Terminámos essa parte dizendo que existe um tema que, na minha opinião, funciona melhor como primeiro avanço de Virgin que What Was That. Para ser justa, este tema foi o terceiro single do álbum, lançado cerca de uma semana antes da edição oficial. Falo de Hammer, uma das minhas preferidas em Virgin, cuja mensagem se resume a “esta é a minha vida agora, permitam-me que desenvolva já a seguir”.
O título – “hammer”, martelo – diz respeito ao estado de hipersexualidade em que Lorde se encontrou depois de ter deixado de tomar a pílula e voltado a ovular. Ella descreve tais impulsos como violentos, quase masculinos. É uma interpretação comum na nossa cultura, ainda que bastante conservadora: associar virilidade a hipersexualidade, ter um papel mais ativo, ter a iniciativa, no que toca a sexo e/ou a romance. Por outro lado, há aqui abertura a algo além do vínculo físico: “I know you don’t deal much in love and affection but I really believe there could be a connection”.
No refrão, Lorde assume que está a começar de novo, a redescobrir o mundo e a si mesma. Abdicou da ilusão de controlo, de que aprendeu tudo o que tinha a aprender (“I’m ready to feel like I don’t have the answers”), quer deixar-se levar pelo momento, pelo universo, está aberta a cometer erros e a ver aonde estes a levam (“let it carry me up”).
E a verdade é que veremos onde pelo menos alguns desses erros a levaram mais tarde, em Virgin.
Por outro lado, Lorde assume que é esse o seu papel, como cantora pop: viver a vida e convertê-la em música – “I jerk tears and they pay me to do it”. Aquilo que referimos antes, sobre Ella considerar que nasceu para criar “bangers”. No fim da música propõe-se a fazê-lo – “let me break it down, ‘til I’m just a breath”, “been to hell and back but I’ve sent you a postcard from the edge”.
O que, por sua vez, representa o calcanhar de Aquiles de Hammer. No contexto de Virgin, funciona como introdução. Isoladamente, a história fica por contar, o ouvinte é deixado em suspenso. Tem sido uma queixa comum em relação a Virgin: de que as músicas e o álbum em geral soam incompletos. Em relação a Hammer, pelo menos, compreendo as críticas.
Acabámos por fugir um pouco à ordem cronológica. Ouvimos três músicas antes do lançamento oficial de Virgin, mas Hammer foi a última a sair. Antes disso, algures em maio, saiu Man of the Year.
Tal como referido antes, outro dos temas da era de Virgin tem sido a expansão do género de Ella, o seu lado masculino. Pode-se argumentar que ele esteve sempre lá: o seu nome artístico é Lorde, uma femininização de um título nobiliárquico masculino. De qualquer forma, depois do seu renascimento, depois de aliviar as restrições sobre si mesma, Ella percebeu que o seu género não cabia no restrito rótulo de mulher cis.
Das primeiras vezes que Lorde falou sobre o assunto, isso gerou alguma polémica – sem surpresa. As críticas são legítimas, compreensíveis, porque à primeira vista parecia “queerbaiting”. Parece ser apenas um aspeto estético, a par do foco na tecnologia. Parecia apenas calças de ganga de homem e os seios escondidos por fita-cola. Lorde nem sequer se assume como não-binária, não abdica do rótulo como mulher cis. O que é extremamente conveniente – se, por exemplo, vivesse no Kansas e se assumisse como homem ou não-binária, ficaria sem carta de condução. Por outras palavras, a ideia que passa é que Lorde goza as “partes fixes” da fluidez de género, mas está imune às partes menos agradáveis.
Eu compreendo as críticas. Pessoas transgénero passam a vida tendo a sua identidade desrespeitada, as suas vidas politizadas. Mesmo nós em Portugal estamos a regredir – se me permitem, fala-se muito do Chega, mas o Governo atual é mais conservador do que muitos pensam. Tudo isto para dizer que, na minha opinião, figuras públicas como Lorde não devem abordar estes assuntos com leviandade.
Dito isto, na tal entrevista à Rolling Stone, Ella assume que fala a partir de uma posição de privilégio como mulher cis e não pretende roubar espaço a pessoas transgénero ou não-binárias, com muito mais em jogo. De resto, há quem defenda que ninguém faz queer baiting a si mesmo. Num mundo ideal, ninguém precisaria de “sair do armário”. Toda a gente poderia exprimir-se da maneira que quisesse, fazer amor com quem quisesse ou não fazer amor de todo, sem ser questionado pelos demais.
