para mostrar as outras Crianças cometendo erros, igualmente.


 


Continuem ligados, na próxima entrada falamos de Matt.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure #4 - Personagens

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Na minha opinião, o verdadeiro ponto forte de Digimon diz respeito às suas Personagens. Na série, o desenvolvimento e evolução das Crianças Escolhidas está diretamente ligado à progressão do enredo. Isto é particularmente óbvio no que concerne às evoluções para o nível Super Campeão. Para que os Digimons atinjam esse nível, as Crianças precisam de ativar os seus Cartões. Cada Cartão representa um determinado valor e os Cartões só são ativados se as Crianças agirem de acordo com o valor que lhes foi atribuído. As execuções desta ideia variam, mas geralmente são momentos de adrenalina, de pico de emotividade, culminando nas respetivas evoluções (mais sobre isso adiante). Por outras palavras, os Digimons só evoluem, só salvam o dia, puxando a história para a frente, se os humanos evoluírem. 


 


Devo dizer que considero este conceito dos Cartões um dos pontos fortes da primeira temporada de Digimon, ainda que as execuções variem em qualidade. As virtudes em si são, de uma maneira geral, aquelas que qualquer protagonista numa típica narrativa de luta-contra-o-mal possui ou passa a possuir no decurso da história. Em Digimon, estes valores desempenham um papel mais direto, mais literal, na progressão do enredo. Para além de isto "obrigar" a personagens minimamente modeladas, que se desenvolvam com a narrativa, é uma boa maneira de ensinar estes valores à audiência infantil - é como se a história dissesse "Se fores corajoso, leal para os teus amigos, etc, serás mais forte". É uma boa alternativa aos discursos moralistas e lamechas que tantas vezes apanhamos em desenhos animados.


 


Para além dos Cartões, o próprio enredo força o desenvolvimento das personalidades dos miúdos. Desde o primeiro momento, o elenco está sujeito a uma pressão invulgar em crianças daquela idade - eu sei que isto é uma série infantil mas, na vida real, tal como já referi noutra ocasião, ninguém no seu juízo perfeito colocaria o destino de um Mundo inteiro em crianças. Muitos dos dilemas com que o elenco se depara, em particular na quarta parte da narrativa, são dilemas de gente grande, dilemas que eu hoje vejo em obras para uma audiência mais velha. Outro dos pontos fortes de Digimon.


 


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No entanto, nem tudo são rosas no que toca às personagens. Recordo que começamos com sete Crianças Escolhidas e acabamos com oito. A narrativa tenta dar atenção individual a cada uma delas e, de qualquer forma, pelo menos os sete miúdos com que a temporada começa são pessoas diferentes por altura do fim da temporada. No entanto, o tempo de antena que cada uma recebe é muito heterogéneo. Um problema que poderia ter sido resolvido com um elenco menor.


 


Já que falo nisso, o excesso de personagens é um problema que a minha escrita tem em comum com Digimon. Já nas histórias que eu escrevia aos dez/onze anos de idade me diziam que eu usava demasiadas personagens, uma falha que não corrigi a tempo dos meus livros. Estou convencida que apanhei essa mania precisamente com a primeira temporada de Digimon. Só para vermos como podemos ser influenciados tanto pelas forças como pelas fraquezas de uma obra.


 


Na próxima entrada, começarei a analisar individualmente cada uma das Crianças Escolhidas. Sendo elas oito, como podem ver, ainda a procissão vai no adro no que toca a esta análise...

domingo, 2 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure - Enredo

Nesta entrada, vamos analisar o Enredo da primeira temporada de Digimon que, conforme disse anteriormente, é mais complexo que a maioria das séries destinadas ao público infantil. A narrativa acaba por se assemelhar muito a um videojogo, visto que o nível de dificuldade cresce de forma mais ou menos linear. Os vilões poderiam ser considerados aquilo a que, nos videojogos, se chamam os bosses, os adversários que enfrentamos no fim de cada nível, mais difíceis que todos os que enfrentáramos antes, que devemos vencer para podermos passar ao nível seguinte. Esta estrutura narrativa pode ser considerada simplista, mas tendo em conta o conceito de Mundo Digital, aceita-se. 


