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sábado, 22 de julho de 2017

Chester Bennington (1976-2017)

Nunca pensei que viria a escrever um texto como este. Pelo menos não tão cedo.


 


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Na passada quinta-feira, Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park, foi encontrado morto em sua casa. Tudo indica que se suicidou por enforcamento.


 


Basta dar uma olhadela rápida a este blogue para perceberem que os Linkin Park são uma das minhas bandas preferidas. Tornei-me fã há dez anos e conto vários episódios marcantes relacionados com a banda e com Chester.


 


Um dos maiores foi o Rock in Rio de 2008. Foi o segundo concerto a que fui mas o primeiro que apreciei verdadeiramente. Em que senti pela primeira vez a magia de cantar em plenos pulmões, em coro com milhares de pessoas, canções que, normalmente, cantarolava baixinho enquanto as ouvia no meu MP3. Nessa noite senti-me integrada como nunca sentira antes, unida pela música à banda e àqueles noventa milhares de pessoas. O Chester, perto do fim do concerto, diria que poucas cidades amavam música tanto quanto Lisboa – eu sei que ele provavelmente dizia o mesmo em todos os concertos. Mas, na altura, eufórica como me sentia, acreditei.


 


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Foi uma das melhores noites da minha vida. No ano que se seguiu, mais coisa menos coisa, tive muitos dias tristes, muitas noites de insónias, em que me consolava recordando este concerto.


 


Tive a oportunidade de voltar a vê-los ao vivo em 2014, também no Rock in Rio – e de escrever sobre isso. Como poderão ler, foi a noite em que mais perto estive dele, fisicamente. Cheguei a tocar-lhe na mão.


 


Tenho muitas outras recordações, para além destas: ver o vídeo de Breaking the Habit na MTV, em 2004; ouvir Numb/Encore na rádio da minha escola secundária; ver o primeiro filme dos Transformers e reconhecer What I’ve Done; montar o meu primeiro AMV para New Divide, a minha música preferida deles; passar o dia 16 de abril de 2012 (lembro-me perfeitamente) cantarolando e dançando (e estava de saltos altos!) a recém-lançada Burn It Down; aquele momento no RiR de 2012, em que Chester canta Crawling cara a cara com os fãs e um deles coloca-lhe um cachecol do F.C.Porto nos ombros; vários vídeos de bastidores hilariantes – entre os quais um dele saltando à corda enquanto canta Wretches and Kings; um deles cantando sobre unicórnios e chupa-chupas; esta versão de Numb; dançando A Light that Never Comes.


 


Os motivos pelos quais gosto dos Linkin park são diferentes dos de outros fãs – pelo menos daquilo que tenho lido nas redes sociais. Não posso dizer que tenha sido uma coisa de adolescente – foi aos dezassete/dezoito anos que me deixei cativar a sério pela banda. Aquilo de que sempre gostei foi, sobretudo, dos cenários épicos, cinemáticos, de tempestades, lutas, explosões. Daí usá-las como fonte de inspiração para a minha escrita e para montar vídeos.


 



  


O que não significa que não apreciasse temas mais calminhos e emocionantes, como Castle of Glass e Leave Out All the Rest – esta última, à luz do que aconteceu, é ainda mais dolorosa do que o costume.


 


Por fim, os Linkin Park ajudaram-me a fazer a transição para música mais pesada, como por exemplo os Sum 41 e os Within Temptation – estes últimos chegaram a dizer que os Linkin Park foram umas das inspirações para o álbum The Silent Force. David Hodges, que fazia parte dos Evanescence, disse o mesmo em relação ao álbum Fallen.


 


Também gosto muito do álbum Out of Ashes, dos Dead By Sunrise – o side-project do Chester. Nele está, aliás, incluída uma das minhas canções de amor preferidas. Tal como escrevi há uns anos, este álbum mostra facetas diferentes de Chester, facetas que ele não mostrava nos Linkin Park.


