Chegámos à última parte do meu balanço de concertos. Hoje vamos falar sobre a banda que, de forma direta e indireta, virou a minha vida do avesso, sobretudo nos últimos dois anos e pouco – e, ao que tudo indica, irá continuar. Não existe nada de normal nesta banda nem na minha relação com ela. O concerto a que fui no ano passado foi apenas um exemplo: dois meses antes não o achava, sequer, possível.
Um regresso dos Linkin Park não estava no bingo de ninguém para 2024. Muito menos com um álbum novo. Muito menos com uma mulher como vocalista. Tecnicamente já escrevi sobre isso aqui, mas os meses que se passaram desde essa altura, o equivalente a uma gestação, trouxeram outra prespetiva.
Quando me recordo do período antes de 5 de setembro de 2024, esse parece-me outra vida. É certo que tinham havido sinais nos meses anteriores. Ainda há pouco tempo foram-me aparecendo, nas funcionalidades de memória das redes sociais, publicações sobre os primeiros rumores de uma cantora nos Linkin Park. Tenho-me fartado de rir com as minhas reações. A questão é que, por uma questão de sanidade mental, não acreditava em nada, a menos que viesse diretamente da banda. E, a partir de certa altura, isso deu em negação.
Segunda parte da minha... análise? O que quer que queiram chamar aos milhares de palavras que gastei para lidar com o regresso dos Linkin Park. Podem ler a primeira parte aqui.
Com tudo o que discutimos na parte anterior, quase me esqueço de falar sobre as músicas novas. Quase que é o menos importante no meio disto tudo.
Tecnicamente esta é a terceira parte da minha análise a Meteora (podem ler as primeiras duas aqui e aqui) mas, na prática, os assuntos de que vamos falar aqui já não têm a ver com o álbum, pelo menos não diretamente. Mas achei importante escrever sobre eles.
Para começar, queria falar melhor sobre os Hybrid Theory (já gosto mais deste nome de banda), o tributo português aos Linkin Park. Acho que a primeira vez que ouvi falar deles foi em 2018: eles deram um concerto na Fábrica da Pólvora no primeiro aniversário da morte de Chester e cheguei a pensar ir. Muito mais tarde, no verão do ano passado, eles tornaram-se virais… mas eu, mesmo assim, não vi os vídeos deles. Tive o separador aberto no meu telemóvel durante muito tempo, semanas ou meses, mas fui adiando, adiando. A certa altura devo tê-lo fechado – não me recordo bem.
Finalmente, soube do concerto no Pavilhão Atlântico (só para recordar, por princípio evito chamar-lhe Altice Arena), pensei "Porque não?" e comprei bilhetes para mim e para a minha irmã. Depois disso, fiz de propósito por não pesquisar nada sobre eles, para não estragar a surpresa.
Fiz bem porque houveram surpresas. Os Hybrid Theory abriram com New Divide e Burn it Down – logo as minhas duas preferidas. Eu fiquei parva porque eles estavam – e são – muito parecidos com os Linkin Park originais, até as movimentações em palco eram idênticas. O único mais diferente é o baterista Diogo Neuparth e mesmo assim – só mesmo porque Rob tem tido o cabelo comprido nos últimos anos.
Ivo Rosário, o vocalista, então, não só se parece muito com Chester (o homem até usa óculos fora de palco!), como tem uma voz parecidíssima com a dele. Agora que já se passaram algumas semanas e já vi uma série de vídeos deles é que já consigo notar algumas diferenças, mas naquela noite ninguém deu por isso. Passei o concerto todo como aquele meme do Peter Parker colocando os óculos: de cinco em cinco minutos tinha de me lembrar a mim mesma que aqueles não eram os Linkin Park. A minha irmã comentou que uma pessoa que os conhecesse apenas pela rama seria capaz de pensar que aqueles eram mesmo a banda original, não um tributo.
Os Hybrid Theory tocaram Given Up relativamente cedo. Antes do icónico grito de dezassete segundos dei um toque à minha irmã, mas Ivo passou no teste com distinção, como poderão ouvir abaixo.
O concerto teve vários convidados. Por exemplo, Diogo Piçarra veio cantar Crawling. Só mais tarde é que descobri que a versão que apresentaram – começando com o instrumental de Krwlinge parte de Hands Held High – é semelhante à que os Linkin Park tocaram quando Chris Cornell subiu ao palco para cantar com eles, em 2008. Não sei se foi coincidência ou se foi deliberado – para o Piçarra fazer de Chris.
A participação de Xande não me disse muito. Por outro lado, não estava à espera de gostar tanto do mash-up de Shadow of the Day com Só eu Sei, do Virgul. Se me dissessem antes, diria que era uma péssima ideia. Mas resultou.
Compreendo que alguns fãs não tenham achado tanta piada. Mas a verdade é que Linkin Park é isto. Mike aprendeu a criar música fazendo mash-ups de músicas rock com músicas hip-hop – daí às teorias híbridas foi apenas um passo. Daí ao Collision Course foi outro. Além disso, os Linkin Park sempre encorajaram os fãs a fazerem remixes das suas músicas, lançando versões instrumentais e à capela.
O mesmo é válido para o mash-up de One Step Closer com Tás na Boa, dos Da Weasel. Eles puseram-na a tocar antes do início do concerto. Mais tarde, no primeiro de maio, publicaram-no no YouTube. Ficou espetacular.
É uma versão portuguesa do Collision Course.
Tirando estas, fiquei com a ideia de que, se os Linkin Park estivessem ativos neste momento e com a discografia atual, seria este o concerto que dariam, mais coisa menos coisa – incluindo músicas como Don’t Stay e Lost. Gostava que tivessem tocado pelo menos mais uma não-single de Meteora – talvez Figure.09. Na altura do concerto ainda só tinha passado uma semana desde Meteora20, mas hoje gostaria de ouvir Fighting Myself e More the Victim.
Diverti-me imenso, aproveitei ao máximo. Pensei no Chester durante o concerto todo – foram várias as vezes em que apontei para o Céu depois de uma música. Sei que ele ficou orgulhoso de nós.
Só na manhã seguinte é que me caiu a ficha.
Mais sobre isso a seguir.
Depois do concerto, naturalmente, quis saber mais sobre os Hybrid Theory: artigos como este e este, entrevistas como as abaixo. Primeiro ponto a favor: eles são de Lagos (bem, uma parte deles, o Ivo é de Alvor), a cidade onde passo férias todos os anos, um dos meus lugares felizes.
Os membros dos Hybrid Theory já tinha tentado a sua sorte com bandas de originais. Estavam a isto de desistir de vez da música quando surgiu a ideia do tributo dos Linkin Park – porque, lá está, o Ivo tinha uma voz parecidíssima com a do Chester. Ainda assim, não a puseram logo em prática, em parte por falta de condições, em parte porque os Linkin Park estavam no ativo naquele momento.
Pois bem, deu-se o fatídico 20 de julho de 2017, os Linkin Park entraram num hiato que se mantém até hoje. De repente, ficou um buraco. Segundo o guitarrista Miguel Martins (o que “faz” de Brad), de início eram só para fazer dois ou três concertos de homenagem, que se foram multiplicando. Hoje, os Hybrid Theory já tocaram um pouco por todo o mundo: em vários países europeus, na Índia, na Austrália, na Nova Zelândia, no Brasil.
Agora que penso nisso, eles demoraram a chegar ao Pavilhão Atlântico. Mesmo assim, os Hybrid Theory, uma banda de tributo, conseguiram encher a sala principal – enquanto os Sum 41 e os Simple Plan, que não são bandas pequenas, só tiveram direito à Sala Tejo.
Como referi antes, eles são muito parecidos com os respectivos membros originais dos Linkin Park, mas garantem que, vá lá, noventa por cento disso não foi deliberado. Eles garantem que não precisaram de mudar muito a postura nem o estilo para assumirem os papéis. Aliás, existem muitas coincidências bizarras entre os Linkin Park e os Hybrid Theory. O Miguel partilha o aniversário com o Brad, por exemplo. O Ivo faz anos a 21 de julho – o dia a seguir ao da morte do Chester (“o pior presente de aniversário que recebi”).