Mas só os cis/hetero têm esse privilégio. Não é esse o mundo em que vivemos. A sociedade está mais tolerante do que estava há uma geração ou duas, mas não preciso de enumerar as dificuldades pelas quais pessoas da comunidade LGBTQIA+ passam ainda hoje por todo o mundo. Mesmo cá em Portugal, é assustadoramente fácil direitos adquiridos serem revertidos – veja-se, uma vez mais, o que está a acontecer com a lei da identidade de género.
No caso de figuras públicas, como Lorde, uma – neste momento hipotética – saída pública do armário poderia ser considerada por si mesma um ato político. Ella poderia não desejar a pressão de representar uma minoria – já falámos sobre isso, a propósito do Colin de Ted Lasso.
E, daquilo que percebo do assunto (que não é muito, ou seja, a minha opinião vale o que vale), tudo o que se relaciona com género é muito subjetivo. É uma construção social, existem várias interpretações possíveis. Por exemplo, regressando a Hayley Williams, em Petals For Armor, ela apresentou a sua própria versão de feminilidade. Mais recentemente, já na era de Ego Death at a Bachelorette Party ela usou a expressão “música de testosterona” para descrever pop punk e outros estilos de música mais pesados – e, ao mesmo tempo, descreveu uma das suas músicas, Negative Self Talk, um tema calmo, acústico, como “feminino”.
Hei de falar melhor sobre isso na análise a esse álbum.
Eu mesma diria que tenho uma expressão de género parcialmente masculina, pelo menos em termos estéticos. Às vezes digo a brincar que sou parte homem – sobretudo quando me encaixo em estereótipos masculinos, como não ser muito arrumada ou não gostar muito de ir às compras.
E no entanto sinto-me mulher. Outra coisa não me faz sentido. E não sei explicar porquê, não é racional. Sou mulher porque sim, mais nada.
Aliás, aqui entre nós, não acho que faça sentido atribuir género a tudo. Diria que, na maior parte dos casos, não me ralo por aí além com o que é considerado masculino ou feminino. É aqui que discordo do ponto de vista de Lorde: acho que ela continua a ter uma versão algo binária, conservadora. A maneira como, por exemplo, associa a tecnologia e a hipersexualidade à virilidade. Dito isto, há estudos que parecem demonstrar que a testosterona está ligada à libido feminina, logo, pode-se argumentar que essa crença tem base científica. Em todo o caso, são opiniões, são a interpretação de Lorde. Não quero insinuar que ela esteja errada.
Isto tudo para dizer que estou disposta a dar o benefício da dúvida a Ella nesta matéria – e a outros em situações semelhantes. Lembro-me, por exemplo, que, na era de Happier than Ever, muitos acusaram Billie Eilish de fazer queer baiting no vídeo de Lost Cause. E no entanto, dois ou três anos mais tarde, Billie assumiu que também se sente atraída por mulheres.
– Pensava que era óbvio – terá dito.
Regressando a Man of the Year – um tema muito despojado em termos de sonoridade – a letra aborda a vulnerabilidade da situação, da descoberta da sua expressão de género. “Who's gonna love me like this?” – quem será capaz de abraçar esta nova versão de Lorde.
Tenho de destacar a frase “I didn't think he'd appear”. Porque encontrei pelo menos dois testemunhos de homens transgénero revendo-se aqui. Essencialmente, a narradora é apanhada de surpresa pela presença do seu lado masculino. Se o virmos pelo prisma de um homem transgénero em processo de mudança, o narrador olhando-se ao espelho, vendo “a sua corrente de ouro, os seus ombros”, o homem dentro de si finalmente manifestado na sua aparência.
É por isto que não acredito que haja queer baiting aqui, que não acredito que haja desonestidade aqui. A ver como é que a identidade de Lorde irá evoluir ao longo dos próximos anos.
Ora, poucos dias depois de ter composto Man of the Year, Lorde criou GRWM em resposta. Um tema sobre a sua feminilidade. A ideia inicial era precisamente que fosse uma conclusão ou segunda parte para a primeira música – assumo que fosse algo parecido a Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S – mas Jim-E Stack achou que GRWM merecia ser uma faixa independente.