 


Conforme me tenho fartado de dizer neste blogue ao longo dos anos, o Chester era uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música. Toda a gente sabe que ele não teve uma vida fácil – quem não sabia, sabe-o agora. No entanto, não deixara de ser um bom homem, simpático, super divertido… Ainda há bem pouco tempo escrevi sobre isso aqui no blogue – pouco depois de ele ter publicado uma fotografia sua vestido de Pikachu!


 


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Eu ainda estou em negação. Quando penso que Chester Bennington morreu, há qualquer coisa no meu cérebro que rejeita automaticamente esse facto, como um erro 404 num computador. Não faz sentido! Ele era tão novo, tinha pelo menos metade de uma vida à sua frente! Eu habituei-me à “presença” dele, a saber que ele estava algures por aí, fazendo música, dando concertos, em brincadeiras com o Mike e os outros ou junto da mulher e dos filhos. Sabia que, de tanto em tanto tempo, ele lançaria um single novo, um álbum novo – com os Linkin Park ou não.


 


Agora dizem-me que ele já não está a fazer nada disso? Pode lá ser!


 


Uma das coisas que têm sido comentadas a propósito desta história diz respeito às críticas ao álbum One More Light. Muitos fãs, incluindo eu até certo ponto, não gostaram do som mais pop de músicas como Heavy. Até aqui tudo bem – não se pode agradar a todos.


 


No entanto, têm havido atitudes que ultrapassaram os limites – como o que aconteceu há pouco tempo, no Hellfest.


 


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Espero que esses estejam, agora, cheios de remorsos pelo que fizeram.


 


Não estou a dizer que tenha sido por causa deles e de outros que tais que Chester se suicidou. Tanto quanto sei, estas coisas raramente são assim tão lineares. Mas episódios como este não terão ajudado, de certeza.


 


Este género de ataques, de bullying, sobretudo nesta era das internetes, está tão normalizado que uma pessoa fica surpreendida quando descobre que os visados se sentiram magoados com estas atitudes. Em particular, quando os visados são pessoas famosas. Achamos que eles aprendem a ignorar estas coisas.


 


Penso, por exemplo, no Éder – que, antes da final do Europeu, era o alvo preferido das piadas e insultos dos adeptos, sem que ninguém questionasse essas práticas (eu mesma me deixei levar por isso, até certo ponto). Em entrevista ao Alta Definição, Éder revelou que esses insultos o magoaram e que, a certa altura, chegou a contemplar o suicídio.


 


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Tudo isto remonta para a cultura de bullying muito presente na sociedade, sobre a qual já falei aqui no blogue. Tendemos a educar as vítimas para aguentarem caladas, para não “fazerem queixinhas”, ensinamos-lhes que isto faz parte. Quando, na verdade, devíamos educar os agressores para não serem umas bestas, para tratarem as pessoas com respeito.


 


Outra questão para o qual isto tem alertado é para as doenças do foro psiquiátrico. Ainda agora escrevi sobre isso, a propósito do último álbum dos Paramore – que foi muito inspirado pela ansiedade e depressão da vocalista, Hayley Williams. Ela chegou a dizer, em entrevista, que, a certa altura, chegou a ter ideação suicida – foi aí que percebeu que precisava de ajuda.


 


Chester, pelos vistos, não conseguiu fazê-lo. Provavelmente nunca saberemos porquê – porque é que ele achou que a morte era preferível a ouvir dezenas de milhares de fãs cantando em coro com ele. Muitas pessoas teriam feito tudo para ajudá-lo, sobretudo se pudesse ter evitado este desfecho. Não só os amigos e familiares, mesmo os seus milhões de fãs. É difícil de compreender como é que ele não sabia isso. Mas a mente de uma pessoa deprimida não funciona da mesma maneira que a nossa.


 


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Aquelas pessoas que se põe com comentários do género “Que monstro é que deixa seis filhos sem pai?” tiram-me do sério. É só um exemplo dos inúmeros preconceitos que ainda existem em torno das doenças mentais – alguns dos quais já referi no texto anterior. Gostava que houvessem movimentos que desmentissem essas ideias – em Portugal, ainda não vi nada disso.