Eu não acredito no destino mas, meu Deus!
Ora, se houver gente por aí que não alinhe nisto, eu compreendo. Por muito parecidos que sejam, os Hybrid Theory não são os Linkin Park, nunca serão. Os Linkin Park não são apenas as músicas, os visuais, as vozes. São eles mesmo, o Chester, o Mike, o Brad e os outros. São as pessoas que compuseram as músicas, são as personalidades, as histórias de vida, as amizades, as palhaçadas. Isso é impossível de replicar ou substituir – ninguém pode exigi-lo.
E nem é só uma questão de purismo. Depois de perdemos o Chester, talvez seja demasiado doloroso para algum de nós ouvir estas músicas em contexto de concerto – tal como existem fãs que nem sempre conseguem ouvir música dos Linkin Park, ponto. Mesmo comigo o rescaldo do concerto não foi fácil, algo de que falarei melhor mais à frente.
Dito isto tudo… é como disse o Miguel. Estas músicas são demasiado boas para viverem apenas nos CDs, ou no Spotify, ou no YouTube. O Chester já não está entre nós e não se sabe se os membros restantes dos Linkin Park alguma vez voltarão aos palcos. O que os Hybrid Theory estão a fazer é uma maneira de manter o legado vivo, garantir que o impacto não se perde.
O próprio Mike disse uma vez que a música dos Linkin Park foi criada para servir de catarse, para formar um espaço seguro, uma comunidade, para exorcizarmos os nossos demónios. Ou, pura e simplesmente, para deixarmos o mundo lá fora e andarmos ao moche. Os Hybrid Theory estão a garantir que isso continua e se expande – dando inclusivamente a oportunidade a pessoas que nunca puderam ver os Linkin Park ao vivo de saberem como era. Os Hybrid Theory não são os Linkin Park, mas neste momento são o melhor que termos, são a “next best thing” – e não por uma grande margem.
E, à boa maneira tuga, sinto um orgulho especial por serem portugueses. Espero voltar a vê-los em breve.
Antes de continuar, aviso desde já que as próximas quase duas mil palavras serão um pouco pesadas. Vou despejar imensa bagagem emocional. Estão à vontade para saltar à frente ou mesmo para clicarem noutro sítio.
Nestas últimas semanas, tenho sentido a perda do Chester como não sentia há anos. A fase pior já passou, penso eu, mas mesmo assim as saudades continuam, demasiado fortes.
Pode ter sido de ter passado tanto tempo a pesquisar sobre a era de Meteora para este texto, mas eu acho que foi também do concerto dos Hybrid Theory. Não me interpretem mal, não retiro uma única palavra do que escrevi acima. Não me arrependo de ter ido ao concerto, cem por cento repetia – e quero repetir. Mas é evidente que voltar a ouvir estas músicas em contexto de concerto mexeu comigo. Talvez tenha soltado qualquer coisa mal resolvida cá dentro. Talvez fosse sempre doloroso, uma barreira a ultrapassar, um penso rápido para arrancar.
Uma parte é culpa: ter ouvido música dos Linkin Park em concerto sem Linkin Park, sem o Chester. Mas também a música dele continua a mover pessoas. Lost no topo das tabelas, o Pavilhão Atlântico cheio de fãs dos Linkin Park para ver os Hybrid Theory (embora também tenha sido mérito deles), também eles fãs dos Linkin Park. Nós ainda aqui estamos, prontos para curtir esta música, em Portugal e em todo o mundo, mas o Chester não está cá para vê-lo.
E ele devia estar cá para vê-lo, ele merecia estar cá para vê-lo. Ele devia estar neste momento a dar entrevistas sobre Meteora, devia estar em palco com os colegas, harmonizando com o Mike, abraçando os fãs, fazendo palhaçadas nos bastidores. Ou pura e simplesmente, devia estar ao lado da esposa Talinda, envelhecendo com ela, vendo os filhos a crescer.
Uma coisa em que tenho reparado nas entrevistas todas a propósito de Meteora20 é que os outros estão a ficar velhos. O Phoenix está com a barba quase toda branca. Os caracóis do Brad estão grisalhos. O Mike está a ficar com uns pés de galinha adoráveis – consequência do sorriso lindo dele. Adoro pessoas que sorriem com a cara toda como ele – o meu irmão também é assim, o Cristiano Ronaldo também. Existe uma certa beleza em ver os Linkin Park entrando na meia idade, como pais de adolescentes que gozam com eles. Dou valor especial a isso porque não podemos ver o Chester passando pelo mesmo.
O que não é justo porque, depois de um início de vida horrível, o Chester merecia que as suas últimas décadas fossem de paz e felicidade, mesmo que fosse já fora do mundo da música. Não se deixem enganar, o live fast, die young é uma treta.
Além disso – e isto é algo que tenho sentido em relação a todas as pessoas que perdi até agora – a vida não é assim tão curta. Sim, nunca se sabe o que pode acontecer, mas o mais certo é muitos de nós vivermos até aos setenta, oitenta, noventa. Mesmo que acreditem, como eu acredito, que nos encontraremos todos uns aos outros depois da morte… é muito tempo sem vermos o Chester.
Sinto-me estúpida por estar com esta agora – como se o Chester tivesse morrido no mês passado e não há quase seis anos. Como se não tivesse acontecido tanta coisa entretanto, incluindo uma fucking pandemia. Como se eu ainda hoje fosse a pessoa que era em 2017.
Isto para não dizer, claro, que eu não conhecia o homem e ele mal sabia que eu existia. Toquei-lhe na mão durante dois segundos no fim do concerto no Rock in Rio de 2014, é possível que tenha olhado para mim uma ou duas vezes – e só isso já foi um grande privilégio. Para o Chester fui apenas uma entre milhões. A vida já é suficientemente difícil, justifica-se andar eu a carregar o fardo extra do luto, com meia dúzia de anos de atraso, por um homem que não sabia o meu nome?
Mas, lá está, são emoções. São por definição irracionais, não obedecem a lógica. E, de qualquer forma, são parte da vida, não são nada de patológico. Não estou deprimida, estou só triste.
Aliás, nem sequer é apenas tristeza. São emoções contraditórias: se fosse como no Inside Out/Divertida-mente, os bonecos estariam todos à bulha por controlo. E a Tristeza teima em sair do seu círculo.
Tenho momentos em que sinto imensa alegria, como sempre senti com a música dos Linkin Park – o maior exemplo foi, lá está, o concerto dos Hybrid Theory. Eu adoro a música deles, Meteora e não só. Mas tenho alturas em que me atraiçoa. A música chama-me como um canto de sereia. Eu ainda sinto a serotonina, mas depois ataca-me. Começo a pensar na letra, a relacioná-la com o que aconteceu. Ou então, pura e simplesmente, penso no quão fantástica a voz do Chester é. As saudades apertam e vou ao fundo.
…eu acabei de comparar o Chester e os outros a sereias, não acabei? Bem, fiquem com a imagem mental. Não têm de quê.
Para ser justa, várias coisas têm ajudado. Escrever sobre isso aqui no blogue é uma delas. Também tem ajudado cantar em altos berros no carro – músicas com refrões agudos, uma excelente catarse (já percebo porque é que a Hayley Williams se tornou uma especialista nisto).
Mas sabem aquilo que eu não esperava que ajudasse tanto? Falar com a minha Jane. Uma destas tardes estava sozinha com ela e pus-me a desabafar longamente sobre tudo isto. Quando dei por mim, o meu peito estava muito mais leve.
Vendo agora em retrospetiva parece super óbvio. É o bê-á-bá da psicologia: deitar cá para fora aquilo que nos atormenta faz bem (em minha defesa, os narradores de uma grande parte das músicas de Meteora também parecem não se aperceber disso). Sou introvertida por natureza, tendo a interiorizar o que sinto, a ficar presa à minha própria cabeça. E acho sempre que os outros não querem saber, não irão compreender, irão tecer juízos de valor.