 


Dentro dessa lógica, costuma-se dividir a narrativa desta temporada em quatro partes, consoante os vilões: Devimon, Etemon, Myostimon e os Dark Masters incluindo a Batalha Final com Apocalymon. 


 


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A primeira parte (episódios 1 a 13), passada na Ilha do Ficheiro, é claramente introdutória. As crianças tentam descobrir onde estão, o que está a acontecer, o que são verdadeiramente os Digimons, como vão voltar para casa, porque vieram parar ali. São os episódios mais formulaicos da temprada, sobretudo os primeiros sete - em que cada um dos respetivos Digimons evolui, pela primeira vez, para o nível Campeão. No entanto, em cada um desses episódios, nova informação vai sendo revelada a pouco e pouco, sobretudo no que concerne aos Dispositivos Digitais, às Rodas Pretas, aos planos de Devimon. 


 


Depois da derrota de Devimon, Gennai - uma personagem que funciona demasiadas vezes como um deus ex-machina, que claramente possui a informação toda mas só a divulga quando é conveniente para o enredo - informa-os acerca dos Medalhões e respetivos Cartões, que permitirão que os respetivos Digimons evoluam para o nível Super Campeão e aconselha-os a abandonarem a Ilha do Ficheiro e a virem para o Continente Servidor. E assim começa a segunda parte da narrativa (episódios 14 a 20), em que o inimigo principal é Etemon.


 


Esta é a parte menos popular da temporada e eu concordo. Para começar, Etemon é irritante em todos os aspetos. Por outro lado, a excitação das digievoluções para o nível Campeão já se desvaneceu e os miúdos andam perdidos durante vários episódios, sem saber ao certo o que devem fazer a seguir, o que devem fazer para que os Digimons passem ao nível Super Campeão. Também não ajuda o facto de, nesta parte, Tai é praticamente o único a ser desenvolvido. Mesmo assim, apesar de ser penoso assistir e de achar que alguns aspetos podiam ter sido melhor feitos, considero que esta parte da história era necessária: mostrando as crianças com uma crise de confiança, cometendo erros, apercebendo-se na dificuldade da sua missão. 


 



 


Este arco termina com Tai, finalmente, conseguindo fazer com que Agumon atinja o nível Super Campeão, derrotando Etemon. No entanto, no decurso da luta, Tai e MetalGreymon (que, entretanto, regride para Koromon), são acidentalmente transportados para o Mundo Real. Aqui, descobre que, apesar de ter passado semanas no Mundo Digital, no Mundo Real ainda é 1 de agosto de 1999. Descobre também que a corrupção no Mundo Digimon está a afetar o Mundo Real e que, a sua irmã Kari consegue ver Digimons no Mundo Real, tal como o próprio Tai (como diria a minha irmã, indício trágico). Assim, Tai regressa ao Mundo Digital. Aqui, descobre que se passaram semanas desde a sua ausência e que, entretanto, as Crianças Escolhidas se separaram umas das outras - por motivos que nunca são explicados devidamente.


 


Assim começa a terceira parte da temporada (episódios 21 a 39, ainda que eu ache que o 21 é um caso à parte) - com Myotismon como vilão principal. Tai vai à procura dos amigos, tentando reconstruir o grupo. Neste período, alguns dos miúdos conseguem fazer com que os seus Digimons evoluam para o nível Super Campeão, o que exige igual evolução por parte das suas personalidades (mais sobre isso adiante). Reunido o grupo, Gennai informa-os que existe uma oitava Criança Escolhida que não foi transportada para o Mundo Digital aquando das outras sete. O elenco tem de, assim, regressar ao Mundo Real e tentar encontrar essa oitava criança antes que Myostismon e respetiva trupe o façam.


