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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Lorde – Virgin (2025) #3

           



            Terceira e última parte da análise a Virgin. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui. 


        Falemos, então, sobre Favourite Daughter, uma música sobre a relação de Ella com a sua mãe – embora também possa ser, um pouco, sobre a relação com os fãs e com a indústria musical. 


Penso que qualquer fã de Lorde se recordará que, quando esta apareceu no mundo da música, muitos a descreveram como madura para a idade. Ao ponto de surgir a piada de que ela, na verdade, tinha quarenta e dois anos. Brincadeiras à parte, Ella terá sido “diagnosticada” como sobredotada aos seis anos. Ou seja, terá passado a vida toda sendo tratada como um génio – para o melhor e para o pior. 

domingo, 26 de abril de 2026

Lorde – Virgin (2025) #2

           Segunda parte da minha análise a Virgin. Podem ler a primeira parte aqui. 

         Terminámos essa parte dizendo que existe um tema que, na minha opinião, funciona melhor como primeiro avanço de Virgin que What Was That. Para ser justa, este tema foi o terceiro single do álbum, lançado cerca de uma semana antes da edição oficial. Falo de Hammer, uma das minhas preferidas em Virgin, cuja mensagem se resume a “esta é a minha vida agora, permitam-me que desenvolva já a seguir”.




        O título – “hammer”, martelo – diz respeito ao estado de hipersexualidade em que Lorde se encontrou depois de ter deixado de tomar a pílula e voltado a ovular. Ella descreve tais impulsos como violentos, quase masculinos. É uma interpretação comum na nossa cultura, ainda que bastante conservadora: associar virilidade a hipersexualidade, ter um papel mais ativo, ter a iniciativa, no que toca a sexo e/ou a romance. Por outro lado, há aqui abertura a algo além do vínculo físico: “I know you don’t deal much in love and affection but I really believe there could be a connection”.

Lorde – Virgin (2025) #1

          



             Ella Yelich-O'Connor, profissionalmente conhecida por Lorde, lançou Virgin, o seu quarto álbum de estúdio a 27 de junho de 2025 – sensivelmente quatro anos após o lançamento do álbum anterior, Solar Power, mantendo o padrão que se tem observado ao longo da sua carreira. Hoje vamos finalmente começar a analisá-lo. Esta é a primeira de três partes.


Tornei-me fã de Lorde há cerca de dez anos – numa altura em que o entusiasmo geral em torno do seu álbum de estreia, Pure Heroine, já havia arrefecido um pouco. No ano seguinte, Lorde lançou o álbum Melodrama – só um dos melhores álbuns de todos os tempos, indiscutivelmente. Escrevi sobre ele poucos meses depois de ter sido lançado – hoje, se calhar, acrescentar-lhe-ia coisas. 



Quatro anos depois, no verão de 2021, Lorde lançou Solar Power. Um álbum que, infelizmente, não roça nem de perto os calcanhares dos seus antecessores, conforme expliquei na altura. Em suma, gostei mais da ideia do álbum, da estética dos videoclipes e da era em geral, do que do álbum em si, das músicas em si. Várias delas estão mal produzidas, soam entediantes, incompletas, denunciando (penso que não intencionalmente) alguma futilidade da parte de Lorde, alguma falta de noção, as suas contradições. 

domingo, 6 de outubro de 2024

O que é Linkin Park? #1

Há sete anos que sei que isto poderia acontecer. Passei este tempo dizendo a mim mesma que lidaria com isso quando a altura chegasse.


Pois bem, a altura chegou. Eis-me lidando com isso. 



terça-feira, 14 de maio de 2024

A história turbulenta da banda que vai abrir a Eras Tour em Portugal #3



Terceira parte da história dos Paramore. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui.


Mesmo com as desistências de Josh e Zac Farro, Hayley, Taylor e Jeremy eventualmente decidiram continuar com a banda – e o mundo susteve a respiração para saber como sobreviveriam os Paramore sem dois dos seus membros fundadores. O tal concerto no Optimus Alive decorreu cerca de seis meses depois da bomba. Lembro-me de estar sentada no chão da plateia, no meio de muitas pernas, conversando com uma fã mais experiente do que eu – penso que terá sido entre as atuações dos Kaiser Chiefs e dos Paramore. Ela explicou-me que Josh fora o principal parceiro de Hayley na composição – e não sabia se Taylor conseguiria desempenhar esse papel.


Enquanto escrevia o parágrafo acima, fiquei com umas estranhas saudades dessa rapariga, cujo nome não recordo, e dos outros fãs de Paramore que conheci nesse festival. Gostava de falar com eles sobre tudo o que aconteceu com a banda depois de 2011 (e aconteceu muita coisa, esta procissão ainda vai no adro). Será que não gostaram do rumo que os Paramore tomaram nos álbuns seguintes e deixaram de segui-los? Ou será que concordam comigo que, no fim, a banda deu a volta por cima?

segunda-feira, 13 de maio de 2024

A história turbulenta da banda que vai abrir a Eras Tour em Portugal #2




 

Retomamos a nossa história em 2007, 2008 (podem ler o início aqui). Riot! foi, então, o álbum que colocou os Paramore na ribalta. Infelizmente, a banda não lidou muito bem com isso. Uma das piores fases foi no início de 2008. Os Paramore chegaram a cancelar concertos na Europa. Diz que a banda esteve à beira de colapsar nessa altura. 

domingo, 12 de maio de 2024

A história turbulenta da banda que vai abrir a Eras Tour em Portugal #1



Como é do conhecimento geral, Taylor Swift, a D.D.T. do mundo da música, vai trazer a Eras Tour para Lisboa. Mais especificamente para o Estádio da Luz, nos próximos dias 24 e 25 de maio. 


Mas Taylor não vem sozinha. A abertura dos concertos da digressão europeia tem estado a cargo da banda de Nashville, Paramore. Que por acaso são a minha banda preferida, mais ou menos empatados com os Linkin Park (e respetivo excelente tributo português). Assim, quando foi anunciado que eles viriam com Taylor a Lisboa – e eu depois consegui bilhetes para o dia 25 (dos mais baratos) – não podia ter ficado mais feliz. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Música 2023 #3: Too big to hang out, slowly lurching toward your favorite city

 



Hoje vamos então falar da dona disto tudo, da omnipresente. Taylor Swift é um poço sem fundo de ótima música. Dez álbuns de estúdio, um décimo-primeiro a caminho, em menos de vinte anos de carreira, incluindo reedições e respectivos baús e, no caso de Midnights, múltiplas edições especiais. Chega a ser irritante. 


Mas não há volta a dar. Taylor tornou a ser uma das artistas que mais ouvi em 2023. 

sábado, 20 de janeiro de 2024

Música 2023 #1: Feels, concertos e a banda de tributo responsável pela maior parte deles

Primeira publicação de 2024! Um ano muito feliz, caros leitores. 


Nos últimos tempos, tem estado na moda nas internetes descrever diferentes fases das nossas vidas como eras – inspirando-nos, pelo menos em parte, em Taylor Swift. É uma coisa recente nas redes sociais, mas a verdade é que é algo que faço há já muitos anos, de certa forma. Penso em diferentes períodos da minha vida, recordo-me de filmes e séries que via na altura, da música que ouvia, em que ciclos de álbuns estavam os meus artistas e bandas preferidos. 