O que nem sequer é necessariamente verdade. Ainda há uns tempos publiquei uma versão condensada do que escrevi acima na página de Facebook e obtive mais feedback do que o costume.
Em todo o caso, a Jane ouviu-me. Se tinha algo a dizer sobre o assunto, teve a delicadeza de guardá-lo para si. Apenas pareceu contente pelas festinhas que estava a receber. Está visto que tenho de fazer isto mais vezes.
Mesmo aqui no blogue, por um lado, sinto-me mal por não ser capaz de escrever sobre os Linkin Park sem trazer a morte do Chester à baila, possivelmente mexendo nas feridas de toda a gente. Por outro lado, é algo de que preciso e quem sabe? Pode ser que haja alguém por aí a ler isto e a passar também por este luto fora de horas. Caso vocês, caros leitores, sejam uma dessas pessoas, bem, não estão sozinhos.
Tenho tentado lembrar-me que, apesar de tudo, a vida do Chester não foi assim tão má, em parte graças a nós. Ainda há pouco tempo dei com a entrevista abaixo, em que listava os seus três sítios preferidos: a sua casa, o estúdio e o palco. Na mesma linha, numa entrevista recente, o Mike disse que o Chester nasceu para isto: para o estúdio e para o palco. Suponho que seja um consolo para ele, saber que Mike, Joe, Phoenix e os outros contribuíram para isso.
Nós também contribuímos, certo? Nós fomos uma das partes boas da vida dele. Nós que ouvimos as músicas, que fomos aos concertos, que permitimos que o Chester continuasse a cantar até ao fim da sua vida, por curta que tenha sido. Talvez tenhamos evitado que ela tivesse acabado ainda mais cedo.
Sinto que é isto que o Chester quereria que recordássemos: o estúdio, o palco, a sua versão mais feliz. Penso que, apesar de tudo, ele está contente por estarmos a gostar tanto de Meteora20, de Lost e de todas as outras. Eu além disso recordo a simpatia, a gentileza e as palhaçadas.
É disto que fala Leave Out All the Rest, não é?
De qualquer forma, mesmo nos meus piores momentos, nunca me consegui arrepender de me ter afeiçoado ao Chester e aos Linkin Park. O Rock in Rio 2008 mudou a minha vida como amante de música. Nessa noite, eles ensinaram-me a gostar de concertos, passaram-me o bichinho, a determinação para ver os meus músicos preferidos ao vivo. Fizeram com que desejasse ainda mais ver a minha cantora preferida, Avril Lavigne, ao vivo – e finalmente consegui, menos de uma semana depois do concerto dos Hybrid Theory, por sinal.
E depois é a música em si. Mesmo que por estes dias me deixe triste, tem-me enchido de serotonina ao longo dos anos, acompanhou-me em muitas sessões de escrita e viagens de carro, tem-me inspirado, tem-me consolado. A mim, a tantos, a milhões. As comunidades que se criaram um pouco por todo o mundo, as vidas que salvaram, a influência que tiveram noutros músicos.
Os Hybrid Theory são apenas um exemplo. De uma maneira super retorcida, se o Chester não tivesse morrido, talvez eles não estivessem a ter o sucesso que estão a ter. E também se está a criar uma comunidade.
Há que celebrar tudo o que o Chester conseguiu fazer na sua curta vida, dar graças por esse impacto. Impacto esse que, se depender de nós, continuará a ser sentido por várias gerações. É o que os Hybrid Theory estão a fazer. É também para isso que serve este blogue.
Da minha parte, vou continuar a pôr em prática aquilo que os Linkin Park me ensinaram. Vou continuar a ir a concertos, dentro das minhas possibilidades. Vou continuar a curtir música, a deles e não só. Vou fazer por ser gentil para com os músicos de que gosto, para com as pessoas à minha volta, comigo mesma – #makeChesterproud e tudo o mais.
O luto nunca desaparecerá por completo. Nunca será OK que o Chester nos tenha deixado tão cedo. A música dos Linkin Park terá sempre esta cor e é possível que, no futuro, eu volte a cair neste buraco. Mas hei de me levantar de novo. Vou tentar não obcecar por algo que não pode ser mudado. Vou tentar chorar menos e celebrar mais.
Nada disto é novidade, é praticamente o mesmo que temos dito uns aos outros nestes últimos anos. Mas são coisas que eu precisava de recordar.
Não quero encerrar este assunto sem deixar um apelo. Se houver alguém desse lado a debaterem-se com desejos de fazerem mal a si mesmos, por favor, não o façam. Peçam ajuda, existem recursos para isso: aqui, caso estejam a ler em Portugal, aqui, caso estejam a ler no Brasil. Como podem ver, se eu, mera fã, ainda sofro com o que aconteceu ao Chester quase seis anos depois, nem quero imaginar como se sentirão as pessoas que o amavam. Não façam isso aos vossos entes queridos.
E nem é só por eles. É por vocês mesmos também. Vocês merecem melhor que morrer antes do tempo. Vocês merecem coisas boas, fazer aquilo para que nasceram, ganhar cabelos brancos e pés de galinha, ver os vossos filhos crescer (caso os tenham). Deem uma oportunidade a vocês mesmos para que a vossa vida melhore, para que entre o amor, a amizade, a alegria. Não há garantias disso, claro, mas a probabilidade não é zero e vocês têm de estar cá para que isso aconteça. E o mundo só terá a ganhar.
Era isto que eu gostaria de ter dito ao Chester, se tivesse tido oportunidade. Não sei se chegaria para evitar o que lhe aconteceu – não sou profissional de saúde mental – mas talvez ajudasse um bocadinho. Ele já não pode ouvi-las ou lê-las, assim, deixo-as aqui. Pode ser que haja alguém que precise de lê-las, agora ou no futuro. Incluindo eu mesma. Espero que ajudem.
E agora? O que vai acontecer com os Linkin Park? Continua uma incógnita. Eles têm deixado mensagens contraditórias – o que é compreensível. Se eu mesma me sinto ambivalente… Há coisa de um ano, Mike dizia que não haviam planos, nem para música nova, nem para digressão, nada. Por estes dias, ele está menos categórico, diz que está tudo em cima da mesa tirando uma digressão. Por seu lado, Phoenix diz que sente que os Linkin Park ainda têm algo a dizer, embora admita que não saiba como.
Depois de HybridTheory20 e de Meteora20, uma pessoa assume que os Linkin Park irão continuar com as edições de vigésimo aniversário. Pessoalmente gostava muito que houvesse MinutesToMidnight20 – foi nessa era que me tornei fã, teria um elevado valor nostálgico. Para além desse álbum, no entanto, começará a fazer cada vez menos sentido, na minha opinião.
Sobretudo se isso for tudo o que os Linkin Park fizerem enquanto banda daqui para a frente: viver no passado. Seria deprimente.
Por outro lado… música nova sem o Chester?
Em todo o caso, se eles derem esse passo, acho que não será para já – só daqui a um par de anos, pelo menos. Até porque Mike tem dado a entender que, um dia destes, lançará mais música a solo.
Como se devem recordar, o Mike lançou Post Traumatic um ano depois de o Chester morrer. Este foi um álbum e era bastante pesados emocionalmente. Consta que algumas pessoas se queixaram disso, mas, aqui entre nós, estavam à espera de quê? Foi o primeiro ano depois da morte do Chester!
De qualquer forma, creio que isso fez com que o Mike não tenha querido fazer música para si mesmo durante muito tempo. Tirando um ou outro single, o Mike tem passado os últimos anos composto e produzido música para outras pessoas. No entanto, criar In My Head para o último filme do Scream terá feito com que voltasse a sentir o bichinho. É possível que tenhamos um sucessor a Post Traumatic mais cedo ou mais tarde.