 


Dito isto, também sofro pela mulher e pelos filhos dele, pelo Mike, pelo Brad e os outros colegas da banda. Como é que se lida como uma coisa destas? Como é que se aceita isto? Como é que se explica o que aconteceu aos filhos dele? (As filhas mais novas não devem ter mais de seis anos.)


 


Não sei o que vai ser dos Linkin Park depois disto. Será que eles vão continuar com os membros restantes, com o Mike promovido a vocalista principal? Será que vão procurar um “substituto”?


 


Sinceramente, não sei se quero que eles continuem. Acho que nunca vão conseguir preencher o vazio, nunca vão encontrar ninguém capaz de fazer o que Chester fazia. No entanto, é a vida deles, é a decisão deles. Qualquer que ela seja, respeitá-la-ei e apoiá-la-ei.


 



  


Isto está a custar-me. Não tenho problemas em admitir que chorei – quando me pus a ver esta apresentação de One More Light. É uma boa pessoa, um ótimo músico, de voz monstruosa e energia inesgotável, que desapareceu. Que foi roubado aos familiares e aos amigos. É uma parte do meu mundo, uma parte deste blogue que morreu – a primeira análise que publiquei aqui foi ao álbum Living Things. Um homem que nunca poderei voltar a ver ao vivo, ou num direto do Facebook, lançando um single ou um álbum, fazendo palhaçadas nos bastidores. Que nunca poderei conhecer pessoalmente.


 


Eu até estava a trabalhar na análise a One More Light antes de isto acontecer. Tenho o texto todo planeado no meu caderno e já tinha começado a escrevê-lo. A médio/longo prazo, queria também escrever sobre os álbuns Hybrid Theory e Meteora, que andava a ouvir muito há uns meses.


 


Depois disto, não tenho coragem. Não tenho conseguido ouvir a música dele normalmente, como fazia ainda quinta-feira de manhã. Quero voltar a fazê-lo – porque uma parte do Chester continuará a viver na música dele – mas preciso de tempo.


 


Em jeito de conclusão, dizer apenas que estou grata pela vida de Chester. Pode ter sido curta, mas foi o suficiente para marcar a minha. O meu mundo, este blogue, não seriam os mesmos se ele não fosse ele.


 


Obrigada por tudo, Chester.


 


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 Não tenham medo de pedir ajuda.


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112


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sábado, 3 de agosto de 2013

Dead By Sunrise - Out of Ashes (2009)


Hoje quero falar-vos de um álbum que já saiu há quase quatro anos mas que só descobri há alguns meses. Entre vídeos dos Linkin Park, no YouTube, encontrei alguns relativos a Dead By Sunrise, o chamado side-project ou projeto lateral de Chester Bennington, em parceria com membros da banda Julien-K. Cheguei a ouvir uma ou outra música e, como gostasse do que ouvia, quis conhecer o álbum todo. Em Out of Ashes, Chester adotou uma direção que considerava não encaixar no estilo dos Linkin Park - em vez de teorias híbridas, temos um rock mais clássico, em comparação; nalgumas faixas mais pesado, noutras mais leve e acústico, noutras com algumas influências eletrónicas. As letras são bastante pessoais, bem mais pessoais do que a larga maioria das músicas dos Linkin Park.

O nome Out of Ashes (Das Cinzas) refere-se, como se deduz facilmente, a uma recuperação, ao abandono de um caminho auto-destrutivo, a um renascimento. Nessa linha, abordam os vários altos e baixos experimentados pelo Chester ao longo da sua vida, em particular nos anos imediatamente anteriores à edição deste álbum.