Daí este meu hábito de fazer um balanço musical no fim de cada ano aqui no blogue. É uma maneira de escrever a minha própria história, de criar um cânone pessoal, romantizar a minha própria vida. É pura auto-indulgência, provavelmente só eu é que quero saber, mas também noventa por cento deste blogue é auto-indulgência. 


2023 foi um ano longo e intenso, de altos e baixos. Tenho-lhe chamado o ano dos feels, um ano em que pensei demasiado, senti demasiado. Muitas emoções contraditórias ao mesmo tempo – não é a primeira vez que falo disso. Muitas delas boas, sim, e vou falar da maior parte neste texto, mas também emoções más, ansiedade. Tive alguns motivos para isso (situações pessoais, no trabalho, etc.), mas em muitos casos não há motivo, é só a minha cabeça, sou eu a fazê-lo a mim mesma. Muitas letras dos Linkin Park fazendo sentido. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Paramore – This is Why (2023) #1

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No passado dia 10 de fevereiro, os Paramore lançaram o seu sexto álbum de estúdio, intitulado This is Why – o sucessor ao excelente After Laughter. 


 


As expectativas estavam altas para este álbum. No entanto, quando This is Why saiu, confesso que não me entusiasmou muito. Não que não tenha gostado, mas estava à espera de gostar mais.


 


Talvez tenha sido por, lá está, a fasquia estar demasiado alta – depois de os seus dois antecessores e mesmo Petals For Armor, o primeiro álbum a solo da vocalista Hayley Williams, terem sido tão marcantes para mim, cada um à sua maneira. Talvez estivesse à espera de um álbum diferente. Em minha defesa, pelas entrevistas que os membros da banda foram dando antes e depois da edição de This is Why, pelos dois primeiros avanços, não era a única que estava à espera de um trabalho um pouco mais político/social, mais voltado para o exterior e para a atualidade, pois não?


 


É certo que demorei algum tempo a dar a devida atenção a This is Why. Como tem sido a regra comigo, o timing não foi o ideal. Sobretudo no que toca aos meus músicos preferidos, como os Paramore, a minha maneira de digerir música é escrevendo sobre ela aqui no blogue – e todo o trabalho de análise e pesquisa que isso implica. O que demora. This is Why foi editado no mesmo dia que Lost dos Linkin Park, o primeiro avanço da edição de vigésimo aniversário de Meteora, que saiu daí a dois meses. Dei prioridade a Meteora20 – podem ler aqui como é que isso correu.


 


E a verdade é que a minha opinião em relação a este álbum melhorou imenso quando tive oportunidade de examiná-lo mais de perto. This is Why continua a ter os seus problemas e iremos falar sobre isso. No entanto, acho que é daqueles que precisa de tempo para ser apreciado. 


 


Como o costume, temos imenso sobre que falar, logo, esta análise virá em duas partes. Publico a segunda amanhã.


 


Comecemos pelo princípio. Agora que penso nisso, já lá vai quase um ano desde que surgiram as primeiras pistas relativas a This is Why, o single e o álbum. Às vezes parece-me que já se passou imenso tempo, às vezes parece que tudo se passou na semana passada. Por estes dias, sempre que oiço esta música, regresso ao momento em que esta saiu e em que estava a escrever sobre ela para o blogue: de finais de setembro até meados de outubro, um período muito excitante da minha vida, como referi na altura.


 



 


Mesmo tirando esse aspeto, continuo a gostar imenso de This is Why por si mesma. Continuo a achar que foi uma boa escolha para primeiro avanço.


 


O segundo avanço, The News, foi lançado dois meses depois de This is Why, o single e dois meses antes da edição do álbum completo. Como já muitos assinalaram, musicalmente parece saída de Brand New Eyes – depois de lhe aplicarem um filtro mais moderno, mais rítmico, à Taylor York (guitarrista, co-compositor e a pessoa mais importante dos Paramore). Zac Farro, o baterista, deu-lhe super forte, é uma coisa parva. Uma das minhas partes preferidas são dos acordes de guitarra na terceira parte. 


 


Por outro lado, não sei se aparece nos créditos, mas Zac também canta no pré-refrão, não é? Canta a expressão “the news”, certo?


 


Como na larga maioria das músicas dos Paramore, a letra é a parte mais interessante da música. Hayley escreveu-a aquando da invasão da Rússia à Ucrânia, no ano passado – quando a Comunicação Social e as redes sociais não falavam de outra coisa (no contexto deste álbum, vou assumir sempre que Hayley é a narradora nestas letras). Na verdade, a letra de The News podia ser sobre uma infinidade de eventos da última meia dúzia de anos: a pandemia, obviamente, as alterações climáticas, o #MeToo, O Black Lives Matter, as dificuldades económicas, as transições de poder de Donald Trump para Joe Biden, de Jair Bolsonaro para Lula da Silva, etc. 


 


Nestas alturas, sentimo-nos pressionados a estar informados sobre tudo, a preocuparmo-nos com tudo, a ter uma opinião sobre tudo, a indignar-nos em relação a tudo – o que remete para This is Why. À Comunicação Social interessa manter-nos presos, de modo a obterem mais audiência, mais cliques, mais interações nas redes sociais que estimulam os algoritmos – daí usarem e abusarem do sensacionalismo e do clickbait (“Exploitative, performative, informative”). 


 


Uma pessoa tenta desligar-se para proteger a sua sanidade mental, mas depois sente-se culpada pela apatia, por poder, nalguns casos, dar-se ao luxo de desligar, de não querer saber, de não ter a sua vida diretamente afetada pelo que está a acontecer (“I’m far, so far, from the frontline, quite the opposite, I’m safe inside”). Embora na prática, muitas vezes haja muito pouco que uma pessoa possa fazer, tirando, lá está, fazer donativos quando pode, votar quando há eleições ou participar em manifestações. 


 


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E depois temos o nosso retângulo português, em que por vezes as notícias são só estúpidas. Veja-se o tempo que se gastou com aquilo a que gosto de chamar o Galambagate. O que não deixa de ser outra maneira de nos manipular – desta feita por alienação.


 


A frase “all along we called it normal” reflete a maneira como muitos destes eventos que motivam grandes coberturas noticiosas expõem falhas da sociedade atual que poucos haviam questionado. O #MeToo e o Black Lives Matter são exemplos óbvios. 


 


Pena Hayley não ter desenvolvido esta ideia para além deste único verso, nem mesmo noutra canção deste álbum. É a única falha que tenho a apontar a The News.


 


Algumas notas rápidas sobre o videoclipe. Hayley é fã de filmes de terror e já os tinha usado como inspiração para os vídeos de Petals For Armor. Ao mesmo tempo, a estética do vídeo – quase tudo em tons escuros ou mesmo negros, contrastando com o cabelo cor-de-laranja de Hayley – faz lembrar o vídeo de Ignorance. Só reforça as semelhanças de The News com Brand New Eyes. 


 


A terceira música que ouvimos de This is Why foi C’est Comme Ça. Existem muitos fãs que não gostam desta música, mas eu gosto. Não digo que esteja entre as minhas preferidas, mas não estará muito longe.


 


Compreendo porque é que muitos não gostam. Aquele refrão foi uma jogada arriscada. Consigo ver como alguns poderão considerá-lo repetitivo, esquisito, mesmo irritante. Mas também me pergunto quantos destes fãs serão americanos que não estão habituados a ouvir uma língua que não o inglês. No entanto, acho que resulta muito bem na música: com um toque maníaco que condiz com o tema da letra. 