A ideia agrada-me. Em parte porque, para ser franca, é mais confortável do que música nova dos Linkin Park – não tem a mesma bagagem emocional. E a verdade é que tenho gostado daquilo que Mike tem lançado a solo até agora.
É possível que esta não seja a primeira vez que o refiro mas, para mim, Post Traumatic é um excelente álbum de pandemia sem ser um álbum de pandemia. Afinal de contas, é sobre lidar com uma súbita disrupção da vida tal como a conhecíamos. Por estes dias, World’s On Fire é a minha preferida dele – nada como desgraças destas para nos recordarmos do que realmente importa.
No entanto, nesta altura, normalmente passo à frente de Place to Start e Over Again. Ninguém quer recordar essas situações específicas. A segunda, no entanto, descreve em o meu estado de espírito nestas últimas semanas, como escrevi longamente acima.
Também gostei de Waiting For Tomorrow, a colaboração com o DJ Martin Garrix, de fine – assustadoramente relevante durante a pandemia – e de Happy Endings. Ainda preciso de dar rotação a In My Head, mas acho interessante que, passados estes anos todos, Mike esteja a regressar à temática de Papercut.
Por isso sim, venha daí mais música a solo – ou não. Decidam os Linkin Park o que decidirem, eu apoiarei. Podem haver lágrimas de novo da minha parte, a Jane pode ter de me aturar, poderei voltar a escrever sobre isso aqui no blogue, mas continuarei cá.
Dito isto, a curto prazo, vou evitar o universo Linkin Park. Estes últimos meses, entre Meteora20 e os Hybrid Theory, foram divertidos mas também foram pesados, foram desgastantes. Preciso de me distrair com outras coisas, de escrever sobre outras coisas. Não posso estar sempre a pensar no Chester e no que lhe aconteceu. Preciso que doa menos, que regresse aos níveis a que estava há seis meses.
A única exceção será se, eventualmente, me cruzar de novo com os Hybrid Theory – o que não deverá acontecer assim tão cedo, penso eu.
O próximo texto daqui deverá ser a análise a This is Why, dos Paramore. Depois disso, talvez – talvez – escreva finalmente sobre Pokémon Go. É possível que, entretanto, outros artistas ou bandas do meu nicho lancem música, o que poderá baralhar estes planos. Como tenho vindo a dizer, quero escrever outras coisas, não quero ter pressa com este blogue.
Obrigada ao siteLinkinpedia, que me facilitou imenso o trabalho de casa para esta análise, bem como a outros fãs de Linkin Park nas internetes. Destaque para o LPLive e para Brooding Ananas. Obrigada uma vez mais aos Hybrid Theory por manterem a chama acesa – espero voltar a ver-vos em breve. E obrigada a vocês, caros leitores, pela visita. Peço desculpa uma vez mais pela descarga emocional acima. Deixem o Chester orgulhoso. Continuem por aí.
No passado dia 18 de dezembro, Hayley Williams lançou o EP Petals For Armor: Self-Serenades. Segundo declarações da própria, este EP reflete, pelo menos em parte, os largos meses que Hayley passou em casa, com apenas a sua guitarra por companhia – bem, a sua guitarra e o seu cãozinho, Alf. O EP consiste em versões acústicas de Simmer e Why We Ever – originalmente lançadas no álbum Petals For Armor – e uma única faixa inédita, Find Me Here…
...e, aqui entre nós, soube-me a pouco.
Find Me Here é uma faixa com menos de dois minutos de duração, que mais parece um interlúdio (semelhante aos do Self-Titled) do que uma canção a sério. Admito que eu estava com expectativas muito altas. O EP foi anunciado há cerca de dois meses e, desde então, criei um hype exagerado em torno de Find Me Here – ainda que apenas para mim mesma. Andava há semanas a planear a minha escrita já a contar com a análise a essa canção.
Assim, quando ouvi a música pela primeira vez, a minha primeira reação foi:
– …só isto?
Mesmo deixando de lado as minhas expectativas defraudadas, continuo a achar a canção curta demais. Sobretudo porque o minuto e cinquenta segundos, mais coisa menos coisa, de Find Me Here é lindo! Eu queria mais!
Find Me Here é um pequeno número acústico, só mesmo guitarra e voz. Não é difícil imaginar Hayley tocando isto sentada no seu jardim com a sua guitarra. Gosto dos vocais – não percebo se são um efeito qualquer que fizeram à voz de Hayley, ou se temos duas faixas de vocal, uma mais grave do que a outra. Em todo o caso, ficou bem.
A música e, por conseguinte, a letra são curtas mas passam a mensagem de forma eficaz. Quando uma pessoa passa por um mau bocado, ou lida com uma crise, regra geral, é importante ter um ente querido por perto, por motivos óbvios. No entanto, existem certos problemas, certas crises, que uma pessoa tem de resolver sozinha. Pessoas amadas não podem ajudar, podem até ser prejudiciais ao processo.
É sobre isso que Find Me Here fala. A narradora vai dar espaço ao ser amado para resolver o que tiver a resolver, mas vai deixar uma porta aberta para quando o ente querido voltar. Se quiser.
É demasiado curta, podia ter tido uma segunda estância, mas é uma canção bonita. Ficaria bem como encerramento de um álbum. Estará a encerrar a era Petals For Armor? Ou apenas 2020?
Umas palavras para as versões acústicas de Simmer e Why We Ever. Nenhuma delas está ao nível das versões do álbum, a meu ver – a força das canções parte muito da instrumentação e, no caso de Simmer, daquela hipnótica interpretação vocal.
Ainda assim, gosto da Simmer acústica, ainda que não tanto como da versão original. Este arranjo dá um carácter completamente diferente à música. O refrão fala sobre o dilema entre raiva e piedade – a versão acústica parece adotar a piedade, enquanto a versão do álbum se inclina mais para a ira.
A versão acústica de Why We Ever, no entanto, não me diz muito. Não foi só a instrumentação a mudar, a melodia também sofreu alterações, ficando irreconhecível. Não gosto muito do resultado final.
Na verdade, noutras circunstâncias, nem teria escrito sobre este EP. No entanto, como o final do ano se aproxima a passos largos, quero aproveitar a boleia e fazer a minha costumeira retrospetiva musical.
2020 não foi um mau ano em termos de música, mas a pandemia mudou muita coisa. Antes os artistas e bandas lançavam álbuns depois de semanas de singles e hype – ou então lançavam-nos de surpresa, de um dia para o outro. Depois do lançamento, continuavam a lançar singles, atuavam nas televisões e, ao fim de algum tempo, partiam em digressão.
Com o Coronavírus, no entanto, parece que os ciclos terminam abruptamente com o lançamento do álbum. Não é possível dar concertos e mesmo videoclipes e apresentações das músicas são arriscadas. Aconteceu com Petals For Armor, aconteceu com o aniversário de Hybrid Theory – várias entrevistas nas semanas anteriores, grande excitação, grande antecipação. Mas depois de o álbum sair, parou tudo. No caso de Petals For Armor, só agora há pouco tempo – talvez por causa do Self Serenades – é que tivemos coisas como a sessão do Tiny Desk.
Tem sido frustrante, sim. Mas continuamos a ter o que mais importa: a música em si.
Nesse aspeto, 2020 para mim pertenceu a Hayley Williams. O ano musical começou e terminou com ela. Abriu com o lançamento de Simmer, em janeiro, encerrou-se agora com o Self Serenades.
Custa a acreditar que foi ainda este ano que ouvimos Simmer pela primeira vez, que saiu a primeira parte de Petals For Armor. Adorei escrever o texto sobre Simmer e Leave it Alone, bem como a análise ao álbum completo, mais tarde. Quer a solo quer com os Paramore, a música que Hayley compôs tem esta capacidade, praticamente única, de me levar à introspeção – o que é excelente para a escrita. Nos primeiros meses da pandemia, com o confinamento e o cancelamento de quase tudo o que dava alegria às nossas vidas, o lançamento pouco convencional da segunda parte de Petals For Armor foi um excelente consolo.