Quando o alinhamento de Virgin foi revelado, assumiu-se que a sigla GRWM significava “get ready with me”. Na gíria das internetes, refere-se àqueles vídeos que mostram uma rotina matinal de skincare ou maquilhagem. Depois de ouvirmos a música, no entanto, percebe-se que é uma abreviatura de “grown woman”.
Dito isto, no excelente podcast Tape Notes, Lorde revelou que gravou o primeiro rascunho em áudio da música de manhã cedo – penso que o dia exato foi 4 de dezembro de 2023, para sermos exatos – enquanto se arranjava para ir para o estúdio. É possível que o título também seja uma referência a isso.
GRWM abre com o verso “soap, washing him off my chest”. Muitos acham que é uma alusão a pós-sexo e talvez o seja. Eu acho que também poderá ser uma referência à fluidez de género: lavando os restos da fita-cola que lhe tapara os seios, os vestígios da manifestação do seu lado masculino.
Temos mais referências a liberdade e a exploração: “jumping from stone to stone in the riverbed”. Lorde afirma-se “a grown woman in a baby tee”: uma mulher mais velha do que a sua idade verdadeira – ou que não abre mão da juventude. O refrão descreve, assim, esta nova versão de feminilidade. Sublinho a parte do “my mama’s trauma” – algo que tem estado na moda na psicologia pop. Havemos de voltar a esse assunto já a seguir.
No fim, Man of the Year e GRWM são interessantes em termos de tema, mas não me cativam por aí além. Não como outras músicas em Virgin. Não por desmérito de Man of the Year ou GRWM, antes porque, em primeiro lugar, como as questões de género não me afetam pessoalmente, não me identifico tanto. Em segundo lugar, não me cativam por aí além musicalmente.
Aliás, a minha preferida em Virgin é Shapeshifter, sobretudo precisamente por causa da instrumentação. Gosto do ritmo da percussão e ainda mais da guitarra alterada de modo a fazer lembrar arranjos de violinos. No podcast Tape Notes, Lorde pôs-se a dizer que, como artista, acha que ainda não conquistou o direito a violinos a sério. Não percebo do que está a falar – esta é a mulher por detrás de Writer in the Dark e Sober II (Melodrama). A melhor parte é o crescendo do acompanhamento ao longo da música até explodir no final – com vocais de Lorde de ir aos céus. Um ponto alto da discografia dela.
Estou ansiosa por ouvir esta ao vivo.
A letra de Shapeshifter fala, então, sobre a fase (que ainda durará?) de hipersexualidade do renascimento de Lorde. Ella admitiu em entrevistas que o fazia como forma de, traduzindo literalmente, “obter validação” – assumo que seja uma tentativa de formar ligações, combater a solidão. Não que isso seja novidade: já em Melodrama se falava de sexo e/ou romance como uma droga, com um “coping mechanism”, como dizem os anglo-saxónicos. “If I’m fine without it, why can’t I stop? Everything I want speeding up my pulse”
Mesmo passados estes anos todos, ainda não tenho a certeza de que Melodrama é cem por cento auto-biográfico – assumo que tenha sido muito embelezado. Lorde, no entanto, tem vindo a dizer que Virgin é factual. Tendo isto em conta, eu diria que isto é algo que Ella faz quando termina relacionamentos.
A letra de Shapeshifter contem referências a dois contos de fadas. Na primeira estância, Lorde compara-se a Rapunzel – deitando as tranças pela janela da sua torre, de modo a que o seu interesse romântico consiga trepar para o seu quarto. O conto já de si costuma ser interpretado como uma alegoria sexual – em Shapeshifter isso fica ainda mais explícito.
A segunda referência na segunda estância é mais vaga: apenas o equivalente inglês da expressão “espelho meu, espelho meu”. Espelhos são um elemento recorrente em Virgin, a par dos temas de auto-reflexão, de descoberta da identidade própria. No contexto de Shapeshifter, Lorde olha para si mesma, para o seu eu adolescente – que possivelmente terá ainda uma visão idealizada do amor e do sexo e talvez não aprovaria este estilo de vida.