 



 


Toda a sonoridade é bastante caótica – de uma maneira deliberada, claro. Dizem que é influência dos Bloc Party. Só sei que gosto imenso das guitarras, sobretudo durante o solo. Também gosto das estâncias faladas em vez de cantadas – um elemento até agora inédito na discografia dos Paramore.


 


A expressão “c’est comme ça” traduz-se para “é o que é”. Do género, “é o que é, o que é que se pode fazer?”. Desde que a música saiu, sempre que oiço alguém dizer essa expressão, ou algo semelhante, digo “c’est comme ça” – nem que seja só para mim mesma.


 


A primeira quadra da letra (tirando o refrão) é toda uma referência à vida em pandemia. Todos nós envelhecemos demasiado depressa, todos sofremos e atrofiámos com o confinamento – eu em menor escala, pois pude/tive de trabalhar fora de casa.


 


O resto da letra é mais interessante e específico para Hayley, falando de algo que ela mesma já falou em diferentes ocasiões, incluindo numa publicação no Discord. Hayley tem uma relação estranha com conforto. Tende a romantizar e a desejar conflito e instabilidade. Chegou mesmo a admitir numa entrevista recente que tem um certo vício em adrenalina. 


 


E eu tenho de dizê-lo: sempre tive muitas semelhanças com Hayley, mas nisto não podíamos ser mais diferentes. Não gosto de instabilidade nem de incerteza, não lido bem com adrenalina. Claro que sei que às vezes é inevitável, que uma pessoa tem de sair da sua zona de conforto para evoluir, blá blá blá Whiskas saquetas. 


 


Nem sequer discordo. Diria mesmo que, vá lá, nove em cada dez vezes que faço coisas que me assustam, sou narrativamente recompensada por isso. Tudo bem. Não tenho de gostar.


 


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Regressando a Hayley, a apetência dela para o caos não surpreende pois a vida dela sempre foi assim – e eu falo do alto do meu privilégio, a minha vida tem sido bem mais fácil por comparação. Como já muitos sabem, a infância dela não foi fácil, entre os múltiplos divórcios dos pais e a mudança para Nashville quando ela tinha doze anos. A sua adolescência foi igualmente caótica com os Paramore. A vida de uma banda de rock já de si é instável – e esta em particular passou os seus primeiros dez anos em guerra uns com os outros (com algumas pausas pelo meio, assumo eu). Pelo meio, Hayley teve uma relação tóxica que durou uma década. 


 


Por isso sim, o caos terá sido o normal de Hayley durante muito tempo. Ela dá muitas vezes o exemplo do início da era After Laughter, em que tinha acabado de se divorciar, andava em digressão, bebia em excesso e “festejava” todas as noites. Bem como a sua tendência para se envolver com pessoas tóxicas. Acredito que Hayley, de vez em quando, sinta a tentação de reverter para esse modo.


 


Só que, claro, há meia dúzia de anos, o caos quase deu cabo dela. Dela e não só – conforme vimos em Petals For Armor, Hayley chegou a boicotar o seu namoro com Taylor porque não sabia lidar com uma relação saudável.


 


Por isso, Hayley teve de adotar hábitos mais saudáveis, apesar de uma parte de si resistir aos mesmos. E isto de resto é algo mais ou menos universal. Sobriedade, ter uma alimentação saudável, dormir oito horas, tudo isso é uma seca. Beber a mais e outros hábitos auto-destrutivos é que são fixes – pelo menos é o que dizem. 


 


Hayley pode lamentar ser demasiado dependente de conflitos para ser verdadeiramente saudável, ser demasiado movida a mesquinhez – algo a que iremos regressar. No entanto, não acho que seja uma falha, pelo contrário. Saber funcionar no meio do caos é uma grande vantagem – porque, sejamos realistas, nem sempre é possível ter estabilidade. Ainda por cima, volta e meia os Paramore vão em digressão, uma vida claramente instável. Um dos temas da era This is Why é dualidade e iremos falar sobre isso mais à frente. Uma das grandes vantagens de algo multifacetado é a capacidade de se adaptar – algo que a seleção natural favorece, segundo Darwin.


 


Por tudo isto sim, gosto de C’est Comme Ça. E fico feliz por a auto-depreciação de After Laughter não ter ido a lado nenhum.


 



 


Running Out of Time foi lançada como single, com direito a videoclipe e tudo, mais ou menos na mesma altura em que o álbum todo foi editado. Esta música, no entanto, no contexto de This is Why fica esquisita. Sobretudo tendo em conta a sua posição no alinhamento do álbum. Passamos de The News, um tema inspirado pela guerra na Ucrânia, como vimos antes, para um tema sobre a tendência de Hayley para se atrasar para tudo.


 


Não me interpretem mal, eu identifico-me com isso. Também não sou das melhores a gerir o meu tempo. Sobretudo no último ano, ano e meio, em que tenho tido imensas coisas a acontecer ao mesmo tempo na minha vida. É raro atrasar-me mesmo – na maior parte dos casos, chego em cima da hora ou, quanto muito, cinco minutos depois. Por outro lado, dá para ver que demoro séculos a publicar aqui no blogue. 


 


Aliás, Running Out of Time descreve bem o dia em que This is Why foi editado. Na véspera tive uma insónia, logo, aproveitei para ouvir o álbum pela primeira vez na cama. Como adormeci mais tarde, acordei mais tarde do que planeara e passei a manhã a correr. 


 


E sim, muitas vezes é egoísmo. Quero ficar mais uns minutinhos na cama, quero escrever mais um bocadinho durante a minha hora de almoço, quero fazer uma última festinha à Jane antes de sair para o trabalho. Quem nunca?


 


O problema é que a letra de Running Out of Time é demasiado trivial. É o equivalente dos Paramore à Runaway de Avril Lavigne. Noutro álbum e/ou noutras circunstâncias não me importaria, mas logo a seguir a The News? Num álbum que inclui temas como Figure 8 e Thick Skull? Não encaixa.


 


O pior é que não tinha de ser assim. A propósito desta música e de não ter tempo para nada, Hayley comentou que, hoje em dia, “tudo é uma emergência”. Existem demasiadas causas a precisarem de atenção, uma pessoa não sabe para onde se virar e ainda tem de arranjar tempo para cuidar de si mesma – o que remete para The News.


 



 


Ao mesmo tempo, nesta altura do campeonato, já toda a gente saberá acerca dos problemas de saúde mental de Hayley. É possível que estes estejam por detrás dos constantes atrasos – há quem ache que o videoclipe remete para isso. E faz sentido: se uma pessoa nem sempre se consegue levantar da cama, claro que se irá atrasar para muitas coisas. 


 


Tudo isto podia ter dado uma ou duas camadas de profundidade a Running Out of Time, mas nada disto foi traduzido para a letra. Isto já tinha acontecido com algumas músicas dos trabalhos a solo de Hayley: as explicações dela sobre as letras são mais interessantes que as letras em si. 


 


Tendo isto em conta, não consigo gostar muito de Running Out of Time – embora reconheça que é uma boa música. 