 


Conforme disse antes, esta é a parte mais interessante da primeira temporada. Para além da graça de termos Digimon perturbando uma típica vida citadina, há mais oportunidades para desenvolver as personagens vendo-as interagindo com as respetivas famílias. Este arco culmina com Kari (Surpresa, surpresa, é a Oitava Criança!) fazendo Gatomon evoluir para o nível Super Campeão e, depois, com Tai e Matt fazendo Agumon e Gabumon evoluírem para o nível Mega Campeão - o nível máximo. 


 


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Apesar da derrota de Myotismon, o Mundo Digimon continua sob ameaça e as Crianças são chamadas de regresso, dando início à quarta e última parte da temporada. Desta feita, temos um conjunto de quatro vilões, os Dark Masters. Esta é a parte mais sombria da história - as Crianças veem Digmons amigos morrendo por elas, as várias semanas de luta constante começam a ter consequências na psique dos miúdos, as tensões crescem dentro do grupo, que acaba por se dividir. Como se calcula, ocorrem vários momentos significativos de desenvolvimento das personagens, sobretudo no que diz respeito a Matt. No entanto, os diferentes arcos narrativos precisavam de um pouquinho mais de tempo de antena, na minha opinião. Eventualmente, todo o grupo se reúne de novo, a tempo de derrotar Piedmon, o último dos Dark Masters e de travar a Batalha Final com Apocalymon.


 


Curiosamente, tenho encontrado muitas semelhanças entre esta primeira temporada de Digimon e a série Lost. Para começar, ambas as séries começam com o elenco sendo transportado para uma ilha (ainda que, em Digimon, a ilha é apenas uma parte do cenário). As preocupações iniciais são de sobrevivência, de tentar regressar a casa. Mais tarde, descobre-se que não foi por acaso, que cada membro do elenco foi escolhido especificamente, numa tentativa de salvar o local (ilha ou Mundo Digimon) a onde foram parar. Ambas as séries centram-se muito nas personagens, e várias delas vêm de passados complicados. Nos dois casos, temos personagens masculinas (Jack e John Locke em Lost, Tai e Matt em Digimon) em posições de relativa liderança que, no entanto, são em muitos aspetos o oposto uma da outra. Como tal, entram frequentemente em conflito e, eventualmente, provocam uma divisão no grupo inicial quando decidem seguir caminhos diferentes. A certa altura, o elenco (ou, pelo menos, parte dele) regressa a casa mas, cedo, é obrigado a voltar. Por fim, com mais ou menos subtileza, ambas as histórias acabam por focar-se numa luta entre o Bem e o Mal.


 


Também Once Upon a Time (que já de si é muito parecida com Lost) acaba por ter algumas semelhanças com Digimon.


 


E é isto o que tenho a dizer sobre o Enredo da primeira temporada. Nas próximas publicações, analisaremos as PersonagensContinuem desse lado. 

sábado, 1 de agosto de 2015

Odaiba Memorial Day: Digimon Aventure #2 - Cenários e pais negligentes

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Nesta entrada, vamos analisar os Cenários onde decorre a narrativa. A história da primeira temporada de Digimon Aventures decorre, maioritariamente, no Mundo Digital. Este, também conhecido por Mundo Digimon, é uma dimensão paralela ao chamado "mundo real", tendo sido criado a partir de dados informáticos à mistura com pensamentos, emoções, sonhos e crenças humanas - o que explica o facto de vários Digimon e lugares do Mundo Digital tenham características de mitos e culturas humanas. Tendo em conta que, na altura em que via Digimon pela primeira vez, a Internet e mesmo os telemóveis eram ainda coisas muito recentes, a ideia de um Mundo Digital fascinava-me - em particular, a de um mundo digital acessível através de um computador (na segunda temporada). E, claro, este conceito de dimensões alternativas, mundos paralelos, serviu de inspiração para o meu livro


 