O refrão reza “I’ve been the ice, I’ve been the flame”. Não vou mentir, de início lembrou-me “I’ve been the archer, I’ve been the prey”. E, na verdade, o significado será similar: Lorde admitindo que já representou diferentes papéis em relações – ou que lhe foram projetados diferentes papéis, não só como amante mas também como cantora pop. Ella procurando adaptar-se às circunstâncias, procurando tomar a forma que mais agradasse aos outros. O verso final do refrão, “but tonight I just want to fall”, é algo ambíguo. Poderá ser “cair” no sentido de “cair de amores”, ligar-se a alguém. É mais provável que seja “cair” no sentido de “cair do pedestal”, “cair dos céus” como um anjo, pecar, cometer erros, correr riscos, independentemente daquilo que os demais querem que Lorde seja.
Dito isto, Lorde vai repetindo “so I’m not affected”, ou variantes, ao longo da música – um número suspeito de vezes, dando a entender que a narradora está a tentar convencer-se a si mesma tanto como ao ouvinte.
E de facto, conforme é revelado mais tarde no álbum, Lorde não conseguiu fugir às consequências.
Agora temos de falar sobre Current Affairs, a música de que menos gosto em Virgin. E não é pelos seus méritos ou pela falta deles.
Aliás, é capaz de ser uma das melhores em termos de instrumental em todo o álbum. Current Affairs usa um sample da música Morning Love de Dexta Daps. Não conhecia antes, não é bem o meu estilo, mas reconheço que a batida de fundo é cativante. Não censuro Lorde por a ter pedido emprestada.
A letra fala, então, sobre um relacionamento que terá começado em condições semelhantes às descritas em Shapeshifter, mas aqui a situação está claramente a afetá-la. A linguagem é explícita, intencionalmente segundo Lorde, mas confesso que não adoro estes exemplos em específico.
Infelizmente, na segunda estância, a mulher foi-me fazer uma referência ao vídeo íntimo roubado de Pamela Anderson e do marido. Semanas antes, em entrevista à Rolling Stone, Lorde já tinha revelado ao mundo que, um dia, enquanto estava sob o efeito de psicodélicos, resolveu ver o vídeo íntimo. Quando li a entrevista, não conhecia a história por detrás do vídeo. Depressa a descobri: consta que foi um dos primeiríssimos casos de pornografia de vingança (um tema sobre o qual já escrevi aqui), em que literalmente alguém roubou uma cassete física de um confre e publicou o seu conteúdo. Obviamente uma situação traumática para Pamela – e eu concordo com pessoas como ela e Jennifer Lawrence, que diriam que, só por ter visto o vídeo sem autorização dos participantes, Lorde cometeu um crime.
Ainda assim, o mínimo – o mínimo – que Ella podia ter feito era ter guardado essa informação para si ou, quanto muito, compartilhado com pessoas próximas. Escusava de ter contado à Rolling Stone, falando do ato com mais um passo da sua jornada de autodescoberta. Esquecendo-se que havia o risco de as suas palavras chegarem a Pamela, reabrindo-lhes feridas, logo agora que a atriz está finalmente a dar a volta à sua vida, depois de décadas de tormento – algo que faz o suposto “renascimento” de Lorde parecer uma infantilidade.
Como se isso não bastasse, Ella achou boa ideia incluir uma referência ao momento na letra de Current Affairs. Lorde literalmente imortalizou o sofrimento de Pam em arte, sob a forma de uma música que está a vender. Lá esta, se Ella não tivesse falado do vídeo íntimo à Rolling Stone, talvez a referência tivesse passado despercebida. Um grande “talvez”, mas não seria impossível. Mas não, Lorde fez questão de dizê-lo, que não houvesse margem para dúvidas. Só me resta esperar que Pamela nunca ouça a música.
Até compreendo a mensagem que Lorde pretendia passar: algo que ela via como romântico, “puro e verdadeiro” (consta que não era bem assim na realidade), até o mundo o violar. Um exemplo do risco da liberdade, da impulsividade. Mas existiam tantas outras formas de passar esta ideia que não nos tornariam cúmplices de um crime sexual – a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden, por exemplo.
Tendo isto tudo em conta, tirando para a escrita desta análise, não consigo em boa consciência ouvir Current Affairs.