Músicas como Crawl Back In, My Sufferin', Condemned não diferem muito de certas músicas dos Linkin Park, sobretudo no que toca à letra, embora a sonoridade seja mais grunge do que o habitual na banda. Não faltam os icónicos gritos do Chester, bem como solos de guitarra em quase todas as faixas. Estas músicas bastante sombrias referem-se as dificuldades por que Chester passou: uma infância eufemisticamente difícil, problemas amorosos, dependência de drogas e álcool. Crawl Back In é uma crise existencial. Em Condemned, o sofrimento é tanto que já se transformou em masoquismo. End of the World é uma crítica à sociedade atual.

A faixa extra Morning After, que fala sobre a vontade de adormecer até a tempestade passar, foi composta por Chester aos quinze anos (!!!) e possui duas versões: uma mais eletrónica e outra mais roqueira, de que gosto mais. Apesar do caráter mais rock, não deixa de ter algumas notas eletrónicas, que chegam a confundir-se com o solo de guitarra, criando um som que me agrada muito. Também gosto da repetição da palavra "Alive" no segundo e terceiro refrão.

 Por outro lado, em Inside of Me, dá-se o reconhecimento de que se está no caminho errado e que cabe ao próprio sujeito narrativo mudar essa situação.


Para além destas faixas, existem outras com uma sonoridade mais leve. Estas expressam sentimentos de alguma vulnerabilidade, algumas delas fazendo-me lembrar Castle of Glass. Let Down, a mais eletrónica do álbum, com um arranjo que considero bem conseguido, dando um tom etéreo à música, fala de desilusão e receio de passar pelo mesmo outra vez. Walking in Circles, guiada pela guitarra acústica recorda-me, em termos de letra, From the Inside e Somewhere I Belong, dos Linkin Park. Vem em linha com End of the World na medida em que também exprime desilusão perante o mundo em redor.

Too Late é uma das minhas preferidas em todo o álbum. Também com elementos eletrónicos, desta feita mais discretos mas que não deixam de conferir um tom etéreo, recorda-me Astronaut, dos Simple Plan. Mais porque ambas definem bem um momento particular do meu terceiro livro, uma das minhas partes preferidas da obra. Tal como Astronaut, fala de solidão, abandono, desorientação. No entanto, para além disso, o sujeito narrativo sabe que terá de ser ele mesmo a salvar-se. Por fim, gosto dos vocais no último refrão, perto do fim da faixa.

Into You olha para o caminho passado, de altos e baixos, vários erros cometidos, a que se sobreviveu contra todas as expectativas, que o tornou na pessoa que é hoje.


No entanto, foram as músicas de amor que mais me surpreenderam, por serem inéditas na discografia dos Linkin Park - estes possuem várias baladas mas nenhuma assume, preto no branco, um carácter romântico. In the Darkness é um tema mais para o romântico-erótico. Fire é uma balada rock, grandiosa, de letra simples mas cantada magistralmente, dando-lhe um carácter épico, em que nem o discreto grito de Chester destoa. Por sua vez, Give Me Your Name podia rivalizar com as clássicas músicas românticas. É definitivamente uma canção que se poderia ouvir num casamento, até pela letra. Confesso que nunca esperei ouvir o Chester - o tipo que, no Rock in Rio do ano passado, exibia quase sempre cara de mau, ficando vermelho como um pimentão e suando cascatas quando gritava, ao ponto de eu recear que o homem rebentasse ali mesmo, no palco - cantar uma música deste género. Mas está mais do que provado que ele pode fazê-lo.

Devo dizer que gostei muito deste álbum, considero-o uma experiência bem sucedida. Ficou demonstrada a versatilidade do Chester como cantor - a sua voz é compatível tanto com as teorias híbridas dos Linkin Park como com as várias variantes do rock, desde o grunge às baladas mais suaves. Gostaria de ouvir um eventual segundo álbum de Dead by Sunrise mas parece que é pouco provável que este seja criado. Infelizmente.

Entretanto, hei de ouvir, também, as músicas do Fort Minor, o projeto lateral de Mike Shinoda, o rapper dos Linkin Park. Talvez fale dele aqui no Álbum.