 


E de qualquer forma, esta sempre tem alguns detalhes interessantes. O instrumental é irrepreensível, para começar. Além disso, acho graça ao segundo e terceiro refrões, quando Hayley muda para a terceira pessoa: “She’s always running out of time”. É um tropo relativamente comum, a voz do coro nas tragédias gregas, que comunica as mensagens da história para a audiência. Lorde usou-a muito em Melodrama, como explicaram neste vídeo. 


 


Acho curiosa a explicação de Hayley, no entanto. Referiu que se inspirou nos Oompa Loompas do filme Willy Wonka e a Fábrica de Chocolate, que desempenham um papel semelhante: ir dizendo verdades. Tem piada, diferentes caminhos para chegar ao mesmo conceito. 


 


Dito isto, teria sido mais giro se tivessem posto o Zac e o Taylor a cantar “She’s always running out of time”. Sempre seriam múltiplas vozes, reforçando as semelhanças com os coros ou com os Oompa Loompas. E teria a piada adicional de ouvirmos os colegas de banda queixando-se daquilo que parece ser um problema antigo de Hayley. 


 



 


Vou passar agora de uma música de que não gosto tanto para uma música de que gosto ainda menos. Big Man, Little Dignity é, na minha opinião, uma grande oportunidade perdida. 


 


A instrumentação é suave, mesmo bonita, mas não se adequa de todo ao tema da canção. Eu sei que os Paramore têm várias músicas em que o instrumental tem o carácter oposto ao da letra – veja-se a larga maioria de After Laughter – mas nessa a dissonância funciona. Aqui não. 


 


Em parte porque a letra acaba por ser igualmente suave, não havendo verdadeiramente um contraste. Para uma música criticando o patriarcado e/ou a masculinidade tóxica, Big Man, Little Dignity precisa desesperadamente de acutilância.


 


O refrão então é o pior. Nos últimos anos, e depois dos dois últimos álbuns de Avril Lavigne, ganhei alergia a refrões circulares, logo, isto poderá ser um viés meu. Até porque os Paramore também têm alguns: That’s What You Get, por exemplo. Mas o de Big Man, Little Dignity soa particularmente forçado. Sobretudo o último verso, quando Hayley se põe com o “li-li-li-li-little dignity”.


 


E podemos falar sobre o verso “No offense but you got no integrity”? O que é isto? É suposto isto ser ofensivo? A mulher que escreveu a letra de Dead Horse não conseguiu escrever nada melhor aqui?


 


Dito isto, Big Man, Little Dignity sempre tem algumas qualidades redentoras. A segunda estância faz-me lembrar Dominoes de Lorde: “Must feel good being Mr. Start Again”. Também eu comecei a reparar na maneira como certos homens poderosos embarcam em mudanças de imagem, como forma de fugir às responsabilidades por aquilo que fizeram. Veja-se quando o Facebook mudou o seu nome para Meta como forma de se dissociar das acusações de promoção de desinformação e de discurso de ódio. Mais recentemente, o Twitter mudou o seu nome para X – pergunto-me se terá sido por motivos semelhantes. 


 


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Ao mesmo tempo, é de facto frustrante ver como estes homens conseguem escapar-se às consequências pelos seus actos. Como Donald Trump, por exemplo. Andamos há anos à espera que ele seja preso, mas ainda ninguém conseguiu fazer nada. Como uma barata grande e nojenta que ninguém consegue matar.


 


Enfim. Estou com algumas esperanças relativamente a esta última acusação que lhe fizeram.


 


Big Man, Little Dignity é a música de que menos gosto em This is Why. O resto do álbum é melhor, felizmente.


 


You First e Figure 8 são as músicas mais pesadas neste álbum, logo, estão entre as mais populares. Das duas gosto mais de You First – uma música que Taylor não queria incluir no álbum, coitado, depois de ter stressado imenso com ela.


 


Não compreendo porquê. O instrumental ficou fantástico. Penso que será uma daquelas situações em que, por vezes, uma pessoa está demasiado perto do quadro para conseguir ver a imagem completa.


 


Hayley começa por admitir que não é o tipo de pessoas que perdoa e segue em frente. Os anglo-saxónicos têm uma expressão que se traduz sensivelmente para “a melhor vingança é viver bem” – e eu até concordo. Mas também concordo com Hayley quando esta diz que viver bem é apenas um privilégio. Como vimos a propósito de Big Man, Little Dignity, demasiadas vezes os perpetradores de crueldades escapam às consequências e continuam a fazer mal a outros. 


 



 


E se pensarmos, por exemplo, no ex-marido de Hayley, ela não dependia financeiramente dele, não teve nenhum filho com ele, pôde sair daquela situação com relativa facilidade. Tem dinheiro e disponibilidade para ser acompanhada psicologicamente enquanto lida com os traumas do seu passado e para adotar hábitos de vida saudáveis. Há muitos que não têm tais possibilidades. 


 


É refrescante ouvir alguém como Hayley reconhecendo a sua posição privilegiada. 


 


No fundo, You First é uma continuação dos temas de Simmer: não só o conflito entre raiva e misericórdia, o conflito entre instintos benévolos e malévolos. Hayley admite ceder demasiadas vezes ao seu lado negro – como um animal vadio a quem ela dá comida todos os dias, logo, ele continua a aparecer. Ao ponto de Hayley se tornar parte do problema e isso voltar-se contra ela. 


 


É a isso que se refere o muito citado verso “I’m living in a horror film where I’m both the killer and the final girl”. Para mim, é também uma referência ao vídeo de Simmer. 


 


O refrão fala de carma – que Hayley espera que apanhe primeiro os demais do que a ela. Se eu acredito em carma? Mais ou menos. De certa forma sim: não tanto como uma força cósmica, mais pela lógica do “Não faças aos outros aquilo que não queres que façam a ti”. Se uma pessoa trata mal os outros, é menos provável que os outros a tratem bem. Pode ser até que os outros procurem retribuição. 


 


Há anos que sei que Hayley tem um lado mesquinho. Desde Dead Horse, com o “When I said goodbye, I hope you cried” – não que eu tenha pena do visado. Por outro lado, Hayley tem dado o exemplo de quando interrompe concertos por causa de pessoas à bulha na audiência. Dá sermões aos visados como se fosse uma professora (palavras dela!), mas depois diz que se arrepende. Como se ela fosse melhor. Pensa que, se calhar, aquelas pessoas não têm dinheiro ou disponibilidade para ir ao psicólogo e aquela é a única forma que têm de lidar com o que se passa nas suas vidas.


 



 


Eu diria que Hayley tem, vá lá, noventa por cento de razão nos seus ralhetes. Nos Estados Unidos, para além de os bilhetes serem caríssimos, as empresas que os vendem têm umas práticas muito manhosas para inflacionar os preços (para mais informações, vejam este vídeo). Ao ponto de os fãs de Taylor Swift terem processado a Ticketmaster no final do ano passado. Por outras palavras, aquela gente terá gasto dinheiro e anos de vida para estar num concerto dos Paramore. Ou seja, não será por falta de capital que eles não são acompanhados. Quanto muito andou a gastá-lo no sítio errado – parecendo que não, concertos não substituem o psicólogo.


 


E, como a própria Hayley disse, concertos devem ser um escapismo, um lugar seguro, das melhores experiências da nossa vida (mais sobre isso adiante). Sobretudo depois de dois anos de pandemia e de muitas outras desgraças. Para quê estar a passar por tantos obstáculos para arranjar bilhetes para, depois, estragar a noite a si mesmo e aos outros andando à porrada?