Dito isto, ainda dentro do tema das consequências da liberdade, temos Clearblue.
Esta será, porventura, a música mais estranha de Virgin – no bom sentido. É só voz, com alguns efeitos, a faixa mais minimalista de todo o álbum mas, neste contexto, condiz com a angústia da letra. Faz lembrar uma oração.
Como o título dá a entender, é sobre o teste de gravidez da mesma marca, sobre o fluxo de emoções associado ao ato de fazer um teste, quer se deseje um resultado positivo, quer não. Temos outra vez o contexto de sexo casual e, pelo menos neste caso, anónimo.
Rápido àparte só para dizer… Ella é uma cantora pop. É famosa. Será mesmo capaz de anonimato? Bem… ela não é das mais mediáticas neste momento, não seria uma impossibilidade. Vou deixar passar.
De qualquer forma, encaixa-se no conceito do álbum: Lorde libertando-se, ainda que temporariamente, do contexto da sua família e, possivelmente, da sua carreira. “I’m nobody’s daughter, baby, I’m free I’m free” – algo com que me identifico.
Libertou-se igualmente dos efeitos da pílula, deixando as suas hormonas correrem livremente, atuando sob o efeito delas. Ella foi um daqueles casos em que a sua libido aumentou quando interrompeu a toma da pílula.
Tenho de deixar aqui um alerta pois as declarações de Lorde sobre este assunto correm o risco de serem mal interpretadas. Para começar, nem todos os que tomam a pílula sentem o mesmo efeito – há, por exemplo, quem sinta um aumento da libido quando a tomam. Adicionalmente, a própria Lorde admitiu, na entrevista à Rolling Stone, que a experiência dela poderia dar mais força àquelas correntes de pensamento que dizem que a pílula bloqueia o contacto com a nossa deusa interior ou disparates do género. Lá está, a pílula é um daqueles direitos que estão a apenas à distância de um governo demasiado à direita de nos serem revogados. Assim, é sempre preciso cuidado quando se fazem declarações destas.
Nunca é demais relembrar que a pílula faz diferença na vida de milhões. Não só pelo efeito contracetivo, mas também para resolver outros problemas de saúde. Eu, por exemplo, tomo a pílula para lidar com dores menstruais e dores de ovulação.
Claro que cada caso é um caso e não muda a experiência que Lorde teve. E, de qualquer forma, costuma-se dizer que quem anda à chuva molha-se e Ella apanhou um susto.
Lorde não precisa de enunciar todos os motivos pelos quais não desejava um teste de gravidez positivo. Gostaria de assinalar os versos: “There's broken blood in me, it passed through my mother from her mother down to me”. Poderá referir-se a doenças genéticas, poderá referir-se a trauma geracional.
Acho que podemos assumir que o teste deu negativo. A letra foca-se na angústia que, depois, dá em alívio. Penso que tal não teria acontecido se Lorde tivesse engravidado e, depois, feito um aborto. Nunca fiz um teste de gravidez, mas sei o que é sentir a corda na garganta e, no fim, ser libertada.
Lorde sente saudades dessa sensação de alívio. Daí lamentar ter deitado fora, ou ter perdido, o teste de gravidez. Só mesmo para se recordar do que sentiu na altura.
Não ia servir-lhe de muito, no entanto. Tanto quanto sei, o resultado do teste não se mantém visível durante muito tempo.
Há quem considere Clearblue um mero interlúdio. Compreendo, mas não concordo. Para mim, Virgin estaria incompleta sem Clearblue – sem um documento dos riscos associados à libertação sexual.
Em todo o caso, voltando à questão dos métodos contracetivos, Lorde deu a entender que, depois deste susto, colocou um dispositivo intra-uterino – o tal que aparece na capa do álbum. Assumo que tenha optado por um não-hormonal, para que possa disfrutar da sua libido sem correr o risco de engravidar.
Como disse antes, Ella saberá o que é melhor para si.
Depois desta, no entanto, temos de abordar um assunto mais deprimente: o distúrbio alimentar de Lorde, descrito em Broken Glass (outra das minhas preferidas, outra das primeiras a cativar-me). (ALERTA GATILHO: DISTÚRBIOS ALIMENTARES)
Em entrevistas, Lorde revelou que teve uma fase em que contava calosias obsessivamente e passava fome. Referiu um episódio específico: um dia em que ia apresentar a música Solar Power na televisão, em Nova Iorque (esta?). Para manter o ventre liso naquele vestido, Ella não terá comido. Terá passado o dia sentindo-se fraca e esfomeada.