Para o melhor e para o pior, este álbum ficará para sempre associado ao Coronavírus – não sei se teria conseguido manter a sanidade sem ele, sobretudo nos primeiros meses. Talvez tivesse sido sempre esse o desígnio. Em todo o caso, com tanta música extraordinária – Simmer, Cinnamon, Sudden Desire, Dead Horse, Over Yet, Roses/Violet/Lotus/Iris, Pure Love, Sugar on the Rim, Crystal Clear… – deu para provar que Hayley é excelente, quer numa banda, quer em nome próprio.
2020 também ficou marcado pelos Linkin Park – pela análise a One More Light em maio, mas sobretudo pelo vigésimo aniversário de Hybrid Theory. Esse foi outro texto que me entreteve durante meses, com pesquisas e rascunhos que me levaram aos primórdios dos Linkin Park enquanto banda. Serviu para fazer uma renovação de votos, para cimentá-los como a minha banda preferida, a par dos Paramore – mesmo que o futuro deles continue incerto.
O nome mais surpreendente no meu ano musical é Taylor Swift. Surpreendente é como quem diz… como escrevi antes, era apenas uma questão de tempo.
Ainda assim, Taylor foi um pouco mais prevalente nas minhas audições este ano. Tive fases de obsessão com diferentes músicas dela. Perto do início do ano era Red – por ter um bocadinho a ver com um texto que escrevi no meu outro blogue. Durante um par de semanas em julho foi All Too Well, quando escrevi sobre ela. Na semana seguinte foi Cornelia Street. Na semana seguinte foi Call it What You Want. Entre outras.
Pelo meio, Taylor lançou folklore. Concordo com a opinião popular – este álbum é uma obra-prima. Eu ainda estava – ainda estou – a digeri-lo quando saiu evermore.
Se esta pandemia trouxe alguma coisa de bom às nossas vidas foram estes dois álbuns. Acho que ninguém discorda.
Ainda não processei estes álbuns por completo, sobretudo o evermore. Taylor continuará, por isso, a ser relevante para mim em 2021. Não tenciono analisar álbuns inteiros aqui no blogue, pelo menos não por enquanto. Sou ainda uma fã demasiado casual – existe muita gente por aí melhor habilitada do que eu para criar conteúdo sobre Taylor.
Mas posso escrever mais textos de Músicas Ao Calhas, se me apetecer. Já tenho uma segunda canção de Taylor que tenciono analisar, mais cedo ou mais tarde.
Tenho também ouvido Billie Eilish, tal como já fizera no ano anterior. A minha irmã também gosta da música dela, o que é sempre fixe. Gosto imenso de Ocean Eyes, mas se tivesse de escolher neste momento, diria que a minha preferida é Everything I Wanted – é a sua Leave Out All the Rest. Uma vez mais, ainda sou uma fã muito casual – por agora.
Deixo aqui a playlist com as músicas que mais ouvi no Spotify. Se bem que o tenha usado menos que o costume este ano – só nos primeiros dois ou três meses do ano e agora, nas últimas semanas, aproveitando a promoção de três meses pelo preço de um. E aparentemente o mês de dezembro não entra para estas contas. Não é a primeira vez que digo que o Spotify não é a minha única fonte de música – oiço CDs no meu carro e ficheiros mp3 no meu telemóvel.
A verdade é que nem todas as músicas que me ajudaram a sobreviver a 2020 estão no Spotify. Bright não está, o cover de Crawling, dos Bad Wolves, não está e, tal como me queixo há anos, a música de Digimon não está.
Mesmo não tendo escrito sobre Digimon aqui no blogue este ano, mesmo não tendo havido encontro no Odaiba Memorial Day, a música de Digimon volta a ocupar um lugar de destaque na minha retrospetiva musical, sobretudo durante o verão. Vi Frontier pela primeira – e até agora única – vez e acrescentei vários temas às minhas listas (em 2021 irei ver a dobragem portuguesa, já tomando notas para analisá-la no blogue). No que toca a Adventure 2020, até agora, só este tema foi digno de se juntar à lista.
Na verdade, nas últimas semanas deixei de ter vontade de ouvir música de Digimon. Um dia destes explico.
E foi isto 2020 em termos de música para mim. Foi um ano da desgraça em muitos aspetos, mas, como acabámos de ver, não foi assim tão mau em termos musicais. Tirando a parte dos concertos cancelados.
Aliás, tive a sorte de ir a um concerto há pouco tempo – o concerto acústico do Rui Veloso no Campo Pequeno. Não foi exatamente a experiência completa de um concerto, tal como gosto. Nunca fui que andar ao moche, mas confesso que sempre gostei da parte mais “suja” de música ao vivo: de suar por todos os poros, de estar rodeada de gente a suar por todos os poros, de ter de me sentar no chão, de ficar com a garganta crua de tanto cantar e gritar, de ficar com dores por todo o lado durante dias, de precisar de tomar um duche ao chegar a casa.
Em comparação, o concerto do Rui Veloso foi muito certinho, muito sossegado. Estávamos todos sentados, todos de máscara. Não podia ser de outra maneira, claro. O mais radical que aconteceu foi as nossas máscaras terem ficado inutilizadas depois de termos cantado o Anel de Rubi em coro.
Soube-me bem à mesma. Serviu para matar o bichinho, para estar de novo em sintonia com uma multidão, passados estes meses todos (que mais parecem anos).
Já que falo sobre isso, o concerto de Avril Lavigne em Zurique tinha sido remarcado para fevereiro de 2021, mas vai ser adiado outra vez – bem como o resto da digressão. Triste, mas já se calculava. Há quem diga que só se realizarão em 2022.
Se algum dia conseguir ver a mulher ao vivo até vou achar que é mentira.
Entretanto, Avril tem passado as últimas semanas em estúdio. Anunciou música nova para janeiro de 2021, até andei algo entusiasmada por uns dias – dez anos depois de What the Hell no dia de Ano Novo e toda a espera por Goodbye Lullaby… Depois de um ano como 2020 saberia bem.
Mas não, será um dueto com Mod Sun (não sei quem é…) para o álbum dele. Bem, era bom demais. Não sei ainda se escrevo sobre Flames (o nome da música) quando sair – logo decido.
Em todo o caso, é possível que Avril esteja já a preparar o seu próximo álbum. Pode ser que saia já em 2021 mas, conhecendo eu os ritmos dela, o mais certo é só sair daqui a dois anos. Cepticismo à parte, talvez ela queira esperar até ao fim da pandemia, para poder ir em digressão depois de editar o álbum.
Eu pelo menos não estou com grande pressa. Em primeiro porque Head Above Water só saiu há dois anos (embora pareça mais). Em segundo porque, depois desse álbum, estou com menos entusiasmo do que o costume.
Talvez não seja má ideia ter as expectativas baixas.
No que toca a Lorde, no entanto, ninguém tem expectativas baixas. O terceiro álbum da neozelandesa tem estado no formo há algum tempo e quer-me parecer que será em 2021 que este será, finalmente, editado. Há cerca de um mês, Ella escreveu um texto sobre uma viagem que fez à Antártica em inícios de 2019, que alegadamente inspirou-a para voltar ao estúdio depois de Melodrama.
A viagem ocorreu há quase dois anos e agora é que Lorde fala dela? Não deve ser coincidência. Aposto que será uma questão de meses.
Não gostava de estar no lugar de Ella, para ser sincera. Ter de compôr um álbum digno de suceder a Pure Heroine e Melodrama? Eu entrava em parafuso.
Talvez devêssemos todos baixar um bocadinho as expectativas, não sermos demasiado duros se este terceiro álbum não conseguir chegar ao nível dos antecessores. Parecendo que não, Lorde é humana.
Dito isto… não se admirem se Ella conseguir arrebatar-nos de novo com o seu terceiro álbum. Se existe artista capaz de um hat-trick, essa é Lorde.