 


Além de que os ralhetes de Hayley chegam a ter piada. Por exemplo, um em que ela disse mesmo “Momma’s pissed, y’all” e outra em que ela ameaçou os desordeiros com uns chutos no rabo com os seus “sapatinhos de bailarina”.


 


Se bem que ameaçar pessoas violentas com violência contraria ligeiramente a mensagem do sermão. 


 


Por outro lado, a propósito de outra zaragata, Hayley acabou por pedir desculpa nas redes sociais após ter expulso um casal do concerto. Achou que o ralhete se transformou em humilhação pública. Vendo este vídeo, ela de facto soa um bocadinho cruel sem necessidade. Hayley também pediu desculpa por andar a dizer coisas como “se voltarem no Partido Republicano, estão mortos para mim”. Como se isso convertesse alguém. Até remete para a “cancel culture” que a própria Hayley critica em This is Why: “You’re either with us or you can keep it to yourself”. 


 


Também eu gosto de pensar em mim mesma como uma boa pessoa, mas tenho os meus momentos. Tenho um lado egoísta, egocêntrico e arrogante. Irrito-me facilmente com outras pessoas, impaciento-me no trabalho com a ignorância e a exigência de certos utentes – quando eu mesma também não sei tudo, também cometo erros e passo por estúpida de vez em quando. Quando devia praticar a máxima do Ted Lasso e ser curiosa antes de tecer juízos de valor. 


 


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É um dos temas deste álbum: a dualidade de tudo, de herói e de vilão todos temos um pouco. Havemos de regressar a esse assunto. 


 


Depois de You First, temos Figure 8 – que, em linha com o que acabámos de dizer, explora o lado mais vilanesco. A letra é, se calhar, um pouco vaga demais, demasiado abstrata. Pelo que consigo deduzir da entrevista da banda a Zane Lowe, a letra falará da indústria musical, do próprio estilo de vida dos Paramore em digressão ou quando lançam um álbum. A maneira como essa vida os explora até ao tutano e os transformam em algo de que Hayley não gosta. 


 


Não digo que eles não tenham razão de queixa, mas esta mensagem pode cair mal. Pode parecer que eles estão a cuspir no prato que os alimenta – ainda por cima quando Hayley se põe a dizer “all for your sake”. Sim, a indústria musical não é meiga, mas existem por aí muitos músicos que não têm nem metade dos benefícios de que os Paramore gozam. 


 


Para ser justa, não se pode dizer que eles não reconhecem os seus próprios privilégios. E, de qualquer forma, quando Hayley canta “all for your sake”, pode estar a dirigir-se à comunicação social. Esses sim, fartam-se de lucrar à custa de músicos como os Paramore. Hayley de vez em quando refere as entrevistas agressivas que teve de dar durante a era de After Laughter, quando ela se encontrava numa situação particularmente vulnerável.


 


A expressão “figure 8” refere-se ao número 8 que, na horizontal, é também símbolo do infinito – representando o ciclo vicioso em que os três entram quando entram em modo Paramore. 


 




 


No Genius, no entanto, descobriram referências a um episódio de Schoolhouse Rock, um programa educacional americano dos anos 70 e 80. A expressão “spinning in an endless figure 8” parece ter inspirada pela cena da criança a patinar no gelo. De facto, na terceira estância, Hayley compara-se a si mesma a gelo fino, o que pode significar duas coisas. Ou que ela, lá está, se encontra numa posição vulnerável e pode ser magoada facilmente. Ou, ao contrário, Hayley é uma armadilha e, se a outra pessoa não tiver cuidado, pode sair magoada.


 


Não surpreende que Figure 8 esteja entre as mais populares neste álbum.


 


E ficamos por aqui hoje. Amanhã vem o resto. Como sempre, obrigada pela vossa visita. Espreitem a página de Facebook deste blogue. Até amanhã!

sábado, 5 de novembro de 2022

Música 2022 #1: Bryan Adams ou porque preciso de música feliz

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Hoje quebro uma regra não escrita aqui do blogue e começo a minha retrospetiva musical do ano… em novembro. Como já tinha explicado antes, o meu plano inicial foi sempre escrever um texto nesse estilo sobre a música que Bryan Adams lançou em 2022. Como já estamos perto do fim do ano, o próximo texto terá uma estrutura semelhante e os textos que publicarei a seguir farão parte da retrospetiva, mais vale incluir já estes dois na série. 


 


Agora só espero que o meu velho não me troque as voltas e não me lance música nova antes do fim do ano.


 


Até calha bem começar hoje pois Bryan completa sessenta e três anos hoje. Que este texto sirva de mensagem de parabéns.


 


A retrospetiva deste ano será interessante pois 2022 está a ser um ano louco para mim em termos musicais – quero ver o que irão dizer os relatórios anuais do Spotify e do Last FM. Este é apenas o começo. Infelizmente, como vamos entrar em modo Mundial daqui a poucos dias, os próximos textos ainda vão demorar. 


 


Na verdade, vou começar este texto sobre Bryan Adams falando sobre uma canção de Lionel Ritchie. Foi durante a contagem decrescente para o início do concerto de 30 de janeiro. Como habitual, havia música a tocar nos altifalantes do Pavilhão Atlântico, para ir entretendo o público à espera que Bryan subisse ao palco. A certa altura, tocou All Night Long (All Night) e toda a gente se pôs a cantar, a bater palmas, a dar uns passinhos de dança. Foi o primeiro momento da noite em que a audiência se uniu pela música.


 



(Obrigada Elisabete Branco, do Bryan Adams Group do Facebook, pelo vídeo)


 


Estes são momentos subvalorizados da experiência de ir a concertos e que eu mesma aprendi a apreciar nos últimos tempos. Já tinha acontecido em 2017, antes do concerto dos Sum 41, com o público cantando One Step Closer dos Linkin Park. Voltou a acontecer em força no concerto mais recente dos Sum 41 com os Simple Plan ​​– a produção conhecia a audiência e pôs a tocar vários êxitos do emo/pop punk dos anos 2000. All the Small Things, Sugar, We’re Going Down, Misery Business (poucos dias antes de ser oficialmente “descancelada”), Basket Case (OK, esta era dos anos 90, mas pronto…).


 


Da mesma forma, acredito que a equipa do Pavilhão Atlântico tenha posto All Night Long a tocar pelos eventuais fãs cruzados – Ritchie também foi um cantor de sucesso nos anos 80 e 90. Mas eu gosto de pensar que o público aderiu não só por isso, também pela mensagem da canção: “Well, my friends, the time has come, to raise the roof and have some fun”. Depois de quase dois anos de pandemia, dez mil almas vinham finalmente a um concerto a sério. 


 


Nas semanas seguintes fiquei obcecada pela música e apercebi-me de algo: eu preciso de música alegre para sobreviver, sobretudo em momentos menos felizes da minha vida. Aconteceu em 2017 com Loucos, de Matias Damásio, que me fez chorar na manhã a seguir ao concerto de homenagem a Chester Bennington. Aconteceu no ano passado com o single Solar Power, num verão em que não pude ir de férias. Acontecia agora com All Night Long, num período em que estava menos feliz do que tenho estado ultimamente. 


 


Música alegre tem má reputação nalguns círculos. Alguns argumentos até fazem sentido. Em pesquisas para este texto, dei com um par de artigos descrevendo a maneira como a música alegre pode ser usada para controlar a população, tornando-a mais complacente, agressiva, mesmo mais racista e xenófoba. Vejam-se as marchas militares, hinos nacionais, cânticos de claques desportivas. 