Por outro lado, o arco narrativo mais interessante da temporada acaba por se passar no Mundo Real, quando o elenco regressa temporariamente às cidades natais e estas são atacadas por Digimons hostis. Para além de podermos ver as Crianças Escolhidas relacionando-se com as respetivas famílias (mais sobre isso quando falarmos sobre as Personagens), quando era mais nova, a ideia de Digimons atacando a comunidade, com as crianças sendo as únicas a saber o que está a acontecer e porquê e as únicas capazes de salvar o dia, fascinava-me. Cheguei a imaginar que isso acontecia na minha localidade, inclusivamente na minha escola. Os meus colegas, os professores e os outros funcionários abrigar-se-iam no pavilhão desportivo e eu ficava cá fora, com o meu Birdramon, defendendo-os dos ataques dos Digimons maus - ao mesmo tempo que comunicava à distância com as outras Crianças Escolhidas, que combatiam noutras frentes.


 


Que cara é essa? Como é que acham que eu me tornei escritora, meus amigos?


 



 


Já que falo do assunto, referir que um dos aspetos da segunda temporada de que gostava mais era do facto de o elenco frequentar as aulas, ir para casa ao fim do dia, fazendo o trabalho de Crianças Escolhidas quase como uma atividade extracurricular - reunindo-se numa sala de computadores, como a que havia na minha escola. Eu identificava-me com isso. Lembro-me, inclusivamente, de ler numa revista há uns anos que era comum miúdos à volta dos doze anos se identificarem com esse género de narrativa: em que os protagonistas levam a vida normal de um pré-adolescente, mas também fazem o trabalho de heróis em segredo. Este artigo vinha a propósito de uma banda desenhada qualquer, que estava na moda na altura (Witch? O clube Winx?), mas fez-me pensar em Digimon.


 


Um aparte só para assinalar que, na realidade, dificilmente crianças de onze anos, ou menos, conseguiriam escapar ao controlo dos adultos durante tempo suficiente para salvar o Mundo Digital. Eu não conseguiria quando tinha essa idade, mas eu era a excepção, não a regra. No entanto, pela norma dos dias de hoje - em que os pais podem ser acusados de negligência se deixam os filhos ir sozinhos para a escola - seria impossível. Para que pudesse haver história, foram necessários adultos responsáveis mais liberais, talvez irrealisticamente liberais. Num dos episódios, Izzy tem de travar um Digimon hostil a meio da noite, por isso, tranca-se no quarto e foge pela janela. Os pais apercebem-se da porta trancada, mas não fazem nada - na vida real, qualquer pai, mais permissivo ou não, se um filho se trancasse no quarto e deixasse de responder, entraria em pânico ou, no mínimo, faria tudo para abrir a porta.


 


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Outro exemplo são os país de Tai e Kari que, por duas vezes, deixam a filha doente sozinha em duas ocasiões. Uma vez aos quatro, cinco anos, outra vez aos seis/sete - já no decurso da história. Isto sempre me fez confusão, mesmo quando era mais nova: já é suficiente mau deixar uma criança de sete anos saudável sozinha em casa, quanto mais doente. Até porque a primeira vez teve consequências graves, seria de esperar que os país de Kari tivessem aprendido a lição. Ou melhor, nem por isso, pois deitaram a culpa ao filho mais velho que, na altura, tinha... nove anos, no máximo. Na realidade, os pais teriam, no mínimo, sido abordados por uma assistente social.


 


E com este comentário sobre negligência parental, encerro está entrada. Na próxima, analisarmos o enredo desta primeira temporada de Digimon.


 

Odaiba Memorial Day: Digimon Adventure #1

 


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Hoje é dia 1 de agosto, que entre os fãs de Digimon é conhecido por Odaiba Memorial Day. Foi o dia em que, em, 1999, segundo a timeline da série animada que se centra no mundo digital, as personagens principais da primeira temporada foram transportadas para o Mundo Digimon pela primeira vez. Desse modo, este é um dia escolhido para celebrar o franchise. Eu só soube deste dia há poucas semanas, mas calha bem. Há alguns meses ouvi falar no Digimon Adventures Tri numa série de filmes, prevista para algures este ano, protagonizada pelo elenco original e passada, se não me engano, seis anos após os eventos da primeira temporada. A propósito disso, quis rever a primeira temporada e, já que hoje é considerado o Dia dos Digimon, hoje começo a escrever sobre ela.