Não me parece que hajam mais artistas do meu nicho preparando-se para lançar música em 2021, pelo menos que eu saiba. Ainda assim, da maneira como as coisas estão, tudo pode acontecer. Logo se vê.
E era isto que tinha para dizer. Que as vacinas funcionem e que possamos voltar em breve a jantaradas com amigos e família, a viajar sem restrições, a concertos com moche, a jogos de futebol, a Raids presenciais, a encontros no Odaiba Memorial Day. Boas entradas num ano melhor do que este. Vemo-nos em 2021!
O primeiro álbum de estúdio dos Linkin Park, Hybrid Theory, vai completar vinte anos desde a sua edição a 24 de outubro. Para assinalar este marco, a banda vai lançar uma edição especial que inclui, mas não se limita a, um livro de fotografias inéditas, transmissões em vídeo de concertos, demos de canções conhecidas, faixas inéditas. Em jeito de aperitivo para o que aí vem, a banda lançou uma dessas faixas, She Couldn’t, na passada quinta-feira, dia 13 de agosto.
She Couldn’t foi uma das primeiras canções que os Linkin Park compuseram já com o falecido Chester Bennington na banda. O primeiro vocalista da versão beta da banda, chamada Xero, era Mark Wakefield, que chegou a colaborar na composição de canções como Runaway e A Place for My Head. Aparentemente, She Couldn't foi posta de parte relativamente cedo – nem sequer faz parte do EP Hybrid Theory.
No verão de 2009, alguém pôs à venda no eBay um CD com demos dos Linkin Park, incluindo esta canção. Consta que era uma versão de fraca qualidade, cheia de estática.
Confesso que, até agora, nunca me tinha interessado muito muito por material suplementar dos Linkin Park. Nem mesmo por álbuns de remixes, como Reanimation e Collision Course, tirando um caso ou outro, como New Divide e A Light that Never Comes. Os álbuns de estúdio sempre foram o meu maior ponto de interesse. Só há relativamente pouco tempo é que conheci My December e há ainda menos High Voltage. Ainda assim, já tinha dado com o título She Couldn’t algumas vezes no Twitter.
Imagino a alegria para esses fãs poderem ouvir a música com boa qualidade ao fim de onze anos.
Boa qualidade é como quem diz… continua a ser uma demo, a qualidade não é espetacular. A voz de Chester soa um pouco baixa no início das estâncias. Para este lançamento, eles pegaram naquilo que tinham e melhoraram o mais que puderam. No entanto, como referido acima, She Couldn’t deve ter sido descartada numa fase precoce do processo, a banda nunca se deu ao trabalho de gravar uma versão melhor. Não podiam regravar os vocais agora por… motivos óbvios.
She Couldn’t é uma música muito suave. Não tem guitarras pesadas, ao contrário de todo o Hybrid Theory. A instrumentação consiste essencialmente em sintetizadores, baixo, notas discretas de guitarra, Joe Hahn arranhando discos. É uma faixa longa, com cinco minutos de duração, foca-se no instrumental. Soa a música de fundo no bom sentido: ajuda a criar uma atmosfera particular, um “mood”, com o seu tom melancólico, muito Linkin Park.
A voz de Chester nem sempre se ouve bem, como comentei acima, mas mesmo assim ele teve oportunidade de exibir os seus dotes vocálicos nalguns momentos, sobretudo durante a segunda estância. A música repete várias vezes um excerto da música de The High & Mighty, B-Boy Document 99 – é uma das imagens de marca de She Couldn’t (ao ponto de se tornar um bocadinho repetitiva). Temos alguns versos de rap de Mike Shinoda no mesmo tom do sample – de tal forma que, no início, não percebi que era um sample, pensava que era a voz do Mike, talvez com alguns efeitos.
O narrador de She Couldn’t está a consolar uma pessoa, um amigo, que perdeu alguém, uma “ela”. Não se percebe ao certo como ou porque se deu a perda. Partes da letra dão a entender que ela morreu – "The sunlight's shinning on her now", "The sunlight's crying for her now". Outras partes não encaixam bem na teoria, nomeadamente os sentimentos de culpa do amigo do narrador. A menos que tenha sido suicídio…
O mais certo é eles terem sabido desde o início que a relação não podia durar muito. Numa determinada data, ela teria de ir para outro lugar, por compromissos profissionais ou assim. Talvez isto tenha sido um romance de verão que se tornou mais intenso do que o esperado.
Em todo o caso, o narrador de She Couldn't estende uma mão ao seu amigo, ao ouvinte. A propósito do lançamento desta música, Mike referiu que She Couldn't funcionou como um indício de direções futuras da banda, do seu lado mais gentil. "O verso 'You're not alone' cantado suavemente lembra-me que, apesar de nos termos estreado com uma canção que grita 'Shut up!' (cala-te), aquilo que a maior parte dos fãs acabaram por descobrir foi que empatia e comunidade eram também uma parte integral do ADN dos Linkin Park."
Essa empatia e comunidade são aquilo que nos tem sustentado nestes últimos três anos.
Em suma, não estando entre as melhores dos Linkin Park, She Couldn't é uma música gira, uma pérola escondida que nos permite imaginar um álbum de estreia diferente.
Se foi bem excluída de Hybrid Theory? Sim e não. Por um lado, o álbum padrão é intenso, é rápido, mesmo os momentos mais pausados, como Crawling e Pushing Me Away têm guitarras pesadas. Nesse sentido, She Couldn't seria um grande outlier.
Por outro lado, tal como referi acima, a música tem aquele tom melancólico que caracteriza o estilo dos Linkin Park, sobretudo em início de carreira. Se o Hybrid Theory fosse diferente, um pouco mais variado, incluísse músicas mais calmas como My December (uma faixa com algumas parecenças com esta), She Couldn't teria de ser uma delas.
Hei de voltar a esta questão em breve. Tenho estado a trabalhar numa análise a Hybrid Theory, para ser publicada no dia 24 de outubro – o dia do vigésimo aniversário. Sim, ainda faltam dois meses, mas vocês sabem que eu trabalho devagar. Ainda por cima, em setembro e outubro vamos ter um total de cinco jogos da Seleção. Haverão alturas em que estarei ocupada com o meu outro blogue. Por um lado vai ser bom, estou cheia de saudades da Turma das Quinas. Por outro, este blogue será um bocadinho prejudicado. É melhor adiantar trabalho.
De qualquer forma, fico contente por já termos She Couldn't. Deu-me uma desculpa para não deixar o estaminé ao abandono durante demasiado tempo, para deixar um cheirinho da análise maior, ao álbum inteiro.
A minha ideia será focar-me mais no alinhamento padrão de Hybrid Theory, visto serem essas as músicas que conheço melhor. No entanto, como a edição especial será editada a 9 de outubro, devo incluir algumas impressões sobre as inéditas que lançarem. Nada de muito detalhado, em princípio.
Em relação aqui ao blogue, para que este não fique parado durante muito tempo, estou a pensar fazer algo que não faço há muito tempo: responder a uma tag. A última que fiz foi esta.Só para variar um bocadinho.
Segunda parte da minha análise a One More Light. Podem ler a primeira parte aqui.
ALERTA: Este texto irá abordar temas pesados como depressão, suicídio e causas de suicídio. Se estes temas forem um gatilho mental ou, como dizem os anglo-saxónicos, triggers– no sentido de evocarem recordações traumáticas ou outras formas de sofrimento psicológico – aconselho-vos a não o lerem.
Se vocês se debatem com pensamentos suicidas ou desejos se fazerem mal a vocês mesmos, por favor, não o façam, peçam ajuda. Deixo aqui linhas de apoio tanto em Portugal como no Brasil. Quem conhecer mais linhas, por favor, deixe nos comentários. O mundo precisa de vocês, peçam ajuda!