Em Broken Glass, Lorde admite que a magreza lhe sabia bem – “felt great to strip”. A questão é mesmo essa e nem todos o admitem preto no branco: a sociedade dá reforço positivo a esse tipo de comportamentos, sobretudo na indústria do entretenimento. Nós crescemos vendo a magreza associada a beleza e acabamos por interiorizá-lo. Qualquer mulher sabe como é. Eu mesma nunca tive um distúrbio alimentar, felizmente, mas lembro-me de sentir inveja de Lorde durante a era de Solar Power – por não ter corpo para usar vestidos como o dos videoclipes que andava a lançar.
A questão é que a magreza, mesmo a própria beleza, é temporária. Uma pessoa envelhece, muitas mulheres engravidam, o metabolismo muda, o corpo não se mantém igual. E as práticas de Lorde não eram sustentáveis a longo prazo. Ella admitiu que estava sempre a pensar em comida, em calorias, em exercício físico, o que lhe roubava energia mental. É possível que, a partir de certa altura, lhe estivesse a roubar energia física.
Este é um tema muito complexo. A questão da imagem corporal, sobretudo do peso, cruza-se com vários outros temas desagradáveis: misoginia, capitalismo, racismo. Dava azo a outro texto por si só e eu nem sequer seria a melhor pessoa para escrevê-lo.
Uma coisa posso dizer, no entanto: já desisti de comparar a minha aparência com a de pessoas famosas. Eles e elas dispõem de tempo e meios para investirem na sua imagem de que nós, simples mortais, não dispomos.
Por exemplo, de vez em quando aparecem publicações nas internetes elogiando o aspeto de Jennifer Lopez aos cinquenta e seis anos, convidando-nos a sentirmos mal por não termos o mesmo aspeto. O que essas publicações não referem é que JLo tem condições para treinar cinco dias por semana, com pelo menos dois treinadores pessoais, para praticar uma alimentação saudável, “limpa”, para ter bons hábitos de sono. Isto para não falar de eventuais esteticistas e/ou estilistas pessoais. Algo que não seria possível se ela tivesse de cuidar dos próprios filhos, cozinhar as suas próprias refeições, cuidar da sua própria casa – isto após um emprego de quarenta ou mais horas por semana.
E aqui entre nós, ainda que não considere Jennifer Lopez propriamente feia, conheço gente com mais beleza natural do que ela na vida real.
Eu mesma não tenho muitas razões de queixa, na verdade, pois ainda consigo fazer algum exercício (até podia fazer mais), fazer depilação, ir ao cabeleireiro e à manicure de vez em quando, usar base (a única maquilhagem de que preciso, na minha opinião). Gosto da minha aparência q.b.
Fica a dica para vocês, caros leitores, sobretudo se forem raparigas ou jovens mulheres. Não vale a pena fazermos comparações quando os contextos são tão diferentes. Muito menos quando tal coloca em risco a nossa saúde.
Regressando, então, a Broken Glass, a imagem do espelho quebrado dá a entender que o distúrbio alimentar representa quase uma superstição. Como se Lorde recessasse que fosse acontecer uma grande desgraça caso deixasse de contar calorias. “It might be months of bad luck but what if it’s just broken glass?” – Ella contemplando a hipótese de que ninguém morrerá se decidir comer como uma pessoa normal, sem se preocupar com calorias.
Queria apontar para os pré-refrões. O primeiro reza “Did I cry myself to sleep about that? Cheat about that? Rot teeth about that? Did I sweat hours a week about that? Compete about that? Lose my freak about that? Huh, all of the above” – sempre o achei engraçado, de uma forma sombria. A segunda variante é ainda mais negra. Uma lista semelhante de comportamentos auto-destrutivos – auto-intransigência, castigos a si mesma, reforço negativo – que é rematada com “I think that it’s love”.
Diz tudo, não é?
O que nos leva a Favourite Daughter... mas essa vai ter de ficar para a última parte. Não saiam daí!





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