 


Confesso que estes artigos me fizeram questionar muita coisa, mas isso foge ao âmbito do texto. Passemos à frente. 


 


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Assim, manipulação de massas à parte, há quem acredite que a música alegre é por defeito mais fútil, inferior a música triste ou zangada. Por exemplo, um dos motivos pelos quais muitos criticaram precisamente o álbum Solar Power foi por ser demasiado alegre – como poderão ler aqui, na minha opinião, os problemas do álbum são outros. Noutro exemplo, durante os trabalhos do Self-Titled dos Paramore, Hayley Williams tinha algumas dúvidas em relação a Still Into You – receava que fosse demasiado alegre. Em oposição, alguns géneros de música fazem quase uma romantização da tristeza – o “emo” é o exemplo óbvio, mas também a estética da “sad girl”. 


 


Isto acaba por entrar na questão do idealismo versos cinismo – a felicidade e o otimismo são infantis, a infelicidade e o pessimismo são adultos. A cena do génio torturado. Citando Ursula K. Le Guin, “temos um mau hábito, encorajado por pedantes e sofisticados, de considerar a felicidade como algo um tanto estúpido. Só a dor é intelectual, só o mal é interessante. Essa é a traição do artista: uma recusa em admitir a banalidade do mal e o tédio terrível da dor.”


 


Não concordo a cem por cento com esta citação, no entanto, sobretudo com a última frase. Não acho que ninguém considere a dor “entediante”. Pelo contrário, a expressão artística poderá ser uma maneira saudável, num ambiente controlado, de sentir e lidar com sentimentos negativos. Essa é a própria definição de catarse – havemos de regressar a essa ideia. Mas definitivamente concordo que existe a ideia de que a felicidade é anti-intelectual. 


 


Mesmo eu, há dez anos, nunca viria para aqui dizer tão bem de uma música “de festa” como All Night Long. Claro que me tornei mais flexível nessas coisas com os anos – mas ainda não gosto do Pitbull nem de música semelhante à dele. 


 


E de qualquer forma acho que, a certa altura, se foi demasiado na direção contrária. Penso que não é a primeira vez que refiro aqui que, apesar de ter gostado de folklore e evermore de Taylor Swift, a partir de certa altura estes começaram a pesar. 


 


Além disso, recordo-me de estar de férias no verão de 2020 e na rádio tocavam músicas como everything i wanted, de Billie Eilish, e uma literalmente intitulada Death Bed, leito de morte. E eu pensava: “As coisas já estão suficientemente difíceis, com a pandemia e tal. Estou aqui a tentar aproveitar as minhas férias. Não podia tocar algo menos deprimente?”.


 


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Não me interpretem mal. Não quero insinuar que não gosto de música que não seja “feel good” ou que não reconheço a sua importância. Afinal de contas, os Linkin Park são uma das minhas bandas preferidas e eles não têm uma única música propriamente alegre – apenas esperançosa ou reconfortante. Da mesma forma, este ano tenho explorado o meu lado “emo”/pop punk e tal, graças ao programa Everything is Emo de Hayley Williams e ao concerto dos Simple Plan e dos Sum 41. 


 


Música que os nossos artistas ou bandas preferidas criaram para exorcizar os seus próprios demónios. Música que nos dá força, que nos dá esperança ou que, pura e simplesmente, dá voz, instrumental e melodia ao que estamos a sentir, que não nos deixa sozinhos no escuro. De maneira paradoxal, alguns dos melhores momentos da minha vida foram em concertos dessas bandas, sentindo essa raiva coletiva, revolta coletiva, tristeza coletiva. Já falei disso antes, mas Mike Shinoda chegou a dizer que um dos objetivos dos Linkin Park fora criar um sítio onde as pessoas experimentassem uma sensação de pertença enquanto gritavam que o mundo era horrível, um lugar seguro para exprimirem estas emoções mais negativas. 


 


Isto tudo para dizer que todas as emoções musicais são válidas e importantes. Eu preciso de todas, não consigo limitar-me a apenas uma parte do espectro. Nunca me senti muito muito confortável com tristeza – o que, admito, poderá não ser muito saudável. Algumas pessoas se calhar estranhariam – já aconteceu, sobretudo quando era mais nova, considerarem-me mais triste e mais séria do que realmente sou. 


 


Ou talvez tenha uma “resting bitch face”.


 


Como referi antes, nestes dias não estou tão infeliz como noutras alturas, mas ainda me recordo de sentir frases como “Life is good, wild and sweet” e “Forget all of the tears that you’ve cried, it’s over” batendo mais forte do que, se calhar, mereciam. Talvez fosse escapismo, talvez fosse enterrar a cabeça na areia. Ou talvez quisesse agarrar o momento de alegria possível, ser feliz nem que fosse apenas durante os cinco minutos ou menos de uma canção.


 


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E a verdade é que é isso que a maior parte da música de Bryan Adams representa para mim. Música feel good para cantar no carro, sobre amor, sexo, aproveitar a vida, ser-se jovem, livre e feliz.


 


Aliás, acho que é essa a intenção de Bryan, sobretudo nos últimos anos. De que outra forma se explica que ele tenha lançado um álbum intitulado So Happy it Hurts depois de dois anos de pandemia? Não que ele não seja interventivo, antes pelo contrário. Conforme ele explicou nesta excelente entrevista, ele apoia causas discretamente. Bryan levantou mesmo a hipótese de, em vez de simplesmente boicotar ou “cancelar”, um concerto de música feel good num país reprimido ser por si mesmo um acto de ativismo. 


 


Merece a reflexão, pelo menos. Em todo o caso, esse intervencionismo raramente é vertido para a música de Bryan em si. E, sinceramente? É melhor assim. Das poucas vezes em que isso aconteceu, não resultou, na minha opinião. E o espírito feel good da música de Bryan também tem o seu impacto em tempos tão difíceis como os atuais.


 


Um bom reflexo dessa atitude é o tema Never Gonna Rain, um dos singles de So Happy it Hurts. Bryan será sempre o otimista, o sonhador, a pessoa que tentará ver o lado positivo e focar-se menos no negativo. Esse espírito tem as suas limitações, claro, como Rose Colored Boy dos Paramore tão bem nos recorda, mas o cinismo também não é resposta para tudo. A virtude estará algures no meio. 


 


Precisamos de música de intervenção, que denuncie o que está errado no nosso mundo. Precisamos de música que dê voz à nossa dor, à nossa raiva. Mas também precisamos de música que nos recorde que há mundo para além disso tudo, que a vida também pode ser boa.


 



 


O concerto dele em janeiro serviu para isso. Como referi antes, foi o meu primeiro concerto a sério após a pandemia – para mim e, acredito, para o resto da plateia – e celebrámos adequadamente. O próprio Bryan sentiu o nosso alívio, a nossa euforia. Orgulho-me em particular de ter aguentado o concerto todo sem tirar a máscara – sempre cantando, dançando, saltando, dando headbangs como se a música fosse mais pesada do que realmente é. 


 


Como desenvolvido acima, a música de Bryan é perfeita para ilustrar este espírito. músicas como Here I Am, Back to You e Cloud Number 9 bateram particularmente forte – as duas últimas em particular, pois não lhes dera muita rotação nos meses anteriores.