Chester Bennington é uma das pessoas que tenho aprendido a admirar nos últimos tempos. Sem saber pormenores - e não estou interessada em conhecê-los, não são da minha conta - sei que a sua vida não tem sido fácil. Out of Ashes é um testemunho disso. No entanto, em vídeos de bastidores, o homem não parece nada traumatizado nem nada do género, antes pelo contrário: passa a vida a fazer palhaçadas, em particular com os colegas de banda, seja ela Linkin Park ou Dead By Sunrise. Não sei se é apenas para a câmara, não sei se é por estar entre amigos, não sei se é por muita gente no mundo da música rock ser também assim. Talvez a música seja suficientemente terapêutica para ele não ser demasiado assombrado pelo seu passado durante o resto do tempo. Em todo o caso, ele não parece ser uma pessoa amarga e misantrópica em que, se calhar, outro que tivesse experimentado o mesmo se transformaria.

Espero que o Chester tenha, de facto, ultrapassado a dependência em álcool e drogas, até porque estes tornaram recentemente a levar a melhor sobre mais um famoso. O Chester é das últimas pessoas que desejaria que se juntassem a esse mórbido clube. Seria um desperdício. Se, pelo contrário, ele conseguiu ultrapassar tudo isto, pode-se dizer que Chester Bennington é um exemplo e uma inspiração para todos nós.

Dead By Sunrise - Out of Ashes (2009)



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Hoje quero falar-vos de um álbum que já saiu há quase quatro anos mas que só descobri há alguns meses. Entre vídeos dos Linkin Park, no YouTube, encontrei alguns relativos a Dead By Sunrise, o chamado side-project ou projeto lateral de Chester Bennington, em parceria com membros da banda Julien-K. Cheguei a ouvir uma ou outra música e, como gostasse do que ouvia, quis conhecer o álbum todo. Em Out of Ashes, Chester adotou uma direção que considerava não encaixar no estilo dos Linkin Park - em vez de teorias híbridas, temos um rock mais clássico, em comparação; nalgumas faixas mais pesado, noutras mais leve e acústico, noutras com algumas influências eletrónicas. As letras são bastante pessoais, bem mais pessoais do que a larga maioria das músicas dos Linkin Park.

O nome Out of Ashes (Das Cinzas) refere-se, como se deduz facilmente, a uma recuperação, ao abandono de um caminho auto-destrutivo, a um renascimento. Nessa linha, abordam os vários altos e baixos experimentados pelo Chester ao longo da sua vida, em particular nos anos imediatamente anteriores à edição deste álbum.

 



Músicas como Crawl Back In, My Sufferin', Condemned não diferem muito de certas músicas dos Linkin Park, sobretudo no que toca à letra, embora a sonoridade seja mais grunge do que o habitual na banda. Não faltam os icónicos gritos do Chester, bem como solos de guitarra em quase todas as faixas. Estas músicas bastante sombrias referem-se as dificuldades por que Chester passou: uma infância eufemisticamente difícil, problemas amorosos, dependência de drogas e álcool. Crawl Back In é uma crise existencial. Em Condemned, o sofrimento é tanto que já se transformou em masoquismo. End of the World é uma crítica à sociedade atual.

A faixa extra Morning After, que fala sobre a vontade de adormecer até a tempestade passar, foi composta por Chester aos quinze anos (!!!) e possui duas versões: uma mais eletrónica e outra mais roqueira, de que gosto mais. Apesar do caráter mais rock, não deixa de ter algumas notas eletrónicas, que chegam a confundir-se com o solo de guitarra, criando um som que me agrada muito. Também gosto da repetição da palavra "Alive" no segundo e terceiro refrão.

 Por outro lado, em Inside of Me, dá-se o reconhecimento de que se está no caminho errado e que cabe ao próprio sujeito narrativo mudar essa situação.