Falemos, agora, sobre os temas cantados por Chester (isto é, tirando aqueles que analisámos na primeira parte). Começando por Nobody Can Save Me, que abre o álbum. Este é outro caso em que não gosto muito do acompanhamento musical mas gosto da melodia e interpretação. A letra fala de sintomas depressivos, de “soluções falsas” – podem ser toxicodependência ou pura e simplesmente isolamento, solidão – mas de uma forma algo vaga. Um pouco como Battle Symphony.
Uma coisa devo dizer, no entanto: numa das vezes que ouvi esta música nas primeiras semanas, ou meses, após a morte de Chester, senti um nó na garganta ao ouvir o refrão. “Tell me it’s alright. Tell me I’m forgiven tonight”. Como se fosse o próprio Chester a pedir perdão por ter partido.
Vou mesmo dizê-lo: o desempenho vocal de Chester é a melhor parte deste álbum. Chester era conhecido sobretudo pelos seus gritos inigualáveis, mas One More Light deixou provado que ele também sabia cantar.
Halfway Right é, para além de Heavy, a única música em One More Light em que Chester é creditado como compositor. Dá para notar um pouco na letra que, ao contrário de outras neste álbum, pinta cenários mais ou menos específicos em vez de metáforas vagas. Chester fala de se drogar em adolescente com outros miúdos, de certa noite ter ido tão longe que, quando deu por si, estava ao volante de um carro.
Medo…
Na segunda parte, a letra fala sobre ignorar os conselhos dos mais velhos – de se rir na altura e, agora, reconhecer que tinham razão. Havemos de regressar a esse tema.
Em suma, gosto da letra, mas a instrumentação diz-me pouco. Não gosto muito da melodia, apesar de Chester a interpretar bem. Por fim, acho o final demasiado repetitivo.
Agora vamos falar sobre aquelas que, na minha opinião, são as melhores músicas do álbum, tanto pela letra como por, ao contrário das restantes, terem uma instrumentação decente, mesmo boa.
Talking to Myself é a música mais pesada em todo o One More Light – apesar de poder ser descrita como “apenas” pop rock. Gosto imenso da introdução com as notas de órgão e, depois, a guitarra elétrica e a bateria.
A letra de Talking to Myself tem um conceito interessante. Como vimos antes, foi escrita da perspectiva de Talinda, a esposa de Chester, enquanto o marido passava pelas suas piores fases. Fala da solidão que ela terá sentido, do comportamento alterado dele (consta que é um dos sintomas de toxicodependência), a tendência dele para se isolar das pessoas de quem gosta (um sintoma de depressão), a incapacidade de comunicar.
É daí que vem o título da canção. Talking to Myself, falando conosco mesmos, falando para uma parede.
Como vimos antes, não terá sido Chester a escrever esta letra. No entanto, pergunto-me quanto disto terá vindo da própria experiência de Mike, Brad e os outros, que acompanharam os altos e baixos do amigo durante duas décadas.
Depois de Chester morrer, a canção ganhou um significado adicional, pelo menos para mim. Nós, os fãs, que temos falado e falado sobre Chester desde aquela quinta-feira três vezes maldita. Chorado por ele, gritado por ele, dizendo o quanto o adoramos, as saudades que temos dele…
...e não sabemos se ele nos consegue ouvir. Não sabemos se não estamos, lá está, a falar connosco mesmos, para uma parede, para o vazio.
A música de que vamos falar a seguir é a melhor e a mais dolorosa de todo o álbum. One More Light, que também dá o nome ao disco.
Musicalmente é perfeita. Minimalista, apenas com órgão, piano, guitarra e pouco mais – contribuindo para o tom intimista, casando bem com a melodia e letra tristes. A interpretação de Chester é igualmente irrepreensível – eu destacaria os vocais agudos de “I do” no fundo, durante o solo.
Agora a letra. One More Light foi inspirada pela morte de Amy Zaret, uma amiga da banda, que morreu em outubro de 2015 após uma curta batalha com um cancro. O co-compositor, Eg White, também tinha perdido um amigo. Suponho que os outros membros dos Linkin Park se terão inspirado em perdas suas – Chester, por exemplo, tinha perdido o padrasto. Poucas coisas são mais universais, infelizmente.
A letra descreve bem as diferentes manifestações do luto, sobretudo na segunda parte: a raiva, a sensação de injustiça, o lugar vazio à mesa, os momentos em que a dor vem do nada e tira-nos o tapete debaixo dos pés. O refrão e o título reforçam a ideia de que é apenas uma pessoa entre mil milhões, uma insignificância se olharmos para o planeta como um todo, mas que afeta profundamente as pessoas mais próximas.
Faz pensar duas vezes sobre coisas como as estatísticas do Coronavírus, por exemplo. “Só” morreram trinta pessoas hoje? Bem, são só trinta famílias, trinta grupos de amigos e conhecidos cujas vidas nunca mais serão as mesmas depois disto. Morrem pessoas todos os dias, sim. Mas é sempre uma grande perda para alguém.
Por outro lado, o verso “who cares if one more light goes out? Well I do” foi usado para evitar uma morte por suicídio no ano passado. É apenas um exemplo das vidas que a morte de Chester pode ter salvo, ao inspirar uma mudança de mentalidades sobre a saúde mental.
O que me leva à primeira estância da canção. Acreditem ou não, dois ou três dias antes da morte de Chester, estive a ver a apresentação de One More Light no Jimmy Kimmel (abaixo). Se não me engano, foi no dia em que o álbum saiu. A ideia era tocarem Heavy, o primeiro single. No entanto, a banda decidiu tocar One More Light em homenagem a Chris Cornell, um grande amigo de Chester, morrera por suicídio na véspera – fez ontem três anos. Ontem, aliás, saiu uma entrevista inédita de Chester falando sobre Chris.
Consta que, nos ensaios, Chester mal conseguia cantar. Mesmo na apresentação ao vivo, em direto, dá para ver que ele (à semelhança dos outros, na verdade) estava à beira das lágrimas. E aquela falha a meio do verso, no último refrão.
Dizia eu que, para aí na segunda-feira da semana fatídica, estava eu a ver esta apresentação. A pensar e a anotar no meu caderno que os primeiros versos de One More Light falam de sofrimento invisível aos demais – podia ser sofrimento físico, associado a uma doença como o cancro, podia ser sofrimento psicológico, por depressão, como aquilo que matara Chris Cornell.
Ah, se eu soubesse…
Na quinta-feira seguinte, quando ainda estava a tentar processar a notícia, pus-me a ouvir a música, esta mesma apresentação. Quando chegou à parte do “Can I help you not to hurt anymore?” chorei pela primeira vez. Eu teria tentado ajudar se pudesse, teria feito o possível para evitar aquele desfecho, mas não pude fazer nada. Ninguém pôde.
Os Linkin Park referiram antes que tinham escolhido esta música para dar o título ao álbum – quando nenhum dos álbuns anteriores partilhara o nome com uma das suas faixas – precisamente por a considerarem o centro de gravidade emocional do álbum. E foi isso que aconteceu… mas não da maneira que previram. One More Light foi a canção em volta da qual fãs enlutados se uniram depois da perda de Chester – meros dois meses após a música ser lançada. Chester cantou o seu próprio requiem.
Eu adoro a música mas não a oiço muitas vezes. Lembra-me as primeiras semanas após a tragédia. É demasiado dolorosa, sobretudo se não estiver à espera.
Talvez devesse ter deixado One More Light para o fim, mas não queria terminar esta análise numa nota tão triste. Assim, vamos encerrar com Sharp Edges, que também encerra o álbum.
Esta tem uma sonoridade que no início, confesso, estranhei: mais folk do que estava à espera. E também nunca tinha imaginado Chester cantando algo como “Momma always told me…”. Mas não demorei a entranhar e, hoje, gosto bastante desta música.
A letra de Sharp Edges lembra-me um pouco Into You, do projeto lateral de Chester, Dead By Sunrise. À semelhança de Into You, Sharp Edges explora o paradoxo da vida de Chester. E, na verdade, na vida de toda a gente, em diferentes graus. Na maneira como educamos crianças.