 


O único motivo de queixa que não chega a sê-lo é que o concerto em si não foi muito diferente do de 2019. Só se tinham passado dois anos e cerca de mês e meio, logo, ainda nos recordamos de muitos dos truques de palco. Sou capaz de apostar que a montagem de fotografias que Bryan mostrou da sua vida em Birre, quando era miúdo, era exatamente a mesma. 


 


Não que possamos censurar Bryan por isso. Quase não houveram concertos entre dezembro de 2019 e janeiro de 2022. Não houve tempo para Bryan e os seus colegas de banda se cansarem dos truques atuais e sentirem a necessidade de inovar. E, de resto, é uma queixa menor. Dez em dez, repetia a experiência.


 


Falemos agora sobre o álbum So Happy it Hurts. Este é outro trabalho cuja concepção foi condicionada pela pandemia. Tal como Hayley Williams fez com o seu segundo álbum a solo, Flowers For Vases, Bryan gravou todos os instrumentos (ou quase todos). Ao contrário do que aconteceu com FFV, em So Happy it Hurts não se nota. Não surpreende: Bryan tem muito mais experiência como instrumentista. Só precisou de reaprender a tocar bateria. 


 


So Happy it Hurts assemelha-se a Shine a Light no sentido em que não tem nenhum conceito particular, são apenas músicas que Bryan foi compondo. Ainda assim, coloco o álbum mais recente um pouco acima porque, na minha opinião, tem músicas melhores. Pelo menos os singles saem um bocadinho mais da caixa habitual para Bryan – veja-se On the Road e Kick Ass, como discutimos no ano passado, e Never Gonna Rain, lançado uns dias antes dos concertos em Portugal. 


 


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Esta última é uma das minhas preferidas neste álbum. Foca-se mais no baixo do que o costume para Bryan e gosto dos vocais no pós-refrão, sobretudo no último. Por outro lado, o título da música é irónico num ano de seca. 


 


A minha preferida, no entanto, é These Are the Moments that Make up my Life. 


 


Esta foi uma das primeiras que ouvi quando o álbum saiu – as músicas foram publicadas no YouTube, calhou clicar primeiro nesta. Cativou-me logo, sobretudo por causa da letra. 


 


Musicalmente é interessante – suave no início, guiada por um riff de guitarra, ganhando mais intensidade quando se juntam os outros instrumentos. 


 


Não sei se esta não será uma das letras mais pessoais de Bryan em anos. These Are the Moments that Make Up my Life fala sobre a felicidade das pequenas coisas da vida doméstica e familiar: o som da chuva a cair, os beijos da pessoa que se ama, o riso das crianças.


 


Regressando ao tema de abertura deste texto, These Are the Moments that Make up My Life é um exemplo claro de música feliz que ninguém pode acusar de futilidade. Não que seja propriamente profunda, mas é uma maneira mais realista, mais terra-a-terra, de salientar o lado bom da vida. Nem sempre conseguimos ir a um concerto, à discoteca, à praia ou numa longa viagem, mas podemos ir colhendo felicidade nas pequenas coisas do quotidiano.


 



 


Foi de resto uma das lições da pandemia. Fomos privados de muito, mas serviu para nos recordarmos que, no fim de tudo, o mais importante são as pessoas que amamos. Nesse aspeto, These Are the Moments that Make Up My Life recorda-me World’s On Fire – uma das que melhor envelheceu do álbum Post Traumatic de Mike Shinoda. 


 


Por estes motivos, de início pensei que Bryan tinha composto esta música durante a pandemia. Não foi o caso. Em entrevista, Bryan disse que These Are the Moments that Make Up My Life era uma ideia com uma década de idade que ele só conseguiu concluir durante os trabalhos para So Happy it Hurts. 


 


Faz-me todo o sentido que os primeiros rascunhos desta canção tenham sido criados há dez anos – foi quando as filhas dele nasceram. Acredito que These Are the Moments that Make Up My Life tenha sido uma lição que Bryan aprendeu na última década. 


 


Como adulto (e mesmo antes), ele nunca teve uma vida “normal”. Em entrevistas recentes, Bryan admite que não se recorda de grande parte dos anos 90, tirando fotografias, porque estava sempre a trabalhar. Fazia duzentos concertos por ano, chegou a estar quatro anos seguidos em digressão. 


 


Vou agora falar de coisas que li em entrevistas antigas a Bryan algures entre 2008 e 2010. Agora não consigo encontrá-las e linká-las aqui, pois foi há mais de dez anos. Assim, não tomem o que vou referir a seguir como verdade absoluta. Segundo o que me recordo, Bryan confessou que, quando começou a haver uma epidemia de divórcios na sua equipa nos anos 90, percebeu que estava a exagerar. Entrando em território de fofocas, uma ex-namorada de Bryan terá dito que a relação não resultou porque a carreira dele tinha prioridade sobre tudo. 


 


Não creio que Bryan se arrependa da maneira como passou os anos 90. Afinal de contas, foi o que o colocou onde está hoje. Mas a partir dos anos 2000 terá começado a moderar-se – indo em digressão apenas dez a catorze dias por mês. E depois dos cinquenta anos, depois de já ter atingido o pico, assentou com uma companheira (esposa?) vinte anos mais nova e teve duas filhas. (Inveja eu, por ele ser homem e capaz de se reproduzir depois dos cinquenta anos? Não! Que ideia…) Aí, terá aprendido o valor de uma existência mais tradicional. Daí These Are the Moments that Make Up My Life. (“I’ve taken some wrong roads, but I know this one's right”)


 


É claro que isto sou apenas eu a especular. 


 



 


Gosto imenso do videoclipe desta música. Nesta era os vídeos de Bryan têm sido todos muito simples e este não é exceção. É apenas Bryan numa praia qualquer no Canadá, atirando paus ao cão do irmão. Este vídeo parece ter sido feito de propósito para mim. Como tenho referido várias vezes aqui no blogue, um dos meus lugares felizes nos últimos anos, um dos meus sítios perfeitos, é a Meia Praia de Lagos, passeando a pé com a minha Jane. A diferença é que ela prefere bolas em vez de paus. 


 


O que condiz na perfeição com o tema da música. 


 


These Are the Moments that Make Up My Life é, assim, a minha canção preferida de Bryan nos últimos anos – desde Brand New Day, pelo menos, ou talvez antes. Tenho alguma pena de os concertos de janeiro se terem realizado antes da edição do álbum – queria que ele tivesse tocado esta. 


 


So Happy it Hurts não foi a única coisa que Bryan lançou este ano. Longe disso, o homem lançou-me quatro álbuns inteiros em 2022! 


 


Já referi aqui no blogue que, há uns anos, Bryan compôs a banda sonora do musical Pretty Woman da Broadway, baseado no filme de Richard Gere e Julia Roberts. Durante a pandemia, em parte por aborrecimento, em parte por precisar de lançar música (mais sobre isso já a seguir), Bryan gravou a sua própria versão dos temas do musical e lançou-os em álbum.


 


Não tenho muito a dizer sobre estas músicas. São uma audição agradável, dentro do estilo de Bryan – ele foi um bom casting para um conto de fadas do mundo moderno. Diria que a minha preferida é On a Night Like Tonight – em parte porque emparelha com a On A Day Like Today, outra de que sempre gostei. Por outro lado, gosto imenso de Something About Her – clássico Bryan.