 


Eu só vi as duas primeiras temporadas de Digimon, sendo que vi a primeira várias vezes, enquanto que a segunda só vi uma vez e falhei vários episódios, incluindo os últimos. Mesmo assim, foi o suficiente para a série animada me marcar profundamente na infância e não só. Na verdade, só me apercebi da influência que teve - e continua a ter, de certa forma - quando a revi agora. É sobre isso que quero falar nestas entradas.


 


Dois alertas antes de começarmos:


 


1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo da primeira temporada de Digimon, talvez da segunda. Leia por sua conta e risco.


 


2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas. 


 


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Quando era pequena, via a primeira temporada de Digimon mais ou menos na mesma altura em que via Pokémon: à volta do ano 2000, 2001. Inicialmente, passava no Batatoon, de segunda a sexta à tarde. Mais tarde, houve um ano - penso que 2002 - em que transmitiram a primeira e a segunda temporada na SIC, aos sábados e domingos depois do Pokémon (saudades dessas manhãs...). Isto pode surpreender-vos, tendo em conta as inúmeras referências que faço ao Pokémon neste blogue, mas nessa altura - por volta de 2002 - eu gostava mais de Digimon do que Pokémon. Eu mesma quase me tinha esquecido disso, ao fim de dez anos praticamente sem contacto com Digimon e um contacto muito maior com Pokémon. Mesmo sem este contacto, os traços da série animada de Digimon mantiveram-se no meu subconsciente como escritora - conforme procurarei demonstrar.


 


Antes de prosseguirmos, quero deixar uma coisa assente desde já. Continua a existir uma grande polémica relativamente à rivalidade entre os dois franchises acima referidos. Apesar das semelhanças mais do que óbvias, não acho que tenham assim tantas coisas em comum quanto se pensa. A diferença mais gritante é que Pokémon tem uma expressão muito maior, sobretudo por causa dos jogos que continuam bastante populares, mesmo passados estes anos todos - pelo menos é essa a ideia que eu tenho e, de qualquer forma, a comunidade online de fãs é muito forte. Julgo que existe um jogo qualquer de Digimon, talvez uma coleção de cartas, mas eu não conheço nenhuma dessas vertentes. Não posso, portanto, opinar. No entanto, do conhecimento limitado que eu tenho da série animada, Digimon é melhor que Pokémon nesse capítulo.


 


Na verdade, não é só que Pokémon, Digimon é melhor que a larga maioria das séries dirigidas ao público infantil. Sobretudo porque há mais tensão do que o habitual, há muito mais em jogo que o que costuma haver num desenho animado normal. O elenco, no início, está a tentar sobreviver num mundo para onde foi, literalmente, atirado, tentando regressar a casa. Mais tarde, estaria a tentar salvar o mundo Digimon, enfrentando inimigos que os querem ver mortos. E com um enredo tão pesado, é natural que as personagens se desenvolvam mais do que o habitual. Os episódios têm uma fórmula, sobretudo no início, é certo, mas, pelo menos na primeira temporada, raramente existem fillers e temos muitos episódios que terminam em cliffhangers - por comparação, a série animada do Pokémon é muito mais formulaica e previsível e, claro, há muito menos tensão. Não é por acaso que eu prefira os filmes e que o meu preferido tenha óbvias semelhanças com Digimon.


 


Há três aspetos que eu quero analisar separadamente no que toca a esta primeira temporada: o Cenário, o Enredo e as Personagens. Tenho muito a dizer sobre cada uma dessas vertentes, e ainda terei algumas considerações gerais a tecer, no final. Por outras palavras, esta é a primeira entrada de uma longa série. Mas já sabem como eu sou, eu escrevo muito. Não é por acaso que este blogue se chama Álbum de Testamentos.


 


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