Eu não tenho filhos, mas sei que existe uma linha ténue que separa proteger as nossas crias e deixá-las ganhar independência. Todos preferíamos que jogassem pelo seguro, que não saíssem dos limites, que optassem pelos livros em vez das drogas. Mas também já está mais que provado que proteger as crianças em demasia acaba, mais cedo ou mais tarde, por ter o efeito oposto.
Além de que, da experiência que tenho, há coisas que os mais velhos não nos conseguem ensinar, por muito que tentem. Há coisas que temos de aprender por nós mesmos. Conheço gente que, por exemplo, se arrepende de não ter estudado mais quando era jovem – e que agora tem filhos que estão a cometer os mesmos erros.
Mesmo eu, que sempre fui uma menina certinha, me arrependo de muitas coisas que fiz (ou não fiz) no início da minha vida adulta. Se tiver filhos, vou tentar evitar que cometam os mesmos erros – mas será que eles ouvirão? Eu não ouvi os meus pais.
Falando especificamente de Chester, toda a gente sabe que ele teve uma infância e adolescência horríveis que o marcaram para a vida toda. Devia ter sido mais protegido pelos adultos da sua vida. Ao mesmo tempo, tal como admitiu em Halfway Right, o próprio Chester terá tomado uma série de más decisões e sofreu as consequências.
E no entanto… seria ele o Chester que conhecíamos e adorávamos sem esse passado? Seria ele capaz de criar a música que criou e tocou tanta gente – salvando vidas, tanto em vida como em morte, sentando-se no escuro ao lado dos seus ouvintes, como escrevem aqui– teria ele tido os seus seis filhos, conhecido Talinda? Talvez fosse uma pessoa mais saudável, mais feliz, talvez ainda estivesse entre nós – mas seria o mesmo?
Os próprios Linkin Park escreveram na sua mensagem de despedida que sempre souberam que os demónios que levaram Chester faziam parte do pacote. Eu demorei um bocadinho mais a chegar aí.
Isso significa que a morte de Chester era inevitável? É uma das perguntas por responder que se têm mantido nestes últimos três anos: se haveria maneira de evitar isto, o que se podia ter feito.
Eu recuso-me a acreditar que era inevitável. Pura e simplesmente recuso-me – tal como não acredito que a morte por suicídio alguma vez seja solução. Vale sempre a pena pedir ajuda e/ou ajudar uma pessoa em dificuldades. Mesmo que só sirva para adiar o desfecho.
Consta que Chester podia ter morrido por suicídio mais cedo, algures em 2005 ou 2006. Eu só me tornei fã em 2007. Se ele tivesse morrido nessa altura não estaria aqui a escrever este texto. Estou grata por aqueles dez anos extra.
Torno a repetir a mensagem do início do texto: peçam ajuda. Vocês são importantes, vocês fazem falta, o mundo não é o mesmo sem vocês. Cada dia que passam com aqueles que gostam e que gostam de vocês é um dia ganho. Não deixem de pedir ajuda.
Por outro lado, só o facto de a perda de Chester ter motivado Talinda, Mike e os outros membros da banda a fazerem campanha pela saúde mental, contribuindo para a mudança na linguagem em torno do tema, só o facto de, como vimos acima, um verso de One More Light ter salvo uma vida, torna tudo isto menos insuportável. Chester continua a salvar vidas.
E é isto One More Light. Como veem, deixa muito a desejar mas não é tão mau como muitos o pintam. Quando estava a planear esta análise antes de Chester morrer, uma das minhas notas para as conclusões era, parafraseando, “A coisa boa no meio disto tudo é que os Linkin Park estão sempre a mudar de estilo. Mesmo que não gostemos deste trabalho, o próximo será diferente”.
Pois…
Tecnicamente, Mike lançou um álbum a solono ano seguinte e esse foi, de facto, diferente. Mas não sei se conta
De qualquer forma, no fim disto tudo, eu aceitaria vinte ou trinta anos de álbuns piores que One More Light se isso significasse que Chester ainda estaria vivo. Quanto mais não fosse porque os Linkin Park tocariam sempre os velhos êxitos em concerto. Mais: eu aceitaria que os Linkin Park se dissolvessem como banda, que Chester nunca mais criasse música. Ao menos eu saberia que ele estava por aí, com a esposa, com os filhos, com os amigos.
No cômputo geral das coisas, um álbum menos conseguido está longe de ser o fim do mundo. Perder pessoas, perder heróis, é que é horrível. Bolas, uma pandemia como a que estamos a viver, que condiciona as nossas vidas de uma maneira inédita, é que é horrível. Se todos os nossos problemas fossem álbuns maus dos nossos artistas ou bandas…
Ao menos já escrevi sobre One More Light. Agora já posso escrever sobre Hybrid Theory e Meteora, como desejo há imenso tempo. Não assim tão cedo, quero aproveitar o vigésimo aniversário do primeiro álbum dos Linkin Park. E um dia destes dou uma nova oportunidade a A Thousand Suns.
Foi doloroso escrever partes deste texto mas, no geral, a perda de Chester já não dói tanto. Parecendo que não, já passaram quase três anos, já aconteceu tanta coisa desde então. E, como já referi em textos anteriores, de uma maneira estranha, escrever sobre isso faz com que, mais tarde, doa menos. Só com este texto, passá-lo a computador custou bem menos do que escrever o primeiro rascunho.
Não sei se conhecem a teoria da bola numa caixa com o botão da dor. No início do luto, a bola ocupa a caixa quase toda, não é preciso muito para que esta pressione o botão. Com o tempo a bola tende a diminuir – a um ritmo diferente para cada pessoa e podem existir alturas em que cresce de novo. Uma bola mais pequena prime o botão menos vezes. A bola nunca chega a desaparecer mas, regra geral, o tempo torna a situação mais fácil.
No meu caso, acho que tenho algum controlo sobre a bola. Sei antecipar as situações em que a bola carrega no botão: quando oiço One More Light, a música, quando penso muito no assunto (como tive de pensar para escrever este texto), quando me ponho a ver vídeos dos Linkin Park no YouTube – sobretudo deles, Chester, Mike, fazendo palhaçadas. Assim, procuro evitar estas situações.
O futuro dos Linkin Park continua incerto. No entanto, ficou mais definido nas últimas semanas. Phoenix revelou que, antes de a pandemia ter tomado esta dimensão, a banda andava a criar música. Quando entraram em quarentena suspenderam os trabalhos, naturalmente, mas ainda hoje, de vez em quando, falam sobre o assunto, discutem ideias, no Zoom.
Aqui entre nós, eu estava com medo deste momento. A revelação de que os Linkin Park estão a criar música outra vez, o eventual anúncio de um álbum novo, o primeiro sem Chester.
Não me interpretem mal, eu sempre disse deste o início que apoiaria a banda no que quisessem fazer a seguir. Não significa que seja fácil para mim – pelo contrário, agora é que vai doer como o catano.
Quando se fala nisso, repito para mim mesma “Ainda não estou pronta, ainda não estou pronta, ainda não estou pronta… Lido com isso na altura, lido com isso na altura, lido com issso na altura…”. É o que tenciono fazer. Ainda vai demorar até chegar esse momento, com o Coronavírus e tudo mais. Porém quando for mesmo oficial, tirarei um momento para processar, para lidar com as minhas neuroses, talvez desabafe aqui no blogue, mas, no fim, ficarei contente.
A curto prazo, aqui no blogue o próximo texto será a análise a Petals For Armor, o álbum a solo de Hayley Williams, que saiu há coisa de dez dias. Já estou a escrevê-lo – andava a antecipar este texto há meses, quase desde que publiquei a análise às primeiras músicas, Simmer e Leave it Alone. Neste momento vou em cerca de trinta páginas A5 de notas (OK, com letra grande), ou seja, tenho muito a dizer sobre este álbum. Devo demorar um bocadinho... mas vou divertir-me imenso!