Para além destas faixas, existem outras com uma sonoridade mais leve. Estas expressam sentimentos de alguma vulnerabilidade, algumas delas fazendo-me lembrar Castle of Glass. Let Down, a mais eletrónica do álbum, com um arranjo que considero bem conseguido, dando um tom etéreo à música, fala de desilusão e receio de passar pelo mesmo outra vez. Walking in Circles, guiada pela guitarra acústica recorda-me, em termos de letra, From the Inside e Somewhere I Belong, dos Linkin Park. Vem em linha com End of the World na medida em que também exprime desilusão perante o mundo em redor.

Too Late é uma das minhas preferidas em todo o álbum. Também com elementos eletrónicos, desta feita mais discretos mas que não deixam de conferir um tom etéreo, recorda-me Astronaut, dos Simple Plan. Mais porque ambas definem bem um momento particular do meu terceiro livro, uma das minhas partes preferidas da obra. Tal como Astronaut, fala de solidão, abandono, desorientação. No entanto, para além disso, o sujeito narrativo sabe que terá de ser ele mesmo a salvar-se. Por fim, gosto dos vocais no último refrão, perto do fim da faixa.

Into You olha para o caminho passado, de altos e baixos, vários erros cometidos, a que se sobreviveu contra todas as expectativas, que o tornou na pessoa que é hoje.




No entanto, foram as músicas de amor que mais me surpreenderam, por serem inéditas na discografia dos Linkin Park - estes possuem várias baladas mas nenhuma assume, preto no branco, um carácter romântico. In the Darkness é um tema mais para o romântico-erótico. Fire é uma balada rock, grandiosa, de letra simples mas cantada magistralmente, dando-lhe um carácter épico, em que nem o discreto grito de Chester destoa. Por sua vez, Give Me Your Name podia rivalizar com as clássicas músicas românticas. É definitivamente uma canção que se poderia ouvir num casamento, até pela letra. Confesso que nunca esperei ouvir o Chester - o tipo que, no Rock in Rio do ano passado, exibia quase sempre cara de mau, ficando vermelho como um pimentão e suando cascatas quando gritava, ao ponto de eu recear que o homem rebentasse ali mesmo, no palco - cantar uma música deste género. Mas está mais do que provado que ele pode fazê-lo.

Devo dizer que gostei muito deste álbum, considero-o uma experiência bem sucedida. Ficou demonstrada a versatilidade do Chester como cantor - a sua voz é compatível tanto com as teorias híbridas dos Linkin Park como com as várias variantes do rock, desde o grunge às baladas mais suaves. Gostaria de ouvir um eventual segundo álbum de Dead by Sunrise mas parece que é pouco provável que este seja criado. Infelizmente.

Entretanto, hei de ouvir, também, as músicas do Fort Minor, o projeto lateral de Mike Shinoda, o rapper dos Linkin Park. Talvez fale dele aqui no Álbum.



 

Chester Bennington é uma das pessoas que tenho aprendido a admirar nos últimos tempos. Sem saber pormenores - e não estou interessada em conhecê-los, não são da minha conta - sei que a sua vida não tem sido fácil. Out of Ashes é um testemunho disso. No entanto, em vídeos de bastidores, o homem não parece nada traumatizado nem nada do género, antes pelo contrário: passa a vida a fazer palhaçadas, em particular com os colegas de banda, seja ela Linkin Park ou Dead By Sunrise. Não sei se é apenas para a câmara, não sei se é por estar entre amigos, não sei se é por muita gente no mundo da música rock ser também assim. Talvez a música seja suficientemente terapêutica para ele não ser demasiado assombrado pelo seu passado durante o resto do tempo. Em todo o caso, ele não parece ser uma pessoa amarga e misantrópica em que, se calhar, outro que tivesse experimentado o mesmo se transformaria.

 

Espero que o Chester tenha, de facto, ultrapassado a dependência em álcool e drogas, até porque estes tornaram recentemente a levar a melhor sobre mais um famoso. O Chester é das últimas pessoas que desejaria que se juntassem a esse mórbido clube. Seria um desperdício. Se, pelo contrário, ele conseguiu ultrapassar tudo isto, pode-se dizer que Chester Bennington é um exemplo e uma inspiração para todos nós.

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