 



 


Falemos agora sobre as regravações que Bryan lançou de algumas músicas suas – as versões Clássicas. Basicamente, Bryan mudou de editora há um par de anos e a editora antiga terá ficado com os direitos da sua looooonga discografia. Assim, Bryan resolveu dar uma de Taylor Swift e regravou os seus maiores êxitos. Estes foram lançados em duas tranches – Classic e Classic Part II.


 


Antes de mais nada… isto não devia ser permitido. Seria de esperar que os autores de uma propriedade intelectual tivessem sempre direitos sobre o seu trabalho. Estas músicas só existem por causa do trabalho de Bryan e dos seus colaboradores. É triste que isto tenha acontecido a Bryan ao fim de mais de quatro décadas de carreira.


 


Dito isto… não percebo o que Bryan quer fazer ao certo ou o que ele quer que nós façamos. Estamos a falar de quarenta anos de música: catorze álbuns de estúdio, incluindo a banda sonora de um filme, uns quantos Best Of’s, múltiplos discos ao vivo. Mesmo que ele quisesse regravar toda a sua discografia – aquela que pudesse – provavelmente não faria mais nada com a sua carreira.


 


Nesse aspeto, faz sentido que Bryan tenha começado pelos seus êxitos. Talvez ele até queira ficar por aí. Por outro lado, ele não o fez com a pompa e circunstância com que Taylor Swift tem re-lançado os seus álbuns. Muitos fãs casuais poderão nem sequer ter reparado. E, tanto quanto sei (posso estar enganada), as rádios não receberam o recado e não estão a substituir as versões antigas pelas novas. Eu até estou disposta a abdicar das versões antigas, pelo menos em termos de música digital e pelo menos em termos de versões de estúdio (versões como as do Bare Bones e do MTV Unplugged são um caso à parte). Com um par de exceções de que falarei já a seguir. Mas não sei se todos os fãs estarão dispostos a fazer o mesmo.


 


Uma diferença entre os casos de Taylor Swift e Bryan é, aparentemente, o caso do segundo não ser pessoal. Sublinhe-se o “aparentemente”. Com Taylor, o tipo que ficou com os direitos da música dela foi alguém que conspirara contra ela (mais detalhes aqui). Tendo isto em conta, os fãs e o público em geral têm aderido às regravações de boa vontade – tarefa facilitada pela maneira como ela relançou Fearless e Red, este último em particular. Com Bryan não existe nenhum drama deste género, que se saiba. Não existe o mesmo imperativo moral para cortarmos com as versões antigas.


 


Pelo menos é isso que digo a mim mesma.


 



 


Além disso, se Taylor consegue recriar canções antigas com bastante fidelidade, para Bryan isso é quase impossível. Para começar, as músicas mais antigas de Taylor têm dezasseis anos – as de Bryan têm mais de quarenta. Não sei muito do assunto, mas assumo que as tecnologias de captação de áudio e produção musical tenham evoluído significativamente desde os anos 80.


 


Em segundo lugar, a voz de Bryan mudou. Os seus vocais nos dois primeiros álbuns são quase irreconhecíveis comparada com os dias de hoje, sem o seu icónico timbre rouco. Este começou a aparecer em Cuts Like a Knife e foi-se desenvolvendo nos álbuns seguintes até estabilizar, mais ou menos, em Waking Up the Neighbours, em 1991. Ele nunca poderia recriar os vocais das versões dos anos 80 de Summer of 69’, Heaven ou Cuts Like a Knife em 2022.


 


Talvez por isso Bryan não se tenha preocupado demasiado com a fidelidade. Ainda assim, as novas versões são bastante fiéis às antigas, com algumas exceções. Uma diferença marcante, que Bryan tem assinalado, é o facto de as músicas agora terem finais em vez de fade outs. Não tenho nada contra fade outs em música por princípio, mas sempre calculei que fossem complicadas de tocar ao vivo. Não me choca que Bryan tenha querido corrigi-lo.


 


Fiquei contente por Bryan ter regravado Hidin’ From Love e Teacher Teacher – duas canções que precisavam. Ainda este ano falámos sobre a primeira – ele já tinha publicado uma versão de Hidin’ From Love com este novo instrumental. E se há álbum que merecia uma regravação é o primeiro de Bryan.


 


Por seu lado, já tinha escrito aqui no blogue, a propósito dos 30 anos de Reckless, que o demo de Teacher Teacher tinha algumas arestas por limar, apesar de gostar da canção. Bryan fez exatamente o que eu queria.


 



 


Não desgosto desta versão de Back to You. Esta foi sempre uma das minhas canções preferidas dele – foi a primeira música “a sério” que aprendi a tocar na guitarra. Antes de Classic, Back to You não tinha nenhuma versão de estúdio – foi um original do álbum MTV Unplugged. Fica um amargo de boca por a versão Clássica não ter a orquestra da Julliard. 


 


Na verdade, a única regravação em que me quero focar é a de Here I Am – a minha canção preferida de todos os tempos, como poderão ler aqui.


 


Esta era outra em que Bryan muito dificilmente poderia fazer copy/paste. Como vimos antes, foram os produtores da banda sonora do filme Spirit a dar um estilo mais R & B à versão original de Here I Am. No entanto, eles não estavam lá para as regravações.


 


A versão Clássica não difere radicalmente da versão de 2002 mas, de todas as regravações, será a mais diferente. Penso que esta é mais parecida com o que Bryan teria criado com os seus colaboradores habituais. A instrumentação é mais “orgânica”, mais rock. Os sintetizadores e produção eletrónica foram substituídos pelo piano e bateria.


 


Por outro lado, aplaudo o facto de Bryan ter resistido à tentação de encurtar a duração da música. 


 


Here I Am, de resto, é daquelas canções que soa bem em praticamente qualquer arranjo. Ainda assim, de todos os temas regravados, este será o único em que me recuso a abdicar da versão original. Estou demasiado afeiçoada a ela. Aos backvocals na parte final (nos créditos diz que é Bryan a cantar, mas não me parece que seja ele), às batidas – sobretudo por causa da minha velhinha montagem de vídeos da Seleção.


 



 


Aliás, se eu tivesse tempo e software, faria uma montagem de vídeos para a versão Clássica – incluindo imagens de, entre outras coisas, o Euro 2016 e a Liga das Nações de 2019. 


 


A grande vantagem de regravações como estas é que os temas ganham uma nova vida anos – ou décadas – depois de as ouvirmos pela primeira vez. Here I Am completou vinte primaveras este ano, é a minha preferida de sempre. E no entanto, duas décadas depois, continua a surpreender-me. 


 


Nem tudo tem a ver com esta regravação, sequer. No início deste ano descobri Me Voilà, a versão francesa da música. E agora, há um par de semanas, descobri um cover feminino lindíssimo de Me Voilà: uma instrumentação bastante diferente, folk, mas que resulta.


 


E é tudo o que tinha para dizer. Que Bryan esteja a ter um dia muito feliz. Agradeço-lhe por tudo o que a sua música tem feito por mim. Não sei ao certo o que ele fará nos próximos tempos – estou curiosa. Em todo o caso, como acho que já o referi antes, enquanto ele cá estiver, eu estarei lá, dentro das minhas possibilidades. E, como já disse antes, não haverá nenhum outro sítio na Terra onde preferiria estar.

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